segunda-feira, 28 de setembro de 2020

A DONA DA FESTA

     

         O homem é um bicho muito engraçado, disse pra si mesma.  O amigo do meu pai, por exemplo, corre atrás da minha convidada ao invés de me lamber os pés como vivia prometendo caso lhe desse um dedinho que fosse de prosa. É claro que a festa era um pretexto para trazê-lo aqui para casa e mesmo sabendo que o plantão no hospital o impossibilitaria de vir eu pedi ao meu pai que o convidasse para me dar um abraço, pelo menos.  Eu precisava saber por que as garotas falavam maravilhas a seu respeito.  E ele veio. Veio pra correr atrás da vagabunda na primeira oportunidade, e o pior é que levou meu champanhe pra brindar sei lá o quê.  Mas,  por que à garagem se tinha espaço aqui para conversar? Sim, porque foi lá que encontrei a garrafa e as taças num canto. Será que rolou algo mais e só eu não fiquei sabendo?  Bem feito pra mim se rolou, quem mandou bancar a gostosa.  Agora é ele quem me esnoba com aquele olhar, irresistível, de cafajeste.  Quer dizer, irresistível pra outras, porque eu não estou nem aí, para ele.  Ou será que estou? Mas, gente, pensa comigo; não é por  ser um cara lindo e experiente que eu ia me jogar de joelhos.  Já chega o que falam de mim por aí.  A droga é que ninguém consegue esperar e se a gente não dá na hora depois não querem mais. Bem feito, mesmo.  Agora que eu estava afim...  Ah que vontade de matar o desgraçado.  Tempo pra vir me dar um abraço não tinha, mas pra essa sirigaita teve o resto da noite.  E eu pensando que o papo entre eles fosse inocente, mas quando dei pela coisa já tinham esvaziado a garrafa. Acho que se aproveitou da festa e do carro na garagem para fazer atrás dele o que eu é que deveria estar fazendo. Ah, se eu pego esses dois naquela hora...  Se pego eu os matava.  Juro que matava.  Felizmente a sirigaita não mora por aqui e a essas horas já deve ter viajado de volta.  Hoje cedo falei pra irmã dele que precisava lhe falar, mas tinha de ser aqui em casa.   Vesti um shortinho apertado e essa blusinha que um dia me falou que combinava comigo.  A droga é que meus peitos não param aqui dentro e quando ele chegar, se chegar, vou fazer tudo para ele notar.  Tomara que meu pai não venha dormir aqui hoje, pelo menos me disse que não, que não vinha.  Estou tranquila quanto ao que pode acontecer e se acontecer não será como tem sido com os outros.  Primeiro vou provocá-lo ao máximo e se ele não fizer do jeito que eu quero ele pode ir embora, mas não sem antes, claro, fazer um pouquinho, mas só um pouquinho de tudo aquilo que dizem que ele sabe fazer de melhor.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O CASAMENTO DE SANTINHA



     Meu avô tinha onze filhos. Cinco homens e seis mulheres que trabalhavam na roça com ele, menos vovó que cuidava da casa e da boia do pessoal. Vovô era a melhor pessoa do mundo, pelo menos pra mim, porque para os filhos era um tirano, como diziam, e fora os domingos, quando podiam ir à missa e passear pela cidade, ninguém saía para lugar nenhum.  E assim foi com o casamento de Santinha, filha de um colono, que por ser num dia de semana ninguém lá de casa poderia comparecer. Vovô nunca voltou atrás quando dava a palavra por isso só restava dormir.  Assopraram as lamparinas, rezamos, como vovó nos pedia,  e fomos pra cama.   Eu até sonhava com um montão de garotos tomando banho no rio comigo quando alguém me acordou forçando a janela.  Meu Deus, o que seria isso? –  perguntei ao medo que eu estava sentindo.  Será que é o bicho que mamãe vivia dizendo que vinha me pegar se eu não me comportasse direito?, mas eu não estava fazendo nada, só estava sonhando...  Tapei a cabeça e fiquei quietinho pra não ser descoberto por ele e assim permaneci a maior parte da madrugada até que forçaram a janela mais uma vez.  Será que o bicho voltou para me pegar, mas se vai me pegar por que a teria fechado com o trinco?  Ninguém me respondia até que o meu tio tossiu. Ufa, que alívio!  Acho que meu tio espantou o danado e graças a ele, que é corajoso e forte, eu posso dormir sossegado. De repente, assim do nada, um cheiro forte de álcool invadiu o quarto da gente.  Foi bom porque assim titio não ia perceber o que eu tinha feito nas calças.
De manhã, pelo menos na mesa do café, meu tio não disse nada.  Nem do barulho e muito menos do cheiro.  Eu, claro, nem toquei no assunto.  Titio gostava muito de mim, por isso acabei confessando o medo que eu tinha sentido naquela noite.  Meu tio riu muito.  Riu tanto que eu acabei rindo com ele.  Depois me contou que tinha esperado que todos dormissem para saltar a janela e sair.  Sim, porque titio, segundo me contou, não ia perder uma festa daquelas até porque não era todo dia que alguém se casava naquele distrito.  Meu tio era muito esperto o que me enchia de orgulho. Acho que só cresci para ficar igual a ele.  E até acho que fiquei.  Pena que moro no quinto andar e a janela do quarto não dê para a  Rua, como a dele.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

O AVARENTO.

          

     Há meses não sabia do amigo, que segundo diziam,  não se envergonhava de puxar o meu saco e como há muito não sabia dele, resolvi ir à sua casa onde a empregada corria pra pegar o ônibus, mas me falou que seu Antônio  não se encontrava.  Eu já tinha ligado o carro quando alguém falou que eu não podia ir embora sem falar com ela. Aí eu abri aquele sorriso e entrei na casa do amigo ausente.
Entrei para ganhar um abraço e dois beijinhos da mulher dele. 
– Vou fazer um café, sente aí ou vem pra cozinha conversar comigo enquanto esquento a água – disse pondo a chaleira embaixo da torneira.
Marlene estava arrumada  e com o marido e a  empregada fora de casa achei que fosse sair.
– Não, não vou não, e mesmo que precisasse eu não ia. Faz tempo que a gente não conversa.  Eu não ia perder essa oportunidade de saber das coisas e de você.  Como tem passado, por onde tem andado? – disse me estendendo a xícara e se sentando na poltrona a minha frente.  - Ultimamente estou me cuidando mais.  Chega de andar esculhambada.  Agora eu vou ao salão, compro as roupas que gosto e até a praia eu tenho ido sem precisar pedir.  Coisa que antes eu jamais pensaria.  Não sou  mais aquela boboca de antigamente.  Antes era tudo com ele, com aquele mão de porco – disse fazendo careta.  Sorri com a maneira que falou do marido.
O dia acabou e o meu amigo não apareceu.  Então me levantei dizendo que  ia embora.
– Não senhor, tu não vai sair daqui sem falar com ele, não.  Já que ficou tanto tempo, não custa esperar um pouquinho mais – disse com a mão no meu joelho e concluiu mordendo o lábio inferior – Se você soubesse a metade da missa não me falava que ia embora.
Onze horas e nada do marido dela aparecer.
  Desculpa, mas não dá mais pra esperar.  Está tarde e eu ainda tenho um longo trecho pela frente. 
– Tá legal, vou  te deixar ir embora, mas sabia que seu amigo arranjou outra família?  Tu sabias que nem sempre vem dormir em casa, que fica mais com a outra do que aqui, comigo e ainda tem a cara de pau de falar que estava trabalhando?  Que trabalho é esse, gente! Antes eu quebrava o pau, mas agora nem falar  falo mais.  Não vou criar rugas na cara se ele paga as contas os cartões de crédito e ainda por cima não enche o meu saco.  Pronto, falei.   Agora, se quiser ir embora pode ir, mas olha,  a minha cama é grande e cabe você inteirinho nela.  A toalha continua na porta do boxe e os chinelos embaixo da cama. 
– Não me diga uma coisa dessas, Marlene!   Como deixaram chegar  nesse ponto?... A propósito, onde eu deixo a roupa, no quarto ou nos cabides do banheiro?

VIÚVO É QUEM MORRE

 



– Meus pêsames, Marieta. Fiquei muito triste com a morte do seu marido. De que morreu ele, mesmo? Me conta.
– Quem te falou que era meu marido? Nada disso, eu sou viúva, esqueceu? Ele só morava lá em casa, quer dizer, na oficina, só isso.
– Mas a gente via vocês sempre juntos, principalmente a noite e pelo que diz todo mundo até dormir juntos vocês dormiam.
– Não é bem assim, não. Ele, como todo mundo sabe, é mecânico, quer dizer, era mecânico e desde a morte do meu marido que a oficina estava fechada. Quando o Paulão me pediu para alugar eu aluguei, mas não sabia que ele ia dormir lá.
– Mas dizem as más línguas que já o viram entrar e sair da sua casa em altas madrugadas.
– De fato ele tinha essa mania. Vivia querendo entrar lá em casa, mas eu nunca deixei, até que um dia me convenceu e a idiota aqui acabou permitindo. Não uma vez só, como ele disse que seria, mas muitas, contra a minha vontade é claro. Enquanto entrava pela porta da frente, tudo bem, mas se eu não estivesse afim e deixasse ela trancada ele ficava brabo. Um dia, quando viu que eu não ia deixá-lo entrar, como vinha deixando, o danado resolveu forçar a janela. Doeu muito o que ele fez porque estragou o fecho e as dobradiças, por isso decidi, dali pra frente, deixar a porta sempre aberta, mesmo assim volta e meia o safado me forçava a janela até que entrou. Chegou ao ponto de entrar pela porta, ficar lá dentro algum tempo e depois sair pra voltar pela janela que ele já tinha esculhambado. Como eu disse, no princípio aquilo me doeu muito, mas com o tempo acabei acostumando e quando ele não fazia essas coisas eu até achava que já tinha desistido daquelas maluquices. Anteontem ele entrou, como fazia todas as noites, e ficou muito tempo lá dentro, depois saiu. Saiu pra voltar forçando a bendita da janela. Na noite em que ele arrombou o negócio eu fiquei mal à beça, mas depois mandei consertar e ficou tudo bem. O sujeito levou a maluquice tão a sério que entrar pela porta já não bastava. Tinha de sair para entrar novamente, mas pela janela. Dizia que entrar por lugar apertado aumentava o prazer. Vai entender a cabeça desses doidos. Pois é. Ele já estava lá dentro, mas resolveu sair pra se enfiar por onde não devia. Forçou, forçou e acabou enfiando a metade do corpo pra dentro e quando começou a gemer, o que era normal naquele negão, eu pensei que estivesse acabando com a aquela doideira. O pior é que estava. Acabou com a maluquice, com a forçação de barra e com a vida da gente. Ele porque caiu durinho em cima de mim e eu porque perdi o inquilino. Caiu durinho não. Eu quis dizer que caiu mole em cima de mim. Duro ele ficou depois que esfriou. – Explicou a moça chorosa. – Ah, tá. Entendi. – Respondeu ele já se levantando e concluiu – De qualquer maneira, meus pêsames. Posso espalhar que a senhora está alugando a oficina?

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

FÉRIAS NA FAZENDA.


   
    Minha mãe não sabia o que eu via de interessante num lugar atrasado onde o povo falava errado, tudo era longe e não tinha meninos com quem brincasse.  Minha avó também não sabia se era por amor a eles que duas vezes por ano eu aparecia por lá.  Eu jamais diria que era por conta do carinho e das balas que minhas tias me davam, coisa que mamãe jamais faria porque "bala estraga os dentes", como dizia.  Quando eu chegava era uma grande alegria, pelo menos da parte das minhas tias, que ficavam toda assanhadas.  Era sempre a mesma coisa, meu sobrinho querido pra cá.  Meu sobrinho querido pra lá e toma de ir à venda comprar bala, pirulito e chiclete.  Gente, como eu era feliz com aquilo.  Minhas tias compravam sempre no mesmo lugar, com Didingo, o filho do dono do estabelecimento que me pedia pra não deixar ninguém entrar enquanto mostrava  as novidades pra minha tia.  Muitas vezes me perguntei se titia era tão esquecida assim que  Didingo tivesse de mostrar as mesmas coisas pra Ela?.  Pra ela e pras outras que lá iam com a mesma desculpa.  Um dia eu estava todo feliz contando as balas que titia tinha comprado quando  um cachorro veio em minha direção e pra não ser mordido eu corri procurando por ela que, coitada, nada poderia fazer se  Didingo, aquele malvado,  estava em cima dela dizendo coisas tão feias que titia chorava  com ele agarrado à suas costas.  Se não fosse o medo do cachorro eu nem sei o que faria com Didingo naquele momento.  Aonde já se viu tratar  freguês daquele jeito?!  O pior é que no outro dia ela  queria voltar e só não voltou porque tinha brigado comigo e eu não quis ir.  Ela disse que eu não podia ter entrado sem avisar, por isso falou feio daquele jeito.  Parece até que eu era culpado do Didingo fazer com ela a maldade que fez.   Eu nunca vi minha tia tão zangada como naquele dia e o pior é que no dia seguinte ela queria voltar lá e só não voltou porque eu não quis ir.  Não fui com ela, mas fui com a irmã mais velha que pagou um monte de bala pra mim enquanto o Didingo, depois de piscar um olho pra mim como quem diz; “deixa comigo, menino.  Deixa que serei mais educado”. E entrou com ela pra mostrar as novidades, mas dessa vez eram muitas ou não demorariam tanto lá dentro.  Todo dia eu saía com elas, não com todas ao mesmo tempo e se eu morasse lá, com elas, a minha barriga teria crescido de tanta bala que Didingo deixava a gente chupar.