quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

INTERCÂMBIO.

      Eu nunca traí minhas namoradas.  Em contrapartida jamais alguma delas me traiu, até que a última me chamou pra conversar. Primeiro me apresentou Sophie, 18 anos, francesa, recém chegada para o programa de intercâmbio. Sophie se hospedaria na casa da minha garota que por conseguinte se hospedaria na casa dela, em Paris.  Enquanto Sophie lutava para entender a cultura da gente a minha focava nos estudos de cuja área escolheu pra trabalhar. Levei Shophie ao cinema, ao teatro, à praia e ao motel.  Não, no motel não. Brincadeira. Saíamos todas as noites, muito mais do que saí com minha gata.  Sophie fazia tudo para entender o que eu dizia e eu a pegava, apalpava e até fazia coisas que não devia para ajudá-la.  E a gente ria. Ria muito, até de mais. Beijos se eu dei não foram tantos, talvez nem ela soubesse quantos, mas sabe que me empenhei para fazê-la entender que precisava tomar cuidado com os rapazes bem e mau intencionados.  Por isso eu tocava em seu peitinho pra dizer que não permitisse que fizessem nela e quanto a isso então nem pensar, falava passando levemente a mão em suas coxas. E Sophie ria, ria de se engasgar  enquanto o sangue me fervia dentro das calças, digo, das veias.   Essa é a melhor lembrança que eu tenho dos meus 17 anos. Fiquei responsável pela francesinha durante o tempo que ficou com a gente enquanto a minha gata, de quem já nem me lembrava, se casava com um português que vivia em Nice mais tempo do que eu tinha de idade.  Hoje, sozinho com os meus botões, me lembro das meninas que fizeram parte da minha história. Tempo em que errar era possível para acertar mais tarde.  Eu acho que não errei tanto ou as garotas não teriam o que contar na roda de amigos ou nas páginas dos blogs que escrevem, como eu.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

E QUEM NÃO É?


                               
   
   Eu acho difícil encontrar diferença entre homem, supostamente, honrado e homem, supostamente, safado. O mesmo se dá com político, supostamente honesto e político, supostamente, desonesto. Tudo depende do momento e das oportunidades que aparecem.  Se o político honrado tem o poder de mover o mundo com uma canetada certamente ele o fará para o bem da população, mas quando um mau político senta a sua mesa e lhe pede um favor, certamente que a honra será deixada de lado, se ele souber que os privilégios que goza a sua família de uns tempos para cá é por conta dessa pessoa que ora lhe pede um favor. O mesmo acontece com o homem que se mantém honrado até que uma  belíssima e distinta senhora o cerca com sua graça e disposição para agradá-lo no que precisar e antes que ele responda como marido exemplar, eis que a fenda de um belo vestido vermelho deixa transparecer a metade das coxas roliças, bonitas e macias da bela mulher.  E quando o honesto político e o homem padrão se dão conta a vaca já foi pro brejo com sininho amarrado no pescoço e tudo.  Eu não estou advogando em causa própria por dois motivos: primeiro porque não sou advogado e depois porque a irmã da mulher do meu filho e todo o Brasil sabem que eu moro sozinho e vir a minha casa desacompanhada numa noite de chuva é o mesmo que pedir a Deus que a mate e ao Diabo que lhe carregue. Pois foi assim,  num passe de mágica, que eu deixei de ser um homem honrado para me tornar no cafajeste que vocês dizem que eu sou.
 – Oh, é você?, entre, fique à vontade.  Quem foi o maluco que te trouxe pra me visitar numa noite fria e chuvosa dessas, garota? Me diz,  enquanto pego a toalha pra você enxugar os cabelos.
 – Ninguém me trouxe. Eu queria conversar com alguém que não fosse o pessoal lá de casa, por isso tirei o carro e vim pra gente bater um papo.  Espero que você esteja sozinho, não quero atrapalhar.
 – Não, tudo bem.  Não tem ninguém aqui em casa, aliás, quase sempre eu estou sozinho. As vezes vendo televisão, lendo um livro ou escrevendo textos pro meu blog e se falo com alguém é pelo celular na maioria das vezes. Aceita um café? Em cinco minutos eu faço. Dizem que poucos sabem fazê-lo como eu.
 – Você não tem nada mais forte aí não?  Tenho medo de pegar uma gripe.
 – Ah, sim. Tenho vinho, cerveja e...
 – Uísque, vodca ou conhaque, você tem? Se não tiver, paciência. Eu tomo cerveja, mesmo...
(Ai vem essa turma maldosa e chama o político de safado.  Ah, vai se catar.)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

BENDITAS SACOLAS.

      
      O que minhas sacolas teriam a ver com a mulher, da minha idade, que não tirava os olhos das coitadinhas  em um ônibus, praticamente, vazio?  Nada, pelo menos eu achava. Pois como não tirava as butucas de cima da gente me vi obrigado perguntar se ela queria sentar-se com a gente. Sem responder a pergunta ajeitou-se num assento atrás do meu para, junto a minha orelha esquerda, me dizer; - o senhor sabe como é, né?, a gente que mora sozinha e já tem um pouco de idade vive se perguntando se deve ou não deve puxar conversa quando aparece alguém desacompanhado, assim como o senhor, pra passar o tempo. 
- Tudo bem, madame, é que eu achava que a senhora quisesse sentar no lugar onde estão as sacolas, só isso.  
- Bem que eu gostaria, mas aqui atrás está bom. A gente se fala do mesmo jeito.  Pena que não vejo os olhos quando o senhor fala comigo.  Adoro conversar com quem fala olhando nos olhos. Já o senhor vê os meus quando fala.  O senhor gosta de olhos azuis? Eu gosto dos olhos que tenho.  Mas, aqui entre nós: eu até que gostaria que o lugar estivesse desocupado porque assim a gente ia conversando e quem sabe, mais pra frente, a gente não se tornasse amigo, não é mesmo, moço? Pois é o que eu sonho, sabe? Penso muito em ter alguém com quem conversar porque já ando cheia de falar com a minha gatinha e com as plantinhas do vaso na minha janela e ninguém me responder.  Dá até pra pensar que não respondem porque não entendem o que eu falo ou eu que não escuto o que dizem.  Quando estou fora de casa falo com todo mundo, com conhecidos e com aqueles que acho que conheço. Faço isso porque a minha memória já não tem o brilho de antigamente e para eu me esquecer das pessoas não custa nada, por isso até pra manequim de porta de loja estou dando bom dia. (risos) Mas, vem cá. Eu acho que o senhor não me é estranho...  A propósito; eu vou saltar no próximo ponto e caso o senhor queira fazer uma surpresa pra essa velha, venha tomar um chá comigo hoje à noite. Eu faço uns biscoitinhos daqui, oh! Está vendo aquela casa rosa?, pois é lá que eu moro.  Toque a campainha e vai entrando que estarei te esperando.  Até logo. Ah,  meu nome é Florisbela, mas pode me chamar de Flor.   E o seu?...

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

DA COR DO MAR.

    Eis o porquê de a praia fazer bem à saúde e aos olhos da gente. Basta que o sol ponha a cara de fora pras duas aparecerem, de cerveja e refrigerante em punho, a brindar os passantes, os conhecidos e os amigos que têm. A mais velha, quer dizer, aquela que já tem idade pra beber por aí é a mais expansiva ao passo que a outra só ri, assentindo ou discordando. E assim vai o sol se arrastando preguiçoso pra dentro das águas gostosas do Arpoador. Aliás, praia que tem jovens de cabelo parafinado surfando cada qual sua onda.  Que tem quem caminhe na orla, arrisque braçadas para além da arrebentação e tem os que tomam cerveja sentado nas pedras ou em cadeiras rolantes para aplaudir a tristeza do sol, por se pôr, há de se crer que também é gostoso. Fora a certeza do bem que nos faz um sorriso bonito. Pois olhe que hoje, alguém muito especial me disse bom dia com um sorriso desse tamanho nos lábios. E o fez me encarando com aquele par de olhos verdes, ou seriam azuis?, que me deu até vontade de me jogar daqui de cima lá embaixo, dentro d'água, de tão feliz que fiquei. Se eu tivesse coragem a tomaria no colo e jogava sua cadeira na caçamba do lixo. 
   Eu, como poucos, sei me esquivar das bobagens que escuto  e acho graça das mais elaboradas, mas quando alguém, sem abrir a boca, se declara pra gente é motivo de festa, de fogos de artifício formar corações enquanto o da gente explode dentro do peito.  Falar com os olhos é algo de sensacional, de maravilhoso e isso se não fossem verdes, ou seriam azuis?, como os dela.
   Ontem um amigo, que eu não via faz tempo, me apresentou à realeza. Ela me ofereceu uma cerveja e refrigerante pra esse amigo que deixou de beber. E ficamos ali a esperar o sol que até veio antes, me parece, enquanto o mar, feito criança, provocava as pedras e saía correndo.  Só a mais alta deu por esse detalhe já que a menor abduzira-se com o celular, mesmo estando ao lado da gente.  A mais bonita, se é que isso é possível, divagava entre o azul do céu, o branco dos barcos, das gaivotas e o verde piscina do mar. E o fazia com olhar azulado, ou seria esverdeado? Ou seriam azuis? Ninguém perguntou se alguém era casado ou casada. Se morava perto ou distante e se trabalhava, estava de férias no Rio ou não. Não. Ninguém ousou perguntar. E eu me refestelando com o sorriso que me dera. Eu não sabia que um dia alguma mulher fosse abalar as estruturas de um cara do meu tamanho como essa, com quem sonhei essa noite, me abalou. Quando tentei falar-lhe a respeito ela colocou um dedo na minha boca e disse que havia sonhado comigo. E disse me olhando com aqueles olhos que não me refletiam de volta como muitos faziam, mas me deixavam enxergar no fundo deles a beleza de sua alma.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

ÁRDUO OFÍCIO.

       O cara não perguntou dos problema que me levaram a ele, preferiu que eu falasse tudo de mim. Que fosse sincero e nada escondesse. Apontou-me uma poltrona enquanto sentava em outra à um metro e meio da minha. Quando me disse pra não esconder nada eu confesso ter ficado um  pouco assustado já que não o tinha procurado pra dar satisfação das coisas que fiz e sim tratar um pequeno desvio.  Então eu cocei a cabeça, esfreguei a palma das mãos na cara, pigarreei e, falei.  Falei como não pensei que fosse capaz, principalmente para um estranho, ou teria sido porque ninguém me interrompia? E ele ali, acomodado naquela poltrona sem riscar um friso que fosse na testa, ao passo que eu, enquanto falava tentava cortar um naco da madeira do braço da poltrona com as unhas. 
E o cara na dele... Foi quando percebi que, falar como eu estava falando, me aproximou de um passado há muito arquivado na minha memória.  Aí  foi que desandei a falar e o fiz por exatos 60 minutos e não fosse o sujeito, aquele que me indicou a poltrona e me fez soltar a língua,  me dar a mão e me levar à porta e eu acho que ainda estaria falando de coisas das quais nem me lembrava.  Na porta me disse até quarta, ou seja, a próxima sessão seria à dois dias.  Foi maravilhoso aquele resto de tarde e no dia seguinte ainda muito melhor.  Não saberia dizer melhor do quê eu estava me sentindo, mas que eu estava mais leve e muito mais feliz, com certeza estava. Ontem, pela 5ª vez me sentei a sua frente e só calei depois de ter dito coisas que se fosse à polícia ela me prendia, mas continuei sem medo do que tinha falado enquanto ele, caladão como sempre, parece não ter percebido o mea-culpa ou um friso teria surgido em sua testa.  Falar junto aquela pessoa me dava um prazer tão danado que nem a fortuna que pagava pra ele me dizer bom dia, quando eu entrava, e até quarta, quando eu ia embora, me incomodava. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

ABRA O OLHO...


   Uma pessoa das nossas relações deixou bem claro quando disse num texto dela que o melhor que se pode ter de alguém interessante não é poder tocar uma parte, qualquer parte, do corpo dela, mas a graça de  poder espreitá-la através de uma porta entreaberta por onde uma nesga de luz permitisse mostrá-lo.   Aí é que eu me pergunto; o que eu faria se tivesse o poder de decidir pelos outros? Será que eu tomava a decisão que a escritora disse que gostaria ou invadia o recinto com a minha virilidade em riste para mostrar o tamanho e a beleza da peça? Nesse caso correria o risco de ser agarrado e trancafiado num xadrez ou, sei lá, poderia até ser convidado para uma noite de amor com ela.  Nunca se sabe o que uma mulher poderia fazer vendo um bicho, como o meu, pulando na sua frente. Eu também já olhei através do buracos  de fechadura, mas se o fiz foi sabendo que a pessoa que estava do outro lado jamais me deixaria tocá-la.  Por isso, achando que espioná-la fosse o mesmo que subir o primeiro degrau de uma escadaria, optei por subi-lo.  Já corri riscos  escalando telhados e árvores (na minha casa havia algumas) para olhar a vizinha ou qualquer rabo de saia que se fechasse num quarto pra se trocar ou tomar banho e como diz minha amiga blogueira olhar a intimidade dos outros  tem um misto de prazer e pecado e não importa se invadimos ou não a  privacidade de alguém. Agora, não sejamos hipócritas falando que olhar o corpo nu e gostoso da pessoa que sonhamos ter em nossa cama não seja qualquer coisa de maravilhoso. 
Quando eu tinha 14 anos Deus levou a mulher do irmão da minha mãe pra morar com ele, por isso eu posso dizer que depois que ela se certificou de que eu estava dormindo, num colchonete ao pé de sua cama, minha tia trocou a calcinha ali, à meio metro dos meus olhos gulosos. Naquele dia eu levantei cedo para ficar mais tempo no banheiro sonhando com ela.

sábado, 11 de janeiro de 2020

BAIXA PRESSÃO.

    
    Caso a Celeste, viúva de um amigo morto há dois anos, fosse decente, não forçaria o noivo, que não aguenta bebida, a beber o que a gente bebeu. E por conhecê-la do jeito que a conheço, aceitei passar o réveillon na companhia de quem, na semana seguinte, viajaria em lua de mel. E assim encaramos o litro de uísque que eu tinha levado e as cervejas que ela, eu e o cara derrubamos. Quando vi Celeste misturando uísque na minha cerveja eu tive certeza do caráter que tinha. Queria me embriagar para, sei lá o que ela ganharia com isso. E só por curiosidade, pra ver até onde a maldade é capaz de chegar eu decidi  ajudá-la acelerando o processo. Comecei falando meio enrolado e a rir sem motivo. Entornei um copo de cerveja e fingi querer dormir debruçado na mesa. Embora estivesse sóbrio e muito melhor do que eles, deixei que me levassem, aos tropeços e escorregões até o sofá no canto da sala de onde eu via e ouvia o que faziam no quarto. O cara devia estar muito mal pra ela correr do quarto pra cozinha, da cozinha pro banheiro sussurrando palavras tipo oração, mas certeza, certeza eu não tinha.  Preocupado fui ver se precisavam de ajuda. O cara estava muito mal e se eu não o tivesse arrastado até o Hospital, onde ficou em observação, o cara teria morrido.
  Vocês podem voltar pra suas casas que a gente liga quando o Dr. lhe der alta  –  disse a enfermeira entre os dentes.
Voltamos, mas achamos por bem conversar um pouco no carro. Ela me questionando quanto a súbita melhora da bebedeira e eu tentando enrolá-la do jeito que dava.  Era madrugada quando decidi ir embora. Ela, talvez por gratidão, tomou as chaves do carro, olhou na minha cara e falou que qualquer oficial na lei seca saberia que eu tinha bebido.  Eram 10 da manhã quando ligaram para avisar que o sujeito estava de alta. Assim que chegamos ele me deu um abraço. Um forte abraço como se visse nas olheiras da gente o cansaço de quem passou a noite inteira rezando nos corredores  frios de um hospital.
 Ufa, que susto!

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

OBRA DO ALÉM.


   Vendi a motocicleta que me deram de aniversário. Quer dizer, dei de entrada num carro pra fazer Uber. Cinco dias trabalhando eu recebi um chamado pra pegar um cara lá pras bandas do cemitério.  Lugar onde um amigo morreu porque o casaco ficou preso na cruz,  mas como era dia eu fui. Peguei a mala pesada do passageiro e enfiei dentro do carro e sem pensar no amigo com o casaco preso na cruz eu dei partida no carro e vazei. Sumi daquele lugar. Depois de ter feito a maior parte do trajeto resolvi puxar papo, mas como ninguém me respondeu eu olhei para trás e vi que ele tinha sumido. Ninguém estava mais ali. Só eu. Meu Deus do céu, seria uma alma penada! Fiquei mais arrepiado quando lembrei do amigo morto com o casaco preso numa cruz dentro do cemitério. O meu desespero só acabou quando o celular tocou e minha chefe me perguntou se eu estava maluco. Embarquei a mala, mas não embarquei o passageiro...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

A PONTE.

 
     Eu sei que 2019 foi bom, mas nada posso dizer de 2020 embora a ponte que me levou de um ano para o outro fosse maravilhosa. Principalmente depois do convite de um amigo pra passar o natal na casa deles. Sabe aquela mulher por quem passei o ano me arrastando? Pois ela me apareceu no meio da festa com um sorriso desse tamanho assim pro meu lado, mas tão bonito ele era que achei que não fosse pra mim. Gente, ela me deu um sorriso e eu, claro, sorri de volta e até daria a barriga pra coçar se ela quisesse e como eu não sabia que ela estaria no pedaço acabei enchendo a cara. Bebi o suficiente pro Diabo, aquele que me atentou o ano inteiro, enfiar a coleira no meu pescoço e dar pra ela puxar. Mas agora já era. Depois que a vi se esgueirando pro meu lado eu pirei de verdade. Sim, eu pirei porque chegou me dando beijinhos como se fôssemos velhos amigos. Logo ela que jamais olhou nas fuças de quem lhe deu todas as chances do mundo inclusive a chance pra me mandar pastar ou quem sabe dar um passa fora como se faz com cachorro. Agora me chega assim, do nada, só para acender meu pavio. Essa mulher, que nunca se importou com a minha presença, como falei em textos recentes, ora me presenteia não só com a companhia como com esse sorriso que eu nem sabia ser tão bonito.  Fora essa voz de gata passando o rabo na perna da gente e os seios durinhos que eu lambi com os olhos através do decote do seu longo de seda.  E eu babando como idiota com aquela boca gostosa pertinho da minha. Boca que muitas vezes beijei nos meus sonhos.
 Aqui está muito barulhento  ela disse  e nem ouvi-lo direito eu consigo. Que tal à varanda pra gente falar e se ouvir melhor  concluiu.
 Hem!, o que você disse? Ah, meu Deus! Se alguém me beliscar eu juro que meto a mão na cara  pensei.
Ela se levantou me arrastando pela coleira até a varanda quando eu pensei que seria beijado na boca porque falava com o nariz encostado no meu até que um baixinho barrigudo me olhou de cara feia e aos beijos vazou de carro sabe Deus pra onde. Só me restou voltar pra minha concha pra continuar sonhando o que a minha sorte me nega.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

ALTAS ONDAS.


     Meu amigo de surf caiu de uma onda tão grande que a prancha com a qual cavalgava  a bandida partiu quebrando-lhe o fêmur. Naquele momento de dor e tristeza teria confessado à reportagem que ia parar com o esporte, que nunca mais surfaria onda nenhuma. Na quinta-feria seguinte fui visitá-lo e tão logo o cara me viu foi gritando:
 – Aí, brô. Num adianta vim me contar história não porque nem tu, nem ninguém me tira da decisão que tomei, falô? Tu num faz ideia do que eu tô sentindo...
Foi o bastante para  que eu lhe desse um esporro, até porque a pessoa que teve o vento esparramando cabelo na cara enquanto trepa uma prancha, jamais esquece os mares que singrou à exaustão para encontrar umas ondas, muitas vezes desconhecidas e traiçoeiras que o levassem aos prazeres que só o mar e uma tábua lixada sob os pés de um cara corajoso como ele, puderam lhe dar. A euforia de surfar em pleno contato com a natureza não se esquece assim tão de repente ou o surfista não sonharia quando seus pés tocam as dobrinhas do carpete da sala ou quando vê as marolinhas de uma represa ou também não se arrepiaria no momento em que olhasse as curvas de uma palmeira 
na orla da praia. 
Portanto, Brô, como gostas de chamas aqueles que surfam contigo, não me venhas com chorumela porque eu aceito qualquer coisa como Ex. Mas ex-surfista, meu camarada... Jamais.