terça-feira, 16 de junho de 2020

QUEM É VOCÊ?


      Hoje foi quando mais eu senti tua falta o que não quer dizer que não a sinta todos os dias, mas hoje foi como se uma força,  tipo, um torno espremesse meu peito. Na hora pensei em infarto, mas não descartei a possibilidade do vírus quando na verdade era falta da tua presença que por sorte ou por infelicidade nada se parecia com esse tipo de morte já que a dor não era outra senão a dor de lembrar minha cama apertada, do lençol puxado descobrindo meus pés, da minha cara junto ao teu peito e do hálito oxigenando o ar que respiro. Talvez seja o tempo encurtando o espaço da cama que deixa os meus pés de fora, mas agora, do nada, voltar a me engolir como engole o deserto o peregrino com suas tempestades de areia é duro de mais para mim. Antigamente eu te acordava com meus pesadelos, te chamava gritando teu nome se os trovões não me deixavam dormir.   Ontem o barulho na porta me lembrou de quando partiste. Aliás, nem sei bem se foi quando partiste  ou quando adentraste as minhas memórias.   As duas hipóteses me prendem escondido num canto, pois, se os trovões já não cessam aqui dentro em contrapartida a tempestade não cessa lá fora como cessava contigo ao meu lado, e como não tenho para quem correr nesse meu desespero me agarro as tuas lembranças.  Por mais que eu me esforce não consigo lembrar se tu foste minha mulher ou a mãe de quem tive o colo que precisava. As duas marcaram na minha vida a presença dos seus passos. A mulher que me levando pela mão escondia nos meus desesperos a sua própria agonia, mas fez de mim o apaixonado que sou enquanto a mãe, a quem pedia colo nas noites de chuva, tatuava na minha alma a doçura dos bons pensamentos. Por esta razão e por outras que não me lembro, a cama fica pequena a cada momento, talvez com a mesma intensidade como cresce deixando de fora os meus pés.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

NÃO BASTA CASAR.

       
      Doido pra chegar a casa, tomar banho, comer qualquer coisa e se ajeitar com a mulher na cama pra falar sobre si, sobre ela e relaxar fazendo o que qualquer casal saudável faz quando em harmonia. Por sua vez a mulher o aguardava com a comida pronta, toalha para o banho nos braços e sorriso bonito no rosto.
– Como foi seu dia, meu amor? – Perguntou depois de beijar o marido.
– Tudo bem, aliás, hoje foi muito melhor porque o chefe não apareceu e quando isso acontece o dia fica muito melhor – disse tirando os sapatos.
Jantaram falando cada um sobre o seu dia e como nada importante além de reprises tinha para ver na tevê foram se deitar. Trocaram palavras de carinho quando ela lhe deu um beijinho e pedindo para apagar a luz, virou para o outro lado e dormiu. Dormiu enquanto o pobre coitado desligava o abajur, como ela pediu, e ficou a olhar os desejos daquela noite se perderem na escuridão. Gente, eu lutei tanto escolhendo uma mulher gostosa e cheia de fogo, mas na hora agá a danada me beija um beijo chocho, diz boa noite e vira pro canto sem me dizer que tem dor de cabeça ou está cansada com a lida do dia. Certamente dormirá como um gladiador depois da contenda – resmungou no silêncio do quarto. Isso o fez lembrar o pai afirmando que casamento não facilita a transa do homem, enquanto a mãe afirmava que marido só serve pra encher o saco da mulher. Acho que vou arranjar uma amante – pensou puxando o lençol até o pescoço. E arranjou. Decidiu-se pela vizinha, uma enfermeira um pouco mais velha que sua mulher, a quem dava carona sempre que deixava o trabalho. Um dia estacionou o carro próximo ao bar e assim como quem não quer nada, a convidou para uma cerveja. Falaram do dia a dia de cada um, inclusive sobre futebol e política. Depois de algumas cervejas decidiram por um motelzinho ali perto. Durante um ano a felicidade rolou entre eles até que o vírus chegou na parada. A amante infectou-se no trabalho e contagiou o marido safado que por sua vez contaminou a mulher. A enfermeira e o amante conseguiram safar-se da morte, enquanto a bela mulher, coitada, sofreu o pão que o Diabo amassou até que Deus, piedoso, levou-a consigo. Os amantes se casaram e tiveram uma menina, mas infelizmente nasceu com problema enquanto o marido, que tanto queria uma mulher pra trepar e já não trepa faz tempo, nem pensa arrumar outra amante se a primeira lhe faz carregar o que de pesado leva na consciência.

sábado, 6 de junho de 2020

PIROU, É?

 

    Sabe quando você não está afim de ver ninguém e de repente aparece aquela que você só falaria se a sua vida dependesse disso? Pois foi esse tipo de gente que bateu lá em casa em plena quarentena dizendo que precisava falar comigo.  Queria pedir desculpas e se possível corrigir a injustiça que achava ter feito e se não fez se desculparia do mesmo jeito. Vê-la na minha porta já era motivo pra coçar a cabeça, mas, vir me pedir desculpas... Será que a infeliz se esqueceu das flores que jogou fora na frente daqueles que até hoje não devem ter entendido o porquê de ter feito aquilo comigo? Inclusive o irmão, responsável por minha presença, ficou sem saber o que dizer. Para um cara esquisito como eu que prefere dar flores ao invés de objetos que nem sempre tem valor para quem recebe foi o mesmo que levar uma cusparada na cara. Eu sei que o irmão, meu amigo de infância, não teria me convidado se soubesse que algo parecido pudesse acontecer, mas se o fez foi por saber que tenho ou tinha os cinco pneus arriados por ela. Muitas vezes me viu travado diante da irmã que nem se dava ao trabalho  de me olhar como olhava os outros. De repente, assim do nada, me tira pra conversar como se eu fosse um velho amigo. Ah, me poupe. Talvez não tenha se dado conta que o tempo passou e já não é aquela coisa que deixava a gente de queixo caído, a não ser que já esteja caducando como tem vez até eu me encontro. Pena que não sou irresponsável ou a teria convidado a entrar, servia uma bebida, mandava o vírus à merda e me atracava com a vagabunda e só saía de cima se a cama quebrasse.  Talvez, do jeito que ela chegou, nem soubesse que contato físico entre pessoas que vivem separadas não é nada bom, até pelo contrário, é roleta russa com tambor cheio de balas. Bem que vontade de tê-la em meus braços ainda existia, mas por ter sido rejeitado a vida inteira quase não percebi que a rejeitada agora era ela e não só por mim ou não se humilhava diante de quem tratou como cachorro a quem dava migalhas embaixo da mesa.  Infelizmente neguei-lhe o ombro que veio buscar, enquanto  negava a mim mesmo os maravilhosos momentos que sei que teria  cavalgando seu dorso.  Fechei-a lá fora para trancar aqui dentro um homem que não sabia que gostava tanto de cavalos.