segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

PORTA NA CARA.

  
        

     Levantei cedo e como de costume deixei a mesa pronta para o almoço. Num balde de prata, cheio de gelo, coloquei 3 garrafas do melhor champanhe no centro da mesa. Quem sabe aparece alguém para bebê-lo comigo.  Na cabeceira um prato de porcelana, uma taça de cristal, um garfo, uma faca e um guardanapo branco para combinar com a toalha.  Por volta das onze atendi à porta onde as malucas mantinham o dedos enterrados na campainha.  É claro que não olhei no visor porque elas, como sempre, o estariam cobrindo com a mão.  Coloquei na cara um bonito sorriso, arrumei a gola da camisa e abri a porta pra elas. Mas se alguém pensou que havia mulher  vestida de gorro, sandália vermelha e mais nada além disso cobrindo o corpo enganou-se porque não eram mulheres, mas um bando de homens que entrou me empurrando e dizendo coisas que eu não entendia.  Enquanto o mais forte se referia a sua própria mulher os demais me atingiam com tapas e pontapés dos quais nem eu nem sei como pude escapar. A barulhada só terminou quando alguém, com o champanhe na mão, perguntou se o que tinha na garrafa era o que dizia o rótulo ou não.  Antes que eu afirmasse uma rolha espocou e o cara, já sorrindo a essa altura, foi enchendo as taças na medida que iam surgindo.  Taças que eu nem sabia onde as tinha guardado e até que puseram uma na minha mão.  Tive sorte porque o medo já tinha mijado nas minhas calças. 
– Nunca tomei nada igual – Diziam uns aos outros. A conversa girava em torno da bebida quando outras garrafas foram arrumadas no balde. Do assunto que os levou lá em casa ninguém mais se lembrava, mas eu sim, porque o negão que metia o dedo na minha cara era o mesmo que batia na mulher quando transavam, e foi ela quem me falou na noite que dormiu aqui em casa por ter brigado com ele. 
 Quando o último saiu da minha casa, carregado, eu levantei a duras penas e fui limpar a sujeira e como estava de barriga vazia peguei uma fatia do peru e levei o resto de volta pro forno.  Mas pera aí. De onde surgiu esse bicho que nem cogitar comprá-lo eu cogitei?  Certamente trouxeram para justificar o champanhe. 
Nunca tanto homem entrou na minha casa para beber comigo como naquele natal, a não ser acompanhado de suas mulheres, que por sinal nem deram as caras para me livrar do enrosco.  Limpei a sujeita e já ia pro banho quando a campainha voltou a tocar.  O som me arrepiou, por isso me arrastei até à porta na intenção de saber o que pretendiam uma hora daquela.  Do outro lado diziam que eu embriaguei seus maridos, mas não fui homem o bastante  para convidá-las a beber com a gente.(?)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

PRESENTE DE NATAL

 


De março para cá não tenho visto marido,  pai ou namorado cuidando 
da esposa, da  filha ou da namorada como cuidava antes do vírus.  Talvez porque ninguém acreditasse, por mais idiota que fosse, que uma pessoa jovem ou não, solteira ou bem casada, se permitisse ser abraçada, beijada ou mantivesse qualquer tipo de contato por mais encantador que fosse o sujeito, muito menos por um cara que além de morar sozinho e ser um bom tipo, como elas próprias confessam, se arriscariam diante daquelas unhas. Isso deveria rolar na cabeça de cada uma e daqueles com quem moram.  Mas pelo que deixam parecer não é o que acontece ou eu não teria encontrado entre uma almofada e outra do sofá da minha varanda a calcinha vermelha que a empregada, segundo disse a patroa, havia roubado. E não só a calcinha, mas grampos de cabelo e até sutiã pendurado no registro do chuveiro eu já encontrei. Pessoas de ideia fraca como essas, me lembram animais demarcando território. 
Na pia da cozinha há uns copos com marca de batom na borda a espera da empregada  voltar ilesa da quarentena para lavá-los.
Peguei o resultado do meu exame de sangue, felizmente não reagente,  me dando a certeza de não ter contaminado ou de ter sido contaminado por alguém.  É o que me faz ficar preso aqui dentro sabendo que esse tipo de exílio desencadeia males mais sérios a todos, como a morte por tédio ou por solidão.  Pena que eu nada possa fazer em socorro além de permiti-las desabafar no meu ombro a cada vez que necessitarem já que sabem que podem contar com o meu e com algumas palavras de conforto.  As vezes enfiar os dedos em seus cabelos também dá resultado, fora o hálito quente e gostoso ao pé da orelha.  Eu tenho arriscado fazer essas coisas porque até onde eu sei errar é perdoável, mas nunca por omissão.  Morrer eu sei que a gente vai um dia, mas de depressão ninguém aqui dentro morre se nem dormir sozinho eu consigo.  Talvez o amor acabe comigo nas "festas de fim de ano" pois já andam falando que a entrega dos presentes ainda não terminou.
 – Ninguém vai deixar de te dar uma lembrancinha, Sr. Silvioafonso. – Disseram do lado de fora  sabendo que as via no olho mágico, e ouvir o que falavam me enchia a boca d'água porque para elas me aparecerem só de gorrinho vermelho na cabeça e sandália alta nos pés, não custa nada.  A dúvida está no que possam fazer comigo. 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

PUMA DO MEU CORAÇÃO

   

     Comprar uma puma, como se chamava esse carro, era sonho de todos os jovem da minha idade e eu precisei abrir mão de muita coisa para ter o meu.  Esperei mais do que podia para ter a capota arriada e sair a mil atrás das garotas que até então esnobavam o fusca azul pavão que eu tinha.  Antes eram elas que não aceitavam que eu as levassem à Rádio (Mayrink Veiga) onde rolava o programa Hoje é Dia de Rock. Mas depois, com aquele carro fedendo a novo, até as mais metidinhas imploraram por um rolá na caranga ao meu lado.  Valeu me matar trabalhando para nos fins de semana sair atrás de quem nem olhava para onde eu estava.  Não fossem as largadas na pista eu nem saia de casa.  Deixar de sair comigo pra não andar de fusca era sacanagem e olha que o meu era top dos topes, tipo, suspensão rebaixada, tala larga na traseira e escapamento Kadron, que dava a ele caráter esportivo.  Finalmente eu tive como dar um basta naquilo. Chega de mulher feia falando errado e comendo de boca aberta ao meu lado.  Chega de esconder dos meus pais as garotas feiosas com quem eu saía.   Depois do carro novo eu assumi outro patamar, como diz o craque do mais querido. 
Na sexta-feira, quando saí do trabalho, peguei a caranga e toquei para a casa de uma que há muito eu mantinha na alça de mira.
 Vim te buscar para gente ir a um show –  mostrei-lhe os convites, mas ela nem se deu o trabalho de olhar, apenas se desculpou e disse que já tinha compromisso.  Compromisso com Robertinho que tinha carro que não era fusca, certamente.  Eu não entendo essas garotas.  Só porque o cara tem um carrão ela troca um show no Canecão pela murada da praia da Urca. 
 Então tá, depois não me diga que não te chamei.  Atravessei a rua até o carro que ela só viu porque veio bater o portão nos meus calcanhares.  Pulei à porta para dentro do carro e antes de dar a partida escutei uma voz perguntando: 
 Bonito carro, é teu? – Assenti com um gesto. – Não sabia que tinha trocado o fusca.  Olha, pensando bem eu vou aceitar seu convite. Espere um pouquinho que vou me trocar. "Com um carrão desse eu vou até pro inferno" –  ela teria pensado, mas antes de fechar à porta eu gritei para que me ouvisse:
 Ah, que pena... Eu tinha certeza que não sairia com quem anda de fusca. Por isso convidei uma garota que não se importa com essas bobagens.  Desculpa, mas estou indo buscá-la para ver James Brow no Canecão, comigo. Não é sempre que o negão vem dançar e cantar num país como o nosso.  Acenei com dois dedos na testa e saí com a puma cantando pneu.
James Brow veio três vezes ao Brasil e em uma delas eu fui ao Canecão para vê-lo. Brow inspirou ninguém mais, ninguém menos do que Michael Jackson, Toni Tornado, Tim Maia e outros mundo afora, mas infelizmente o Rei do soul  canta e dança só em nossas lembranças.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

UM DIA DE CÃO

    

    O dia era frio e nublado e nada de especial havia acontecido naquela triste terça-feira até o UBER branco do Leonardo parar para uma bela mulher embarcar com a cadelinha.  O motorista era bem falante, razoavelmente vestido e parecia trabalhar naquilo que mais gostava, enquanto a mulher, que se vestia com sobriedade, demonstrava, apesar de ter a graça das jovens da zona sul, estar vivendo o pior momentos daqueles dias. A cadelinha que irradiava felicidade, talvez por não saber para onde a levavam, não parava de lamber a dona e latir para todos lá fora até que a moça atendeu o celular e  o motorista ficou sabendo o motivo da tristeza dos belos olhos azuis.   Leonardo, que não tinha o hábito de ouvir o que diziam no banco de trás, não pôde deixar de escutar o que a dona da cadelinha dizia ao celular.  "Cinco mil e duzentos reais, só a cirurgia e mais um mil e trezentos para os exames e como não dispunha daquela quantia –  dizia ela para alguém do outro lado da linha –  decidiu pagar 500,00 para o veterinário sacrificar a bichinha".
Leonardo, que não teve como não ouvir a conversa, pediu desculpas e se arriscou perguntando se ela daria a cadelinha pra ele, e como a resposta lhe foi favorável, Leonardo deu meia volta e levou a mulher, agora toda sorridente, de volta para casa.  O motorista levou a nova amiguinha à casa de um amigo, que também gostava de bichos, para levá-los à veterinária onde Leonardo pagou 250,00 pela remoção de um nódulo no ovário e mais 120,00 pelos exames.  A bela mulher, coitada, pagaria 500,00 só para sacrificar o pobre animal enquanto Leonardo, com a grandeza de poucos, gastou muito menos para salvá-la da morte.  Leonardo deu novo endereço à cadelinha e até o nome da criatura ele trocou.  A partir daquele momento a felizarda seria chamada de, VIDA.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

NA MESMA MOEDA.


    mão explodiu na cara dela, não por ter olhado, mas por ter sorrido para alguém que tomava chope naquele bar onde os carros param quando fecha o sinal.  Eu não sabia que era casada ou não teria acenado como fazia nas vezes em que ela passava e eu tomava chope com meus amigos e para dizer que eu não fiz nada, saí correndo atrás do carro que acelerou e sumiu antes das porradas que o motorista ia levar.  Senti muito ter causado tudo aquilo e  não poder fazer nada doeu muito mais.  De qualquer forma ficou a certeza deu que o covarde só bateu porque mulher não revida, mas comigo seria diferente, por isso fugiu quando corri atrás dele.  Eu não a conhecia e muito menos sabia o seu endereço porque se soubesse não ia prestar.  Agora estou eu aqui na inauguração do bar do meu amigo tomando o meu chope e quem eu vejo sentado com duas garotas contando vantagem?, o covarde da noite passada.  Eu não podia estragar a festa  do amigo porque poucos, como eu, sabem da luta que travou para abrir esse negócio. Foram anos de trabalho e renúncias e não seria eu, um amigo de infância, que ia estragar tudo, mas ninguém me proibi de tropeçar no garçom e derrubar a bandeja de chope encima do safado, até porque, acidentes acontecem.  E foi o que fiz.  O cara tomou aquele banho e quando quis se encrespar com o garçom eu o segurei pelo músculo, que liga a clavícula ao pescoço, mandei que se calasse e com um sorriso falso nos lábios o levei para se lavar num chuveiro nos fundos do bar.  Peguei o celular que deixou sobre a mesa e com desculpa de levar para ele, eu liguei para aquela que mais se parecia com a mulher que apanhou naquela noite  a quem eu disse onde, com quem e em que estado o deixei naquele momento. Desliguei e joguei o celular na cesta de lixo.  Hoje a gente até com um certo constrangimento recorda a violência com que o marido a tratou, mas se não fosse aquilo eu não a teria nos braços como a tenho nesse momento.  A gente se entende bem porque se revidasse aquela violência a gente não poderia se encontrar uma vez por semana como vem acontecendo.  Isso nos dá a certeza de que violência não se paga com violência, mas com carinho, beijos e muito sexo, como a gente vem fazendo depois que me deparei com o salafrário na inauguração do bar do meu amigo.  Um dia ele vai entender que nem tudo é porrada.  Nesse dia, quem sabe, a gente não sai pra tomar umas cervejas?