segunda-feira, 26 de abril de 2021

A VACINA

        


   Eu me arrependo muito do juízo que fazia das pessoas que choravam ao serem  vacinadas,  principalmente daquelas que chegam lacrimejando.  Eu só me arrependi depois que meu pai, o homem mais forte do mundo, chorou a um metro e meio do meu celular e ao vê-lo naquele estado eu não me contive e acabei chorando também, e mesmo sabendo que homem que é homem não chora, como ele me falava até poucos dias,  eu chorei ao vê-lo arregaçando a camisa para a enfermeira espetar o seu braço fininho. Chorei, sim, e continuarei chorando sempre que me lembrar do vídeo em que meu pai, o gigante que me ensinou a ser duro, chorava como só aos gigantes é permitido. E eu, bobo como sou, pensando que fosse por causa da espetadinha que ele mais tarde me disse que mal deu para sentir. 
Que bom, meu pai, que o senhor é tão forte como me dizia quando eu era pequeno, mesmo que chorasse agora, na minha frente. E comigo, meu pai, como será quando for minha vez?  Talvez, quem sabe eu não chore como chorou meu herói?!, não pelo que a vacina me permitirá fazer depois disso, mas pela incerteza de ter alguém ao meu lado para me dar um abraço como meu pai tinha a mim.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

A FEITICEIRA QUE ME AMAVA.

 

   Não me lembro de ter falado para ninguém que minha mãe tivesse tido um Centro Espírita onde a "Mãe de Santo" era ela e muito menos que se parecesse com as bruxas das histórias em quadrinhos, não tão feia e tão velha, porém muito parecida. Alguns a compararam a uma feiticeira, principalmente depois de ter soprado um pó na cara deles por duvidarem de sua fé e da seriedade de como mamãe a praticava.  Os coitados saíram aos saltos e coaxando feito sapo e nunca mais apareceram.   Mas já faz tempo. Ultimamente mal temos nos falado e mesmo assim falamos mais que antes de sua morte.  Quero dizer que falo mais com ela do que ela pudesse falar comigo. Mamãe morreu antes da chegada do vírus. Bem antes de a doença nos tirar as pessoas de quem tanto gostávamos, isso quando não nos tira o emprego e nos obriga a morar na rua como fez com um amigo que eu fiz questão que viesse morar comigo e que não deu certo porque jogou na minha cara o passado que eu lutei para esquecer e como não arrependeu-se depois de dizê-lo, o indiquei à porta da rua.   A perda da minha mãe e do amigo foi o pior que o vírus pudesse me dar. Calado eu estava, calado eu fiquei e nem para responder as perguntas das vizinhas, prestativas, eu respondia.  Não foi tão duro esquecer-me do amigo como foi da minha mãe que o teria arremessado longe, se bem a conhecia, e a essas horas, talvez, ele ainda estivesse coaxando por aí.  O fato me deixou muito triste, mas nem tanto como quando a namorada, com quem fiquei anos, meteu o pé na minha bunda alegando coisas sem o menor sentido. Minha mãe não fez nada porque nada lhe tinha contado a respeito ou garota estaria procurando um brejo onde pudesse coaxar com meu amigo sossegada.  Eu não sou um revanchista por isso  não quero mal para ninguém, mas de um corretivo, pelo menos, aos dois caia bem. A moça, quando meteu o pé nos meus fundilhos, deve ter rogado pela minha felicidade ao passo que eu... Bem, eu queria qualquer coisa, menos a felicidade dela.  O que eu queria de verdade era que se danasse. Que pegasse caxumba, que arrancasse a unha numa topada ou que uma verruga, bem grande, nascesse na ponta do seu nariz.   Ah, como eu queria...  Esse negócio do namorado querer o bem de quem lhe mete o pé na bunda é mentira, conversa para boi dormir. A gente é capaz de qualquer coisa por nossa mulher e até morrer somos capazes se necessário, mas não para ela se deitar com o primeiro "pé rachado", que aparecesse.  Mas eu falava de que, mesmo?

segunda-feira, 12 de abril de 2021

1º TENENTE.

 

   Cirilo morava com a mãe em uma casa pobre num morro do Rio onde eu residia e como fosse bem-educado não se negava descer ao mercado e comprar o que lhe pedissem. Descia correndo e no mesmo pique voltava sorrindo. Dificilmente a mãe, que lavava roupa para fora, exigia tando do Feijão, como ela mesma o tratava. Os trocados, que nem sempre recebia pelos favores,  não tinham tanta importância como o tratamento de branco que davam ao pretinho.   Um dia, porém, a mãe dele, cansada de ouvir gritarem seu nome, o proibiu de fazer mandado. – Eu não quero que te chamem pra fazer nada e se querem comprar qualquer coisa que vão eles mesmo ou chamem outra criança!  Doravante só sais para estudar –  disse com os olhos molhados e a mão na cabeça do filho. Em pouco tempo Cirilo melhorou na escola e assim foi até a faculdade onde se formou em direito, passou no concurso da Polícia Militar aonde ingressou como primeiro-tenente. Com cinco anos de farda o menino de recado voltou ao morro para dizer que a mãe dele já não desce o morro, como ele descia, porque já tem quem o faça.  Quem desce agora é a sua empregada, mas não o morro e sim os 12 andares do prédio onde moram na praia.  Ontem Cirilo voltou, mas desta vez, me pegou de saída e como a visita já era constante eu pedi que entrasse no carro e fosse comigo.  Cirilo estava a paisana, de bata, tipo Tim Maia e uma boina de Reggae enfiada na cabeça. Sandálias de tiras e óculos escuros na cara.  Na mangueira, mais precisamente na rua dos lustres eu subia a caçada para estacionar e como o carona que só ouvia o que eu falava tinha os olhos fixos em dois homens que vinham em nossa direção concluí que parar ali não seria uma boa, por isso arranquei a procura de outro lugar.  Rodei muito enquanto Cirilo, educado como era, me ouvia calado.  Finalmente encontrei uma para estacionar, mas antes de desligar o motor perguntei se ali o lugar era bom.  Cirilo continuava com o mesmo olhar que antes olhava os homens e só então, após cutucá-lo eu descobri que o cachorro estava dormindo.  - Porra, Cirilo!  Perdi uma vaga pertinho da loja aonde eu ia por sua causa!
Na volta uma blitz nos parou numa curva.  Mandou que saíssemos e puséssemos as mãos em cima do carro, mas quando viram o trabuco na cintura do meu amigo a polícia enlouqueceu. Correu todo mundo para trás da viatura e com as armas apontadas para nós um deles começou a gritar para o Cirilo jogar a arma no chão e botar a mão na cabeça.  Cirilo dizia ser o oficial deles, mas ninguém acreditava naquele negrinho que mais parecia um cantor de ‘reggae’ do que outra coisa.   Até que provou o que disse com ameaça de prendê-los.   A turma se desculpou e não fosse a minha intercessão Cirilo os teria posto em cana.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

SANGUE AZUL

   

    Eu tinha uma pintinha nas costas e mesmo que fosse diferente das que já vi nas pessoas em nada me incomodava, muito menos aos dermatologistas. – Ah! Isso não é nada, e não é por ser azul que seria. – diziam os doutores me consolando. – Se existisse alguma dúvida pedia-se a biópsia e pronto, logo se saberia – dizia batendo de leve com a mão no meu ombro. – Que bom, doutor, caso contrário o senhor teria de olhar outra, igualzinha, num lugar nada agradável – respondia para ele sorrindo. – Ah, que nada! Pode dormir sossegado que não é câncer. – completava me olhando sobre o ombro. Com o tempo eu me mudei para o alto da serra de uma cidade agradável, de clima ameno e gente bondosa. Talvez o único lugar no país onde o sistema de saúde funciona de verdade e a prova é que só eu tinha plano de saúde, por isso deixei de usá-lo. Em uma consulta rotineira o clínico me encaminhou a um dermo. Queria que aquela pintinha voltasse a ser examinada. – Ah! Doutor, seus colegas disseram que não era nada que tirasse o meu sono, mas ele, sem me dar ouvido, anotou um endereço e me deu. Dois dias depois a doutora Darci, que até então eu não sabia que era uma mulher, me examinou. Meu Deus! Como vou mostrar a outra pintinha para ela? – me questionava. A doutora pegou um aparelhinho colocou no olho e se debruçou sobre a pinta. Ficou um tempão resmungando com aquilo perto da cara. Depois anotou qualquer coisa na minha ficha – Teu médico fez bem te mandando para cá – ela disse, e concluiu – eu quero uma biópsia da pintinha. – Doutora não faz isso, por favor. Pois se tiver de fazer nessa pinta terá de fazer na outra que eu teria vergonha de lhe amostrar – falei todo cheio de vergonha. – Mas eu quero ver, seu silvioafonso. Mostre-me, por favor! Quem sabe não venha a se tornar outra coisa no futuro – disse a doutora e concluiu: – Agora baixa as calças e me mostre, porque aqui somos médico e paciente e não homem e mulher. – Aí eu baixei. A doutora ajoelhou-se e segurou o falo com as duas mãos e ficou olhando para ele como se fosse a primeira vez que visse uma coisa daquela. Depois foi à mesa e pegou um aparelhinho, que enfiou no olho, para ver o negócio bem mais de pertinho. – Jesus do céu! A doutora com aquele aparelho no olho botava a cara tão perto da pinta que eu tive de prender a respiração com medo do bicho se mexer nas mãos dela. – Eu quero que faça biópsia nessa aqui, também – falou gaguejando. E eu fiz o que a doutora pediu. Fui ao endereço indicado aonde um tal de Darci, que eu achava que fosse um homem, me atenderia e como estava dando aula aos residentes naquele momento  acabei me tornando cobaia para um bando de garotas, recém formadas, que não tirava os olhos do que a doutora lhes mostrava.
E como disse eu já tinha ido a vários dermatologistas e só esse último me pediu a biópsia. Esse médico, quer dizer, essa doutora provou que sua nota, nas provas finais, não foi dez ou não teria suspeitas quanto à cor da pintinha. Um daqueles médicos que disseram que a pinta não era câncer me falou, meses depois da remoção do sinal, que o "nevo azul", como chamam a pinta, não passa de uma alteração benigna da pele que não coloca em risco a vida de ninguém. Por isso, não sugere a remoção, disse ele, mesmo concordando que existem alguns casos em que a células malignas pode surgir no local, mas isso não é comum a não ser quando o "nevo azul" é muito grande ou aumenta de tamanho rapidamente. O que não era o meu caso.