segunda-feira, 30 de novembro de 2020

ABRA A SUA QUE EU FECHO A MINHA

 

    Sempre que eu me trocava ela corria pra janela, mas eu era mais rápido e fechava a minha na cara dela. Com o tempo eu me dei conta do babaca que eu estava me tornando, por isso decidi que a partir daquele dia a janela do meu quarto não fechava mais e se quisessem me ver do jeito que vim ao mundo, que vissem.  Eu mal dormia pensando nisso, mas ao perceber que tinha gente na janela eu levantava e escancarava a minha. Depois tirava a roupa  e  calmamente ia pelado pro chuveiro.    Eu não olhava, mas sabia que era visto ou mamãe não me diria pra fechar a janela quando  eu fosse tomar banho.  Como ficou sabendo se eu nunca falei nada? Não satisfeita da fofoca que tinha feito veio a minha casa perguntar por minha mamãe, mas porque tanto trabalho se está careca de saber que mamãe sai cedo pra trabalhar?, e o mais engraçado é que foi entrando como se eu a tivesse convidado.  
– Meu professor de música disse que no natal eu vou tocar com as meninas na banda do colégio.  Ele falou que gosta de como toco os instrumentos, mas prefere que eu toque o clarinete no desfile.  Eu sei que falou isso porque eu não poderia tocar piano ou violoncelo enquanto marcho – falou abrindo a geladeira para olhar o que havia dentro. 
  Você sabia que ele queria me beijar?  Ele tem esse hábito, beijar as garotas que a quem ensina música. 
 E o que você fez pra ele não te beijar? – perguntei. 
– Nada. Não fiz nada – respondeu. –  Deixei que me beijasse. Você já beijou alguém?, – me perguntou. 
– Claro, claro beijei – menti sem olhar para ela. 
 – E como é que se beija?  – perguntou fechando a geladeira. 
 – Ah, sei lá, beijando, ué!, – respondi vermelho como tomate. 
– Beijou nada...  Se beijou me mostra que eu quero ver – disse fechando os olhos e com as mãos para trás. Cheguei perto  e todo atrapalhado dei um selinho nela, mas como era cinco centímetros maior do que eu o beijo pegou no queixo.
– Esse beijo não valeu porque você não beijou direito – disse curvando um pouco mais os joelhos. Desta vez acertei a boca, mas coisa rápida.  
– Você sabe o que um homem e uma mulher fazem quando estão juntos num quarto? – perguntou me olhando sobre um ombro.  
– Claro que sei – respondi enfiando as mãos nos bolsos.  Eles dormem juntos, só isso.  – Falei e ela riu da minha cara.
 – Sabe nada, seu boboca.  Nenhum homem dorme quando se deita com uma mulher – disse se abaixando para olhar dentro do forno do fogão – Eles fazem sexo – concluiu como se soubesse todas as respostas –  se eu falo é porque já vi   ela foi dizendo  Vi meu padrasto fazer com minha mãe porque achavam que eu estava dormindo.  Vou te mostrar como é;  baixa as calças e se deita aí,  nessa poltrona, que eu vou me sentar em cima de você pra te ensinar – disse puxando o zíper do jeans para baixo e caminhando em minha direção. 
 – Não, não vou fazer nada disso que você está mandando, aliás, vá embora!  Vá embora ou eu conto pra minha mãe quando ela chegar... (Botei a garota pra fora batendo à porta atrás dela).   
  Faz mais de 50 anos que tudo isso aconteceu e eu ainda me envergonho quando passo embaixo da janela dela sempre que vou visitar minha mãe. que ainda mora lá. Talvez a maluca já tenha se casado e até filhos formados deve ter.  Eu só espero que as crianças não tenham passado pelo que ela me fez passar quando pequeno.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

PRETA OU BRANCA, QUAL A MELHOR?

 

    Antes que a semana terminasse, um funcionário,   admitido numa loja de departamento no mais importante shopping do Rio de Janeiro, já demonstrara ser bastante eficiente no que lhe davam a fazer.  Celso chegava cedo e saía depois de todo mundo.  Dava a entender que muito cedo assumiria um lugar de destaque na sua carreira.  Suas ideias e empreendimento faziam a diferença.  Durante seis meses foi o “funcionário padrão”.  Em um ano já era uma das mais expressivas figuras do shopping e em menos de dois, gerente. A loja bombava e todos se beneficiavam do resultado até que um casal, que negociava a compra de um aparelho de ar condicionado, foi levado à gerência para discutir um desconto maior.  Quando viu que o gerente era um negro que se levantou com a mão estendida e sorrindo pra ele o marido falou para a mulher que se arrependera da compra e queria ir embora.  Pediu desculpas a funcionaria e saíram. Celso o alcançou ainda dentro da loja e pediu que voltasse para conversar e se o problema fosse o preço discutiriam o assunto. 
– A partir desse momento sou eu quem vai atendê-los – disse o gerente sorrindo.  O homem olhou para a funcionária e perguntou o que teria acontecido para um shopping tão importante permitir que um negro assumisse  função tão relevante,  porque negro, na concepção dele,  no máximo consegue vaga de vigia ou  de zelador num lugar como aquele. Falando em voz alta o casal virou de costas e foi embora. Celso não resistiu e pela primeira vez chorou diante a presença de todos, não pela ofensa feita a sua pessoa ou por vergonha, mas por perceber  que faz tempo o ser humano já vem caminhando  a passos largos por esse perigoso caminho.  
No dia seguinte  os  gerentes do Shopping, todos, o aguardavam no estacionamento segurando cartazes que diziam; – Celso, estamos com você, meu irmão! 
Celso tirou o mundo de suas costas e seguiu para a loja onde os  funcionários esperavam por ele gritando seu nome e cada um com um cartaz onde se lia:  “Antes de você nunca os resultados  da loja nos fizeram tão bem. Obrigado Celso!”

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

SABOR DA BALA

    

    Marcinha ficou sabendo que Mendonça, parceiro que a Academia designou para substituir o detetive Cajado, morto numa incursão, era gente boa, mas só não sabia que além de solteiro era alto, forte e muito, mas muito bonito como constatou quando o marido o levou para jantar com eles.
– Gostei que o tivesse trazido pra jantar – disse Marcinha ao marido ao fechar à porta atrás de si – ele é muito mais agradável do que o falecido Cajado e como conversa bem. Fiquei impressionada.  Pode trazê-lo outras vezes se você quiser.  A propósito, porque não o convida para o churrasco que a gente faz na casa de praia se é tão bacana como demonstrou?
  Peçanha achava que vinha fazer dupla com um maluco que só perdeu o parceiro por sair dando tiro  para todos os lados como disseram, mas estava enganado.  O cara foi morto por imprudência e não por outra razão. Fazer dupla com um policial linha dura era de se ter medo, mas esse, quando tirava a farda, era doce e gentil e ainda por cima  casado com uma mulher tão interessante que até ele, para estar ao lado dela, sairia dando tiros a esmo se fosse preciso.
- Eu gostaria de agradecer o jantar dizendo que depois da minha mãe ninguém deu sabor às receitas tão bem quanto a senhora – Disse com um par de olhos verdes cravados nela que corada, pediu licença e saiu pra cozinha.   O marido levantou o copo e brindou o amigo – Que este seja um dos muitos momentos bons que passaremos juntos.
O jantar rendeu assunto pra muitas conversas entre marido e mulher e num certo momento ela falou ao marido: – Por que não convidá-lo para o churrasco na casa de praia nesse fim de semana?
 A cada encontro a amizade se tornava mais forte, até que surgiu um novo convite;  romper o ano com eles já que Mendonça morava sozinho, mas o rapaz declinou o convite.
– Eu gostaria muito e nem sei como dizer isso, mas não posso aceitar.   Não posso porque esta é a primeira vez que vocês rompem o ano juntos e não vou atrapalhar a lua de mel de vocês – disse com uma certa tristeza.  Mendonça mentiu quando recusou o convite.  É claro que ele queria estar com os dois, pois assim estaria perto da mulher que mexia tanto com os seus sentimentos, mas como mulher de polícia tem gosto de chumbo decidiu ficar longe o máximo que pudesse aguentar, mas não demorou para que o procurassem.
– Quem é? – disse para quem não tirava o dedo da campainha.
– Sou eu, Marcinha,  já esqueceu?  – Mendonça ficou mudo.  Abriu a porta e ela entrou  como se conhecesse o lugar.
– Por que não foi mais lá em casa. A gente também sente saudade, sabia? – Perguntou arrumando o casaco no espaldar da cadeira.  Mendonça, ainda sem fala, fechou a porta, empurrando com o pé e a levou pra cozinha.  Abriu uma cerveja e antes do primeiro gole o celular tocou –  Era o dela, que se desculpou e disse ao desligar –  É meu marido, eu tenho que ir.  Deu um beijo na face e falou antes que a porta fosse fechada – Me espere amanhã que eu volto para terminar a cerveja.  – Foi embora, mas não levou o  casaco.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

TENTE OUTRA VEZ.

    

     Você precisa parar de me seguir porque meu marido já anda desconfiado e se ele me perguntar por que fico nervosa quando preciso ir à rua eu acabo falando e se eu o conheço bem ele não vai quebrar sua cara, mas vai denunciá-lo à polícia. Ah, isso eu sei que ele vai. Já ouviu falar em assédio? Então, cara. Para com isso.  Não estrague sua vida em troca de um caso que você sabe que não vai rolar. Não vou me tornar alvo para os  vizinhos ficarem me apontando e o meu marido, coitado,  não merece que eu faça uma sacanagem dessas com ele.  Está certo que o seu coração não tem nada com isso e talvez nem saiba o que esteja fazendo, mas sua cabeça sabe e não vai dar esse mole.  Eu até vou lhe dar dar um conselho e só o faço porque gosto muito da sua mãe.  –  Por que você não procura alguém da sua idade, alguém com a sua cultura, bonita e que o ame como você diz me amar? Não deve ser tão difícil assim até porque não sou tão maravilhosa assim, como diz.  Eu, além de ter idade pra ser sua mãe, sou casada com uma pessoa muito, mas muito ciumenta mesmo.  Agora, se você acha que consegue calar essa boca quando me vir na janela,  não fazer gracinha quando passar por mim eu já me dou por feliz, mas, se insistir nessa coisa eu acabo pedindo ao meu marido pra gente mudar desse bairro. Aliás, já fiz isso, mas no momento não dá.  A multa da rescisão do contrato está fora do nosso alcance.   Seria bom porque você, livre de mim, arranjaria uma namorada, casaria com ela, teria seus filhos e me deixaria em paz.  Talvez seja difícil esquecer alguém que me diz ter um amor tão grande, mas vou arriscar.  Vou arriscar, mas também vou dizer que se eu não fosse casada teria um imenso prazer em sair com você e nem me importaria pra onde você me levasse, mas infelizmente...
 Qualquer mulher gostaria de poder acordar com um cara grandão, atlético, inteligente e bonito como você ao lado dela.  
Eu gostaria, mas não posso, a não ser que façamos o seguinte, vê se você concorda; a gente sai uma vez, mas só uma ou nada feito.  Vamos para um lugar onde ninguém nos conheça,  bebemos qualquer coisa, conversamos um pouco e se tiver clima a gente dança, porque eu gosto de dançar.  Só tem um problema: nunca mais você me procure, nem pra me dar dinheiro, entendeu? 
Então tá combinado.  Amanhã meu marido vai trabalhar um pouco mais tarde.  Meia hora depois eu desço, te pego na garagem e aí a gente decide onde passar o resto do dia.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

INCONSEQUENTE

 
    Tem gente que faz coisas inacreditáveis quando bebe. No meio do ataque de um vírus que matou muita gente por volta de 2020, meu filho, na época com 21 anos e desempregado por conta da pandemia abusou da bebida com os amigos.  Na volta pra casa colocou no meu carro, que pegou emprestado, uma mulher e uma criança de colo que pediam dinheiro para comer.
– Pai, eu gastei no bar o  que daria pra sustentar essas pessoas durante uns dois dias, mas como o dinheiro acabou eu as trouxe para um banho, o almoço e se o senhor não brigar comigo elas ficam para o jantar.  Depois as levo de volta como falei para ela. Eu fiquei olhando pra cara de quem podia ter quebrado uma garrafa e matado alguém numa briga e, no entanto estava ali, olhando pra mim com cara de salvador da pátria àquela hora da noite.  O que eles poderiam fazer antes do almoço seria jantar, dormir e tomar o café da manhã e não ao contrário como dissera e o pior é que trouxe pra casa gente que nunca vimos na vida.  
– Tudo bem, meu filho.  Faça do jeito que vocês combinaram. E eles fizeram.  Meu filho comeu qualquer coisa e foi se deitar.  A moça fez o mesmo, mas num sofá no canto da sala indicado por mim. No momento eu até pensei em ceder o meu quarto, mas achei melhor não. E naquele sofá, mãe e filha,  passaram o resto da noite.  
Pela manhã o cheiro do café fresco me acordou. Foi quando percebi que a moça já não dormia onde a deixei na noite passada, até pensei que estivesse no quarto com meu filho, mas não, não estava, mas e o cheiro do café, quem o estaria fazendo? Era ela.  A bagunça da noite passada fora desfeita, a louça lavada e a máquina batia o monte de roupa suja que havia no cesto.  Depois que minha mulher voltou a morar com a mãe por conta da doença da velha, aquela foi a primeira vez que alguém fez alguma coisa de bom lá em casa.  Meio dia e meia meu filho acordou.  Tomou um banho e sentou-se para almoçar.  A moça, que também tinha feito a comida, nos olhava com olhos de "chef" a espera dos elogios. E eu elogiei, não para deixá-la contente como ficou,  mas pelo sabor que dera à comida. Pelas nossas contas faltava pouco para irem embora. Restava o lanche da tarde e a janta. Á noite, pelo que constava, passaríamos os dois, eu e o filho, sozinhos, mas não foi o que a sorte nos reservou.  Lanchamos e jantamos o cardápio da moça que nada dizia se não fosse perguntado. A casa continua limpa e cuidada como nos primeiros dias do meu casamento e enquanto a filha da protegida do meu filho crescia, eu ficava mais velho.  Meu filho, que passou a dormir no sofá do canto da sala por ter dado seu quarto para elas, voltou a trabalhar. O tempo passou e hoje, dia três de novembro de 2046 nós quatro, depois dos drinques, vários, que tomamos pela colação de grau da filha da moça,  voltamos a casa trocando as pernas.  Isso mesmo, aquela criança que chegou no colo da mãe depois do meu filho ter enchido a cara com os amigos, lembra? Pois é.  Era ela quem se formava em medicina e por conta disso e pelas consequências de um porre que o meu filho tomou há tantos anos que saí do táxi, com todo mundo rindo da minha cara pelas bobagens que eu continuava falando, para beber com eles o resto da festa.