sexta-feira, 31 de julho de 2020

GRANDE E BONITO.


      Por favor, não me forcem falar sobre o que fizemos no banheiro da escola na festa de formatura e por que a mãe da garota se humilhou até receber o que a filha achava que era só dela.  Não gosto nem de lembrar do que fiz com a mãe na frente das tias sob ameaça de ser denunciado por estupro de vulnerável.  Gente, a mãe  tinha 35 anos, a filha 15 e eu quatorze, uma criança... mas não quero tocar mais no assunto. Então por favor não me obriguem a falar naquilo que me envergonha. Agora, se elas achavam que repetindo a cena com a mãe no papel da filha me deixava sem jeito acertaram, mas na época só botou gás no meu balão e graças a isso voei por lugares onde poucos conseguiram.  Comi o que pouquíssimos tiveram chance e bebi na fonte o que a minoria dos puros e santos beberam depois de anos morrendo de sede.  Não tenho orgulho do que fiz no passado, não desmerecendo as mulheres que constam das minhas lembranças e que, por sinal, se gabam de terem a mim na lembrança delas ou não me ligavam como ligam a cada piscada.  Estas, por sinal, sentem-se honradas com tais lembranças, que eu acredito ser a razão da alegria que têm.  Pelo menos é o que à boca maldita me fala.
 Mas como disse, não quero tocar mais no assunto e mesmo que me forcem eu nada direi. Há dias encontrei com a primeira empregada da minha mãe.  Nem me lembrava mais da mulher que além de engordar já não tinha o mesmo brilho no olhar.  Eu tinha 18 anos mais ou menos e ela uns 20.  Meu Deus que fogo.  Não, não me refiro a ela, mas a mim.  Se eu não tivesse pedido pra não tocar mais no assunto eu diria que ela achava que tinha me induzido às sacanagens da vida quando na verdade fui eu quem armou para que ela o fizesse.  No dia que mamãe foi ao médico fui eu quem deixou a porta do banheiro aberta e só depois do banho gritei, para quem me espreitava, que trouxesse a toalha.  Foi quando ela soube o porquê do meu pé ter o tamanho que tem.  Eu também poderia contar que mamãe abrigou a inquilina, uma bela mulher de 30 anos, que depois de brigar com o marido de 25, foi dormir lá em casa até que as coisas melhorassem entre eles.  Ah, meu Deus, como esquecer da mulher invadindo meu quarto com o dedo nos lábios pedindo silêncio? Enfim... nada direi porque promessa é para ser paga e pago aquelas que faço, mesmo que custe a mim ser chamado de mentiroso.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

MÃO NA RODA.


     Por sonhar com a possibilidade de um dia me encontrar com a gostosa do 615 a sós para um papo descontraído e quem sabe convidá-la para um café, um pedaço de bolo de milho, essas coisas que dizem que ninguém faz melhor do que eu.  A ideia de vê-la sorrir jogando o cabelo pra trás como fazia pra chamar atenção dos caras no bar perto de casa não me saía do pensamento.    Por isso perdi a cabeça e esvaziei o pneu do seu carro e tal qual um meliante me escondi dentro do meu.  Ela ficou uma arara.  Chutou o vento, falou palavrão e até me dirigiu a palavras, coisa que jamais tentaria não fosse provocada. 
– Poxa, logo agora, que estou atrasada – disse dando tapas no carro.
– Algum problema com o carro, dona Olivia? – Falei com cara de bobo.
– Claro né? E logo agora que estou atrasada me acontece uma coisa dessas.  O senhor me ajuda a trocar essa coisa? – Disse fingindo um sorriso.
– Ah, sim, claro que sim.  Abra o porta-malas que eu pego o estepe.
Enquanto desenroscava o parafuso para soltá-lo afrouxei  sua válvula deixando o ar escapar.
– Acho que hoje a senhora não vai passear – disse olhando aquela cara bonita.  Tanto um quanto o  estepe estão vazios a não ser que te empreste  o meu, mas tem que me prometer que vai tomar café comigo quando voltar – falei sem olhar pros olhos dela.
– O senhor faria isso?  Tenho um compromisso e não posso faltar, mas aceito o café quando trouxer o pneu –  disse mostrando a simetria do branco dos dentes.
– Sim, claro, claro.  Combinado.  Quando chegar me chama lá em casa.
Dei um jeito na casa e fiquei esperando.  Antes das 11h a campainha tocou. De um salto cheguei à porta e fiquei esperando um segundo toque e só então atendi.
 – Oh, é a senhora, entra.  Fique a vontade.  Aceita uma água ou quer mesmo tomar o café que falei? Também posso fazer um refresco.  Dizem que o de pitanga é o melhor que já tiveram notícia – falei para aquilo tudo de pé a um metro e meio de mim.
– É muita bondade sua, mas ainda vou almoçar.  Deixa para depois, mas água eu aceito.
– Senta um pouquinho, eu já volto.  Está fresquinha – falei estendendo o copo pra ela.
– Olívia, desculpe tratá-la assim, mas preciso te confessar uma coisa – falei ajoelhando ao seu lado. Desde o dia em que a vi eu não durmo direito.  Minhas noites têm sido de insônia pensando em você. Acredito que saiba que só vim morar nesse prédio para me sentir perto de você, pra sentir seu perfume se passasse por mim e quem sabe não me desse um sorriso?  Felizmente esse dia chegou pena não ser do jeito que eu tinha pensado, mas não vou reclamar se a tenho sorrindo agora ao meu lado.  Desculpe, mas há muito você brinca no rol do meu coração que, coitado, já não tem a juventude dos bons tempos para certas emoções.   Almoça comigo eu te peço.  Atende esse cara que além de não ter com quem conversar tem um amor muito grande guardado pra dar.
Olivia aceitou ficar para  o almoço que desta vez não fui eu quem o fez, mas o chefe do restaurante onde levo as melhores pessoas quando as encontro.
Depois da sobremesa ela beijou-me a face, agradeceu pelo que achou que tivesse feito e partiu prometendo voltar.  Eu sabia que não voltava, que a caça fugia a  minha esparrela.  Tarde da noite acordei com a campainha tocando. Saltei da cama e antes de calçar os chinelos me dei conta do sonho que tive com ela.  Voltei a deitar, mas virei o travesseiro na esperança que sonhasse comigo.


sexta-feira, 24 de julho de 2020

FOLHAS AO VENTO.


     Eu não escrevo para ensinar português se nem tão bom aluno eu fui, e se escrevo,  e escrevo muito por sinal, é por gostar de rabiscar sobre as coisas que eu penso, que me contam ou aquelas que me interessam falar mesmo que não leiam com os olhos que eu gostaria. Na minha página eu recebo diversos tipos de comentários e felizmente nem todos têm um dedo apontando pra minha cara, talvez por achar engraçado me ver escrevendo aquelas bobagens.  Deles eu publico tudo  que valoriza meu tempo curvado sobre o teclado de um computador,  ao passo que dos outros e  principalmente dos que se escondem no anonimato para me ofender eu nada publico, mas também não descarto.  Com eles, tirando a ofensa e os palavrões, eu aprendo a cada postagem.   Agradeço, se é que eu posso, a quem me diz palavras tão belas que em muitos momentos me levam às lágrimas.  Também agradeço a quem me inspira com seus comentários, mesmo querendo que eu morra e vá pro inferno.  Gente,  eu não sou exceção dentre aqueles que se expõem, que dão a cara à tapas como Catiaho e outras que se queixam comigo através de e-mail. Essas pessoas também são apedrejadas, ofendidas e mal pagas e nem por isso desistem como eu não desisto.  Tem momento que riem da gente, que falam da gente tentando nos derrubar como o vento faz com as folhas.  Não quero dizer que somos melhores por pertencer a classe das flores,  as mesmas que o vento beija e acolhe nos braços, mas  só perfume ele leva consigo.  
E pra terminar eu quero dizer que ninguém vence só com aplausos ou desiste com vaias.  Os grandes espetáculos sofreram todo tipo de crítica e venceram e não foi por seus diretores sentarem de frente pro palco, mas por observar a plateia, por sentar com os olhos nos olhos do espectador.  E é assim que a gente tem agindo por tanto tempo; sorrindo com os aplausos e refletindo, ao invés de chorar, com o barulho das vaias.  Estas são o mote, a trilha por onde dramaturgos renomados  caminharam pra chegar onde chegaram. 

segunda-feira, 20 de julho de 2020

GENTE BOA




      Todo mundo já fez besteira na vida, mas ninguém fez pior do que eu.  Foi há poucos dias exaltando a bondade do carioca numa rádio local e só depois  do que falei me dei conta do tamanho da besteira.  Quer dizer, de ter falado que um bando de rapazes e moças indo à casa dos idosos se oferecendo para fazer compra no mercado ou pagar uma conta no banco pra eles. Só depois me toquei que ninguém tinha me procurado até então pra nada disso e não fossem meus filhos me telefonar ninguém saberia de mim.  Depois que a entrevista foi ao ar o interfone e a campainha não parou mais de tocar.  Era vizinho se oferecendo para lavar o cachorro – que nem tenho - fazer a barba – que há 120 dias não faço mais e  outras possibilidades. 
No princípio foi muito legal, mas depois foi enchendo.  Ler um livro, comer na cozinha ou ir ao banheiro sozinho já não era possível e mesmo que a casa, até então solitária e triste, estivesse abarrotada de mulher de shortinho apertado e camiseta amarrada na cintura, saia curta mostrando as coxas afim de me agradar eu não estava feliz. Pô, gente.  Nem abrir a tampa do vaso em paz eu abria sem achar que dentro tinha uma mulher me olhando... E quando vinha o marido falando bobagem, tipo, futebol ou reclamando de suas mulheres?  Ontem, eu não sei onde estava com a cabeça, atendi o interfone com voz de quem comeu um pote de mel e deu no que deu. 

 O senhor está me estranhando, seu silvioafonso? – Disse o negão do 609 que recebe uma baixinha  no apartamento de vez em quando.  A mesma que se eu não expulso fica pra dormir. Um dia desses, saindo do meu quarto,   teria dito, baixinho,  que o meu era bem maior que o dele, do amante do 609.   Na hora fiquei até meio sem jeito, mas depois, pensando melhor,   descobri  que era do quarto que ela falava.  De fato os quartos do último andar são bem menores comparado aos de mais.  No terceiro dia o saco já estava cheio.  Hoje pela manhã, por exemplo,  atendi o interfone tocando na minha cabeça, e pensando que fosse o negão,  acabei  tratando mal a mulher  do síndico que vive me pedindo pra botar aquele carro enorme na vaga dela.  Pô, Dona Sissi, toda hora me chamando pra meter essa coisa tão grande num buraco apertadinho como esse? Por que não troca de vaga, Dona Sissi? Fala com seu marido, quem sabe não te arranja uma do tamanho da minha – me deu vontade de falar.  Mas achei melhor não.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

HELENA X VILMA.

    
    Pequei por palavras e obras, não nego. Pequei mas não me apontarão às portas do inferno por conta de algo que fiz com a inocência de uma criança de colo e não premeditado a ponto de ter o caldeirão por mortalha.  Como poderia prever que Helena me contasse uma história que durasse até a hora do almoço? Certamente  Helena deixou escapar que ultimamente tenho eu mesmo preparado minha comida e quase nunca saio à rua, principalmente para comer, se o prefeito deixasse, e dormir aqui então... como saber se a convidasse ela aceitava, como aceitou? Fiz isso sim, mas fiz por fraqueza  da minha parte e ela também nada fez para impedir-me de convidá-la.  Não estou falando da Vilma, mas dessa feiticeira bendita a quem Deus na sua santa misericórdia haverá de abençoar com a sua bondade.  Nosso senhor, por exemplo, pediu vinho para o almoço com seus fiéis camaradas e eu, pobre diabo que sou, tomei cerveja com quem, gentil pra caramba, veio pra me fazer companhia o que não devia ser motivo pra Vilma vir a minha casa jogar tudo isso na minha cara e muito menos de sair espalhando que sou um velho metido a garotão, mas, no fundo no fundo não sou nem um terço daquilo que Helena falou.  Mesmo assim a perdoo assim como a  Vilma pela propaganda que fez do artigo sem pedir nada em troca.  Perdoá-la não tira de mim os pecados a não ser aquele que cometi falando, no blog, da minha felicidade por ter tido alguém tão linda e gentil dividindo o espaço da mesa comigo. Eu já estava cansado de ter que comer sem ninguém me olhando e brindando com seu cálice no meu o nosso encontro.  Se isso é pecado eu acho que já paguei, não com reza ou promessa, mas quando lavei toda a louça e arrumei a bagunça da casa depois que ela se foi naquela manhã. Agora, se Vilma puder me perdoar eu a recebo de joelhos enquanto Helena, bem, a ela  o meu muito obrigado pelo que disse de mim nas redondezas.  

segunda-feira, 13 de julho de 2020

MINHA DOCE EMPREGADA.


       No meu blog Helena comentou que a Vilma – minha empregada –  não devia ter ido embora assim que a mandei, pois, se fosse ela  – falou Helena –  jamais teria me deixado aquele dia. E disse mais; falou que continuaria ali comigo porque me conhecia o suficiente para saber que mandá-la embora, na verdade, não era o que eu queria.  Segundo a empregada – disse ela – eu não achava necessário alguém comigo naqueles dias.  O pior é que Helena, segundo postagens dela, também vivia só em sua casa e a única vantagem sobre mim era a idade, já que tinha o suficiente para ser minha filha, caso eu a tivesse. Na postagem seguinte, se é que alguém se lembra, eu deixei transparecer que aceitava alguém comigo pra romper a quarentena e tão logo o dia da postagem amanheceu o celular tocou. 
– Pronto, quem fala? – Perguntei.
– Helena.  Sou sua amiga de blog, lembra?
É claro que eu me lembrava já que na extremidade posterior da vara tinha a mim de pescador.  Falamos sério por meia hora naquela manhã e rimos o resto da ligação. Corri à cozinha pra caprichar na salada verde, desci o sorvete do congelador enquanto o óleo esquentava na frigideira.  A ideia era fritar o peixe que mal desliguei o celular  tocava a minha campainha. Helena se oferecera para almoçar.  Sapato do lado de fora, blusa amarrada na cintura deixando à mostra uma boa parte dos seios, que, tal qual o visgo de jaca segura o passarinho pelo pé, segurava meus olhos neles. 
Fiquei feliz com o elogio aos meus temperos e mesmo não comendo como achei que ela comesse não reclamei.  O meu negócio era outro era tirar o atraso que vinha me acometendo há tempos.  Há muito eu não comia o quanto Helena me permitiu. Sim, porque se falasse qualquer coisa contra a fome que eu sentia, talvez não comesse tudo do jeito que eu comi.  
Não existe nada pior do que comer sozinho. Uma vez ou outra, tudo bem, mas vamos combinar; 120 dias é demais. 
À noite ela quis se despedir, mas eu não permiti.
– Não senhora, dorme aí. Amanhã a gente faz tudo de novo, ou seja; café na cama de manhã, almoço na mesa e café à tarde, que tal? Mas ela não concordou.  Jogou a bolsa no ombro e foi embora arrastando o casaco atrás dela.  Disse por cima do ombro que se ficasse talvez até eu engordasse com a volúpia com que eu estava comendo, mas ela, coitada, talvez não saísse viva da pandemia.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

DEIXA QUE EU CHUPO.


    

   Alice será que as pessoas se importam quando alguém faz caras e bocas ao degustar uma fruta na sua frente? Será que chupar ou comer em público envergonha mais as mulheres casadas do que as solteiras que são mais suceptiveis  ou é coisa da cabeça de quem há 120 dias se encontra de quarentena e já começa a ver coisas? Certamente a sua resposta seria a segunda opção haja vista que no mundo onde todos tentam fazer tudo no menor espaço de tempo possível não veem como sentar para comer sossegados.  Eu, para ser sincero, não tenho o hábito de comer em público e até acho feio quando passam mastigando ao meu lado, mesmo que um simples chiclete.  Certamente que pertencendo a outro milênio eu traga  resquícios, não do bom comportamento, mas de quem vê maldade em tudo e por isso  julga todo mundo por si. É, querida Alice,  estou velho para certas coisas, inclusive para viver com  um quebra-cabeça como a inteligência artificial que em breve, o que eu espero não venha a acontecer, acabará com muitas profissões, inclusive com a dos nossos jovens, que aparentemente não estão nem aí para o que lhes possa acontecer, como os da minha geração deram de ombro para os computadores que nos escancaravam a boca, mas nada fizeram. Até pelo contrário, nos melhoraram em tudo e a todos.  Talvez o tempo que levei no meu canto, calado,  fosse pensando nessas besteiras.  Até acho que posso sim chupar minhas laranjas onde quer que eu vá, pois nenhuma das mulheres que conversam comigo se calarão só porque  faço careta chupando o que seus maridos jamais o fariam e muito menos os namorados ou  companheiros daquelas que ainda não tiveram o privilégio de dizer sim ao pé do altar de suas igrejas. E como eu acho que chupo diferente de todo mundo vou continuar minha saga, mas preciso que me deem o que chupar mesmo que eu tenha que pagar para isso, caso tenha vontade.