segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

A MALA

         



     Esperei mais de  meia hora por minha mala numa esteira preguiçosa do aeroporto aonde uma velha amiga de blog reside com a família, mas tudo em vão.  Todas chegavam aos pés dos donos, menos a minha velha e surrada mala que eu levava comigo nessas viagens. Seguindo o conselho de uma senhora gordinha que tirava a dela da esteira eu procurei um fiscal.  Moral da história. Minha mala com dois vibradores ultra modernos havia desaparecido como que por encanto.  Eu não sabia como dizer aquilo na recepção até porque fica esquisito um homem de cabelos brancos, como eu, transportar vibradores, um curto e grosso e o outro mais parecendo um extintor de incêndio para carro. Este último era presente para uma amiga espanhola que já me falou que tamanho não é documento.  E como demorasse procurando a palavra para descrever o produto, que não é outra senão "Satisfayer", na língua deles, a atendente decidiu me ajudar.  Ela devia saber do que se tratava ou não me olhava rindo daquele jeito.  Eu disse que o tinha comprado para mim, mas para presentear uma amiga, mas  ela deu de ombros e quando saiu, piscou o olho para uma colega.  E foi assim que eu consegui minha mala de volta, não com tudo o que havia nela porque o strong, que faria a alegria da espanhola, não estava mais lá. Meu Deus do céu, como é que eu ia brigar por um "consolo" se naquela cidade nem gay eu sabia se tinha?  Passei três dias por lá, mais precisamente na casa da minha amiga que vinha me convidando para conhecê-la e a sua família, dos quais eu guardo muito boas lembranças.  O carinho com que me trataram, os passeios que me levaram a fazer e a escola de antropologia onde trabalhou por tantos anos ainda me emocionam toda vez que me lembro.  No dia que voltei para casa uns amigos foram me pegar no aeroporto e como não paravam de rir e muito menos deixavam de jogar piadinhas acabei perguntando o por quê daquela alegria ao que me disseram que em um certo blog alguém pedia pra me avisar que a TAP havia mandado para a família que eu visitei e não para o meu endereço o objeto que tinha sumido da minha mala e como a embalagem deixava ver o que tinha dentro me pediam, encarecidamente,  que eu o retirasse de sua casa o mais rápido possível para não piorar o estrago que vinha fazendo na cabeça das filhas.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

FUNCIONÁRIO NOTA 10

 


     Na hora eu fiquei triste.  Dez minutos depois, confuso. Meia hora mais tarde eufórico e agora me sinto assim, como direi, feliz. É isso.  Eu fiquei muito feliz e vou falar por que.  Era abril e o mundo surfava uma onda sem a menor ideia do tamanho que ficaria meses depois. A ordem era ficar em casa e se possível com a máscara enfiada na cara longe uns dos outros.  Abraço, beijo e até mesmo um aperto de mão, nem pensar.  Por isso adiantei as férias da Vilma, minha empregada, que só retornaria ao trabalho quando a pandemia passasse, mas ela, desobediente como é, veio me procurar duas vezes nos meses de junho e julho, mas não permiti que entrasse para evitar o diabo da tentação.  É duro ver uma empregada com os dotes da minha zanzando dentro de casa.  Já é difícil em dias normais, imagina agora que ando chupando o dedo.  O dedo e o resto da mão, se me faço entender.     
–  Quando precisar de você eu te chamo – falei e saí de perto para não me arrepender do que havia falado.   
Hoje cedo a campainha tocou e para minha surpresa era a mãe dela.  Disse que a filha tinha viajado com o namorado para conhecer os pais dele e enquanto estivesse fora ela, a mãe, viria fazer o trabalho da filha e para evitar qualquer tipo de  constrangimento decidiu me falar. 
Vilma jamais mencionou que fosse filha de alguém como aquela mulher.  Alta, esguia, seios e lábios fartos, (seios nem tanto) pernas longas, como as da filha e generosa quando se curva na frente da gente. Nada havia naquela mulher que justificasse a idade que tinha. 45 anos era muito para uma pessoa com tão bela aparência. Os olhos tinham a beleza da noite e a postura digna de uma rainha.  Aquela pessoa não era para trabalhar em casa de família, principalmente na casa de um velho se ele não admite ter a idade que tem. O risco que se corria era grande, o dela e o meu.  Acho que o meu se tornava maior a partir do momento em que passando por mim esfregou na minha cara as suas peras maduras.  –  Senta aqui, mulher! Vamos conversar –  disse sorrindo pra ela. –  Eu preciso de um café, onde está o pó, posso saber? –  Perguntou com as mãos na cintura.  –  É claro que não – respondi puxando-a para uma cadeira ao meu lado.    
– Sente-se e vamos conversar.  Depois a gente pensa em café –  falei para quem fingia não me ouvir  Acabei eu mesmo fazendo o bendito café com ela nos meus calcanhares.  Quando notamos a confusão que fizemos dentro daquela cozinha começamos a rir.  Ela com as duas mãos na xícara e eu com as duas mãos nas mãos dela.  Conversamos até o almoço ficar pronto.  Depois do lanche da tarde, nós dois, juntos, preparamos a janta.   Dona Wilza não era só a dona de um rosto bonito, como também era dona das pernas que me tiravam o fôlego.  A vontade de pedir que ficasse comigo pelo menos àquele resto de noite esmoreceu  assim que se levantou, esfregou o vestido para tirar o amassado, curvou-se diante de mim e me beijou a face.  Andou até a porta de onde, por cima do ombro, me disse que a partir do dia seguinte serviria o café às 8h em ponto.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A REVANCHE

 


    Tem gente que não tem noção do ridículo ou não mandaria a mulher me chamar para jantar depois de ter se juntado a outros sequelados pra invadir minha casa, me ameaçar de porrada e dar cabo das minhas bebidas. Eu precisei me beliscar pra ter certeza de que não estava sonhando. Será que esse animal já se esqueceu do que fez comigo ainda esses dias?  É claro que eu dei  uma desculpa para não ir, mas com aquela pretinha linda, de pernas exuberantes, cheirando a sabonete na minha frente e falando daquele jeito acabei aceitando.  Depois que fechei a porta foi que a ficha caiu.  E se o marido, aquele covarde, quisesse aprontar de novo comigo?   Meu Deus quantas vezes botei minha vida em jogo permitindo que ela, com medo de ficar sozinha, dormisse na minha casa enquanto o valentão viajava?  Ah, seja o que Deus quiser. Para quem correu os riscos que eu já corri isso é moleza.  Toquei à campainha e uma das convidadas me recebeu. A pretinha tinha ido buscar a mãe, disse a mulher olhando pro dono da casa, e logo estaria de volta. – Ué, a pandemia acabou? – Perguntei pra mim mesmo – me admira muito alguém encher a casa de gente com esse vírus rodando por aí.  Cumprimentei os presentes com um sorriso e me dirigi à janela para atender o celular.  Pedi desculpas ao dono da casa e prometendo voltar dentro de poucos minutos voltei para casa onde a pretinha me esperava na porta. – Meu marido me pediu para te convidar e eu te convidei, mas quem precisa de um abraço, pelo menos nesse momento, sou eu – disse abrindo o berreiro.  Entramos, tomamos um copo de vinho enquanto ela falava. Depois a levei para o quarto para se refazer do choro. Duas horas depois chegávamos a casa dela.  Ela na frente e eu um pouco depois. –  Parece que o senhor usa o mesmo sabonete que usamos aqui em casa, disse o marido. Pelo menos o cheiro é igual.  Qual a marca do seu?, perguntou o covarde. O nome eu não sei. Ganhei de presente naquele dia que vocês foram lá em casa, lembra? – Perguntei com o sorriso da vingança estampado na cara.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

FELIZ ANO NOVO

       


     Quando deu meia noite o povo esqueceu o distanciamento social, as máscaras de proteção e correu para o abraço. Lágrimas, risos, beijos trocados, copo de cerveja e taças de champanhe compartilhados. Branco sorrindo pra negro e filho de pobre brincando com os mais abastados.  Valia tudo na passagem do ano da pandemia e, de certa maneira, eu fiquei com inveja da coragem daquela gente que sem medo de ser feliz festejava a despedida de um ano que parecia não acabar mais.  E tudo aqui embaixo,  no pátio de um prédio na orla do Rio. Meia noite e meia e já não se ouvia os fogos a não ser um aqui e outro acolá enquanto as vozes no pátio já não tinham a mesma euforia. Duas e quarenta da madrugada. O elevador não sobe e não desce, todos se trancam dentro de casa. Cinco horas. Nem uma nuvem no céu da cidade que não dorme, mas cochila como eu diria caso um carro ou outro não cortasse a principal avenida em desabalada carreira.  Faltam dez para às seis. É hora do sol se insinuar por cima do muro, mas banhistas não vai encontrar, só gari lhe dará as costas para queimar. Sete e meia. Café quente aqui dentro como o dia promete lá fora.  Sete e meia.  A praia começa a encher.  Também me dou conta dos carros que deixam o prédio com os incautos voltando pras suas casas para, quem sabe, enlouquecer no dia seguinte quando a ficha cair. Onze horas. Água do macarrão fervendo e um prato na mesa já que não espero ninguém.  Café, de sobremesa, eu não tomo, mas como uma fruta com os olhos na televisão. Olhos que não se sustentam, não por conta da macarronada, mas pelo hábito da sesta de todos os dias.  Às quatorze horas sempre a televisão tem um bom filme na sessão da tarde.  Eu o assisto. Um café, que não tomei no almoço, cai bem e inspira quem o toma para passar o resto do dia. Se for domingo, tem futebol às 16h e depois o Faustão e para encerrar o primeiro dia do novo ano: retrospectiva 2020.  Tudo o que aconteceu é mostrado aqueles que viverão no ano novo o mesmo que viveram no anterior.  Assim foi e assim será o ano na vida de cada um.