sábado, 30 de maio de 2020

UMA CASA PARA O MEU CORAÇÃO.

 

      Ademar de Barros, um experiente político dos anos 30 a 60 era pai do Pedro Barros, jornalista, mas sem grande expressão e que por sua vez era pai de um jovem a quem dera o nome de João e o sobrenome do avô. João, na época com 19 anos, estagiava como estudante de psicologia no Batalhão da PM.  O velho Ademar, que foi governador de São Paulo e chegou a concorrer à presidência nos idos de 1955, dizia-se apaixonado pelo país e até morreria por ele, mas quando chegou a hora do último suspiro, Ademar viaja à Europa para morrer em Paris. O neto João não quis o mesmo caminho do avô e o jornalismo do pai não enchia seus olhos como a psicologia com a qual se sentia útil e seguro. Um dia João de Barros se viu tentado pelas redes sociais onde conheceu gente com seus problemas, sonhos e aflições, como a psicopedagoga que largou tudo e voou para conhecer o garoto com quem escreveria parte da sua história. A relação entre eles foi de um crescente tão evidente que até o marido se preocupou. Razão que a levou combinar um encontro entre ela e o jovem rapaz, mas quem deveria viajar até quem? – Se perguntava. João, certamente, não teria permissão dos pais, enquanto ela podia dizer como disse, que daria uma palestra na capital onde permaneceria por dois dias, e foi o que fez. Deixou os três filhos com o pai e embarcou à capital, quer dizer, para o Rio onde um jovem usando óculos de grau, com espinhas na cara e dependente do pai e da mãe estaria a sua espera. Antes de embarcar João telefonou dizendo que surgira um empecilho e não poderia recebê-la, mas mandaria o tio para levá-la ao Hotel onde mais tarde João estaria. Ela chorou muito e mal conseguia aceitar a imposição e caso não estivesse na sala de embarque desistiria de conhecê-lo, pelo menos naquele momento. No Galeão conheceu o tio que além de simpático, educado e cortês, tinha a voz de João.  Não só a voz, como o jeito de dizer as palavras, tal qual João no telefone. E ela chorou, novamente... João não passava de uma criança ao passo que o tio era velho de mais para qualquer coisa que pudesse haver entre eles e  foi entre soluços e temendo a resposta que perguntou se ele não era o João. O João de Barro.  Aquele que fez casa no seu coração e agora quer se mudar.
– Anda, fala! – Disse enxugando os olhos. 
Os dois se abraçaram e choraram. Choraram e riram até que a noite caiu para que concluíssem que aqueles foram os melhores momentos de suas vidas. Anos depois, ela, já divorciada, continuou se encontrando com ele. Ele ia pra lá e ela vinha pra cá. A vida se tornou maravilhosa aos dois até que Deus, que tinha dado a ela o amor que o marido não deu a chamou pro seu lado.  Não sei se para o lado direito ou esquerdo, mas sei que já não chora, pois aqui, ao meu lado, choramos e rimos tudo o que nos foi permitido.  
É por essas e outras que as redes sociais nos enchem os olhos.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

BRUXA, QUE BRUXA?

   
     Eu não acredito em bruxas, mesmo que algumas voem aqui dentro. Ainda ontem me jogaram fora da cama com aquelas vassouras nojentas.  É duro aguentar, mas vou tentando.  É mais difícil no momento em que invadem o espaço aéreo do quarto. Quando acontece eu me sento, abraço os joelhos e fico com cara de retardado olhando às paredes e tem vez que até adormecer adormeço.   O engraçado é dormir com esse barulho se no silêncio da noite nem pregar as pestanas eu consigo.  Gostaria muito de falar com alguém, mas nem tento para não dizerem que é coisa da idade, talvez  a quarentena, quem sabe. Mas deve ser coisa da minha cabeça, mesmo.  Fora isso, tudo vai bem obrigado. Até estou vendo filmes, aqueles que acabam quando a gente pensa que vai ficar bom.  Também ouço músicas que proibia meus filhos de ouvir e faço coisas que jamais pensei fazer antes, como lavar roupa limpa e passar as que estão dobradas e cheirosas na gaveta.  Isso pra não ter que enfrentar as loucas vassouras voadoras, se é que voam, sabe-se lá. Ah, sabe aqueles livros que a gente compra e desiste na terceira página?, pois li quase todos. Também troquei os móveis de lugar, pelo menos umas 5 vezes na semana.  Faço isso quando não estou lendo aqueles livros ou vendo filme pornô  (acho que não falei isso, falei?) O que posso estar dizendo é que os móveis estão sempre voltando aos lugares de origem. Mas não faz mal, não.  É melhor do que enlouquecer, não é mesmo?
O resto tá show, beleza pura.  O pessoal já não transa em cima da minha cabeça, não sei se por obra do síndico ou de vizinho invejoso. Mas como eu disse, tá tudo bem. Joinha, joinha. Pena que da minha janela eu não veja as crianças na creche, como não vejo as maravilhosas professoras gritando nome de criança olhando pra mim. Pelo menos eu acho.  Jamais lhes joguei uma piada ou fiz qualquer coisa para que me olhassem. Vontade nunca me faltou, só coragem não tenho. Enfim, onde andarão aquelas crianças e as professoras, o que fazem trancadas em casa se não têm marido e as que têm, estariam transando ou brigando com eles? Já pensou um estorvo trancado contigo 24h por dia? Deve encher, não deve? Agora, sem as aulas não tenho como lavar meus olhos na graça daquelas mulheres, mesmo que a vinte metros da minha janela. 
Mas voltando às vassouras, eu não acredito mesmo que bruxa possa sobreviver numa cidade maluca como a nossa... 

quarta-feira, 20 de maio de 2020

CABRA MACHO.

  
    Eu não fui ao baile para dançar com ninguém, mas pra tomar minha cerveja e comer uma carne como faço às sextas à noite. É claro que música ao vivo é um convite à dança e os casais nem se importam com o espaço onde se esfregam enquanto dançam. Eu não me atrevia não só por ter cintura dura, mas pra ficar ligado naquelas que no final do baile nos pedem que as leve à suas casas. Dificilmente me nego a tais pedidos, mas não sem levá-las a ser lambidas pelo clarão do novo dia no meu quarto frente ao mar. Ah, como é bom morar na praia...
Mas como ia dizendo eu não fui ali para dançar, mas se a mulher de Cícero, pernambucano arretado, me puxa pela gravata não tem como dizer que não.  Levantei, tomei-a nos braços e saí pisando em todo mundo, inclusive na minha parceira, pisei. Mas não deve ter ligado ou não teria o queixo no meu ombro, como tinha, u'a mão na ponta da minha costela e a outra suando na minha. Eu até acho que era lambada o que tocava a banda, mas pra mim tanto fazia, dançava tudo do mesmo jeito, mas com Cícero me olhando nem meter as pernas no meio das coxas dela, como o ritmo pede, eu meti.  O cabra é macho, é brabo, mas a mulher dele não tem medo ou não saía para dançar, não é mesmo? Ninguém dança lambada melhor que sua mulher, tive vontade de dizer, mas por amor aos dentes eu nada disse.  A mulher do sujeito não é de se jogar fora, mas dançar lambada com o marido olhando só eu, que nada tenho nada pra perder. Quer dizer, até tenho, mas se desse ouvido aos diabinhos gritando no pé da minha orelha.  Falei em diabinho por falar, porque nem o diabo tem a força que a natureza tem porque com ele ou sem ele eu fiquei daquele jeito e pro cabra não notar a mulher dele, genial como é,  se espremeu contra minha cintura piorando a coisa. Foi preciso que me falassem que a música tinha acabado ou a gente não desengatava. Afinal de contas, que dia é hoje?, porque nas sexta-feira tem forró lá no bar. "Só de pensar no valentão me dá uma vontade danada de comer aquelas carnes e tomar meus gorós".

segunda-feira, 18 de maio de 2020

AUXÍLIO O ESCAMBAU!

      Eu sou a favor da reclusão social porque não tenho pretensões eleitoreiras ou diria que a fome matará mais do que o vírus contra o qual lutamos, mas precisamos entender que a pessoa que vive de pequenas tarefas, o bico, como chamamos, precisa trabalhar para comer e muitas vezes o que leva  pra casa mal  dá pra calar o boca dos filhos. Aí o sinal de recolher começa a tocar; todo mundo dentro de casa.  É fácil ficar em casa com 100 canais de tevê, com a geladeira cheia e os Deliverys trazendo as faltas da casa, mas e o cara que faz “bico”, como é que fica? Nos países desenvolvidos o governo banca o desempregado, os sem renda.  Banca a indústria e o comércio, o que não faz mais do que a sua obrigação porque o dinheiro não é dele, mas do povo. Aqui a gente precisa ir à luta com ou sem a esmola do governo.  Sim, esmola, porque 600 reais não é auxílio emergencial que se dê, mas sim gorjeta, como a que os políticos deixam na mesa dos restaurantes.  Portanto eu acredito que ficar  em casa é necessário, como acredito que ver filho chorando com fome é injusto e vergonhoso.  Eu não sou candidato a nada e nem preciso se vou  dizer que falta respiradores, falta leito e UTI porque aqui sempre faltou tudo.  Quando foi que alguém encontrou vaga em hospital quando precisou e uma vaga na UTI ou  um médico que pudesse  curá-lo do mal que sofre, quando? Aqui sempre faltou tudo e não seria numa pandemia qualquer,  que a turma que faz jogo pra não perder as mordomias ou o mandato, que até hoje eu não sei porque lhes demos, diz que  vai nos matar.

terça-feira, 12 de maio de 2020

POLITICAMENTE.


      Esse negócio de politicamente correto está dando no saco. Antigamente a gente  olhava à bunda que as meninas empinavam e ninguém falava nada. Elas até gostavam da gente comentar sobre o que nos esfregavam na cara, só que agora a coisa mudou, pois um bando de mulher feia e desbundadas, tipo, aquelas que levam com a tábua na bunda, decidiu, por inveja, nos ameaçar por assédio.  Quando uma dessas maravilhosas passa em frente a minha janela eu nem olho se tiver mulher feia por perto. Até pra sair tá difícil, mas quando saio e uma garota me dá mole eu finjo que não vejo a não ser que me chame e diga alto e bom som que não sou eu, mas ela, quem me assedia para evitar problemas com as feias e desbundadas, como falei. Não só ando farto com isso, como as mulheres bonitas e as normais também andam.  Antes, todas tinham sorriso riscado na cara, tinham pele bonita, cabelos viçosos e agora o que têm?  Têm pele ressecada,  cabelo espigado e a culpa é de quem, minha gente? Das feias e não dos rapazes, porque são essas quem estão por trás disso.  Se antes já era difícil pra minoria ter tudo isso imagina agora...  Quem lucra com isso são os SexShops vendendo vibrador como quem vende água no deserto.  Eu, para dizer a verdade, continuo tirando a roupa dessas mulheres maravilhosas, mas com os olhos.  À dez metros começo o processo; primeiro a blusa e quanto mais perto, tiro-lhes a saia. A três são os peitos fugindo das celas que os prendem e à dois a calcinha lhes cai perna abaixo e antes que nuas passem por mim eu já estou todo molhado. Molhado não, encharcado de suor dentro da roupa.  Antes dessa besteira era muito melhor e mais fácil. A gente olhava, e caso gostasse, falava com a moça, mas agora ninguém tem coragem o que faz rir as mais feias, as frustradas e dispensáveis criadoras da lei. Eu até gostaria de voltar a sair com uma ou outra, mas como falei, só arrastado por elas eu me permito fazer aquelas outra vez, e mesmo assim vou falando pra quem quiser ouvir que não sou eu, mas ela quem me assedia e como não tem lei contra isso...
 Acho que já estou no limite da paciência, tenho até medo que essa por... possa me brochar.

sábado, 9 de maio de 2020

PELAS TAMPAS.

   
 
    Eu não sei se já falei, mas estou por aqui  com essa  praga me segurando dentro de casa. Eu sei que é para o bem de todos e felicidade geral das pessoas, mas tudo tem limite, gente! Cansei. Confesso que cansei de olhar pela janela e não enxergar ninguém me olhando de cara feia.  Não ver baixinho, de camiseta "mamãe tô forte", saindo da academia de nariz levantado e braços abertos tipo galo cercando galinha, assim como mulher apertando cintura pra levantar a bunda pra gente olhar. Cansei de ver reprises na tevê, de ouvir falar em vírus e no presidente que pensa que é Deus. Cansei. Cansei de ficar sozinho se meus amigos estão cada um, com sua mulher fazendo o que gostam enquanto a convence fazer o que  só ela pensa que mulher direita não faz. 
É, acho que vou acabar pirando com essa coisa dura que nem esfregá-la na mulher que eu amo eu posso. 
Também já não quero ouvir a mulher do vizinho gemendo  no apartamento de cima.  Antes eu botava o ouvido no fundo do copo, colado à parede, buscando entender o que faz o marido para que choramingue daquele jeito.  Aquilo me tirava o ar, talvez ainda me tire, mas não sou doido de botar a cabeça pra fora da janela pra perguntar, por isso eu prefiro reclamar da solidão a reclamar de mulher que entre quatro paredes não faz o que acha que só puta é capaz. Será que essa gente não entende que mulher direita também faz essas coisas ou preferem instigar os maridos a obrigá-las a fazer o que elas não querem?  Ontem chegou um whatsapp de uma mulher me oferecendo frutas, verduras e legumes descascados. – Legumes descascados, que legal!  Há muito não como legume por preguiça de descascá-los, mas como esses não me dariam trabalho eu fiz o pedido.  Duas horas depois eu estava de banho tomado, cabelo penteado esperando por ela, quer dizer, pelos legumes que paguei, dei gorjeta e já ia fechando a porta quando alguém me lembrou dos legumes.  
– Ah é, os legumes.  – Falei. 
Isso prova o quão importante é falar olhando nos seus olhos da pessoa, mesmo que pague pelo que não se comeu.

terça-feira, 5 de maio de 2020

BONECO DE AREIA.

 

    Todos os dias eu caminhada da  Praça Coronel Eugênio Franco, no Posto 6,  até a  praça Almirante Júlio Noronha, no Leme, Copacabana.  Eu ia e voltava. Depois dava um mergulho, umas braçadas e voltava pra respingar água nas garotas que me xingavam e até areia muitas vezes me jogaram. Eu ria e assim passava uma boa parte da minha juventude que entre muitos acertos, também teve momentos desprezíveis, como quando encontrei Adalgisa. Uma loirinha magrinha, cabelo cortado na altura do ombro e que não achava a menor graça nas histórias que eu contava.  Há dias, quando tomava água de coco num quiosque onde se pode pendurar a conta, eu a chamei para conversar. Perguntei por que me tratar com tanto desprezo. Ao que teria respondido que era por eu ter mandado a irmã dela vazar quando mais precisou de mim. Por isso se lixava pra qualquer coisa que viesse de mim –  concluiu.  Acontece que Adalgisa talvez não soubesse que a irmã me traía.
 – Adalgisa, se liga!  – Eu disse pra ela – sua irmã estava dando pra todo mundo, menos pra mim que era seu namorado e não fosse o Zeca, vendedor de picolé, me falar, eu ainda estava ao seu lado e olha que ela é bem melhor do que você – falei saindo de perto pra escapar do tapa que passou raspando.
– Estou brincando, meu amor. Você é muito mais bonita e mais gostosa. Taí, com você eu até me casava, mas fica fazendo doce  – concluí.
 Adalgisa bateu a areia das sandálias, jogou um beijinho, disse tchau e partiu. Isso foi no sábado porque no domingo; quem eu vejo caminhando no calçadão?, Adalgisa, claro.  Naquela manhã caminhamos juntos, nadamos juntos, tomamos água de coco os dois e fomos pra casa juntos. Pra casa dela onde tomei banho, sem permissão. Tomei cerveja, sem permissão e a beijei sem permissão. Eu não sei se era por falta de educação  da minha parte ou se eram seus olhos que pediam pra eu fazer o que fiz por duas horas. Voltando ao assunto pra ela me dizer que sabia que a irmã me traía, mas como era sua irmã não podia fazer nada.  
 Eu não fumo, mas estaria acendendo um cigarro depois de fazer o que a gente fez, quando o telefone tocou. Falou por cinco minutos, tempo suficiente para colocá-lo no gancho e me levar até a porta onde me deu um beijo e voltou pra se trancar.  No estacionamento encontrei com a irmã e seu atual namorado e mais um "negão"que eu não conhecia. Não nos falamos além de um "oi, tudo bem?" e só no carro me lembrei das chaves. Voltei para pegá-las, quer dizer, para pegar Adalgisa dependurada nos beiços do negão que acompanhava a irmã e o namorado.  Tudo bem.  A irmã eu não tinha comido, mas essa, pelo menos, matou a fome que eu tinha e, pelo que deixou transparecer não só a minha naquele dia. 

sábado, 2 de maio de 2020

DOCE DE DOER.



      Ela tinha uns cinquenta e cinco anos ou sessenta de idade mais ou menos,  mas as pernas que tinha não pareciam ser suas de tão bonitas que eram e em momento nenhum me lembrava das feições do seu rosto, mas das pernas jamais esqueci, principalmente se estivesse sozinho no banheiro. Dona Dulce me achava muito educado o que me dava o direito de entrar em sua casa sem que me convidasse e muitas vezes a peguei raspando as pernas com a saia no meio das coxas. Aquilo me excitava de certa maneira, mas o que me intrigava era aquela tesourinha no colo. O barbeador até me levava a ter ótimos sonhos,  mas a tesourinha...  Sempre que a bondosa senhora, de pernas bonitas, me chama va para provar os biscoitinhos que fazia eu pensava besteira. Hoje, 40 anos depois me dou conta da razão dos biscoitos, até porque o bestalhão de 15 anos não percebia que a bondosa senhora lhe dava o quebra cabeça e o manual ensinando como armá-lo, mas ele nem tentar conseguia.
Uma vez a ouvi soluçando e como a janela estava fechada entrei para ver.  D. Dulce estava deitada com as mãos no rosto gemendo de dor e nem se deu conta que deixava à mostra suas pernas bonitas.  Pernas que ainda me matariam – pensei.  D. Dulce era doce como o nome ou não me presenteava com aquela paisagem.
– Que bom que você apareceu, meu filho  –  disse abaixando a voz.  Faz um favor pra titia. Esquente um pouco d'água, pegue a bacia pequena no banheiro e uma toalha de rosto pra gente fazer uma compressa.  O médico me disse que só assim passaria essa dor – disse limpando os olhos. 
A compressa não estava tão quente pra D. Dulce se mexer tanto como se mexia.  O pior é que ela se mexendo a saia subia e mostrava as pernas por onde eu enfiava os olhos até o talo.  O joelho de D. Dulce podia doer muito eu sei, mas doer como uma parte do meu corpo doía dentro de mim, ou fora de mim, já nem sei, não doía não.  A diferença entre a gente eram as lágrimas.  Ela as chorava por dor enquanto eu as chorava por não ser um cachorro pra meter a língua naquelas feridas. Ela sabia que me deixava do jeito que eu ficava, mas eu não sabia.  Acho que ria quando enfiava a mão no bolso e corria pro banheiro da minha casa.
Esquentei água a semana inteira para as compressas e o fazia pelo que me dava em troca, quer dizer, por me deixar vermelho e correndo pro banheiro depois das compressas. Eu já era magrinho, mas desmilinguido eu ficava a cada vez que lá ia. Acho que só não morri porque o filho, que arrumou emprego na Petrobras, veio buscá-la pra morar com ele e a família em Macaé para onde a levou.