segunda-feira, 12 de abril de 2021

1º TENENTE.

 

   Cirilo morava com a mãe em uma casa pobre num morro do Rio onde eu residia e como fosse bem-educado não se negava descer ao mercado e comprar o que lhe pedissem. Descia correndo e no mesmo pique voltava sorrindo. Dificilmente a mãe, que lavava roupa para fora, exigia tando do Feijão, como ela mesma o tratava. Os trocados, que nem sempre recebia pelos favores,  não tinham tanta importância como o tratamento de branco que davam ao pretinho.   Um dia, porém, a mãe dele, cansada de ouvir gritarem seu nome, o proibiu de fazer mandado. – Eu não quero que te chamem pra fazer nada e se querem comprar qualquer coisa que vão eles mesmo ou chamem outra criança!  Doravante só sais para estudar –  disse com os olhos molhados e a mão na cabeça do filho. Em pouco tempo Cirilo melhorou na escola e assim foi até a faculdade onde se formou em direito, passou no concurso da Polícia Militar aonde ingressou como primeiro-tenente. Com cinco anos de farda o menino de recado voltou ao morro para dizer que a mãe dele já não desce o morro, como ele descia, porque já tem quem o faça.  Quem desce agora é a sua empregada, mas não o morro e sim os 12 andares do prédio onde moram na praia.  Ontem Cirilo voltou, mas desta vez, me pegou de saída e como a visita já era constante eu pedi que entrasse no carro e fosse comigo.  Cirilo estava a paisana, de bata, tipo Tim Maia e uma boina de Reggae enfiada na cabeça. Sandálias de tiras e óculos escuros na cara.  Na mangueira, mais precisamente na rua dos lustres eu subia a caçada para estacionar e como o carona que só ouvia o que eu falava tinha os olhos fixos em dois homens que vinham em nossa direção concluí que parar ali não seria uma boa, por isso arranquei a procura de outro lugar.  Rodei muito enquanto Cirilo, educado como era, me ouvia calado.  Finalmente encontrei uma para estacionar, mas antes de desligar o motor perguntei se ali o lugar era bom.  Cirilo continuava com o mesmo olhar que antes olhava os homens e só então, após cutucá-lo eu descobri que o cachorro estava dormindo.  - Porra, Cirilo!  Perdi uma vaga pertinho da loja aonde eu ia por sua causa!
Na volta uma blitz nos parou numa curva.  Mandou que saíssemos e puséssemos as mãos em cima do carro, mas quando viram o trabuco na cintura do meu amigo a polícia enlouqueceu. Correu todo mundo para trás da viatura e com as armas apontadas para nós um deles começou a gritar para o Cirilo jogar a arma no chão e botar a mão na cabeça.  Cirilo dizia ser o oficial deles, mas ninguém acreditava naquele negrinho que mais parecia um cantor de ‘reggae’ do que outra coisa.   Até que provou o que disse com ameaça de prendê-los.   A turma se desculpou e não fosse a minha intercessão Cirilo os teria posto em cana.

20 comentários:

  1. Gostei da mãe dele. E ele? Que danadinho! Estava dormindo! kkk. Que bom que pôs o caras no lugar deles, nunca se deve baixar a cabeça para quem abusa do poder que tem.

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  2. Ese muchacho de barrio llegó donde quería, a pesar de la vida.

    Un abrazo

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  3. Cirilo entrou no seu carro? Teve muita "sorte" por ser homem. Porque se fosse uma Cirila (género feminino) a "música" aqui relatada seria bem diferente, lol
    .
    Boa semana. Cumprimentos.
    .
    Pensamentos e Devaneios Poéticos
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  4. Infelizmente a história que conta, meu Amigo Sílvio acontece muitas vezes. Foi bom ele ter estudado e ter ido para a Polícia Militar. Os colegas não o reconheceram... Ainda dizem que o hábito não faz o monge... É sempre com prazer que o leio.
    Uma boa semana com muita saúde.
    Um beijo.

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  5. Palhaço Poeta,
    Que dupla hein!
    Fico imaginando: um na estica,
    todo arrumado e o outro livre
    como você descreve: de bata,
    de boina (me reconheci nela porque
    adoro!), chinelos de tira e óculos!
    Ô dupla! Adoro essas amizades.
    Maravilhoso o início
    com verdades discretamente
    bem ditas e lá pro final
    muito bem humorado.
    Bjins de boa semana, por aqui
    temos hoje um feriado de dia
    da padroeira.
    CatiahoAlc.

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  6. Meu amigo!
    A sua história é mesmo fascinante assim eu gosto muito de ler porque a gente fica bem disposta um beijinho.

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  7. Mais um texto/conto interessantemente belo! :)))
    *
    Olho convicta da graça que acolho...
    *
    Beijos, e uma excelente semana

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  8. Acredita, mestre: já passei por um lance parecido. Mas, como eu não tinha nenhum tenente no carro, e não estávamos armados, tudo se resolveu com uma revista; não íntima, felizmente! :) Meu abraço, amigo; boa semana.

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  9. Pois é. O primeiro julgamento que se faz é sempre baseado na aparência. E como diz o ditado "As aparências iludem."
    Abraço, saúde e boa semana

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  10. Essa pressa em condenar o negro ainda é moda.
    Por todo o lado.

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  11. Oi Silvio, seu texto é um ótimo retrato do nosso chamado racismo estrutural, andamos com medo o tempo todo, isso só se combate nas estruturas da nossa sociedade, mas por aqui enxugamos gelo...Como diz Mia Couto, não há muro que separe os que têm medo dos que não tem.
    Deixar o morro é raro, deveria ser meta. E quando consegue, dirão que é exemplar, que todo esforço sempre terá seus louros, quem não consegue é porque não se esforçou, é vagabundo. E assim caminhamos nessa sociedade falida, corrompida, cheia de armas e insensível à desigualdade que atinge indiretamente à todos.
    Adorei a leitura, abração, cuide-se!

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  12. Olá amigo Sílvio!
    Uma história interessante! A sociedade ainda mete rótulos nas pessoas e alimenta estereótipos! Ainda bem que Cirilo soube colocar a sua voz para se fazer reconhecido!
    Beijinho e haja saúde!

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  13. Sílvio, que bom ter te recebido no meu blog, obrigada pelo carinho!
    Prosa que mostra mesmo que, o preconceito está sempre em moda, que pena!
    Abraços apertados!

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  14. Grande mãe do Cirilo que soube defender o seu menino
    e encaminhá-lo para uma vida com melhores condições
    Grande viva para as mulheres
    que podem fazer a diferença !!!!

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  15. Asi pasa aveces. Saludos amigo Silvio.

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  16. La vida tiene muchas vueltas y como en este caso, ese niño que fue bastante maltratado por su color de piel y condicion social, tuvo la oportunidad de dar vuelta la historia, tambien gracias a su madre que deseaba para el un camino en donde el estudio fuese prioritario. Me gusto el relato Alfonso, que tengas un gran domingo

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  17. Passando, relendo, elogiando, e deixando votos de um Feliz domingo. Deixando também um abraço poético.
    .
    Pensamentos e Devaneios Poéticos
    .

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  18. Ufa! Que sufoco, hein?
    Ainda bem que saíram ilesos, amigo Poeta.
    Um grande abraço
    Verena.

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  19. Me ha encantado tu relato, Silviafonso.

    Ay, las madres, que siempre quieren que sus hijos vivan otras vidas mejores que las suyas.

    En cuanto a las apariencias, por desgracia, siguen influyendo en muchas personas a la hora de juzgar y poner etiquetas.

    Final feliz para tu amigo el teniente, y frivolizando, Silvio, si es el de la foto, tiene una apariencia para mí regia, es súper guapo.

    Besos,

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  20. História que nos coloca a refletir sobre o mal do racismo encrustado em atitudes e pensamentos em todos os cantos da sociedade.

    Ainda há muito o que se transformar para sermos mais humanos.

    Um abraço!

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POR FAVOR, NÃO SAIA DE CASA
(Se possível, fique na sua casinha,
não receba ou faça visitas. Não abrace
ou se deixe abraçar porque se você não
pegar o vírus não me mata e eu não
mato os outros.
((silvioafonso))


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