segunda-feira, 30 de março de 2020

COROA VIVO.

     Ser solteiro tem suas vantagens (acho que já falei isso num texto)  ao passo que os outros não têm. Por exemplo: há  um ou dois meses um  bichinho que podia dizimar com o mosquito da dengue, com as formigas e com o vírus H1N1 infelizmente nos escolhe pra tirar o sossego e me prender dentro de casa. Há dez dias que não vejo homem pra botar defeito ou mulher pra me olhar de cara feia a não ser o porteiro trazendo  livros e compras que faço.  Trouxe, mas deixou à porta do octogonal  como pedi.  Sim, porque meu apartamento não é outra coisa  senão um octógono, pois tem quatro paredes, um teto, um piso e duas portas que dão à cozinha e ao meu quarto. Infelizmente não gratifiquei os entregadores para não tocar em dinheiro.  A única contravenção foi  o teclado da maquininha que teclei com as mãos nuas, mas não sem lavá-las depois.  Felizmente ninguém mora comigo pra dividir os problemas que surjam, portanto. qualquer um que apareça é meu. Agora se tivesse mulher morando comigo  com certeza já teria indicado vaso de planta pra mudar de lugar, cachorro pra lavar, tapete pra bater e me olhando  de cara feia...   Certamente eu teria engraxado e colocado os sapatos no lugar como nunca me pegam fazendo.  Os casados não reclamam porque acham que serão recompensados ao irem pra cama.  Esses caras, coitados, pensam que são cachorro, aquele bicho que ganha agrado quando senta se ela manda.  No fundo no fundo não é nada disso.  Elas os cansam para não serem cutucadas ao deitar. Acham e dizem às amigas que transar depois de cinco anos de casado não tem graça nenhuma.  Só elas pensam assim enquanto babamos pelas celulites e estrias que têm.  A gente que mora só não tem nada disso.  Não tem quem negue carinho, mas também não tem quem os aceite enquanto isso o vírus triplica de quantidade, através dos incrédulos, mantendo pessoas como eu longe dos amigos  e morrendo de medo de não ser mais lembrado por eles ou de ser esquecido por elas.

quinta-feira, 26 de março de 2020

CADA UM DÁ O QUE TEM.


     
     A moça que faz a limpeza na minha casa às sextas-feiras apareceu ontem a noite. Podia ter ligado, mas não ligou. Veio saber se precisava de alguma coisa. Não lhe perguntei por que não tinha ligado porque tenho idade pra saber que exerço minha profissão em qualquer lugar que eu queira, inclusive na minha casa, e como a ordem é não sair à rua, não me arriscaria em outro lugar. Com esta certeza Vilma bateu-me à porta. 
– Não, meu amor.  Não preciso de nada que você queira fazer, aliás, até preciso e principalmente de mulher jovem, bonita e querida como você, mas nem me pagando pediria qualquer coisa a você nesse sentido.
– Poxa seu silvioafonso, eu nunca fiz nada que seu dinheiro não me pagasse e quando venho por conta da nossa amizade, por estar pensando nas necessidades que o senhor está tendo aqui dentro sozinho, o senhor  me rejeita e nem me dá tempo de explicar a que tipo de “serviço” eu vim lhe prestar...
Essas foram as últimas palavras de quem há cinco anos trabalha pra mim. Vilma não é minha diarista, mas gente da minha família. Vilma é mais do que a moça que faz a limpeza e cuida da casa. Vilma faz compra e nem sou eu quem anota as faltas, apenas pago e recebo o que compra.  Vilma troca as roupas de cama, as toalhas e muitas vezes dispensou visitas na hora da minha sesta.   
 Eu sei que o senhor gosta de tirar um cochilo depois do almoço.
Vilma atende e anota os recados; extras que jamais agradeci por ter feito e agora a rechaço como a um cão que teima entrar na casa da gente. 
Eu tenho mais de 55 anos, tenho pressão controlada, trabalho mais do acho que preciso e portador de apetite por mulher bonita que, de tão grande, até Deus duvida. Tenho e não nego, mas Vilma não sabe. Sabe que moro sozinho, que defendo as mulheres, falo de amor como quem vive apaixonado e reclamo da vida “difícil” de quem morar sozinho...  E eu a coloquei à correr sem mesmo lhe perguntar  a que veio  àquela hora da noite além de se prontificar a fazer o que acha que o vírus não me permite...

segunda-feira, 23 de março de 2020

TRÊS MOCINHAS ELEGANTES.

    Foi difícil escolher entre as três a mais bonita, mas quando me decidi combinei de não falar com as outras o que pudesse rolar entre a gente.  Beijos nós demos muitos. Abraços talvez nem tanto, mas ninguém largava ninguém e quando perguntavam se a gente estava ficando negávamos na maior cara de pau.  Depois foi a outra de quem me aproximei.  A gente marcou para que me perguntasse se eu estava ficando com alguém e eu para negar que estivesse.  Então a gente se beijou muito, os  abraços não foram tantos, mas ninguém largava ninguém até que o cansaço nos separou.  Ontem, na missa de sétimo dia do pai das mocinhas, avistei a terceira, a mais espertinha. Estava longe da vista das irmãs quando a puxei para um canto. 
– Você vai pra onde quando a missa acabar?  –  Perguntei.
– Vou pra casa, pra onde "tu" acha que eu ia?  –  Respondeu com as mãos na cintura.
– É que eu preciso falar com você...  Que tal tomar um sorvete quando a gente sair?, eu pago. Aí te conto o que você vai gostar de saber.   
O coro ainda cantava quando a bandida sumiu. No carro, entre a palheta e o para-brisa havia u'a multa. Era só o que me faltava... Ah não. Não era u'a multa.  Era um bilhete marcando o lugar do encontro. Oh garota danada! Naquela tarda a gente beijou muito,  mas muito mesmo.  Abraços não foram tantos, mas ninguém se largou até o princípio da noite e mesmo que me perguntassem  se eu tinha com quem ficar eu negava.  É claro que eu não diria a verdade pois, se para uma e para outra eu neguei não seria pra essa uma que eu diria a verdade. 
Hoje à tarde voltei a ver as meninas. Iam as três de mãos dadas na frente da mãe. Bonita a mãe delas.  Talvez a beleza estivesse no jeito como me olhou ou, quem sabe, na forma elegante como me sorriu. As malas já estão no carro ou talvez desse tempo de ver a viúva, digo, as meninas, antes de ir.

quinta-feira, 19 de março de 2020

O PIOR ALUNO DA ESCOLA

       
       Olhava pra mim como quem olha o pai, o mestre, o senhor, e me constrangia com aquilo como se eu fosse um menino pego fazendo arte. Não sei o que poderia querer de mim se tinha 18 ou 19 anos, talvez.  Será que elas sentem o mesmo que estou sentindo quando as olho do jeito que ora me olha?  Paguei a conta e saí.  Arrisquei uma olhada para flagrá-la ainda me espionando. Da moça até me esqueci, mas do sorriso com o qual me envolvia confesso que não.  Ontem, na padaria, a vi novamente. Aliás, ela me viu antes de mim e eu, que até o momento me achava senhor de todas as situações, me desconsertei diante de tão bela mocinha.  Ainda não sabia o que fazer com as mãos quando ela, sorrindo como da primeira vez, me perguntou se silvioafonso seria o meu nome e se eu fui amigo de um cara chamado Toninho na juventude.  
- Sim, sim senhora.  Fui amigo dele e também me chamam por esse nome.   
- Pois sou filha do seu amigo e logo que vi o senhor me lembrei das fotos que papai nos mostrava e das histórias que contava de vocês dois.  Em momento nenhum o meu pai falou o seu nome sem que uma lágrima fugidia embargasse a voz dele. 
A desenvoltura com que a pequena falava me reportou aos momentos inesquecíveis de um menino pobre e burro que se tornou amigo de um garoto magrinho, porém, inteligente como o diabo e filho de pais abastados.  
- O senhor está chorando?, perguntou a pequena.  
Envergonhado escorri as costas da mão sobre os olhos negando a verdade.  
Quantas mulheres, que tinham idade pra ser minhas filhas, passaram por minha cama.  Quantas outras me ensinaram o que jamais pensei que fosse possível entre um homem e uma mulher num motel e hoje, no entanto, me curvo diante de uma que tem carisma como as outras, inteligência de algumas e a postura que minha filha teria se eu a tivesse e o pior é que me leva de volta à estrada que tantas vezes sujou de poeira meus pés descalços e separava o casebre dos meus pais onde eu morava, do palácio daquela gente?(!)
Toninho.  Sem aquela amizade eu não seria nada além de um pobre e velho sonhador, como ainda me sinto, pois sem ela e a sua bondade eu não teria sido seu colega num banco de faculdade.  Saudades daqueles tempos eu tenho, mas lembranças da gente eu tenho muito mais, principalmente depois de ouvir o que sua filha me disse. Beijei-a na testa e fui à igreja chorar por seu pai.

segunda-feira, 16 de março de 2020

UMA JOVEM NA RUGA DA MINHA TESTA.

    
    Eu conversava numa roda de jovens quando uma garota, por volta dos 16 anos, me tratou de senhor ao referir-se a minha pessoa.  Antes de responder ao que me perguntava me apresentei dizendo que senhor eu não era, nem de mim e nem de ninguém. E continuei dizendo que a nobreza do pobre está em não esconder a sua condição e esta nobreza eu tinha. E mais, por que a senhorita trata por você pessoas com mais posses, mais educação e estudos e no entanto escolhe a mim para chamar de senhor?, perguntei a quem franzia minha testa e pintava outros fios dos meus cabelos de branco.  Talvez o restante dos jovens rissem do meu jeito de lidar com a idade, não com a deles porque jovem também já fui e sei disso, mas com a minha já que para eles estou fora de moda como diriam se lhes perguntasse.  Não fiquei mais do que meia hora com a garotada que fazia dos meus conhecimentos alvo de suas inquisições e eu gostava daquilo e eles também, certamente. Perguntas que se pode  fazer aos mais velhos ou aos mais sábios, dependendo de como se olhe a pessoa.  Muitos reclamam da impulsividade da garotada, mas esquecem que o seu questionamento é a mola da criação e das duas uma; ou mudamos nós o mundo ou ela nos muda a todos. Eu me lembro de quanto os filhos se trancavam pra jogar videogame e os pais produziam outros mais complicados. O ritmo continua o mesmo, só o leme do barco mudou de mão.   Isso a partir do momento em que um jovem, hoje bilionário, decidiu criar uma empresa onde os jovens pudessem fazer no computador o que lhes viesse à cabeça e nada de horário, uniforme ou a obrigação de ir todos os dias ao trabalho era exigido. Muitos levavam seus skates e alguns até o cachorro. Não sei se por isso ou pelo jovem ser o dono do itinerário do mundo é que a empresa se tornou no que é hoje em dia: dona da maior fatia do mercado de informatica. E ela me chamou de senhor quando na verdade senhor são vocês, crianças de meia idade que sustentam o presente e elabora o futuro da gente. 

quinta-feira, 12 de março de 2020

EM FAMÍLIA

    Existem fatos que a ciência e só ela poderia explicar, mas não o faz e muito menos os curiosos que se dizem entendidos ou não seria novidade ver o raro se tornar banal. Enquanto nada acontece sigamos com fé porque de pé já me bastam os cabelos. Isso me lembra um colega de trabalho me chamando para o aniversário da mulher. Eu fui, mas se soubesse que me tratariam bem como me trataram eu não teria rejeitado os convites anteriores. Eu acho que ninguém recebe como eles, principalmente a esposa que até na minha boca botou um pedaço do bolo que estava comendo.  Quer gesto mais fofo?
 Tudo ia bem até o momento que os mais íntimos brincaram com o dono da casa fazendo alusão ao que ele teria de grande dentro das calças. A mulher ria para não constranger quem brincava, mas não ficava à vontade com tal brincadeira. O marido, entretanto, esse  não se cabia de felicidade.  
Quando me despedi ela me deu dois beijinhos e alguns docinhos numa caixa. Nela, na caixa,  tinha uns dez dos mais saborosos e um número de telefone. Queria que eu ligasse pra se desculpar, certamente. Mas eu não liguei. Não nos falamos naquela semana só na outra porque ela ligou. Primeiro as desculpas, depois marcou para que eu fosse visitá-la.  Talvez por esquecimento marcou a visita para o mesmo dia e mesma hora que  a empresa queria o marido dela visitando um cliente bem longe dali.  Gente, com que cara eu faria uma coisa dessas? O que essa gentil e doce criatura  poderia querer comigo na casa dele sem o marido por perto?
Por favor, gente. O cara não era meu amigo, mas sim colega de trabalho. A mulher dele era qualquer coisa de enlouquecer, mas e o tripé de que tanto falaram, como disputar com aquilo? Está certo que o meu nunca me decepcionou e nem às mulheres com quem saí,  mas ele não tem o tamanho e muito menos peso parecido com o dele. Por que trocaria um bife, felizmente bem temperado, por uma churrascada em época de vacas magras?Na cama ela disse que apreciava uma carne macia como a que o marido tinha a sua disposição, mas tem hora que um bom pedaço de músculo deixa qualquer entendido no assunto de queixo caído, como ficou.Hoje o colega se tornou um bom amigo enquanto a esposa e fiel companheira diz que já sou de sua família.

segunda-feira, 9 de março de 2020

O ARQUITETO

    
     Recentemente li um autor que falava em reformas. Dizia das paredes de tijolo que os arquitetos derrubam para pôr as de vidro. - A luz do dia é imprescindível - justificava o profissional -  enquanto o escritor dizia sorrir. Sorria por achar que a casa que fez com tanto esmero se tornaria um imenso jardim com teto. Hoje cedo me lembrei dele, do autor e ri como se eu tivesse dito aquela bela "besteira". Jardim com teto, vê se tem cabimento!  Minutos depois eu me pus a pensar: talvez o arquiteto sugerisse algo semelhante se eu reformasse a minha. Certamente que ele substituiria a janela do meu quarto onde só um de cada vez pode se debruçar por algo parecido com as enormes paredes de vidro que o autor relatou em seu livro.  Rebaixaria meu teto e aí sim eu poderia ver onde as incansáveis aranhas tecem durante o dia e a noite embrulham o que vão comer de manhã. Não, doutor.  Nada disso eu desejo pra minha casinha, aliás, se eu fosse contratá-lo para alguma reforma seria para engrossar essas minhas paredes que de tão velhas se parecem tanto comigo. Também pediria que alteasse a janela de maneira que eu pudesse ver a chuva que vem quase que todos os dias e o brilho da lua ao cair da noite.  Meus jardins, se eu os tivesse, eu os queria ao relento, sem luz artificial, sem mesinhas e poltronas a sua volta, sem piso de madeira e sem teto onde os insetos fossem caçados pelas bravas tecedeiras. E se não fosse pedir muito pedira que me reservasse um canto onde eu pudesse cantar  os meus versos, recitar a poesia dos amigos que eu gosto e chorar as tristezas que de vez em quando se acercam de mim.  Ah, e um outro, bem escurinho,  onde eu pudesse guardar as minhas lembranças e  nele uma porta mais larga por onde, um dia, quem sabe?, Deus pudesse mandar me buscar.

quinta-feira, 5 de março de 2020

CADÊ MEU AVÔ?

   
   Hoje eu não acordei. É verdade, não acordei porque não dormi.  Até deitei como costumo fazer, mas cadê sono? Só me restou embarcar nos pensamentos e viajar até a estação da casa do meu avô onde o trem das lembranças resfolegou, resfolegou e parou. Nada tinha mudado no lugarejo além do meu avô que já não tinha mais como bulir comigo. Ele teve muitos filhos com "minhavó": seis meninas e cinco meninos, mas parecia que filho homem nunca tivera, pois ficava tão feliz com a minha chegada que nem sei mais se o neto era ele ou eu. Mas vamos ao sonho; na casa dos meus avós tudo era grande. Grande não; imenso, pois a casa tinha onze quartos e uma cozinha do tamanho da casa que eu moro.  Tinha uma dispensa e um banheiro, este ficava lá fora. Para que banheiro dentro de casa se embaixo da cama de cada um cabia um pinico pras necessidades da madrugada? Havia peixes, muitos peixes no rio perto da casa e cada um desse tamanho, oh! Era peixe a dar com pau e cada um maior e mais bonito que outro. Ah, tinha um campo pra gente jogar bola, mas ele era imenso, maior do que tudo nessa vida e eu muitas vezes morri e não consegui chegar na outra baliza. Foi pena ele ter encolhido como encolheu. É verdade, até porque eu sempre fui desse tamanho, o campo é que ficou pequeno. Lá, na casa do meu avô duas laranjas médias bastavam pra me encher a barriga. Hoje uma caixa das grandes me abre a apetite. Meu avô era igual ao avô de todo mundo, só que o meu tomava pinga na venda e eu ficava de porre quando me abraçava. Eu, hoje bebo duas vezes mais e ninguém cai ao meu lado.  Era tudo grande naquele tempo, mas hoje nem eu tenho o tamanho de quando vovó trocava ovos por pão e açúcar e meu avô galinha por farinha, cachaça, macarrão e fumo. A ponte para atravessar o rio de peixes a gente chamava de pinguela, varal era corda e caldo de cana garapa. E foi com isso na cabeça que completei a viagem. Cheguei agora, agorinha mesmo. Só deu conta de lavar a cara e correr pra contar pra vocês.

segunda-feira, 2 de março de 2020

LOS HERMANOS.

     
      A primeira vez que fui à Argentina encontrei-me com Cecília, uma velha amiga que há muito morava por lá.  Foi maravilhoso encontrar-me com quem além de bonita e educada  tem sempre um braço pra colocar no ombro de quem precisa. Dez anos depois e eu estava de volta à terra de los hermanos. A primeira atitude foi ligar pra minha amiga. É sempre bom um amigo por perto nessas ocasiões. 
 –Cecília se foi. – Disse a mulher depois de perguntar o meu nome e o disse com voz, não de quem estava feliz com a sua ausência, mas com tristeza pelo que me deu parecer.  Desliguei como se fora um robô. Recolhi os calcanhares pra perto da bunda na cama onde estava sentado para me deixar esbofetear pela maldade daquelas palavras. 
Cecília era jovem,  tinha dois terços da minha idade, era cheia de graça, coragem e amiga dos amigos que tinha. O que teria acontecido a essa adorável mulher, logo a ela, uma pessoa boa e feliz?
Poucas eu tinha visto com tanta saúde e tanta vontade de viver, e no entanto se foi. Meu Deus, como é tênue a linha entre a vida e a morte! 
     Eu estava muito triste pra perceber que a campainha que tocava era a do meu telefone. Mas era. Certamente seria o gerente perguntando o que eu queria comer no almoço ou nada que me interessasse naquele momento, mas eu estava enganado. A voz era delicada e transmitia tanto amor que eu praticamente perdi a minha; era Cecília...
Voltava do supermercado quando a rabugenta empregada, argentina, lhe disse que um tal de afonso ou seria silvioafonso?, havia telefonado. Cecília correu a ligar aos hotéis que habitualmente recebem brasileiros até me encontrar.  Muitas vezes me rasguei de felicidade, mas juro, juro por Deus que nenhuma foi tão maravilhosa quanto a que eu tive ao ouvir a voz de Cecília. Naquele dia  almoçamos juntos como há dez anos fizemos e juntinhos tomamos o lanche da tarde como da primeira vez.  Só não jantamos como jantamos no primeiro encontro porque estávamos bêbados.  Eu bebia por felicidade e Cecília porque me via feliz como eu de verdade estava.  Os bares fechavam quando fomos pra casa.  Ela pra casa dela e eu pra aquele hotel que tem por hábito hospedar brasileiros felizes que ficam tristes para em seguida devolver a eles uma alegria tão grande que na hora da janta preferem se embriagar a ponto de só pensar em cama onde possam dormir. Dormir, dormir e nada mais além de dormir pra sonhar com toda a felicidade que a vida possa nos oferecer.