segunda-feira, 10 de maio de 2021

VÍCIO

 


     Às vezes eu chamo meu filho de Tião, mesmo Sebastião não sendo seu nome e assim como faço com ele, também faço com os amores que escrevem seus nomes na lousa da minha história. Por isso não se espantem quando falar que alguém que eu amo morreu. Elas morrem toda vez que saem para comprar cigarro e não voltam. No ano passado um amigo me falou para esquecer as mulheres de fumam. O pior é que, ao acender o meu, sempre me aparece uma desavisada pedindo para acender o dela e me pedia olhando dentro dos meus.  – É claro, meu amor. Acendo com o maior prazer. – Respondi puxando a cadeira para  junto da minha, na ocasião. A conversa rendeu  e só na manhã do dia seguinte perguntamos o nome um do outro.  É muito difícil encontrar mulher que não fume hoje em dia, até porque, o vício aproxima e se for para ficar sozinho, que venham fumar ao meu lado que eu assumo o perigo. Hoje, depois de um ano recluso em casa telefonei para Vilma, a moça que deixa minha casa brilhando,  mas quem atendeu foi um homem dizendo ser seu irmão. – Mas a Vilma, por que ela não atende? – perguntei.  – Porque ela morreu –, respondeu-me com a voz embargada. Morreu por conta desse vírus maldito que escolhe a pessoa errada para levar – concluiu soluçando. 
Gente, a Vilma morreu!...  O irmão, por ouvi-la falar no meu nome, já sabia com quem estava falando por isso me prometeu arranjar oura para o lugar dela. E arranjou...
  – Bom dia, Sr. Silvioafonso.  Eu me chamo Alex, quer dizer, Alessandra, mas prefiro que me chame de Alex,  sua nova diarista.  Vilma falava muito no senhor, por isso vou aceitar o serviço que ela vinha fazendo.  
Alex era uma mulata desse tamanho.  Braços da grossura das minhas coxas, barriga chapada e peitos pequenos.  Jesus do Céu, se me der uma porrada me derruba, pensei.  Alex me fez saber que entendia todo da profissão e sem cerimônia nenhuma tirou o casaco, prendeu o cabelo com um elástico, tipo rabo de cavalo, arregaçou as mangas da camisa e caiu dentro.  Eram 10h15, quando iniciou os trabalhos, e às 13h30m me pedia a toalha para tomar banho.  A casa estava um brinco. 
– Posso fumar aqui dentro?  –  perguntou secando o cabelo com a toalha de rosto. – Sim, quer dizer, não. Por favor, fume na varanda porque a fumaça me causa náuseas. Mentira!  Não me causa coisa nenhuma, pelo contrário, me dá  um prazer danado, só não queria sofrer com a tentação. A vontade era de cheirá-la, de fazer o que há muito não faço.  De senti-la à minha volta, nos meus olhos, na minha boca, em mim. Ah! E antes que me crucifiquem eu quero dizer que estou me referindo à fumaça do cigarro e não no que possam pensar.  Alex fumava enquanto eu fazia o café que tomamos sentados um de frente para o outro e na hora de cruzar as pernas, felizmente vestia uma Leggin e ninguém pode ver coisa nenhuma, se é que alguém busca enxergar qualquer coisa quando elas cruzam as pernas.  Naquele momento eu roguei a Deus que a mandasse embora.  Que pegasse o dinheiro que deixei em baixo da  jarra e até se quisesse me beijar a face podia, mas que saísse por onde entrou e só  voltasse caso a chamasse. Mas ela não foi. Pelo menos enquanto o toró, que caia lá fora, não passasse.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

SAUDADES DE VOCÊ, SABIA?

        


    Faz tempo que mamãe bateu a porta atrás dos calcanhares e desapareceu. Fiquei muito triste, como qualquer filho ficaria, mas para dizer a verdade, nem como estava vestida eu recordo, mas dos beijos, dos abraços e das coisas que me falou antes de fazer o que fez eu me lembro e com riqueza de detalhes.  Eu, como filho, sei o quanto é duro não ter quem sirva o meu prato, lave a minha roupa e cante para eu dormir. É duro. Até para voar eu voava com as asas dela, mas agora... Agora terei que voar com as minhas  como mamãe fez com as dela. Sinto muito a sua falta e agora então... mais do que nunca, principalmente ao lembrar que nem o beijo de despedida eu ganhei.  Não me deu aquele beijo, mas ontem  me beijou mais do que todo o tempo que estivemos juntos. Certamente por não lhe ter dado a importância merecida segundo ela achava. Todos sabem que qualquer filho, no meu lugar, teria sonhado com sua mãe, mas eu não. Eu não sonhei, aliás, ontem eu sonhei com a minha. Talvez não sonhasse antes por ela não ter me falado que ia partir, mesmo sabendo que podia me dar um sinal ou pedir a alguém para cuidar de mim.  Mas não. Mamãe não fez nada disso. Foi duro, muito duro, triste e cruel. Como desprezar um filho e pôr a culpa na morte se a morte não é o fim?!  Para essa viagem, pelo menos, não é. Ela sabe que o filho não dorme longe do colo dela, agarrado ao seu cabelo e próximo ao seu coração, ela sabe.  Ou teria ela esquecido que eu sou o seu menino, o primeiro e o último, se filhos não pode ter mais?  Ontem eu não conversei com ninguém. Estava triste e só pensava em dormir e dormi. E foi dormindo que eu a vi novamente.  E como mamãe fica bonita quando sorri e mais bonita quando me abraça e me beija. Nem aquele vestido com folhas estampadas e o tênis branco que gostava tanto tiravam o encanto que tinha.  Engraçado é continuar questionando uma pessoa que há muito não convive conosco, como questionava tempos atrás.  Penso que nem tão cedo concordarei com a sua partida, mesmo que já não a tenha ao alcance dos beijos que podíamos ter dado mais e não demos.  Meu Deus! Por que essa vontade  tão grande de chorar por quem não me escuta, não me vê e não fala comigo?  Antes, até me ouvia e até falar comigo ela falava, mas acreditar que eu posso esquecê-la é de mais. — Ouviu, mamãe o que eu disse?!, a senhora pode estar certa, como sempre esteve com relação ao que eu sou, mas erra quando pensa que sabe o que eu sinto.  E o pior é que não sabe. Aliás, nunca soube, eu acho.
Descanse em paz, mamãe, aí, onde estás e também aqui, nas minhas lembranças.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

A VACINA

        


   Eu me arrependo muito do juízo que fazia das pessoas que choravam ao serem  vacinadas,  principalmente daquelas que chegam lacrimejando.  Eu só me arrependi depois que meu pai, o homem mais forte do mundo, chorou a um metro e meio do meu celular e ao vê-lo naquele estado eu não me contive e acabei chorando também, e mesmo sabendo que homem que é homem não chora, como ele me falava até poucos dias,  eu chorei ao vê-lo arregaçando a camisa para a enfermeira espetar o seu braço fininho. Chorei, sim, e continuarei chorando sempre que me lembrar do vídeo em que meu pai, o gigante que me ensinou a ser duro, chorava como só aos gigantes é permitido. E eu, bobo como sou, pensando que fosse por causa da espetadinha que ele mais tarde me disse que mal deu para sentir. 
Que bom, meu pai, que o senhor é tão forte como me dizia quando eu era pequeno, mesmo que chorasse agora, na minha frente. E comigo, meu pai, como será quando for minha vez?  Talvez, quem sabe eu não chore como chorou meu herói?!, não pelo que a vacina me permitirá fazer depois disso, mas pela incerteza de ter alguém ao meu lado para me dar um abraço como meu pai tinha a mim.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

A FEITICEIRA QUE ME AMAVA.

 

   Não me lembro de ter falado para ninguém que minha mãe tivesse tido um Centro Espírita onde a "Mãe de Santo" era ela e muito menos que se parecesse com as bruxas das histórias em quadrinhos, não tão feia e tão velha, porém muito parecida. Alguns a compararam a uma feiticeira, principalmente depois de ter soprado um pó na cara deles por duvidarem de sua fé e da seriedade de como mamãe a praticava.  Os coitados saíram aos saltos e coaxando feito sapo e nunca mais apareceram.   Mas já faz tempo. Ultimamente mal temos nos falado e mesmo assim falamos mais que antes de sua morte.  Quero dizer que falo mais com ela do que ela pudesse falar comigo. Mamãe morreu antes da chegada do vírus. Bem antes de a doença nos tirar as pessoas de quem tanto gostávamos, isso quando não nos tira o emprego e nos obriga a morar na rua como fez com um amigo que eu fiz questão que viesse morar comigo e que não deu certo porque jogou na minha cara o passado que eu lutei para esquecer e como não arrependeu-se depois de dizê-lo, o indiquei à porta da rua.   A perda da minha mãe e do amigo foi o pior que o vírus pudesse me dar. Calado eu estava, calado eu fiquei e nem para responder as perguntas das vizinhas, prestativas, eu respondia.  Não foi tão duro esquecer-me do amigo como foi da minha mãe que o teria arremessado longe, se bem a conhecia, e a essas horas, talvez, ele ainda estivesse coaxando por aí.  O fato me deixou muito triste, mas nem tanto como quando a namorada, com quem fiquei anos, meteu o pé na minha bunda alegando coisas sem o menor sentido. Minha mãe não fez nada porque nada lhe tinha contado a respeito ou garota estaria procurando um brejo onde pudesse coaxar com meu amigo sossegada.  Eu não sou um revanchista por isso  não quero mal para ninguém, mas de um corretivo, pelo menos, aos dois caia bem. A moça, quando meteu o pé nos meus fundilhos, deve ter rogado pela minha felicidade ao passo que eu... Bem, eu queria qualquer coisa, menos a felicidade dela.  O que eu queria de verdade era que se danasse. Que pegasse caxumba, que arrancasse a unha numa topada ou que uma verruga, bem grande, nascesse na ponta do seu nariz.   Ah, como eu queria...  Esse negócio do namorado querer o bem de quem lhe mete o pé na bunda é mentira, conversa para boi dormir. A gente é capaz de qualquer coisa por nossa mulher e até morrer somos capazes se necessário, mas não para ela se deitar com o primeiro "pé rachado", que aparecesse.  Mas eu falava de que, mesmo?

segunda-feira, 12 de abril de 2021

1º TENENTE.

 

   Cirilo morava com a mãe em uma casa pobre num morro do Rio onde eu residia e como fosse bem-educado não se negava descer ao mercado e comprar o que lhe pedissem. Descia correndo e no mesmo pique voltava sorrindo. Dificilmente a mãe, que lavava roupa para fora, exigia tando do Feijão, como ela mesma o tratava. Os trocados, que nem sempre recebia pelos favores,  não tinham tanta importância como o tratamento de branco que davam ao pretinho.   Um dia, porém, a mãe dele, cansada de ouvir gritarem seu nome, o proibiu de fazer mandado. – Eu não quero que te chamem pra fazer nada e se querem comprar qualquer coisa que vão eles mesmo ou chamem outra criança!  Doravante só sais para estudar –  disse com os olhos molhados e a mão na cabeça do filho. Em pouco tempo Cirilo melhorou na escola e assim foi até a faculdade onde se formou em direito, passou no concurso da Polícia Militar aonde ingressou como primeiro-tenente. Com cinco anos de farda o menino de recado voltou ao morro para dizer que a mãe dele já não desce o morro, como ele descia, porque já tem quem o faça.  Quem desce agora é a sua empregada, mas não o morro e sim os 12 andares do prédio onde moram na praia.  Ontem Cirilo voltou, mas desta vez, me pegou de saída e como a visita já era constante eu pedi que entrasse no carro e fosse comigo.  Cirilo estava a paisana, de bata, tipo Tim Maia e uma boina de Reggae enfiada na cabeça. Sandálias de tiras e óculos escuros na cara.  Na mangueira, mais precisamente na rua dos lustres eu subia a caçada para estacionar e como o carona que só ouvia o que eu falava tinha os olhos fixos em dois homens que vinham em nossa direção concluí que parar ali não seria uma boa, por isso arranquei a procura de outro lugar.  Rodei muito enquanto Cirilo, educado como era, me ouvia calado.  Finalmente encontrei uma para estacionar, mas antes de desligar o motor perguntei se ali o lugar era bom.  Cirilo continuava com o mesmo olhar que antes olhava os homens e só então, após cutucá-lo eu descobri que o cachorro estava dormindo.  - Porra, Cirilo!  Perdi uma vaga pertinho da loja aonde eu ia por sua causa!
Na volta uma blitz nos parou numa curva.  Mandou que saíssemos e puséssemos as mãos em cima do carro, mas quando viram o trabuco na cintura do meu amigo a polícia enlouqueceu. Correu todo mundo para trás da viatura e com as armas apontadas para nós um deles começou a gritar para o Cirilo jogar a arma no chão e botar a mão na cabeça.  Cirilo dizia ser o oficial deles, mas ninguém acreditava naquele negrinho que mais parecia um cantor de ‘reggae’ do que outra coisa.   Até que provou o que disse com ameaça de prendê-los.   A turma se desculpou e não fosse a minha intercessão Cirilo os teria posto em cana.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

SANGUE AZUL

   

    Eu tinha uma pintinha nas costas e mesmo que fosse diferente das que já vi nas pessoas em nada me incomodava, muito menos aos dermatologistas. – Ah! Isso não é nada, e não é por ser azul que seria. – diziam os doutores me consolando. – Se existisse alguma dúvida pedia-se a biópsia e pronto, logo se saberia – dizia batendo de leve com a mão no meu ombro. – Que bom, doutor, caso contrário o senhor teria de olhar outra, igualzinha, num lugar nada agradável – respondia para ele sorrindo. – Ah, que nada! Pode dormir sossegado que não é câncer. – completava me olhando sobre o ombro. Com o tempo eu me mudei para o alto da serra de uma cidade agradável, de clima ameno e gente bondosa. Talvez o único lugar no país onde o sistema de saúde funciona de verdade e a prova é que só eu tinha plano de saúde, por isso deixei de usá-lo. Em uma consulta rotineira o clínico me encaminhou a um dermo. Queria que aquela pintinha voltasse a ser examinada. – Ah! Doutor, seus colegas disseram que não era nada que tirasse o meu sono, mas ele, sem me dar ouvido, anotou um endereço e me deu. Dois dias depois a doutora Darci, que até então eu não sabia que era uma mulher, me examinou. Meu Deus! Como vou mostrar a outra pintinha para ela? – me questionava. A doutora pegou um aparelhinho colocou no olho e se debruçou sobre a pinta. Ficou um tempão resmungando com aquilo perto da cara. Depois anotou qualquer coisa na minha ficha – Teu médico fez bem te mandando para cá – ela disse, e concluiu – eu quero uma biópsia da pintinha. – Doutora não faz isso, por favor. Pois se tiver de fazer nessa pinta terá de fazer na outra que eu teria vergonha de lhe amostrar – falei todo cheio de vergonha. – Mas eu quero ver, seu silvioafonso. Mostre-me, por favor! Quem sabe não venha a se tornar outra coisa no futuro – disse a doutora e concluiu: – Agora baixa as calças e me mostre, porque aqui somos médico e paciente e não homem e mulher. – Aí eu baixei. A doutora ajoelhou-se e segurou o falo com as duas mãos e ficou olhando para ele como se fosse a primeira vez que visse uma coisa daquela. Depois foi à mesa e pegou um aparelhinho, que enfiou no olho, para ver o negócio bem mais de pertinho. – Jesus do céu! A doutora com aquele aparelho no olho botava a cara tão perto da pinta que eu tive de prender a respiração com medo do bicho se mexer nas mãos dela. – Eu quero que faça biópsia nessa aqui, também – falou gaguejando. E eu fiz o que a doutora pediu. Fui ao endereço indicado aonde um tal de Darci, que eu achava que fosse um homem, me atenderia e como estava dando aula aos residentes naquele momento  acabei me tornando cobaia para um bando de garotas, recém formadas, que não tirava os olhos do que a doutora lhes mostrava.
E como disse eu já tinha ido a vários dermatologistas e só esse último me pediu a biópsia. Esse médico, quer dizer, essa doutora provou que sua nota, nas provas finais, não foi dez ou não teria suspeitas quanto à cor da pintinha. Um daqueles médicos que disseram que a pinta não era câncer me falou, meses depois da remoção do sinal, que o "nevo azul", como chamam a pinta, não passa de uma alteração benigna da pele que não coloca em risco a vida de ninguém. Por isso, não sugere a remoção, disse ele, mesmo concordando que existem alguns casos em que a células malignas pode surgir no local, mas isso não é comum a não ser quando o "nevo azul" é muito grande ou aumenta de tamanho rapidamente. O que não era o meu caso.

segunda-feira, 29 de março de 2021

VERATRUM.

    

      Estou triste, muito triste com as crianças de hoje em dia e não me perguntem se a culpa é dos pais, da escola, da Internet ou de todo mundo.  Na minha época os pais criavam seus filhos do jeito que eu crio os meus e mesmo que os tempos não sejam os mesmos eu achava que nada havia mudado.  A gente falava para onde ia e a que horas a gente voltava. Hoje elas dizem que estão saindo e vão sem dizer nada além disso. Eu não sei se ficaram mais inteligentes, do que éramos, ou se brincam com a cara da gente.  Elas nos cegam com suas mentiras e o fazem tão bem feito que nem desconfiar do que fazem nós somos capazes.  Os filhos de um amigo, que moram com os pais em um prédio perto do meu, mas passam a maior parte do tempo na minha casa, me pregaram uma peça e não se trata de um dos meninos, mas da irmã mais nova, a coqueluche da família. Foi como se eu tivesse levado um murro no estômago quando tive a péssima ideia de alugar uma dessas cabines onde se paga para ver as garotas tirando a roupa e se exibir para os clientes do outro lado do vidro. Muitos não resistem e relaxam só em olhá-las. Relaxar não foi o motivo que me levou até lá e se fui não foi por outra razão se não conhecer a novidade do bairro em Copacabana.  A mocinha que tirava a roupa na minha frente não tinha mais de 15 anos e mesmo sabendo que para trabalhar num lugar como aquele precisasse, no mínimo, ter 18, eu não podia acreditar naquela verdade. Quanto a garota, era linda, e o pior é que eu a conhecia,  mas nunca reparei nos detalhes. Talvez por isso não quisesse acreditar que a filha de uma família de princípios se prestasse aquele papel.  Ela, e os irmãos, não saíam lá de casa e era para ela que os pais faziam as vontades. Portanto, por dinheiro não era.  Assim que deixei a cabine liguei para os pais perguntando por ela. Disseram que fora com a tia para a casa dela onde passaria mais um fim de semana. Eu fui àquela cabine para conhecer o lugar de que tanto falavam e não para relaxar como os outros e muito menos para ficar do jeito que me encontrava, frustrado e triste.  Como falar com o pai que a filha  tem uma borboleta tatuada nas partes íntimas e atrás uma rosa vermelha?  Como dizer que a menina criada  com tanto amor se mostrava para qualquer um em troca de migalhas, e que tia é essa que a instigava a fazer o que faz com tanta desenvoltura se nem sinal de constrangimento ela dava?
Ontem eu fui ter com eles, mas não ia tocar no assunto até que a menina, assim que  me viu, correu ao meu encontro me dando um abraço e beijando o meu rosto. Olhou para mim, perguntou pelas crianças e ao se soltar dos meus braços pediu-me, num sussurro, que não contasse aos seus pais.  Aquela era a certeza, que eu não tinha, que os clientes eram vistos por elas.  No momento me senti, não caindo do cavalo, mas de um prédio de 30 andares.

segunda-feira, 22 de março de 2021

AÍ, COMO EU ESTAVA CONTANDO

     


     Você diz que eu só falo sacanagem, ou, no mínimo, pensando em coisa parecida. Talvez esteja certa, porque negar não espere porque não vou. Não vou porque a felicidade que encontrei estava exatamente no maravilhoso mundo do faz de conta.  Quanto ao real, ao mundo real, nele os seus habitantes  me levam a crer que a honra não está nos sonhos do homem ou nas fantasias que cria, muito menos no respeito por outras pessoas. Talvez eu até seja um cara doente, na concepção de alguns, e mesmo que tenham certeza, por favor, não me indiquem a um tratamento, pois se o fizerem serão injustos com os que se dizem normais já que pensam, agem e se portam de maneira pior que a minha, como fazem alguns  religiosos. Não aponto à maioria, mas aos que tiram proveito da fé induzindo fiéis a fazer o que envergonharia o pior cafajeste. Jamais me insinuaria diante dessas pobres pessoas e traí-las em nome de Deus, nem pensar. Não sei como dormem com a consciência pesada como a deles. Subjugar  usando cargos ou palavras santas, como fazem alguns, é baixo, vil e só falo porque leio e vejo tevê. Estes sim deveriam ser enfiados em camisa de força e não os que põem cor nas histórias que contam.  Esses belos contadores de histórias, aqueles que não cobram para embarcá-lo em sua nave e viajar pelos sonhos mais coloridos, bonitos e seguro como sonham as mulheres de princípios e as que não têm princípio algum. Parem de pensar que todo tratador de porcos come farelo porque não come, mesmo que suje suas botas. Essa categoria de homem não merece o respeito daqueles que contam histórias. Que falam de fadas e gnomo! De príncipe encantado e sapos apaixonados, como eu falo, e falo sem fugir das verdades, por isso  protagonizo minhas aventuras.  Ninguém nega que 50% do que diz um contador de casos é verdade e os outros 50 também mesmo cobertos de flores ou questionados por quem jamais  fez essa viagem.  Quando o historiador garante que a mocinha se casa com o mocinho e não com o pistoleiro  e o príncipe, que antes do beijo era sapo, se tornará genro do rei, você pode acreditar. Ninguém faz ideia de quanta verdade existe numa história e quantas naqueles que nos apontam o dedo. Portanto, não me tratem por mentiroso porque não sou, quer dizer, muito mentiroso eu não sou e nem para pensar ou só fazer besteira eu vivo. Às vezes eu até faço, não com todos, mas com aquelas pessoas tipo Alice que ao invés de apontar à porta de um sanatório à Lebre e ao Chapeleiro maluco, se entrega totalmente aos que dizem todos além desses dois. 

 


segunda-feira, 1 de março de 2021

BRIZOLINHA

      


        A gente se conheceu numa feira tomando água de coco, mais precisamente na barraca do Zé português, em Copacabana.  Eu ri quando reclamou com o Zé que lhe prometera um coco com muita água, mas deu a ela um coco sem água, praticamente, nenhuma.   O Zé costumava perguntar aos fregueses se queriam o coco com mais água ou com muita "carne"? E como não era adivinho, nem sempre acertava. Com o meu ele também tinha errado,  por isso eu  ri.  Ri da causa e não da consequência, mas ela supôs ser dela que eu estava sorrindo por isso acabei me explicando. Ela riu, me estendeu a mão e falou: –  Meu nome é Neusa.  Neusinha Brizola, como me chamam.  Eu também disse o meu nome e a gente riu junto.  Eu, com ela tentando olhar para dentro do coco e ela por me achar um babaca rindo daquilo.   Hoje Neusinha já não habita entre nós, faleceu há dois dias do meu aniversário em 2011.  Foi duro não vê-la obrigar a turma a cantar parabéns como sempre fazia. Muito duro.  A hepatite complicou seus pulmões e ela, que tinha todos os recursos do mundo, não suportou e se foi. Era chato vê-la fumando aqueles  baseados, principalmente quando dizia que os paraguaios não faziam mal a ninguém.  Hoje eu sinto falta do seu sorriso, dela reclamando do coco com o Zé e até fumando aquelas coisas eu sinto saudade.  Neusinha era da turma do Arpoador, a turma para onde fui levado, mas não frequentava.  Na época, por volta de 1985,  aceitei acompanhá-la a uma festa na Rua Duvivier, pertinho do Copacabana Pálace e o Beco das Garrafas, onde todo mundo cheirava e fumava até que a polícia apareceu e acabou com aquilo. Levou todo mundo para a delegacia, menos ela que foi levada para dentro de um carro preto me puxando pela mão.  No carro estava o motorista, um segurança e seu pai, então governador do Estado que não me queria no carro com ela, mas Neusinha o convenceu a mudar de ideia ou se atirava para fora do veículo que avançava pela avenida Atlântica a toda velocidade.  Eu era o único "careta" que com quem ela saía e por incrível que possa parecer a gente nunca transou.  Nunca toquei nos seus seios ou tentei qualquer coisa com quem, aos olhos dos outros, era tudo menos puta, pelo menos aos meus olhos não era. Talvez por eu não beber, não fumar outra coisa, além de cigarro, não cheirar ou injetar nas minhas veias o que meus heróis morreram injetando é que ela dissesse que acreditava em mim quando falava para os demais.  O meu pai adorava o pai dela como político e eu só dele como pessoa.  Eu já morava em Friburgo quando comprou uma frisa na Marquês de Sapucaí para o desfile daquele ano, mas infelizmente faleceu três meses depois.  O mais interessante é que ela havia me procurado, pelo menos foi o que me falaram, mas como troquei o chip do celular por causa das ligações que vinha recebendo, perdi o contato ou a minha namorada teria assistido, pela primeira vez,  ao carnaval do Rio no melhor lugar ao lado de mim e da minha amiga querida.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

AMIGOS PARA SEMPRE.

 

      Só quem não conhece o meu bom humor pode dizer que eu sou um contador de  vantagem e talvez eu até seja, mas quero lembrar que ninguém sai por aí dizendo das suas mazelas. Eu, por exemplo, não saio, mas tem momento que não dá para segurar e acabo falando. Um dia desses, só para me explicar, o Cagalizo, um amigo dos velhos tempos, me procurou com uma garrafa de vinho embaixo do braço. E para meu azar foi no dia que eu escolhi para descansar e sair da cama tão cedo não estava nos meus planos, mas com ele esmurrando a porta...  Entrou erguendo a garrafa no alto. Enquanto eu fui ao banheiro escovar os dentes ele serviu o vinho e abriu um pacotinho de azeitona que tinha consigo.
– Eu não bebo de manhã e você sabe disso falei p
ara quem me apontando o relógio do microondas dizendo: –  são duas da tarde, meu caro.  Eu não ficava tanto tempo na cama desde quando mamãe me pegava no colo.  Não fosse o maluco querendo derrubar a porta eu ainda estaria dormindo.  Cagalizo ergueu a taça, olhou para mim, e virou de uma só vez.  Em poucos goles esvaziou a garrafa e só então começou a chorar. Ele chorava, enxugava o nariz e reclamava da mulher, dos filhos e até do patrão falou mal. Disse, entre outras coisas, que Deus não gostava dele ou não teria lhe dado uma cruz tão pesada.  Aliás, não só Deus, não gosta de mim como os amigos também não gostam como eu gosto deles – dizia tentando espetar a azeitona fujona com a ponta do palito. Limpou a boca com as costas da mão e se levantou para jogar água na cara.  O constrangedor não foi o desabafo ou o vinho que me fez tomar fora de hora, muito menos a cadeira puxada para o lado da minha e o hálito de bebida com azeitona tão junto da minha cara,  mas aquela mão cheia de dedos escorregando pelo meu ombro quando foi se sentar.    Dizem que eu sou um cara educado, mas não tive como ficar sentado naquele momento. Dei uma desculpa qualquer e fui fazer, não me lembro o quê.  Mas o infeliz foi atrás e sobre meu ombro falou-me tão junto à orelha que um arrepio correu-me da nuca aos calcanhares. Dei um salto para frente (eu disse para frente, viu, senhores faladores?) e gritei com ele.  
– Pô, Cagalizo!  Tu chegas sem avisar, me tiras da cama, me fazes beber e comer na hora que eu não estou a fim, me contas teu passado e o pior, tu queres me dar ou me comer, fala o que tu tens na cabeça, sujeito?  E faças um favor para o seu camada: vás embora e me ligas  assim que lembrares da besteira que vieste fazer com um cara que gosta tanto de ti.
Nunca mais vi o sujeito de quem tanto gostava e devo favores.   

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

VALEU JAPA. VALEU!

    


        Quando vejo um caminhão de mudança parado em frente ao meu prédio eu tremo dos pés à cabeça: seria um novo morador nos brindando com sua chegada ou um velho amigo se afastando do aconchego da gente?  Ontem, para minha tristeza, a senhora do 501 estava de mudança. Ela, o marido e a filha iam morar em São Paulo, aonde eu havia morado em alguns anos da minha vida.  Com certeza que vão fazer falta, principalmente a mulher e a filha. Jamais poderia imaginar que japonês fosse gente tão boa como aquelas duas mulheres. O marido, um sujeito nascido na pobreza de Kamagasaki, era grosseiro com todo mundo. Talvez por conta da infância e da juventude que teve, como me disse a mulher embora tivesse, ele mesmo, falado que iam morar na Liberdade, o bairro mais japonês do Brasil. Meu Deus! O que farei eu,  daqui em diante, quando chegar bêbado de madrugada me apoiando nas paredes sabendo que Mikomy, a única filha daqueles dois, já não estaria mais lá embaixo a minha espera para me arrastar para casa, fazer um café forte e me enfiar embaixo do chuveiro frio?  É claro que eu só sabia porque ela me contava no dia seguinte, e pelo que eu sei, nem dormir comigo eu penso que tivesse dormido e se o fez eu tenho certeza que não fizemos do jeito que ela merece.  A mãe, que diferente do marido era muito risonha, dizia que eu era um bom homem e era pena que vivesse sozinho num momento difícil como esse.  Por isso eu sentia dó de Dona Sheraki.  Ela deve sofrer o  diabo nas mãos daquele gordinho de cara amarrada.  O velhote não permitia que saísse nem para ir à padaria se não fosse acompanhada por ele ou pela filha ao passo que ele fazia até mesmo o que achava errado nos outros.  Foi lembrando desses momentos que subi para tomar uma, ducha, como faço quando volto das caminhadas, mas ao entrar no meu quarto, ainda secando os cabelos, deparo com  Mikomy estirada na minha cama, nua como viera ao mundo, contudo em uma nova edição melhorada.  –  O que você está fazendo pelada na minha cama, sua maluca e o que você fez para entrar aqui na minha casa se a porta estava trancada, posso saber?  –  Estou nua, sim,  mas você também não está vestindo  –  disse com as mãos estendidas para mim.  Mikomy era a melhor amiga que eu já tive na vida e agora, com ela estirada na minha cama puxando o braço eu entrei em parafuso.  Será que eu devia mesmo fazer o que ela parecia ter vindo para fazer sem me arrepender ou era uma boa oportunidade que eu tinha de fazer direito o que bêbado jamais teria feito naquelas circunstância?  De repente aquela seria a última oportunidade que nós teríamos de estar junto e como não havia ninguém por perto nos espionando, nada mais justo que fazer por ela o que ela fez por mim durante todo o tempo que morou a duas portas da minha.   Muitos se despediram de mim e de muitos eu já me despedi, mas nenhum adeus me doeu tanto como quando Mikomy beijou-me a face, enxugou os olhinhos repuxados e embarcou no carro do pai.  

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

BOA NOITE CINDERELA.

     


     Hoje eu estou velho e acabado, mas já tive momentos melhores, pelo menos aos olhos da minha mãe e das garotas que gostavam de homens altos, simpáticos e de boa família.  E modéstia à parte; esse cara sou eu.  Meus amigos também eram bons rapazes ou o pai de um deles não nos teria permitido jogar bola na quadra do seu quintal nos finais de semana.  Muitas vezes D. Alice e o marido, donos da quadra e pai e mãe de dois desses garotos, nos chamou para almoçar. O marido se incumbiria da churrasqueira e ela das outras panelas. Sr. Otávio, pai de Otacílio e Otavinho, tinha o dobro da idade dela e talvez por conta disso, repousasse depois do almoço   D. Alice sentava com a gente enquanto o marido tirava um cochilo. Nunca, essa senhora, deixou de participar da nossa conversa por mais picante que pudesse parecer. Com ela se falava de tudo e qualquer coisa sem que nos apontasse um dedo ou puxasse a nossa orelha por abordarmos determinados assuntos ou pela maneira de discuti-los. Quando Otavinho, seu filho mais novo aniversariou ela fez uma festa, mas devido a chuva incessante a maioria dos convidados não apareceu.  Quando a festa acabou e todos se foram D. Alice nos  deu um suco verde com gosto esquisito, tipo mato triturado com água, açúcar e gelo, para beber e como ninguém disse nada eu também nada disse.  Tomei o meu e ponto final.  A bebida desceu numa boa, pelo menos ninguém se queixou. Infelizmente comigo não funcionou. De repente, assim do nada, me deu um sono tão grande que eu tive de me sentar para não cair e como os filhos já tinham subido para os quartos e deixado a mãe falando o que, certamente já estavam carecas de ouvir, acabei ficando sozinho com ela sentada na minha frente.  Eu estava tão mal que pedi que ligasse para o meu pai me buscar.  Nem bem terminei a frase e perdi os sentidos.  Quando acordei eu estava numa poltrona que ficava num quartinho nos fundos da casa e o pior era que D. Alice estava lá, deitada ao meu lado.  Gente, que mulher maluca! –  Pensei –  e como conseguiu me levar para aquele lugar sem que nos vissem ou será que Sr. Otávio era peça importante naquela engrenagem? Eu já vi muitos casos em que o marido arranjava companhia para a própria mulher.  Quando pensei em me levantar D. Alice se mexeu.  Chegou os lábios, com aquele cheiro gostoso de menta, tão junto da minha boca que não teve um só fio de cabelo que não ficasse de pé.  Certamente  para ter certeza que eu dormia.  Não dormia, mas fingia.  Então ela, com mãos de fada, abriu minha camisa, acariciou os pelos endurecido que nasciam no meu peito,  bolinou com a ponta dos dedos o bico dos meus mamilos arrepiados, desceu a mão além do meu umbigo e lá deixou ficar um bom tempo.  Tempo suficiente para eu ter certeza que pensar e falar sacanagem não é pecado.   Pecado é a pessoa, tantos anos depois, me chamar de safado sem mesmo ter conhecido a coragem de uma bondosa senhora que, com seu marido, nos deixava jogar bola na casa dela.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

HOTEL DAS ESTRELAS

    


     Um dos primeiros empregos que eu tive e talvez o que mais tenha mexido com a minha cabeça foi trabalhar de porteiro num hotel nos Arcos da Lapa, no centro do Rio. As instalações não eram de mau gosto, mas luxo não tinha muito.  Talvez para morar não fosse o mais indicado, apesar de algumas pessoas estarem lá há anos.  A maioria só passava uma noite ou duas por diversos motivos.  De vez em quando aparecia uma garota com namorado fugida de casa, mas no dia seguinte chegava o pai e um policial para buscá-la. Os melhores quartos pertenciam as cortesãs, como os autores de livros gostavam de chamar  as prostitutas, e era com elas que eu conversava quando voltavam das festas cheirando a bebida. De vez em quanto um motorista me chamava para ajudá-lo a tirá-las do táxi, mas para puxá-las escada acima até o quarto nunca aparecia ninguém. Até acompanhá-las ao banho já fui convidado, mas naquele estado eu não me arriscaria perder um emprego que, de certa maneira, pagava a faculdade e me ajudava nas despesas com meus pais.
O dono do hotel era um velho de 69 anos casado com uma garota de 30.  Dizem que ela o ameaçou, caso não parasse de dar em cima das hóspedes, até de abandoná-lo a mulher o ameaçou.  Ela não o queria surrado por maridos ou cafetões furiosos. Devo o meu emprego a essa mulher que afastando o marido da portaria me permitiu assumir seu lugar. Eu só fui selecionado porque era discreto e poderia guardar os segredos do velho, como me pediu logo depois. 
O natal chegou cinco meses depois da minha carteira ser assinada e só então eu tive o prazer de conhecer Dona Alice,  a mulher do patrão.  Ela era bonita e muito se parecia com minha tia,  irmã de mamãe.  Só um pouco mais nova. Tinha uma coisa naquela mulher que me secou a boca quando entrou pela porta e mais seca ficou quando ele nos apresentou.  Aquele sorriso largo abriu qualquer coisa dentro do meu coração. Muitos dizem que eu minto com facilidade, mas juro que estou falando a verdade.  Às vésperas do natal o marido me chamou para jantar com eles, mas como já tinha prometido passar com meus pais, agradeci, mas prometi dar uma passadinha na volta para lhes dar um abraço e avisaria quando estivesse saindo. Só que ninguém apareceu para me receber. Talvez pelo avançado da hora já estivessem dormindo.  Na saída vi um carro estacionando na frente do prédio com D. Alice na direção. Tinha levado o marido ao hospital onde tomava soro naquele momento e só voltou por ter visto, no celular do marido, o WhatsApp que eu havia mandado.  Pensei em ir ao hospital para vê-lo, mas ela não permitiu. Puxou-me para dentro para, em nome da nossa amizade, brindar a confiança que o marido tinha no meu trabalho e em mim.  Ás três da madrugada o celular da moça tocou.  Era do hospital avisando que ele estava melhor e esperava por ela.  A gente se vestiu às pressas e cada um seguiu seu caminho. Não estou mentindo, mas aquele foi um dos melhores natais que eu já passei.  Pena que o marido não aguentasse beber o tanto que diziam beber com as mulheres do meu trabalho. 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

A MALA

         



     Esperei mais de  meia hora por minha mala numa esteira preguiçosa do aeroporto aonde uma velha amiga de blog reside com a família, mas tudo em vão.  Todas chegavam aos pés dos donos, menos a minha velha e surrada mala que eu levava comigo nessas viagens. Seguindo o conselho de uma senhora gordinha que tirava a dela da esteira eu procurei um fiscal.  Moral da história. Minha mala com dois vibradores ultra modernos havia desaparecido como que por encanto.  Eu não sabia como dizer aquilo na recepção até porque fica esquisito um homem de cabelos brancos, como eu, transportar vibradores, um curto e grosso e o outro mais parecendo um extintor de incêndio para carro. Este último era presente para uma amiga espanhola que já me falou que tamanho não é documento.  E como demorasse procurando a palavra para descrever o produto, que não é outra senão "Satisfayer", na língua deles, a atendente decidiu me ajudar.  Ela devia saber do que se tratava ou não me olhava rindo daquele jeito.  Eu disse que o tinha comprado para mim, mas para presentear uma amiga, mas  ela deu de ombros e quando saiu, piscou o olho para uma colega.  E foi assim que eu consegui minha mala de volta, não com tudo o que havia nela porque o strong, que faria a alegria da espanhola, não estava mais lá. Meu Deus do céu, como é que eu ia brigar por um "consolo" se naquela cidade nem gay eu sabia se tinha?  Passei três dias por lá, mais precisamente na casa da minha amiga que vinha me convidando para conhecê-la e a sua família, dos quais eu guardo muito boas lembranças.  O carinho com que me trataram, os passeios que me levaram a fazer e a escola de antropologia onde trabalhou por tantos anos ainda me emocionam toda vez que me lembro.  No dia que voltei para casa uns amigos foram me pegar no aeroporto e como não paravam de rir e muito menos deixavam de jogar piadinhas acabei perguntando o por quê daquela alegria ao que me disseram que em um certo blog alguém pedia pra me avisar que a TAP havia mandado para a família que eu visitei e não para o meu endereço o objeto que tinha sumido da minha mala e como a embalagem deixava ver o que tinha dentro me pediam, encarecidamente,  que eu o retirasse de sua casa o mais rápido possível para não piorar o estrago que vinha fazendo na cabeça das filhas.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

FUNCIONÁRIO NOTA 10

 


     Na hora eu fiquei triste.  Dez minutos depois, confuso. Meia hora mais tarde eufórico e agora me sinto assim, como direi, feliz. É isso.  Eu fiquei muito feliz e vou falar por que.  Era abril e o mundo surfava uma onda sem a menor ideia do tamanho que ficaria meses depois. A ordem era ficar em casa e se possível com a máscara enfiada na cara longe uns dos outros.  Abraço, beijo e até mesmo um aperto de mão, nem pensar.  Por isso adiantei as férias da Vilma, minha empregada, que só retornaria ao trabalho quando a pandemia passasse, mas ela, desobediente como é, veio me procurar duas vezes nos meses de junho e julho, mas não permiti que entrasse para evitar o diabo da tentação.  É duro ver uma empregada com os dotes da minha zanzando dentro de casa.  Já é difícil em dias normais, imagina agora que ando chupando o dedo.  O dedo e o resto da mão, se me faço entender.     
–  Quando precisar de você eu te chamo – falei e saí de perto para não me arrepender do que havia falado.   
Hoje cedo a campainha tocou e para minha surpresa era a mãe dela.  Disse que a filha tinha viajado com o namorado para conhecer os pais dele e enquanto estivesse fora ela, a mãe, viria fazer o trabalho da filha e para evitar qualquer tipo de  constrangimento decidiu me falar. 
Vilma jamais mencionou que fosse filha de alguém como aquela mulher.  Alta, esguia, seios e lábios fartos, (seios nem tanto) pernas longas, como as da filha e generosa quando se curva na frente da gente. Nada havia naquela mulher que justificasse a idade que tinha. 45 anos era muito para uma pessoa com tão bela aparência. Os olhos tinham a beleza da noite e a postura digna de uma rainha.  Aquela pessoa não era para trabalhar em casa de família, principalmente na casa de um velho se ele não admite ter a idade que tem. O risco que se corria era grande, o dela e o meu.  Acho que o meu se tornava maior a partir do momento em que passando por mim esfregou na minha cara as suas peras maduras.  –  Senta aqui, mulher! Vamos conversar –  disse sorrindo pra ela. –  Eu preciso de um café, onde está o pó, posso saber? –  Perguntou com as mãos na cintura.  –  É claro que não – respondi puxando-a para uma cadeira ao meu lado.    
– Sente-se e vamos conversar.  Depois a gente pensa em café –  falei para quem fingia não me ouvir  Acabei eu mesmo fazendo o bendito café com ela nos meus calcanhares.  Quando notamos a confusão que fizemos dentro daquela cozinha começamos a rir.  Ela com as duas mãos na xícara e eu com as duas mãos nas mãos dela.  Conversamos até o almoço ficar pronto.  Depois do lanche da tarde, nós dois, juntos, preparamos a janta.   Dona Wilza não era só a dona de um rosto bonito, como também era dona das pernas que me tiravam o fôlego.  A vontade de pedir que ficasse comigo pelo menos àquele resto de noite esmoreceu  assim que se levantou, esfregou o vestido para tirar o amassado, curvou-se diante de mim e me beijou a face.  Andou até a porta de onde, por cima do ombro, me disse que a partir do dia seguinte serviria o café às 8h em ponto.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A REVANCHE

 


    Tem gente que não tem noção do ridículo ou não mandaria a mulher me chamar para jantar depois de ter se juntado a outros sequelados pra invadir minha casa, me ameaçar de porrada e dar cabo das minhas bebidas. Eu precisei me beliscar pra ter certeza de que não estava sonhando. Será que esse animal já se esqueceu do que fez comigo ainda esses dias?  É claro que eu dei  uma desculpa para não ir, mas com aquela pretinha linda, de pernas exuberantes, cheirando a sabonete na minha frente e falando daquele jeito acabei aceitando.  Depois que fechei a porta foi que a ficha caiu.  E se o marido, aquele covarde, quisesse aprontar de novo comigo?   Meu Deus quantas vezes botei minha vida em jogo permitindo que ela, com medo de ficar sozinha, dormisse na minha casa enquanto o valentão viajava?  Ah, seja o que Deus quiser. Para quem correu os riscos que eu já corri isso é moleza.  Toquei à campainha e uma das convidadas me recebeu. A pretinha tinha ido buscar a mãe, disse a mulher olhando pro dono da casa, e logo estaria de volta. – Ué, a pandemia acabou? – Perguntei pra mim mesmo – me admira muito alguém encher a casa de gente com esse vírus rodando por aí.  Cumprimentei os presentes com um sorriso e me dirigi à janela para atender o celular.  Pedi desculpas ao dono da casa e prometendo voltar dentro de poucos minutos voltei para casa onde a pretinha me esperava na porta. – Meu marido me pediu para te convidar e eu te convidei, mas quem precisa de um abraço, pelo menos nesse momento, sou eu – disse abrindo o berreiro.  Entramos, tomamos um copo de vinho enquanto ela falava. Depois a levei para o quarto para se refazer do choro. Duas horas depois chegávamos a casa dela.  Ela na frente e eu um pouco depois. –  Parece que o senhor usa o mesmo sabonete que usamos aqui em casa, disse o marido. Pelo menos o cheiro é igual.  Qual a marca do seu?, perguntou o covarde. O nome eu não sei. Ganhei de presente naquele dia que vocês foram lá em casa, lembra? – Perguntei com o sorriso da vingança estampado na cara.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

FELIZ ANO NOVO

       


     Quando deu meia noite o povo esqueceu o distanciamento social, as máscaras de proteção e correu para o abraço. Lágrimas, risos, beijos trocados, copo de cerveja e taças de champanhe compartilhados. Branco sorrindo pra negro e filho de pobre brincando com os mais abastados.  Valia tudo na passagem do ano da pandemia e, de certa maneira, eu fiquei com inveja da coragem daquela gente que sem medo de ser feliz festejava a despedida de um ano que parecia não acabar mais.  E tudo aqui embaixo,  no pátio de um prédio na orla do Rio. Meia noite e meia e já não se ouvia os fogos a não ser um aqui e outro acolá enquanto as vozes no pátio já não tinham a mesma euforia. Duas e quarenta da madrugada. O elevador não sobe e não desce, todos se trancam dentro de casa. Cinco horas. Nem uma nuvem no céu da cidade que não dorme, mas cochila como eu diria caso um carro ou outro não cortasse a principal avenida em desabalada carreira.  Faltam dez para às seis. É hora do sol se insinuar por cima do muro, mas banhistas não vai encontrar, só gari lhe dará as costas para queimar. Sete e meia. Café quente aqui dentro como o dia promete lá fora.  Sete e meia.  A praia começa a encher.  Também me dou conta dos carros que deixam o prédio com os incautos voltando pras suas casas para, quem sabe, enlouquecer no dia seguinte quando a ficha cair. Onze horas. Água do macarrão fervendo e um prato na mesa já que não espero ninguém.  Café, de sobremesa, eu não tomo, mas como uma fruta com os olhos na televisão. Olhos que não se sustentam, não por conta da macarronada, mas pelo hábito da sesta de todos os dias.  Às quatorze horas sempre a televisão tem um bom filme na sessão da tarde.  Eu o assisto. Um café, que não tomei no almoço, cai bem e inspira quem o toma para passar o resto do dia. Se for domingo, tem futebol às 16h e depois o Faustão e para encerrar o primeiro dia do novo ano: retrospectiva 2020.  Tudo o que aconteceu é mostrado aqueles que viverão no ano novo o mesmo que viveram no anterior.  Assim foi e assim será o ano na vida de cada um.