quarta-feira, 29 de abril de 2020

POCAIMÃ DA AMAZÔNIA.



    Meu amigo reclamava que a mulher fugia na hora do sexo e isso o constrangia a ponto de queixar-se comigo.  Fiquei com pena do cara e até consultar com um pai de santo, meu amigo, eu consultei para falar do assunto.  Pai Betho me disse que o melhor que ele tinha a fazer seria dar a mulher um copo de chá de pocaimã, uma planta nativa da Amazônia e que infelizmente não se encontrava por aqui pra comprar.  Falei com Marcelo que de pronto encomendou a tal erva milagrosa.  Na noite anterior a chegada da planta a mulher o havia rejeitado. Perguntado porque não tinha transado com ele a mulher alegou que tossira muito naquele dia e sexo seria a última coisa em que pensaria naquele momento. Marcelo se recordava bem das palavras que disse ao receber de suas mãos a xícara de chá que ele havia preparado.  - Beba em jejum agora, amanhã e depois que a tosse passa.  A mulher fez o que o marido havia pedido e à noite, quando Marcelo já estava deitado, sentiu u'a mão escorregando por sua barriga. Espantado lembrou que mulher só põe a mão na barriga da gente quando quer qualquer e para sua surpresa notou que ela dava o pontapé inicial de uma grande partida.  Pela manhã, quando a mulher ia saindo da cama e Marcelo se aprontava para dormir, ela, fazendo um gesto lhe disse que a esperasse porque ia só ao banheiro, mas logo voltava para o segundo tempo. Quando ela desceu da cama Marcelo aproveitou para pular a janela e correr até o bar onde, por acaso, eu já me encontrava. 
 – Cara, não aquento mais essa mulher.  A danada só pensa em transar e nem dormir ela quer me deixar mais   disse olhando para um lado e para o outro da rua.
– Mas cara, você não dizia que ela não era de nada e até me perguntou se conhecia um remédio pra dar pra ela? Então, conhecer eu conhecia, quer dizer, fiquei conhecendo depois que falei com pai Betho, mas como não tem aqui pra vender...  
– Pois é, cara. Eu consegui comprar essa porra e dei pra ela beber.  Na primeira dose a mulher ficou desse jeito que te contei e o pior que eu disse pra tomar três dias seguidos e sempre em jejum.  Já pensou se a desgraçada toma às três doses? A propósito, me deixa correr para casa antes que essa devassa libertina descubra onde escondi o tal chá porque senão vou morrer tuberculoso a não se que eu fuja das garras dessa messalina.
Antes de terminar a frase Marcelão já estava na rua batendo os calcanhares na bunda de tanto que corria.  
Essa gente é tão engraçada no que diz respeito a sexo.  Quando tem pouco briga porque tem pouco, mas se tem muito, briga porque o outro é doente, porque só pensa naquilo e por aí afora.   Vai entender...


sexta-feira, 24 de abril de 2020

LOUCO AMOR.


        Antônia viajou do interior à capital onde Cícero perdera a luta que travava contra o câncer. Tinha 20 anos quando deixou mulher e um filho pequeno. Cícero engravidou Raimunda quando tinha 17 anos e ela 15, mas só teve o filho nos braços dias após o parto complicado que levou o marido, pensando que fosse perder a mulher, sair sem destino. Três anos mais tarde brincavam mãe e filho, numa pracinha perto de casa, às vistas de quem fugiu ao ser notada. Com esforço Raimunda lembrou-se de tê-la visto uma vez rondando a casa da parteira. Todas as crianças do lugarejo, inclusive Raimunda e o marido nasceram sob os cuidados de D. Sebastiana que confessou, depois que Raimunda a colocou contra a parede, de ter dado um aperto na intrusa que disse chamar-se Antônia e que fugira de um sanatório, onde ficara internada três anos, para encontrar a pessoa quem teria amado até que roubaram dela o filho recém-nascido. Infelizmente chegou dois dias depois do sequestrador ter morrido. – O sequestro do meu filho me levou à loucura, por isso fui internada – disse chorando. Eu perguntei onde tinham se conhecido e o que a levou acreditar que Cícero tivesse roubado a criança se ela não tinha certeza do filho ser dele?
– Bem, os homens nunca têm certeza se o filho é deles ou não, mas a mãe jamais se engana e quando ele apareceu pra pegar a criança e sumir com ela eu quebrei o resguardo e consequentemente a loucura me tomou por um todo – disse, e concluiu: – eu estava internada quando descobri onde Cícero estava morando.  Por isso fugi e graças a generosidade das pessoas  cheguei aqui onde ele vivia. Pena que cheguei tarde  – falou entre os dentes. Antes que Antônia se refizesse do susto, D.Sebastiana contou-lhe o que já sabia há anos tirando das costas  o peso que carregava há tanto tempo.
– Sua filha era linda, mas Deus não quis que vivesse. Cícero ficou desesperado ao vê-la, mais morta que viva. Desesperado saiu porta afora e sumiu. Quando voltou entregou-me a criança dizendo que era de vocês. Eu perguntei de onde a trouxera, mas ele mentiu. Mentiu e eu, infelizmente, fingi acreditar.  Guardei a mentira por amor a vocês, minha filha – disse com os olhos molhados. Você criou uma criança que na realidade pertence à mulher que vê na criança seus traços assim como os do pai a quem amou como você o amou. Portanto, minha filha, se o seu coração permitir divida o amor da criança entre vocês duas, pois assim e só assim a Antônia se livrará do pesadelo que a levou a se internar e dos médicos que a essas horas já estão atrás dela. Louca ela ficou, mas por amor, como louco ficou seu marido quando você parecia perder o juízo. 

segunda-feira, 20 de abril de 2020

CARA DE CARRANCA.

    

  Fui pra cama tão cansado que cheguei achar que antes do meio-dia ninguém veria minha cara,  mas qual.  Acordei cedo com a barulhada que duas malucas faziam no corredor entulhando bugigangas na minha porta.  A cara que eu fiz para a mãe, talvez espantasse a filha, mas a danada me estendeu a mão e abriu um sorriso tão bonito que quando dei por mim já as estava ajudando com a mudança. No decorrer do dia a campainha tocou umas cinquenta vezes e todas por elas. Pô, mas será que não têm outra coisa pra fazer além de tocar campainha?! –  Pensei.  E nem ligar pra cara que eu fazia ligavam. Talvez achando que fosse a saia curta  da mãe e a camiseta solta sobre os peitos bicudos da filha que me causava aquilo, mas não era. Era medo da filha pedir pra chupar o lóbulo da minha orelha sentada no colo. Medo porque me falou que tinha 17 anos, caso contrário... Por isso fecho a cara pro Diabo parar de me tentar.  Confesso que tenho ciúmes quando vão à missa do padre que canta. Ele canta, as mulheres se derretem e os maridos rezam de olhos fechados.
 A porta de casa eu deixava encostada pra não tocarem a campainha  toda hora, mas como a mais nova me viu tomando banho, acabei ralhando com ela; 
– Quanto tempo você está aí? – Perguntei.  
– Cheguei agora.  Te chamei, mas como não respondeu...
– Mentira.  Faz tempo que te vi me olhando – menti pra quem voltou rindo pra casa. 
 O pior é que eu estava pensando nela. Enquanto me banhava eu pensava e por estar me esfregando com certa sensualidade ela até estivesse mesmo me olhando. Agora, se ela viu como eu fico quando penso no que eu estava pensando a minha paz acabou.
Eu tenho achado que o mal anda vencendo o bem, agora, se eu estiver errado, com certeza que no meu apê vai ter bundalelê, como diz o Latino na música que fez.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

O TOCO.

  
   Tudo se promete até conquistar a pessoa querida. No primeiro encontro se abraçam, se beijam, se tocam e se comem.  No dia seguinte esquecem o que foi prometido e até um do outro muitas vezes se esquecem. O homem esquece primeiro, não por ser mais safado, mas pelo exercício da "nobre" arte de conquistar, e, caso volte a telefonar não é para marcar um possível segundo encontro, mas por gratidão já que o prato em que comeu nem lavar foi preciso.  O que adiantaria novos encontros, novos beijos, outros abraços, noivado e casamento se vão esquecer tudo o que juraram e prometeram  fazer juntos, tal qual a mulher de um amigo que jurou tanto, prometeu tanto, mas quando ele ia trabalhar surfava as ondas perigosas dos sites de relacionamento e consequentemente novos amigos foi conquistando?  Ele saía cedo e voltava tarde. Comia do jeito que dava e quando podia ao passo que ela disponibilizava o que tinha aos que de lá não saíam.  Quando um chegava cansado e suado encontrava o outro todo bonito, fogoso e perfumado como se a sua espera.  O jeito carinhoso e despojado que tratava os amigos muitas vezes permitia elogios às pernas que fazia questão de mostrar a quem as quisesse lambê-las com os olhos. Seios fartos; potros selvagens saltando alambrado às vistas de quem os queriam tocar e beijar.  O marido não concordava com os elogios que faziam à mulher. Saltar do trem andando seria alternativo a não ser que suportasse o marasmo que eram os dias sem ela que seguia com o calor da idade e a liberdade que não lhe dera os pais.  Certo de estar cego e surdo como, antes não achava para com os papos que rolavam, jogou-se do trem a tempo de vê-lo sumir ligeiro lá na curva como um pesadelo que se vai.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

TEMPOS DE RAPAZ.


     Esses dias me peguei pensando na vida e mentindo quanto a hoje ser melhor que nos tempos dos meus 20 anos.  Com aquela idade foi que tudo aconteceu e tudo o que era possível fizemos naquela época, só usar droga e dar o buzanfã a maioria não fez, porque do resto... O resto a gente fez.  A turma era de jovens estudantes que sonhava com aventuras e comigo não foi diferente.  Na turma só tinha amigos que eu levava pras farras como levava as garotas que se arriscavam saindo com a gente. De vez em quanto aparecia uma trazendo u'a amiga que a gente aceitava no grupo. Normalmente era bonita e com cara de santa, mas não precisava beber muito pra subir na mesa e botar os peitos pra fora, coisa que a gente fingia não permitir.  Mas só fingia, inclusive se falava que ninguém ali comia ninguém só porque tem peito bonito, aliás, transar entre a gente jamais foi  pretensão. A única razão do grupo era o divertimento; os papos sem sentido nas praças longe de casa, os banhos de mar na Barra, que a gente tomava pelado quando saía das festas e as risadas que dávamos como se fossem as últimas gargalhadas antes da morte. A gente ousava, mas se uma novata subia à mesa pra mostrar os peitos logo um de nós vinha puxar-lhe a orelha;  –  Esconde esses peitos e senta aí ou chamo um táxi pra te levar de volta pra casa  –  dizia.
Esse tipo de coisa acontecia com razoável frequência, mas também tinha aqueles que ao descobrir que eram traídos enchiam a cara e choravam como bebê no colo da gente. E haja colo e lenço pra socorrê-los. A turma era muito legal. Ufa, até os olhos  me embaçam... 
Tenho muitas saudades da turma, do fusca azul que nas madrugadas nos levava de volta  como cavalo leva bêbado o dono na sela.  Eu não sabia que no carro coubesse tanta gente quanto as que eu levava se no meu colo não ia ninguém. A metade daquela gente estava bêbada e a outra metade também, mas não rolava nada além do riso e das brincadeiras inocente que a gente brincava. Meu fusca tinha muito da gente, ia pra onde a gente ia e bebia como qualquer um de nós. 
Eu acredito que fiz tudo o que um jovem da minha idade sonhava fazer e se não fiz mais foi por medo. Medo de trair meus próprios princípios, medo de ofender a honra dos meus pais ou a honra de qualquer um que fizesse parte do grupo ou a outras pessoas. O resto eu fiz.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

SIMPLÍCIO.

     

    Eu sou uma pessoa muito simples, mas muito simples, mesmo. Desde menino que eu sou assim, simples. Sou tão simples que nem me importei quando mamãe colocou minhas irmãs pra dormir numa cama de casal e a mim numa de lona  que nem  cabia meus pés. A minha simplicidade era tanta que nem me chateava se as colegas das minhas irmãs fechassem a porta do quarto pra se trocar ou a do banheiro pra fazer xixi.  Nunca, nunca me importei, nem quando me chamaram pra segurança da casa onde Neusinha seria o marido da minha prima eu liguei.  Mentira, liguei sim! Fiquei uma fera naquele dia.  Segurança de quê, gente? Só podia ser coisa da minha mãe, eu pensei.  Mamãe tinha essas ideias esquisitas, tipo tocar fogo em trapos pra espantar pernilongo quando a gente dormia e pergunta se a fumaça e o fedor tiravam o sono da gente. Tirava, mas eu não reclamava, mesmo levantando cedo pro colégio.  Aliás eu trabalhava na parte da tarde, mas não reclamava de entregar o salário nas mãos da minha mãe, não sem antes ter corrido os dedos naquelas notas tão bonitas. Se nem disso eu reclamava não seria o cargo de segurança de casinha de brinquedo que me faria reclamar. Não, eu nunca reclamei de nada porque pobre não reclama, fica na dele. Aliás, reclamei sim. Reclamei quando fiz 25 anos e mamãe me devolveu o salário dizendo que não devia, mas ia arriscar. O pior é que não devia mesmo, porque aluguei um "abatedouro” de sala e quarto, só não me perguntem o porquê do nome, passei a usar roupa e calçado sob medida, comprei um fusca e nunca mais comi de marmita. Fui a todos os cinemas e teatros e aos 33 anos tomei a primeira cerveja. Assinei revistas que mamãe proibia e comprei as que jamais pensou que permitissem publicar. O problema era controlar o dinheiro. Não sei se era praga, mas comigo não durava tanto quanto com ela.  Aí eu reclamei e só reclamei porque gastava pouco com meus amigos e muito menos com as mulheres que levava pra comer lá em casa e mesmo assim não dava pra passar o mês.  Acho que perceberam que ainda sou o menino simples que dormia com os pés fora da cama, não perceberam?

segunda-feira, 6 de abril de 2020

A CARA DA GATA.


      Ficar em casa nos finais de semana é duro, mas fico. Ficar uma semana inteira é mais ainda.  Quando eu quebrei o dedo fiquei 15 dias de molho e fiquei numa boa. Não escolhi ficar tanto tempo trancado, mas já que era preciso, fiquei.  Hoje, acreditem,  faz um mês que não vejo o olho da rua, mas a cara da gata então... Essa eu não vejo faz tempo. De livros, séries e música eu quis dar um tempo e por falta de opção peguei um filme com algumas mulheres peladas e sentei para ver.  Abri uma cerveja, peguei o petiscos, liguei a tevê. Na primeira cena entornei a cerveja e não foi porque o Leão da Metro me assustasse, mas com os olhos esbugalhados com os quais a gordinha viu os dotes do negão que faria a cena com ela.  Eu juro que morri de pena da pobrezinha, mas no decorrer do processo senti que me enganara.  O negão, é claro, virou a gordinha pelo avesso várias vezes, mas ela não se intimidou e fez o que pagaram para ela fazer.  Fiquei de boca aberta com o desempenho da baixinha.  Acho que nem ela acreditava que fosse capaz.  Mas foi, e com o negão fizeram cenas que eu achava praticamente impossível, mas nada que se faz com amor fica mal feito.   Quando acabou limpei tudo e fui tomar banho ouvi buchichos no banheiro de cima.  Eu não entendia o que cochichavam até que a mulher, porque  tinha uma mulher, começou com gritinhos abafados e um cara, já com a respiração ofegante dava  a entender que iria matá-la, inclusive xingava a mulher de puta de vadia e jurava que ia matá-la com aquilo enfiado nela.  Só não deu pra entender com que tipo de arma faria o que disse.  Nesse momento eu tive certeza de que alguém  seria esfaqueado, mas ela, a possível vítima, não acreditava nas ameaças do sujeito, pelo menos ouvi com os meus próprios ouvidos ela mandando o cara bater enquanto falava;  vai meu cavalo, vai, não para, não para meu  garanhão!
Na hora eu tive vontade de ligar pra polícia, mas achei melhor não, e só não liguei por causa do filme. Nele as pessoas também não falavam coisa com coisa. Foi bom mesmo não ter ligado porque tudo não deve ter passado de uma brincadeira entre eles,  inclusive os escutei  rindo e brindando batendo copos.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

CLAUSURA


      Os meninos reclamam das garotas que só pensam em brincar de boneca, jogar amarelinha e pular corda.  Brincadeiras que eles acham sem graça, mas não deixam de olhá-lhas brincando. Desde tenra idade que os moleques as olham com olhar de cobiça.  Depois que cresce a menina quer ser professora, se casar e ter filhos,  ao passo que os  meninos, esses que só vão à escola por causa delas e para olhar a professora,   também crescem, têm sonhos e em todos os sonhos lá estão as meninas crescidas. O menino cresce, mas  não perde o olhar sonhador nem quando um coronavírus o leva à clausura.  Um dia ou dois, tudo bem, mas quinze dias recluso como estou não é castigo que se queira nem para um inimigo.  Gambelar meninos que olham meninas até dá pra pensar ser possível, mas com garoto do meu tamanho e da minha idade é bem diferente.  Eu sou um desses meninos que cresceram, mas infelizmente há 15 dias deixou de sonhar.  Quinze dias sem ver um rabo de saia, uma blusinha curta mostrando o umbigo, uma perna de meia pendurada na corda, uma sandália de tiras  deixada na entrada de casa, enfim; há duas semanas que levanto de madrugada pra me banhar de água fria pra não morrer pensando naquelas que há muito deixaram de ser criança.  Meninas crescidas, enormes. Grandes o bastante para me fazerem pequeno como sou na sua presença. Mas vai passar; dizem a toda hora e eu sinto que vai mesmo e talvez nem demore o que dizem que vai demorar, mas enquanto não passa eu sigo pedindo a  Deus para que eu não esqueça como se faz aquilo que pelo que me consta, ainda faço tão bem.  E para passar o tempo vou olhando a lora do apartamento em frente que há dias recebeu senegaleses, fugitivos da fome, na casa dela por não terem onde ficar.  Ela podia tê-los deixado na rua onde estavam, mas sua generosidade não permitiu. Agora todos estão bem e certamente ela, com sua consciência, está muito melhor.
Tem hora que já não sei se enxergo as coisas com o olhar fantasioso das crianças ou com os olhos  maldoso dos adultos.