segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

AMIGOS PARA SEMPRE.

 

      Só quem não conhece o meu bom humor pode dizer que eu sou um contador de  vantagem e talvez eu até seja, mas quero lembrar que ninguém sai por aí dizendo das suas mazelas. Eu, por exemplo, não saio, mas tem momento que não dá para segurar e acabo falando. Um dia desses, só para me explicar, o Cagalizo, um amigo dos velhos tempos, me procurou com uma garrafa de vinho embaixo do braço. E para meu azar foi no dia que eu escolhi para descansar e sair da cama tão cedo não estava nos meus planos, mas com ele esmurrando a porta...  Entrou erguendo a garrafa no alto. Enquanto eu fui ao banheiro escovar os dentes ele serviu o vinho e abriu um pacotinho de azeitona que tinha consigo.
– Eu não bebo de manhã e você sabe disso falei p
ara quem me apontando o relógio do microondas dizendo: –  são duas da tarde, meu caro.  Eu não ficava tanto tempo na cama desde quando mamãe me pegava no colo.  Não fosse o maluco querendo derrubar a porta eu ainda estaria dormindo.  Cagalizo ergueu a taça, olhou para mim, e virou de uma só vez.  Em poucos goles esvaziou a garrafa e só então começou a chorar. Ele chorava, enxugava o nariz e reclamava da mulher, dos filhos e até do patrão falou mal. Disse, entre outras coisas, que Deus não gostava dele ou não teria lhe dado uma cruz tão pesada.  Aliás, não só Deus, não gosta de mim como os amigos também não gostam como eu gosto deles – dizia tentando espetar a azeitona fujona com a ponta do palito. Limpou a boca com as costas da mão e se levantou para jogar água na cara.  O constrangedor não foi o desabafo ou o vinho que me fez tomar fora de hora, muito menos a cadeira puxada para o lado da minha e o hálito de bebida com azeitona tão junto da minha cara,  mas aquela mão cheia de dedos escorregando pelo meu ombro quando foi se sentar.    Dizem que eu sou um cara educado, mas não tive como ficar sentado naquele momento. Dei uma desculpa qualquer e fui fazer, não me lembro o quê.  Mas o infeliz foi atrás e sobre meu ombro falou-me tão junto à orelha que um arrepio correu-me da nuca aos calcanhares. Dei um salto para frente (eu disse para frente, viu, senhores faladores?) e gritei com ele.  
– Pô, Cagalizo!  Tu chegas sem avisar, me tiras da cama, me fazes beber e comer na hora que eu não estou a fim, me contas teu passado e o pior, tu queres me dar ou me comer, fala o que tu tens na cabeça, sujeito?  E faças um favor para o seu camada: vás embora e me ligas  assim que lembrares da besteira que vieste fazer com um cara que gosta tanto de ti.
Nunca mais vi o sujeito de quem tanto gostava e devo favores.   

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

VALEU JAPA. VALEU!

    


        Quando vejo um caminhão de mudança parado em frente ao meu prédio eu tremo dos pés à cabeça: seria um novo morador nos brindando com sua chegada ou um velho amigo se afastando do aconchego da gente?  Ontem, para minha tristeza, a senhora do 501 estava de mudança. Ela, o marido e a filha iam morar em São Paulo, aonde eu havia morado em alguns anos da minha vida.  Com certeza que vão fazer falta, principalmente a mulher e a filha. Jamais poderia imaginar que japonês fosse gente tão boa como aquelas duas mulheres. O marido, um sujeito nascido na pobreza de Kamagasaki, era grosseiro com todo mundo. Talvez por conta da infância e da juventude que teve, como me disse a mulher embora tivesse, ele mesmo, falado que iam morar na Liberdade, o bairro mais japonês do Brasil. Meu Deus! O que farei eu,  daqui em diante, quando chegar bêbado de madrugada me apoiando nas paredes sabendo que Mikomy, a única filha daqueles dois, já não estaria mais lá embaixo a minha espera para me arrastar para casa, fazer um café forte e me enfiar embaixo do chuveiro frio?  É claro que eu só sabia porque ela me contava no dia seguinte, e pelo que eu sei, nem dormir comigo eu penso que tivesse dormido e se o fez eu tenho certeza que não fizemos do jeito que ela merece.  A mãe, que diferente do marido era muito risonha, dizia que eu era um bom homem e era pena que vivesse sozinho num momento difícil como esse.  Por isso eu sentia dó de Dona Sheraki.  Ela deve sofrer o  diabo nas mãos daquele gordinho de cara amarrada.  O velhote não permitia que saísse nem para ir à padaria se não fosse acompanhada por ele ou pela filha ao passo que ele fazia até mesmo o que achava errado nos outros.  Foi lembrando desses momentos que subi para tomar uma, ducha, como faço quando volto das caminhadas, mas ao entrar no meu quarto, ainda secando os cabelos, deparo com  Mikomy estirada na minha cama, nua como viera ao mundo, contudo em uma nova edição melhorada.  –  O que você está fazendo pelada na minha cama, sua maluca e o que você fez para entrar aqui na minha casa se a porta estava trancada, posso saber?  –  Estou nua, sim,  mas você também não está vestindo  –  disse com as mãos estendidas para mim.  Mikomy era a melhor amiga que eu já tive na vida e agora, com ela estirada na minha cama puxando o braço eu entrei em parafuso.  Será que eu devia mesmo fazer o que ela parecia ter vindo para fazer sem me arrepender ou era uma boa oportunidade que eu tinha de fazer direito o que bêbado jamais teria feito naquelas circunstância?  De repente aquela seria a última oportunidade que nós teríamos de estar junto e como não havia ninguém por perto nos espionando, nada mais justo que fazer por ela o que ela fez por mim durante todo o tempo que morou a duas portas da minha.   Muitos se despediram de mim e de muitos eu já me despedi, mas nenhum adeus me doeu tanto como quando Mikomy beijou-me a face, enxugou os olhinhos repuxados e embarcou no carro do pai.  

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

BOA NOITE CINDERELA.

     


     Hoje eu estou velho e acabado, mas já tive momentos melhores, pelo menos aos olhos da minha mãe e das garotas que gostavam de homens altos, simpáticos e de boa família.  E modéstia à parte; esse cara sou eu.  Meus amigos também eram bons rapazes ou o pai de um deles não nos teria permitido jogar bola na quadra do seu quintal nos finais de semana.  Muitas vezes D. Alice e o marido, donos da quadra e pai e mãe de dois desses garotos, nos chamou para almoçar. O marido se incumbiria da churrasqueira e ela das outras panelas. Sr. Otávio, pai de Otacílio e Otavinho, tinha o dobro da idade dela e talvez por conta disso, repousasse depois do almoço   D. Alice sentava com a gente enquanto o marido tirava um cochilo. Nunca, essa senhora, deixou de participar da nossa conversa por mais picante que pudesse parecer. Com ela se falava de tudo e qualquer coisa sem que nos apontasse um dedo ou puxasse a nossa orelha por abordarmos determinados assuntos ou pela maneira de discuti-los. Quando Otavinho, seu filho mais novo aniversariou ela fez uma festa, mas devido a chuva incessante a maioria dos convidados não apareceu.  Quando a festa acabou e todos se foram D. Alice nos  deu um suco verde com gosto esquisito, tipo mato triturado com água, açúcar e gelo, para beber e como ninguém disse nada eu também nada disse.  Tomei o meu e ponto final.  A bebida desceu numa boa, pelo menos ninguém se queixou. Infelizmente comigo não funcionou. De repente, assim do nada, me deu um sono tão grande que eu tive de me sentar para não cair e como os filhos já tinham subido para os quartos e deixado a mãe falando o que, certamente já estavam carecas de ouvir, acabei ficando sozinho com ela sentada na minha frente.  Eu estava tão mal que pedi que ligasse para o meu pai me buscar.  Nem bem terminei a frase e perdi os sentidos.  Quando acordei eu estava numa poltrona que ficava num quartinho nos fundos da casa e o pior era que D. Alice estava lá, deitada ao meu lado.  Gente, que mulher maluca! –  Pensei –  e como conseguiu me levar para aquele lugar sem que nos vissem ou será que Sr. Otávio era peça importante naquela engrenagem? Eu já vi muitos casos em que o marido arranjava companhia para a própria mulher.  Quando pensei em me levantar D. Alice se mexeu.  Chegou os lábios, com aquele cheiro gostoso de menta, tão junto da minha boca que não teve um só fio de cabelo que não ficasse de pé.  Certamente  para ter certeza que eu dormia.  Não dormia, mas fingia.  Então ela, com mãos de fada, abriu minha camisa, acariciou os pelos endurecido que nasciam no meu peito,  bolinou com a ponta dos dedos o bico dos meus mamilos arrepiados, desceu a mão além do meu umbigo e lá deixou ficar um bom tempo.  Tempo suficiente para eu ter certeza que pensar e falar sacanagem não é pecado.   Pecado é a pessoa, tantos anos depois, me chamar de safado sem mesmo ter conhecido a coragem de uma bondosa senhora que, com seu marido, nos deixava jogar bola na casa dela.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

HOTEL DAS ESTRELAS

    


     Um dos primeiros empregos que eu tive e talvez o que mais tenha mexido com a minha cabeça foi trabalhar de porteiro num hotel nos Arcos da Lapa, no centro do Rio. As instalações não eram de mau gosto, mas luxo não tinha muito.  Talvez para morar não fosse o mais indicado, apesar de algumas pessoas estarem lá há anos.  A maioria só passava uma noite ou duas por diversos motivos.  De vez em quando aparecia uma garota com namorado fugida de casa, mas no dia seguinte chegava o pai e um policial para buscá-la. Os melhores quartos pertenciam as cortesãs, como os autores de livros gostavam de chamar  as prostitutas, e era com elas que eu conversava quando voltavam das festas cheirando a bebida. De vez em quanto um motorista me chamava para ajudá-lo a tirá-las do táxi, mas para puxá-las escada acima até o quarto nunca aparecia ninguém. Até acompanhá-las ao banho já fui convidado, mas naquele estado eu não me arriscaria perder um emprego que, de certa maneira, pagava a faculdade e me ajudava nas despesas com meus pais.
O dono do hotel era um velho de 69 anos casado com uma garota de 30.  Dizem que ela o ameaçou, caso não parasse de dar em cima das hóspedes, até de abandoná-lo a mulher o ameaçou.  Ela não o queria surrado por maridos ou cafetões furiosos. Devo o meu emprego a essa mulher que afastando o marido da portaria me permitiu assumir seu lugar. Eu só fui selecionado porque era discreto e poderia guardar os segredos do velho, como me pediu logo depois. 
O natal chegou cinco meses depois da minha carteira ser assinada e só então eu tive o prazer de conhecer Dona Alice,  a mulher do patrão.  Ela era bonita e muito se parecia com minha tia,  irmã de mamãe.  Só um pouco mais nova. Tinha uma coisa naquela mulher que me secou a boca quando entrou pela porta e mais seca ficou quando ele nos apresentou.  Aquele sorriso largo abriu qualquer coisa dentro do meu coração. Muitos dizem que eu minto com facilidade, mas juro que estou falando a verdade.  Às vésperas do natal o marido me chamou para jantar com eles, mas como já tinha prometido passar com meus pais, agradeci, mas prometi dar uma passadinha na volta para lhes dar um abraço e avisaria quando estivesse saindo. Só que ninguém apareceu para me receber. Talvez pelo avançado da hora já estivessem dormindo.  Na saída vi um carro estacionando na frente do prédio com D. Alice na direção. Tinha levado o marido ao hospital onde tomava soro naquele momento e só voltou por ter visto, no celular do marido, o WhatsApp que eu havia mandado.  Pensei em ir ao hospital para vê-lo, mas ela não permitiu. Puxou-me para dentro para, em nome da nossa amizade, brindar a confiança que o marido tinha no meu trabalho e em mim.  Ás três da madrugada o celular da moça tocou.  Era do hospital avisando que ele estava melhor e esperava por ela.  A gente se vestiu às pressas e cada um seguiu seu caminho. Não estou mentindo, mas aquele foi um dos melhores natais que eu já passei.  Pena que o marido não aguentasse beber o tanto que diziam beber com as mulheres do meu trabalho.