segunda-feira, 26 de outubro de 2020

O VÍRUS

      

      Antes do coronavírus nos deixar maluco a minha avó já falava sozinha.  Ultimamente a velha vem dando palestra e quando me pega rindo diz que eu sou implicante. – Mas como implicante, vovó, se você fala com quem ninguém vê?!   Vovó fecha a cara, pega a vassoura e me põe pra correr.  
Eu ainda vou descobrir com quem vovó bate boca quando está sozinha, mas pelo que vejo, nem mesmo ela sabe.  Nessas horas meu avô, rindo, gira o dedo na altura da cabeça como quem diz; "maluquice de sua avó, coisa da idade".  Esse negócio da mulher ficar presa com um monte de gente falando no ouvido dela dá nisso.  O homem, esse fica numa boa, mas a mulher... não.  A mulher tem afazeres, e não importa se é domingo ou feriado que ela cai dentro.  Arruma a casa enquanto a turma toma café. Depois vem o almoço e as louças para cuidar. À tarde tem o lanche e a noite o jantar para fazer.  Tudo a tempo e a hora  enquanto os outros se refestelam aos pés da TV. Isso quando não estão  implicando comigo,  como diz a bondosa senhora.  Agora me pergunta se alguém se oferece para lavar um prato, varrer a casa ou tirar à mesa depois de comer, pergunta!  Claro que não e se pergunta é por perguntar ou para atrapalhar quem levanta cedo, faz tudo o que é pra fazer e na hora de dormir muitas vezes o cansaço não deixa.
Esse coronavírus está nos deixando neuróticos. Ontem, no consultório médico uma amiga me disse que o cara que estava sentado ao seu lado teve um acesso de tosse. No mesmo momento um velho, do outro lado da sala,  soltou um baita de um pum.  Me pergunta pra que lado eu corri?   Disse ela.   Pro lado do velho, ora bolas.  Pro lado do flatulento.  É melhor sentir cheiro de podre do que perder o olfato, não é mesmo?   Concluiu ela, sorrindo. 
 Espero que a pandemia passe logo pra gente não pegar o bendito do vírus quando for à caixa pra ver se o auxílio social caiu na conta. Não é nada, não é nada, são 600 reais.  Quer dizer, 110 dólares que o governo, tão generoso, nos dá pra passar o mês inteirinho.  Pena que tenhamos de dormir na fila pra receber u'a senha que dará direito a sacar os trocados. Eu queria muito que tudo mudasse logo depois.  Não que mudasse para a melhor, mas que mudasse de maneira que as gerações futuras pudessem saber que os profissionais da medicina fizeram o que puderam pra salvar minha vida, com o risco da sua e de suas famílias.  Eu espero que a partir daí tudo fique como foi feito para ser e não é.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

RETRATAÇÃO

      

           

       Tem coisa que nós não contamos nem no confessório do papa, mas tem vez que a boca seca, o peito aperta e nós acabamos falando. Foi o que aconteceu comigo, mas só falei porque não cabia em mim de felicidade.  Estava tão feliz com aquelas pessoas que acabei dando com a língua nos dentes.  Na hora nem me dei conta que o pai lia os meus textos, tipo, aqueles que comentam a postagem ou reclama quando não posto.  E não é só comigo que age dessa maneira, mas também com os amigos do filho quando atrasam suas postagens.  Não foi à toa que ficou uma arara lendo o que eu escrevi sobre a ida a casa deles. Eu sei que ele está querendo que eu me retrate, mas sinto muito porque não vai dar.  Não vai dar e eu explico por que.  Foi na visita ao sítio de um velho amigo onde tudo aconteceu, e se melhorar a dor da ferida eu posso assegurar que nem foi comigo que aconteceu, mas com uma pessoa de quem me dou o direito de não dizer o nome. Os meus textos têm por princípio fazer rir ou corar seus leitores e não deixá-los envergonhados como estou no momento.  Não posso e não pedirei desculpa a ninguém, aliás, vou até reclamar pela demora de um novo convite para visitá-los de novo. O lugar é maravilhoso. Um lugar onde o ar é puro e agradável. Agradável como são as pessoas que moram lá.  Pessoas que nos tratam como parte de sua família, que nos mostram o que é melhor de se ver e nos propiciam o que de melhor têm para fazer.  Lá eu passei os melhores três dias da minha vida e principalmente as noites em que ficamos até tarde contando e ouvindo casos.  Casos engraçados e não comentários sobre a vida de quem quer que seja.  Eu ri muito e também fiz rir aqueles que talvez nem rir como riram tem rido ultimamente.  Dormi naquela casa os melhores sonos e até sonhei com fadas de mãos macias e querubins sem pecado e sem juízo.  Antes dessa viagem eu não tinha recebido presente melhor como o que meu amigo me deu.  Sim, porque o convite não foi nada mais, nada menos que um lindo e generoso presente dado por uma pessoa que largou sua casa, seu pai e sua mãe e foi se arriscar numa cidade enorme com o propósito de se formar, como se formou.  Quando fiquei sabendo  que não tinha onde ficar ofereci  minha casa onde ficou tempo suficiente para graduar-se.  Portanto, meu amigo, caso você decida ler este texto ficará sabendo que não será um simples conto da carochinha que ditará o fim daquela amizade, assim como não deixará que o pai, que tanto me honra lendo meus textos, vire as costas para gente. Eu fui infeliz quando deixei de falar que tudo não passou de um sonho.  Um sonho do qual acordei no dia seguinte.  Acordei com os passarinhos no pé de amora cantando para mim.  Isso sim! É real, porque o resto, ah! O resto não passou da minha mais pura invenção.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

SABE TUDO

 

     Pouco tempo ou quase nenhum eu tenho estado com meus netos o que muito me entristece mesmo sabendo que sou totalmente diferente do meu avô que me punha nos seus joelhos para contar histórias, coisa que eu não faço porque eu é que me presto a ouvir os netos contarem as suas. Quando eu tinha a idade deles meu avô me dizia coisas que me arrepiavam os cabelos. Eu ficava com os olhos esbugalhados ouvindo o que ele me contava e já pensando que talvez nem dormisse naquela noite se a história não tivesse um final feliz.  Graças a Deus todas ou a maioria terminava com a criança subindo num galho para escapar à fúria do galo que, por desprezo da galinha pintadinha, corria atrás das crianças pra se vingar.  Isso quando um anjo bom não espantava a mula sem cabeça que vinha procurar seu chapéu no quarto da gente, como vovô tão bem me contava.  Essas histórias me causavam medo e apreensão, mesmo assim eu gostava de ouvi-lo contar, mas meus netos, talvez pelo pouco tempo que ficamos juntos, não se espantam com nada que eu venha a dizer, enquanto eu, ah... eu  morro de rir com o jeito com que contam seus casos, já que saltam, pulam, se jogam e rolam no chão ilustrando as histórias que contam.Eles são tão engraçados que as vezes meu maxilar dói de tanto que rio.  Eu, na idade deles, me sentava nos joelhos do meu saudoso vovô para ouvi-lo contar mais uma e caso medo eu sentisse me agarrava ao seu pescoço enquanto ele sorrindo dava outro andamento à história.  Meus netos não.  Esses se preocupam mais com os gestos, as caras e bocas que fazem contanto suas peripécias do que em ouvir o que talvez eu tivesse para lhes contar, e por pior que possa parecer, eu me borro de rir com a ênfase que dão ao que dizem.  Eu acho que não levo jeito pra ser avô porque o meu criava situações que me deixavam pensar que eu era um garoto prodígio e não aquele bobo que muitas vezes minhas irmãs me chamaram.  Eu, só para dar uma ideia, roubo dos meus netos quando jogo damas, xadrez ou cartas.  Não roubo para desmerecê-los ou dizer que sou melhor do que eles, mas para que entendam que são filhos e netos de um cara que nasceu para ganhar, para vencer no jogo e na vida.  O meu analista me diz que isso não é problema porque problema seria se eu fosse criança e quisesse, com isso, provar que não era. (Que vergonha, meu Deus!)  Crianças, perdoem o vovô, vai!


segunda-feira, 5 de outubro de 2020

UM RIO, UM CIGARRO E, NÓS DOIS.

 

     O sol sumia atrás do morro.  A brisa fresca já varria a pracinha quando ela pousou a procura do que comer. Infelizmente, por falta de chuva, talvez o rio nada tivesse a lhe oferecer.  Um senhor de chapéu de aba larga acomodou-se na outra extremidade do banco  e como não dissesse nada deu-me a impressão de que, para ele, ninguém mais estava ali, além dele.  Com o rabo do olho percebi que tirara o chapéu e o punha no colo. Tirou um cigarro do maço e o acendeu na brasa de um isqueiro de corda. Em seguida aspirou profundamente a fumaça que assoprou as golfadas para o alto. Bateu a cinza, olhou a brasa e sem se virar perguntou se eu morava ali perto.  Diante da negativa o idoso começou a falar.  Primeiro dizendo que os filhos não tinham vingado como ele queria.  Reclamou da mulher que ele dizia ser cúmplice dos filhos e por fim desandou a falar mal do governo.  Não do atual, mas de todos.  Disse que era filho de imigrante, que trabalhou mais do que talvez fosse necessário para ser promovido a um cargo melhor e não foi ao passo que político, depois de quatro anos de mandato, fazendo ou não fazendo algo que prestasse, se aposenta com todos os direitos, quer dizer, com direito ao que verdadeiramente não teria direito algum se o país fosse sério, disse-me ele.  Eu assentia com leves movimentos de cabeça a tudo o que o velho dizia enquanto assoprava a fumaça, ora para o alto, ora envolvendo as palavras que me dizia. Disse que o povo, em contrapartida, sonegava impostos e  fraudava, quando dava, tudo o que podia.  Na minha terra é que era bom, como dizia meu pai, mas precisamos fugir por conta da guerra.  Infelizmente viemos para um lugar onde a guerra também é grande e a fome ainda maior. Infelizmente meu pai escolheu a terra errada e nos trouxe pra ela. Durante meia hora ouvi  as lamúrias de alguém que além de um leve sorriso nada mais teve de mim que o incentivasse a continuar protestando. Esmagou a bituca de cigarro embaixo do tênis, ajeitou o chapéu na cabeça  e se levantou.  Olhou para o céu ainda a tempo de ver a garça voando pra casa.   Cuspiu o amargo que o fumo lhe deixara e sem  despedir-se voltou pelo mesmo caminho sem se dar conta que falou por tanto tempo com um burro, ou quem sabe, com um gênio que como ele passava por ali simplesmente.  É pena que esse tipo de gente habite o mesmo mundo  que os esperançosos lutam para melhorar, para que deixe, definitivamente, de ser um terreno baldio.  Aquele em que nada floresce quando se planta e nada se come se por ventura florescer.