segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

PORTA NA CARA.

  
        

     Levantei cedo e como de costume deixei a mesa pronta para o almoço. Num balde de prata, cheio de gelo, coloquei 3 garrafas do melhor champanhe no centro da mesa. Quem sabe aparece alguém para bebê-lo comigo.  Na cabeceira um prato de porcelana, uma taça de cristal, um garfo, uma faca e um guardanapo branco para combinar com a toalha.  Por volta das onze atendi à porta onde as malucas mantinham o dedos enterrados na campainha.  É claro que não olhei no visor porque elas, como sempre, o estariam cobrindo com a mão.  Coloquei na cara um bonito sorriso, arrumei a gola da camisa e abri a porta pra elas. Mas se alguém pensou que havia mulher  vestida de gorro, sandália vermelha e mais nada além disso cobrindo o corpo enganou-se porque não eram mulheres, mas um bando de homens que entrou me empurrando e dizendo coisas que eu não entendia.  Enquanto o mais forte se referia a sua própria mulher os demais me atingiam com tapas e pontapés dos quais nem eu nem sei como pude escapar. A barulhada só terminou quando alguém, com o champanhe na mão, perguntou se o que tinha na garrafa era o que dizia o rótulo ou não.  Antes que eu afirmasse uma rolha espocou e o cara, já sorrindo a essa altura, foi enchendo as taças na medida que iam surgindo.  Taças que eu nem sabia onde as tinha guardado e até que puseram uma na minha mão.  Tive sorte porque o medo já tinha mijado nas minhas calças. 
– Nunca tomei nada igual – Diziam uns aos outros. A conversa girava em torno da bebida quando outras garrafas foram arrumadas no balde. Do assunto que os levou lá em casa ninguém mais se lembrava, mas eu sim, porque o negão que metia o dedo na minha cara era o mesmo que batia na mulher quando transavam, e foi ela quem me falou na noite que dormiu aqui em casa por ter brigado com ele. 
 Quando o último saiu da minha casa, carregado, eu levantei a duras penas e fui limpar a sujeira e como estava de barriga vazia peguei uma fatia do peru e levei o resto de volta pro forno.  Mas pera aí. De onde surgiu esse bicho que nem cogitar comprá-lo eu cogitei?  Certamente trouxeram para justificar o champanhe. 
Nunca tanto homem entrou na minha casa para beber comigo como naquele natal, a não ser acompanhado de suas mulheres, que por sinal nem deram as caras para me livrar do enrosco.  Limpei a sujeita e já ia pro banho quando a campainha voltou a tocar.  O som me arrepiou, por isso me arrastei até à porta na intenção de saber o que pretendiam uma hora daquela.  Do outro lado diziam que eu embriaguei seus maridos, mas não fui homem o bastante  para convidá-las a beber com a gente.(?)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

PRESENTE DE NATAL

 


De março para cá não tenho visto marido,  pai ou namorado cuidando 
da esposa, da  filha ou da namorada como cuidava antes do vírus.  Talvez porque ninguém acreditasse, por mais idiota que fosse, que uma pessoa jovem ou não, solteira ou bem casada, se permitisse ser abraçada, beijada ou mantivesse qualquer tipo de contato por mais encantador que fosse o sujeito, muito menos por um cara que além de morar sozinho e ser um bom tipo, como elas próprias confessam, se arriscariam diante daquelas unhas. Isso deveria rolar na cabeça de cada uma e daqueles com quem moram.  Mas pelo que deixam parecer não é o que acontece ou eu não teria encontrado entre uma almofada e outra do sofá da minha varanda a calcinha vermelha que a empregada, segundo disse a patroa, havia roubado. E não só a calcinha, mas grampos de cabelo e até sutiã pendurado no registro do chuveiro eu já encontrei. Pessoas de ideia fraca como essas, me lembram animais demarcando território. 
Na pia da cozinha há uns copos com marca de batom na borda a espera da empregada  voltar ilesa da quarentena para lavá-los.
Peguei o resultado do meu exame de sangue, felizmente não reagente,  me dando a certeza de não ter contaminado ou de ter sido contaminado por alguém.  É o que me faz ficar preso aqui dentro sabendo que esse tipo de exílio desencadeia males mais sérios a todos, como a morte por tédio ou por solidão.  Pena que eu nada possa fazer em socorro além de permiti-las desabafar no meu ombro a cada vez que necessitarem já que sabem que podem contar com o meu e com algumas palavras de conforto.  As vezes enfiar os dedos em seus cabelos também dá resultado, fora o hálito quente e gostoso ao pé da orelha.  Eu tenho arriscado fazer essas coisas porque até onde eu sei errar é perdoável, mas nunca por omissão.  Morrer eu sei que a gente vai um dia, mas de depressão ninguém aqui dentro morre se nem dormir sozinho eu consigo.  Talvez o amor acabe comigo nas "festas de fim de ano" pois já andam falando que a entrega dos presentes ainda não terminou.
 – Ninguém vai deixar de te dar uma lembrancinha, Sr. Silvioafonso. – Disseram do lado de fora  sabendo que as via no olho mágico, e ouvir o que falavam me enchia a boca d'água porque para elas me aparecerem só de gorrinho vermelho na cabeça e sandália alta nos pés, não custa nada.  A dúvida está no que possam fazer comigo. 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

PUMA DO MEU CORAÇÃO

   

     Comprar uma puma, como se chamava esse carro, era sonho de todos os jovem da minha idade e eu precisei abrir mão de muita coisa para ter o meu.  Esperei mais do que podia para ter a capota arriada e sair a mil atrás das garotas que até então esnobavam o fusca azul pavão que eu tinha.  Antes eram elas que não aceitavam que eu as levassem à Rádio (Mayrink Veiga) onde rolava o programa Hoje é Dia de Rock. Mas depois, com aquele carro fedendo a novo, até as mais metidinhas imploraram por um rolá na caranga ao meu lado.  Valeu me matar trabalhando para nos fins de semana sair atrás de quem nem olhava para onde eu estava.  Não fossem as largadas na pista eu nem saia de casa.  Deixar de sair comigo pra não andar de fusca era sacanagem e olha que o meu era top dos topes, tipo, suspensão rebaixada, tala larga na traseira e escapamento Kadron, que dava a ele caráter esportivo.  Finalmente eu tive como dar um basta naquilo. Chega de mulher feia falando errado e comendo de boca aberta ao meu lado.  Chega de esconder dos meus pais as garotas feiosas com quem eu saía.   Depois do carro novo eu assumi outro patamar, como diz o craque do mais querido. 
Na sexta-feira, quando saí do trabalho, peguei a caranga e toquei para a casa de uma que há muito eu mantinha na alça de mira.
 Vim te buscar para gente ir a um show –  mostrei-lhe os convites, mas ela nem se deu o trabalho de olhar, apenas se desculpou e disse que já tinha compromisso.  Compromisso com Robertinho que tinha carro que não era fusca, certamente.  Eu não entendo essas garotas.  Só porque o cara tem um carrão ela troca um show no Canecão pela murada da praia da Urca. 
 Então tá, depois não me diga que não te chamei.  Atravessei a rua até o carro que ela só viu porque veio bater o portão nos meus calcanhares.  Pulei à porta para dentro do carro e antes de dar a partida escutei uma voz perguntando: 
 Bonito carro, é teu? – Assenti com um gesto. – Não sabia que tinha trocado o fusca.  Olha, pensando bem eu vou aceitar seu convite. Espere um pouquinho que vou me trocar. "Com um carrão desse eu vou até pro inferno" –  ela teria pensado, mas antes de fechar à porta eu gritei para que me ouvisse:
 Ah, que pena... Eu tinha certeza que não sairia com quem anda de fusca. Por isso convidei uma garota que não se importa com essas bobagens.  Desculpa, mas estou indo buscá-la para ver James Brow no Canecão, comigo. Não é sempre que o negão vem dançar e cantar num país como o nosso.  Acenei com dois dedos na testa e saí com a puma cantando pneu.
James Brow veio três vezes ao Brasil e em uma delas eu fui ao Canecão para vê-lo. Brow inspirou ninguém mais, ninguém menos do que Michael Jackson, Toni Tornado, Tim Maia e outros mundo afora, mas infelizmente o Rei do soul  canta e dança só em nossas lembranças.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

UM DIA DE CÃO

    

    O dia era frio e nublado e nada de especial havia acontecido naquela triste terça-feira até o UBER branco do Leonardo parar para uma bela mulher embarcar com a cadelinha.  O motorista era bem falante, razoavelmente vestido e parecia trabalhar naquilo que mais gostava, enquanto a mulher, que se vestia com sobriedade, demonstrava, apesar de ter a graça das jovens da zona sul, estar vivendo o pior momentos daqueles dias. A cadelinha que irradiava felicidade, talvez por não saber para onde a levavam, não parava de lamber a dona e latir para todos lá fora até que a moça atendeu o celular e  o motorista ficou sabendo o motivo da tristeza dos belos olhos azuis.   Leonardo, que não tinha o hábito de ouvir o que diziam no banco de trás, não pôde deixar de escutar o que a dona da cadelinha dizia ao celular.  "Cinco mil e duzentos reais, só a cirurgia e mais um mil e trezentos para os exames e como não dispunha daquela quantia –  dizia ela para alguém do outro lado da linha –  decidiu pagar 500,00 para o veterinário sacrificar a bichinha".
Leonardo, que não teve como não ouvir a conversa, pediu desculpas e se arriscou perguntando se ela daria a cadelinha pra ele, e como a resposta lhe foi favorável, Leonardo deu meia volta e levou a mulher, agora toda sorridente, de volta para casa.  O motorista levou a nova amiguinha à casa de um amigo, que também gostava de bichos, para levá-los à veterinária onde Leonardo pagou 250,00 pela remoção de um nódulo no ovário e mais 120,00 pelos exames.  A bela mulher, coitada, pagaria 500,00 só para sacrificar o pobre animal enquanto Leonardo, com a grandeza de poucos, gastou muito menos para salvá-la da morte.  Leonardo deu novo endereço à cadelinha e até o nome da criatura ele trocou.  A partir daquele momento a felizarda seria chamada de, VIDA.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

NA MESMA MOEDA.


    mão explodiu na cara dela, não por ter olhado, mas por ter sorrido para alguém que tomava chope naquele bar onde os carros param quando fecha o sinal.  Eu não sabia que era casada ou não teria acenado como fazia nas vezes em que ela passava e eu tomava chope com meus amigos e para dizer que eu não fiz nada, saí correndo atrás do carro que acelerou e sumiu antes das porradas que o motorista ia levar.  Senti muito ter causado tudo aquilo e  não poder fazer nada doeu muito mais.  De qualquer forma ficou a certeza deu que o covarde só bateu porque mulher não revida, mas comigo seria diferente, por isso fugiu quando corri atrás dele.  Eu não a conhecia e muito menos sabia o seu endereço porque se soubesse não ia prestar.  Agora estou eu aqui na inauguração do bar do meu amigo tomando o meu chope e quem eu vejo sentado com duas garotas contando vantagem?, o covarde da noite passada.  Eu não podia estragar a festa  do amigo porque poucos, como eu, sabem da luta que travou para abrir esse negócio. Foram anos de trabalho e renúncias e não seria eu, um amigo de infância, que ia estragar tudo, mas ninguém me proibi de tropeçar no garçom e derrubar a bandeja de chope encima do safado, até porque, acidentes acontecem.  E foi o que fiz.  O cara tomou aquele banho e quando quis se encrespar com o garçom eu o segurei pelo músculo, que liga a clavícula ao pescoço, mandei que se calasse e com um sorriso falso nos lábios o levei para se lavar num chuveiro nos fundos do bar.  Peguei o celular que deixou sobre a mesa e com desculpa de levar para ele, eu liguei para aquela que mais se parecia com a mulher que apanhou naquela noite  a quem eu disse onde, com quem e em que estado o deixei naquele momento. Desliguei e joguei o celular na cesta de lixo.  Hoje a gente até com um certo constrangimento recorda a violência com que o marido a tratou, mas se não fosse aquilo eu não a teria nos braços como a tenho nesse momento.  A gente se entende bem porque se revidasse aquela violência a gente não poderia se encontrar uma vez por semana como vem acontecendo.  Isso nos dá a certeza de que violência não se paga com violência, mas com carinho, beijos e muito sexo, como a gente vem fazendo depois que me deparei com o salafrário na inauguração do bar do meu amigo.  Um dia ele vai entender que nem tudo é porrada.  Nesse dia, quem sabe, a gente não sai pra tomar umas cervejas?

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

ABRA A SUA QUE EU FECHO A MINHA

 

    Sempre que eu me trocava ela corria pra janela, mas eu era mais rápido e fechava a minha na cara dela. Com o tempo eu me dei conta do babaca que eu estava me tornando, por isso decidi que a partir daquele dia a janela do meu quarto não fechava mais e se quisessem me ver do jeito que vim ao mundo, que vissem.  Eu mal dormia pensando nisso, mas ao perceber que tinha gente na janela eu levantava e escancarava a minha. Depois tirava a roupa  e  calmamente ia pelado pro chuveiro.    Eu não olhava, mas sabia que era visto ou mamãe não me diria pra fechar a janela quando  eu fosse tomar banho.  Como ficou sabendo se eu nunca falei nada? Não satisfeita da fofoca que tinha feito veio a minha casa perguntar por minha mamãe, mas porque tanto trabalho se está careca de saber que mamãe sai cedo pra trabalhar?, e o mais engraçado é que foi entrando como se eu a tivesse convidado.  
– Meu professor de música disse que no natal eu vou tocar com as meninas na banda do colégio.  Ele falou que gosta de como toco os instrumentos, mas prefere que eu toque o clarinete no desfile.  Eu sei que falou isso porque eu não poderia tocar piano ou violoncelo enquanto marcho – falou abrindo a geladeira para olhar o que havia dentro. 
  Você sabia que ele queria me beijar?  Ele tem esse hábito, beijar as garotas que a quem ensina música. 
 E o que você fez pra ele não te beijar? – perguntei. 
– Nada. Não fiz nada – respondeu. –  Deixei que me beijasse. Você já beijou alguém?, – me perguntou. 
– Claro, claro beijei – menti sem olhar para ela. 
 – E como é que se beija?  – perguntou fechando a geladeira. 
 – Ah, sei lá, beijando, ué!, – respondi vermelho como tomate. 
– Beijou nada...  Se beijou me mostra que eu quero ver – disse fechando os olhos e com as mãos para trás. Cheguei perto  e todo atrapalhado dei um selinho nela, mas como era cinco centímetros maior do que eu o beijo pegou no queixo.
– Esse beijo não valeu porque você não beijou direito – disse curvando um pouco mais os joelhos. Desta vez acertei a boca, mas coisa rápida.  
– Você sabe o que um homem e uma mulher fazem quando estão juntos num quarto? – perguntou me olhando sobre um ombro.  
– Claro que sei – respondi enfiando as mãos nos bolsos.  Eles dormem juntos, só isso.  – Falei e ela riu da minha cara.
 – Sabe nada, seu boboca.  Nenhum homem dorme quando se deita com uma mulher – disse se abaixando para olhar dentro do forno do fogão – Eles fazem sexo – concluiu como se soubesse todas as respostas –  se eu falo é porque já vi   ela foi dizendo  Vi meu padrasto fazer com minha mãe porque achavam que eu estava dormindo.  Vou te mostrar como é;  baixa as calças e se deita aí,  nessa poltrona, que eu vou me sentar em cima de você pra te ensinar – disse puxando o zíper do jeans para baixo e caminhando em minha direção. 
 – Não, não vou fazer nada disso que você está mandando, aliás, vá embora!  Vá embora ou eu conto pra minha mãe quando ela chegar... (Botei a garota pra fora batendo à porta atrás dela).   
  Faz mais de 50 anos que tudo isso aconteceu e eu ainda me envergonho quando passo embaixo da janela dela sempre que vou visitar minha mãe. que ainda mora lá. Talvez a maluca já tenha se casado e até filhos formados deve ter.  Eu só espero que as crianças não tenham passado pelo que ela me fez passar quando pequeno.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

PRETA OU BRANCA, QUAL A MELHOR?

 

    Antes que a semana terminasse, um funcionário,   admitido numa loja de departamento no mais importante shopping do Rio de Janeiro, já demonstrara ser bastante eficiente no que lhe davam a fazer.  Celso chegava cedo e saía depois de todo mundo.  Dava a entender que muito cedo assumiria um lugar de destaque na sua carreira.  Suas ideias e empreendimento faziam a diferença.  Durante seis meses foi o “funcionário padrão”.  Em um ano já era uma das mais expressivas figuras do shopping e em menos de dois, gerente. A loja bombava e todos se beneficiavam do resultado até que um casal, que negociava a compra de um aparelho de ar condicionado, foi levado à gerência para discutir um desconto maior.  Quando viu que o gerente era um negro que se levantou com a mão estendida e sorrindo pra ele o marido falou para a mulher que se arrependera da compra e queria ir embora.  Pediu desculpas a funcionaria e saíram. Celso o alcançou ainda dentro da loja e pediu que voltasse para conversar e se o problema fosse o preço discutiriam o assunto. 
– A partir desse momento sou eu quem vai atendê-los – disse o gerente sorrindo.  O homem olhou para a funcionária e perguntou o que teria acontecido para um shopping tão importante permitir que um negro assumisse  função tão relevante,  porque negro, na concepção dele,  no máximo consegue vaga de vigia ou  de zelador num lugar como aquele. Falando em voz alta o casal virou de costas e foi embora. Celso não resistiu e pela primeira vez chorou diante a presença de todos, não pela ofensa feita a sua pessoa ou por vergonha, mas por perceber  que faz tempo o ser humano já vem caminhando  a passos largos por esse perigoso caminho.  
No dia seguinte  os  gerentes do Shopping, todos, o aguardavam no estacionamento segurando cartazes que diziam; – Celso, estamos com você, meu irmão! 
Celso tirou o mundo de suas costas e seguiu para a loja onde os  funcionários esperavam por ele gritando seu nome e cada um com um cartaz onde se lia:  “Antes de você nunca os resultados  da loja nos fizeram tão bem. Obrigado Celso!”

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

SABOR DA BALA

    

    Marcinha ficou sabendo que Mendonça, parceiro que a Academia designou para substituir o detetive Cajado, morto numa incursão, era gente boa, mas só não sabia que além de solteiro era alto, forte e muito, mas muito bonito como constatou quando o marido o levou para jantar com eles.
– Gostei que o tivesse trazido pra jantar – disse Marcinha ao marido ao fechar à porta atrás de si – ele é muito mais agradável do que o falecido Cajado e como conversa bem. Fiquei impressionada.  Pode trazê-lo outras vezes se você quiser.  A propósito, porque não o convida para o churrasco que a gente faz na casa de praia se é tão bacana como demonstrou?
  Peçanha achava que vinha fazer dupla com um maluco que só perdeu o parceiro por sair dando tiro  para todos os lados como disseram, mas estava enganado.  O cara foi morto por imprudência e não por outra razão. Fazer dupla com um policial linha dura era de se ter medo, mas esse, quando tirava a farda, era doce e gentil e ainda por cima  casado com uma mulher tão interessante que até ele, para estar ao lado dela, sairia dando tiros a esmo se fosse preciso.
- Eu gostaria de agradecer o jantar dizendo que depois da minha mãe ninguém deu sabor às receitas tão bem quanto a senhora – Disse com um par de olhos verdes cravados nela que corada, pediu licença e saiu pra cozinha.   O marido levantou o copo e brindou o amigo – Que este seja um dos muitos momentos bons que passaremos juntos.
O jantar rendeu assunto pra muitas conversas entre marido e mulher e num certo momento ela falou ao marido: – Por que não convidá-lo para o churrasco na casa de praia nesse fim de semana?
 A cada encontro a amizade se tornava mais forte, até que surgiu um novo convite;  romper o ano com eles já que Mendonça morava sozinho, mas o rapaz declinou o convite.
– Eu gostaria muito e nem sei como dizer isso, mas não posso aceitar.   Não posso porque esta é a primeira vez que vocês rompem o ano juntos e não vou atrapalhar a lua de mel de vocês – disse com uma certa tristeza.  Mendonça mentiu quando recusou o convite.  É claro que ele queria estar com os dois, pois assim estaria perto da mulher que mexia tanto com os seus sentimentos, mas como mulher de polícia tem gosto de chumbo decidiu ficar longe o máximo que pudesse aguentar, mas não demorou para que o procurassem.
– Quem é? – disse para quem não tirava o dedo da campainha.
– Sou eu, Marcinha,  já esqueceu?  – Mendonça ficou mudo.  Abriu a porta e ela entrou  como se conhecesse o lugar.
– Por que não foi mais lá em casa. A gente também sente saudade, sabia? – Perguntou arrumando o casaco no espaldar da cadeira.  Mendonça, ainda sem fala, fechou a porta, empurrando com o pé e a levou pra cozinha.  Abriu uma cerveja e antes do primeiro gole o celular tocou –  Era o dela, que se desculpou e disse ao desligar –  É meu marido, eu tenho que ir.  Deu um beijo na face e falou antes que a porta fosse fechada – Me espere amanhã que eu volto para terminar a cerveja.  – Foi embora, mas não levou o  casaco.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

TENTE OUTRA VEZ.

    

     Você precisa parar de me seguir porque meu marido já anda desconfiado e se ele me perguntar por que fico nervosa quando preciso ir à rua eu acabo falando e se eu o conheço bem ele não vai quebrar sua cara, mas vai denunciá-lo à polícia. Ah, isso eu sei que ele vai. Já ouviu falar em assédio? Então, cara. Para com isso.  Não estrague sua vida em troca de um caso que você sabe que não vai rolar. Não vou me tornar alvo para os  vizinhos ficarem me apontando e o meu marido, coitado,  não merece que eu faça uma sacanagem dessas com ele.  Está certo que o seu coração não tem nada com isso e talvez nem saiba o que esteja fazendo, mas sua cabeça sabe e não vai dar esse mole.  Eu até vou lhe dar dar um conselho e só o faço porque gosto muito da sua mãe.  –  Por que você não procura alguém da sua idade, alguém com a sua cultura, bonita e que o ame como você diz me amar? Não deve ser tão difícil assim até porque não sou tão maravilhosa assim, como diz.  Eu, além de ter idade pra ser sua mãe, sou casada com uma pessoa muito, mas muito ciumenta mesmo.  Agora, se você acha que consegue calar essa boca quando me vir na janela,  não fazer gracinha quando passar por mim eu já me dou por feliz, mas, se insistir nessa coisa eu acabo pedindo ao meu marido pra gente mudar desse bairro. Aliás, já fiz isso, mas no momento não dá.  A multa da rescisão do contrato está fora do nosso alcance.   Seria bom porque você, livre de mim, arranjaria uma namorada, casaria com ela, teria seus filhos e me deixaria em paz.  Talvez seja difícil esquecer alguém que me diz ter um amor tão grande, mas vou arriscar.  Vou arriscar, mas também vou dizer que se eu não fosse casada teria um imenso prazer em sair com você e nem me importaria pra onde você me levasse, mas infelizmente...
 Qualquer mulher gostaria de poder acordar com um cara grandão, atlético, inteligente e bonito como você ao lado dela.  
Eu gostaria, mas não posso, a não ser que façamos o seguinte, vê se você concorda; a gente sai uma vez, mas só uma ou nada feito.  Vamos para um lugar onde ninguém nos conheça,  bebemos qualquer coisa, conversamos um pouco e se tiver clima a gente dança, porque eu gosto de dançar.  Só tem um problema: nunca mais você me procure, nem pra me dar dinheiro, entendeu? 
Então tá combinado.  Amanhã meu marido vai trabalhar um pouco mais tarde.  Meia hora depois eu desço, te pego na garagem e aí a gente decide onde passar o resto do dia.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

INCONSEQUENTE

 
    Tem gente que faz coisas inacreditáveis quando bebe. No meio do ataque de um vírus que matou muita gente por volta de 2020, meu filho, na época com 21 anos e desempregado por conta da pandemia abusou da bebida com os amigos.  Na volta pra casa colocou no meu carro, que pegou emprestado, uma mulher e uma criança de colo que pediam dinheiro para comer.
– Pai, eu gastei no bar o  que daria pra sustentar essas pessoas durante uns dois dias, mas como o dinheiro acabou eu as trouxe para um banho, o almoço e se o senhor não brigar comigo elas ficam para o jantar.  Depois as levo de volta como falei para ela. Eu fiquei olhando pra cara de quem podia ter quebrado uma garrafa e matado alguém numa briga e, no entanto estava ali, olhando pra mim com cara de salvador da pátria àquela hora da noite.  O que eles poderiam fazer antes do almoço seria jantar, dormir e tomar o café da manhã e não ao contrário como dissera e o pior é que trouxe pra casa gente que nunca vimos na vida.  
– Tudo bem, meu filho.  Faça do jeito que vocês combinaram. E eles fizeram.  Meu filho comeu qualquer coisa e foi se deitar.  A moça fez o mesmo, mas num sofá no canto da sala indicado por mim. No momento eu até pensei em ceder o meu quarto, mas achei melhor não. E naquele sofá, mãe e filha,  passaram o resto da noite.  
Pela manhã o cheiro do café fresco me acordou. Foi quando percebi que a moça já não dormia onde a deixei na noite passada, até pensei que estivesse no quarto com meu filho, mas não, não estava, mas e o cheiro do café, quem o estaria fazendo? Era ela.  A bagunça da noite passada fora desfeita, a louça lavada e a máquina batia o monte de roupa suja que havia no cesto.  Depois que minha mulher voltou a morar com a mãe por conta da doença da velha, aquela foi a primeira vez que alguém fez alguma coisa de bom lá em casa.  Meio dia e meia meu filho acordou.  Tomou um banho e sentou-se para almoçar.  A moça, que também tinha feito a comida, nos olhava com olhos de "chef" a espera dos elogios. E eu elogiei, não para deixá-la contente como ficou,  mas pelo sabor que dera à comida. Pelas nossas contas faltava pouco para irem embora. Restava o lanche da tarde e a janta. Á noite, pelo que constava, passaríamos os dois, eu e o filho, sozinhos, mas não foi o que a sorte nos reservou.  Lanchamos e jantamos o cardápio da moça que nada dizia se não fosse perguntado. A casa continua limpa e cuidada como nos primeiros dias do meu casamento e enquanto a filha da protegida do meu filho crescia, eu ficava mais velho.  Meu filho, que passou a dormir no sofá do canto da sala por ter dado seu quarto para elas, voltou a trabalhar. O tempo passou e hoje, dia três de novembro de 2046 nós quatro, depois dos drinques, vários, que tomamos pela colação de grau da filha da moça,  voltamos a casa trocando as pernas.  Isso mesmo, aquela criança que chegou no colo da mãe depois do meu filho ter enchido a cara com os amigos, lembra? Pois é.  Era ela quem se formava em medicina e por conta disso e pelas consequências de um porre que o meu filho tomou há tantos anos que saí do táxi, com todo mundo rindo da minha cara pelas bobagens que eu continuava falando, para beber com eles o resto da festa.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

O VÍRUS

      

      Antes do coronavírus nos deixar maluco a minha avó já falava sozinha.  Ultimamente a velha vem dando palestra e quando me pega rindo diz que eu sou implicante. – Mas como implicante, vovó, se você fala com quem ninguém vê?!   Vovó fecha a cara, pega a vassoura e me põe pra correr.  
Eu ainda vou descobrir com quem vovó bate boca quando está sozinha, mas pelo que vejo, nem mesmo ela sabe.  Nessas horas meu avô, rindo, gira o dedo na altura da cabeça como quem diz; "maluquice de sua avó, coisa da idade".  Esse negócio da mulher ficar presa com um monte de gente falando no ouvido dela dá nisso.  O homem, esse fica numa boa, mas a mulher... não.  A mulher tem afazeres, e não importa se é domingo ou feriado que ela cai dentro.  Arruma a casa enquanto a turma toma café. Depois vem o almoço e as louças para cuidar. À tarde tem o lanche e a noite o jantar para fazer.  Tudo a tempo e a hora  enquanto os outros se refestelam aos pés da TV. Isso quando não estão  implicando comigo,  como diz a bondosa senhora.  Agora me pergunta se alguém se oferece para lavar um prato, varrer a casa ou tirar à mesa depois de comer, pergunta!  Claro que não e se pergunta é por perguntar ou para atrapalhar quem levanta cedo, faz tudo o que é pra fazer e na hora de dormir muitas vezes o cansaço não deixa.
Esse coronavírus está nos deixando neuróticos. Ontem, no consultório médico uma amiga me disse que o cara que estava sentado ao seu lado teve um acesso de tosse. No mesmo momento um velho, do outro lado da sala,  soltou um baita de um pum.  Me pergunta pra que lado eu corri?   Disse ela.   Pro lado do velho, ora bolas.  Pro lado do flatulento.  É melhor sentir cheiro de podre do que perder o olfato, não é mesmo?   Concluiu ela, sorrindo. 
 Espero que a pandemia passe logo pra gente não pegar o bendito do vírus quando for à caixa pra ver se o auxílio social caiu na conta. Não é nada, não é nada, são 600 reais.  Quer dizer, 110 dólares que o governo, tão generoso, nos dá pra passar o mês inteirinho.  Pena que tenhamos de dormir na fila pra receber u'a senha que dará direito a sacar os trocados. Eu queria muito que tudo mudasse logo depois.  Não que mudasse para a melhor, mas que mudasse de maneira que as gerações futuras pudessem saber que os profissionais da medicina fizeram o que puderam pra salvar minha vida, com o risco da sua e de suas famílias.  Eu espero que a partir daí tudo fique como foi feito para ser e não é.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

RETRATAÇÃO

      

           

       Tem coisa que nós não contamos nem no confessório do papa, mas tem vez que a boca seca, o peito aperta e nós acabamos falando. Foi o que aconteceu comigo, mas só falei porque não cabia em mim de felicidade.  Estava tão feliz com aquelas pessoas que acabei dando com a língua nos dentes.  Na hora nem me dei conta que o pai lia os meus textos, tipo, aqueles que comentam a postagem ou reclama quando não posto.  E não é só comigo que age dessa maneira, mas também com os amigos do filho quando atrasam suas postagens.  Não foi à toa que ficou uma arara lendo o que eu escrevi sobre a ida a casa deles. Eu sei que ele está querendo que eu me retrate, mas sinto muito porque não vai dar.  Não vai dar e eu explico por que.  Foi na visita ao sítio de um velho amigo onde tudo aconteceu, e se melhorar a dor da ferida eu posso assegurar que nem foi comigo que aconteceu, mas com uma pessoa de quem me dou o direito de não dizer o nome. Os meus textos têm por princípio fazer rir ou corar seus leitores e não deixá-los envergonhados como estou no momento.  Não posso e não pedirei desculpa a ninguém, aliás, vou até reclamar pela demora de um novo convite para visitá-los de novo. O lugar é maravilhoso. Um lugar onde o ar é puro e agradável. Agradável como são as pessoas que moram lá.  Pessoas que nos tratam como parte de sua família, que nos mostram o que é melhor de se ver e nos propiciam o que de melhor têm para fazer.  Lá eu passei os melhores três dias da minha vida e principalmente as noites em que ficamos até tarde contando e ouvindo casos.  Casos engraçados e não comentários sobre a vida de quem quer que seja.  Eu ri muito e também fiz rir aqueles que talvez nem rir como riram tem rido ultimamente.  Dormi naquela casa os melhores sonos e até sonhei com fadas de mãos macias e querubins sem pecado e sem juízo.  Antes dessa viagem eu não tinha recebido presente melhor como o que meu amigo me deu.  Sim, porque o convite não foi nada mais, nada menos que um lindo e generoso presente dado por uma pessoa que largou sua casa, seu pai e sua mãe e foi se arriscar numa cidade enorme com o propósito de se formar, como se formou.  Quando fiquei sabendo  que não tinha onde ficar ofereci  minha casa onde ficou tempo suficiente para graduar-se.  Portanto, meu amigo, caso você decida ler este texto ficará sabendo que não será um simples conto da carochinha que ditará o fim daquela amizade, assim como não deixará que o pai, que tanto me honra lendo meus textos, vire as costas para gente. Eu fui infeliz quando deixei de falar que tudo não passou de um sonho.  Um sonho do qual acordei no dia seguinte.  Acordei com os passarinhos no pé de amora cantando para mim.  Isso sim! É real, porque o resto, ah! O resto não passou da minha mais pura invenção.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

SABE TUDO

 

     Pouco tempo ou quase nenhum eu tenho estado com meus netos o que muito me entristece mesmo sabendo que sou totalmente diferente do meu avô que me punha nos seus joelhos para contar histórias, coisa que eu não faço porque eu é que me presto a ouvir os netos contarem as suas. Quando eu tinha a idade deles meu avô me dizia coisas que me arrepiavam os cabelos. Eu ficava com os olhos esbugalhados ouvindo o que ele me contava e já pensando que talvez nem dormisse naquela noite se a história não tivesse um final feliz.  Graças a Deus todas ou a maioria terminava com a criança subindo num galho para escapar à fúria do galo que, por desprezo da galinha pintadinha, corria atrás das crianças pra se vingar.  Isso quando um anjo bom não espantava a mula sem cabeça que vinha procurar seu chapéu no quarto da gente, como vovô tão bem me contava.  Essas histórias me causavam medo e apreensão, mesmo assim eu gostava de ouvi-lo contar, mas meus netos, talvez pelo pouco tempo que ficamos juntos, não se espantam com nada que eu venha a dizer, enquanto eu, ah... eu  morro de rir com o jeito com que contam seus casos, já que saltam, pulam, se jogam e rolam no chão ilustrando as histórias que contam.Eles são tão engraçados que as vezes meu maxilar dói de tanto que rio.  Eu, na idade deles, me sentava nos joelhos do meu saudoso vovô para ouvi-lo contar mais uma e caso medo eu sentisse me agarrava ao seu pescoço enquanto ele sorrindo dava outro andamento à história.  Meus netos não.  Esses se preocupam mais com os gestos, as caras e bocas que fazem contanto suas peripécias do que em ouvir o que talvez eu tivesse para lhes contar, e por pior que possa parecer, eu me borro de rir com a ênfase que dão ao que dizem.  Eu acho que não levo jeito pra ser avô porque o meu criava situações que me deixavam pensar que eu era um garoto prodígio e não aquele bobo que muitas vezes minhas irmãs me chamaram.  Eu, só para dar uma ideia, roubo dos meus netos quando jogo damas, xadrez ou cartas.  Não roubo para desmerecê-los ou dizer que sou melhor do que eles, mas para que entendam que são filhos e netos de um cara que nasceu para ganhar, para vencer no jogo e na vida.  O meu analista me diz que isso não é problema porque problema seria se eu fosse criança e quisesse, com isso, provar que não era. (Que vergonha, meu Deus!)  Crianças, perdoem o vovô, vai!


segunda-feira, 5 de outubro de 2020

UM RIO, UM CIGARRO E, NÓS DOIS.

 

     O sol sumia atrás do morro.  A brisa fresca já varria a pracinha quando ela pousou a procura do que comer. Infelizmente, por falta de chuva, talvez o rio nada tivesse a lhe oferecer.  Um senhor de chapéu de aba larga acomodou-se na outra extremidade do banco  e como não dissesse nada deu-me a impressão de que, para ele, ninguém mais estava ali, além dele.  Com o rabo do olho percebi que tirara o chapéu e o punha no colo. Tirou um cigarro do maço e o acendeu na brasa de um isqueiro de corda. Em seguida aspirou profundamente a fumaça que assoprou as golfadas para o alto. Bateu a cinza, olhou a brasa e sem se virar perguntou se eu morava ali perto.  Diante da negativa o idoso começou a falar.  Primeiro dizendo que os filhos não tinham vingado como ele queria.  Reclamou da mulher que ele dizia ser cúmplice dos filhos e por fim desandou a falar mal do governo.  Não do atual, mas de todos.  Disse que era filho de imigrante, que trabalhou mais do que talvez fosse necessário para ser promovido a um cargo melhor e não foi ao passo que político, depois de quatro anos de mandato, fazendo ou não fazendo algo que prestasse, se aposenta com todos os direitos, quer dizer, com direito ao que verdadeiramente não teria direito algum se o país fosse sério, disse-me ele.  Eu assentia com leves movimentos de cabeça a tudo o que o velho dizia enquanto assoprava a fumaça, ora para o alto, ora envolvendo as palavras que me dizia. Disse que o povo, em contrapartida, sonegava impostos e  fraudava, quando dava, tudo o que podia.  Na minha terra é que era bom, como dizia meu pai, mas precisamos fugir por conta da guerra.  Infelizmente viemos para um lugar onde a guerra também é grande e a fome ainda maior. Infelizmente meu pai escolheu a terra errada e nos trouxe pra ela. Durante meia hora ouvi  as lamúrias de alguém que além de um leve sorriso nada mais teve de mim que o incentivasse a continuar protestando. Esmagou a bituca de cigarro embaixo do tênis, ajeitou o chapéu na cabeça  e se levantou.  Olhou para o céu ainda a tempo de ver a garça voando pra casa.   Cuspiu o amargo que o fumo lhe deixara e sem  despedir-se voltou pelo mesmo caminho sem se dar conta que falou por tanto tempo com um burro, ou quem sabe, com um gênio que como ele passava por ali simplesmente.  É pena que esse tipo de gente habite o mesmo mundo  que os esperançosos lutam para melhorar, para que deixe, definitivamente, de ser um terreno baldio.  Aquele em que nada floresce quando se planta e nada se come se por ventura florescer.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

A DONA DA FESTA

     

         O homem é um bicho muito engraçado, disse pra si mesma.  O amigo do meu pai, por exemplo, corre atrás da minha convidada ao invés de me lamber os pés como vivia prometendo caso lhe desse um dedinho que fosse de prosa. É claro que a festa era um pretexto para trazê-lo aqui para casa e mesmo sabendo que o plantão no hospital o impossibilitaria de vir eu pedi ao meu pai que o convidasse para me dar um abraço, pelo menos.  Eu precisava saber por que as garotas falavam maravilhas a seu respeito.  E ele veio. Veio pra correr atrás da vagabunda na primeira oportunidade, e o pior é que levou meu champanhe pra brindar sei lá o quê.  Mas,  por que à garagem se tinha espaço aqui para conversar? Sim, porque foi lá que encontrei a garrafa e as taças num canto. Será que rolou algo mais e só eu não fiquei sabendo?  Bem feito pra mim se rolou, quem mandou bancar a gostosa.  Agora é ele quem me esnoba com aquele olhar, irresistível, de cafajeste.  Quer dizer, irresistível pra outras, porque eu não estou nem aí, para ele.  Ou será que estou? Mas, gente, pensa comigo; não é por  ser um cara lindo e experiente que eu ia me jogar de joelhos.  Já chega o que falam de mim por aí.  A droga é que ninguém consegue esperar e se a gente não dá na hora depois não querem mais. Bem feito, mesmo.  Agora que eu estava afim...  Ah que vontade de matar o desgraçado.  Tempo pra vir me dar um abraço não tinha, mas pra essa sirigaita teve o resto da noite.  E eu pensando que o papo entre eles fosse inocente, mas quando dei pela coisa já tinham esvaziado a garrafa. Acho que se aproveitou da festa e do carro na garagem para fazer atrás dele o que eu é que deveria estar fazendo. Ah, se eu pego esses dois naquela hora...  Se pego eu os matava.  Juro que matava.  Felizmente a sirigaita não mora por aqui e a essas horas já deve ter viajado de volta.  Hoje cedo falei pra irmã dele que precisava lhe falar, mas tinha de ser aqui em casa.   Vesti um shortinho apertado e essa blusinha que um dia me falou que combinava comigo.  A droga é que meus peitos não param aqui dentro e quando ele chegar, se chegar, vou fazer tudo para ele notar.  Tomara que meu pai não venha dormir aqui hoje, pelo menos me disse que não, que não vinha.  Estou tranquila quanto ao que pode acontecer e se acontecer não será como tem sido com os outros.  Primeiro vou provocá-lo ao máximo e se ele não fizer do jeito que eu quero ele pode ir embora, mas não sem antes, claro, fazer um pouquinho, mas só um pouquinho de tudo aquilo que dizem que ele sabe fazer de melhor.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O CASAMENTO DE SANTINHA



     Meu avô tinha onze filhos. Cinco homens e seis mulheres que trabalhavam na roça com ele, menos vovó que cuidava da casa e da boia do pessoal. Vovô era a melhor pessoa do mundo, pelo menos pra mim, porque para os filhos era um tirano, como diziam, e fora os domingos, quando podiam ir à missa e passear pela cidade, ninguém saía para lugar nenhum.  E assim foi com o casamento de Santinha, filha de um colono, que por ser num dia de semana ninguém lá de casa poderia comparecer. Vovô nunca voltou atrás quando dava a palavra por isso só restava dormir.  Assopraram as lamparinas, rezamos, como vovó nos pedia,  e fomos pra cama.   Eu até sonhava com um montão de garotos tomando banho no rio comigo quando alguém me acordou forçando a janela.  Meu Deus, o que seria isso? –  perguntei ao medo que eu estava sentindo.  Será que é o bicho que mamãe vivia dizendo que vinha me pegar se eu não me comportasse direito?, mas eu não estava fazendo nada, só estava sonhando...  Tapei a cabeça e fiquei quietinho pra não ser descoberto por ele e assim permaneci a maior parte da madrugada até que forçaram a janela mais uma vez.  Será que o bicho voltou para me pegar, mas se vai me pegar por que a teria fechado com o trinco?  Ninguém me respondia até que o meu tio tossiu. Ufa, que alívio!  Acho que meu tio espantou o danado e graças a ele, que é corajoso e forte, eu posso dormir sossegado. De repente, assim do nada, um cheiro forte de álcool invadiu o quarto da gente.  Foi bom porque assim titio não ia perceber o que eu tinha feito nas calças.
De manhã, pelo menos na mesa do café, meu tio não disse nada.  Nem do barulho e muito menos do cheiro.  Eu, claro, nem toquei no assunto.  Titio gostava muito de mim, por isso acabei confessando o medo que eu tinha sentido naquela noite.  Meu tio riu muito.  Riu tanto que eu acabei rindo com ele.  Depois me contou que tinha esperado que todos dormissem para saltar a janela e sair.  Sim, porque titio, segundo me contou, não ia perder uma festa daquelas até porque não era todo dia que alguém se casava naquele distrito.  Meu tio era muito esperto o que me enchia de orgulho. Acho que só cresci para ficar igual a ele.  E até acho que fiquei.  Pena que moro no quinto andar e a janela do quarto não dê para a  Rua, como a dele.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

O AVARENTO.

          

     Há meses não sabia do amigo, que segundo diziam,  não se envergonhava de puxar o meu saco e como há muito não sabia dele, resolvi ir à sua casa onde a empregada corria pra pegar o ônibus, mas me falou que seu Antônio  não se encontrava.  Eu já tinha ligado o carro quando alguém falou que eu não podia ir embora sem falar com ela. Aí eu abri aquele sorriso e entrei na casa do amigo ausente.
Entrei para ganhar um abraço e dois beijinhos da mulher dele. 
– Vou fazer um café, sente aí ou vem pra cozinha conversar comigo enquanto esquento a água – disse pondo a chaleira embaixo da torneira.
Marlene estava arrumada  e com o marido e a  empregada fora de casa achei que fosse sair.
– Não, não vou não, e mesmo que precisasse eu não ia. Faz tempo que a gente não conversa.  Eu não ia perder essa oportunidade de saber das coisas e de você.  Como tem passado, por onde tem andado? – disse me estendendo a xícara e se sentando na poltrona a minha frente.  - Ultimamente estou me cuidando mais.  Chega de andar esculhambada.  Agora eu vou ao salão, compro as roupas que gosto e até a praia eu tenho ido sem precisar pedir.  Coisa que antes eu jamais pensaria.  Não sou  mais aquela boboca de antigamente.  Antes era tudo com ele, com aquele mão de porco – disse fazendo careta.  Sorri com a maneira que falou do marido.
O dia acabou e o meu amigo não apareceu.  Então me levantei dizendo que  ia embora.
– Não senhor, tu não vai sair daqui sem falar com ele, não.  Já que ficou tanto tempo, não custa esperar um pouquinho mais – disse com a mão no meu joelho e concluiu mordendo o lábio inferior – Se você soubesse a metade da missa não me falava que ia embora.
Onze horas e nada do marido dela aparecer.
  Desculpa, mas não dá mais pra esperar.  Está tarde e eu ainda tenho um longo trecho pela frente. 
– Tá legal, vou  te deixar ir embora, mas sabia que seu amigo arranjou outra família?  Tu sabias que nem sempre vem dormir em casa, que fica mais com a outra do que aqui, comigo e ainda tem a cara de pau de falar que estava trabalhando?  Que trabalho é esse, gente! Antes eu quebrava o pau, mas agora nem falar  falo mais.  Não vou criar rugas na cara se ele paga as contas os cartões de crédito e ainda por cima não enche o meu saco.  Pronto, falei.   Agora, se quiser ir embora pode ir, mas olha,  a minha cama é grande e cabe você inteirinho nela.  A toalha continua na porta do boxe e os chinelos embaixo da cama. 
– Não me diga uma coisa dessas, Marlene!   Como deixaram chegar  nesse ponto?... A propósito, onde eu deixo a roupa, no quarto ou nos cabides do banheiro?

VIÚVO É QUEM MORRE

 



– Meus pêsames, Marieta. Fiquei muito triste com a morte do seu marido. De que morreu ele, mesmo? Me conta.
– Quem te falou que era meu marido? Nada disso, eu sou viúva, esqueceu? Ele só morava lá em casa, quer dizer, na oficina, só isso.
– Mas a gente via vocês sempre juntos, principalmente a noite e pelo que diz todo mundo até dormir juntos vocês dormiam.
– Não é bem assim, não. Ele, como todo mundo sabe, é mecânico, quer dizer, era mecânico e desde a morte do meu marido que a oficina estava fechada. Quando o Paulão me pediu para alugar eu aluguei, mas não sabia que ele ia dormir lá.
– Mas dizem as más línguas que já o viram entrar e sair da sua casa em altas madrugadas.
– De fato ele tinha essa mania. Vivia querendo entrar lá em casa, mas eu nunca deixei, até que um dia me convenceu e a idiota aqui acabou permitindo. Não uma vez só, como ele disse que seria, mas muitas, contra a minha vontade é claro. Enquanto entrava pela porta da frente, tudo bem, mas se eu não estivesse afim e deixasse ela trancada ele ficava brabo. Um dia, quando viu que eu não ia deixá-lo entrar, como vinha deixando, o danado resolveu forçar a janela. Doeu muito o que ele fez porque estragou o fecho e as dobradiças, por isso decidi, dali pra frente, deixar a porta sempre aberta, mesmo assim volta e meia o safado me forçava a janela até que entrou. Chegou ao ponto de entrar pela porta, ficar lá dentro algum tempo e depois sair pra voltar pela janela que ele já tinha esculhambado. Como eu disse, no princípio aquilo me doeu muito, mas com o tempo acabei acostumando e quando ele não fazia essas coisas eu até achava que já tinha desistido daquelas maluquices. Anteontem ele entrou, como fazia todas as noites, e ficou muito tempo lá dentro, depois saiu. Saiu pra voltar forçando a bendita da janela. Na noite em que ele arrombou o negócio eu fiquei mal à beça, mas depois mandei consertar e ficou tudo bem. O sujeito levou a maluquice tão a sério que entrar pela porta já não bastava. Tinha de sair para entrar novamente, mas pela janela. Dizia que entrar por lugar apertado aumentava o prazer. Vai entender a cabeça desses doidos. Pois é. Ele já estava lá dentro, mas resolveu sair pra se enfiar por onde não devia. Forçou, forçou e acabou enfiando a metade do corpo pra dentro e quando começou a gemer, o que era normal naquele negão, eu pensei que estivesse acabando com a aquela doideira. O pior é que estava. Acabou com a maluquice, com a forçação de barra e com a vida da gente. Ele porque caiu durinho em cima de mim e eu porque perdi o inquilino. Caiu durinho não. Eu quis dizer que caiu mole em cima de mim. Duro ele ficou depois que esfriou. – Explicou a moça chorosa. – Ah, tá. Entendi. – Respondeu ele já se levantando e concluiu – De qualquer maneira, meus pêsames. Posso espalhar que a senhora está alugando a oficina?

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

FÉRIAS NA FAZENDA.


   
    Minha mãe não sabia o que eu via de interessante num lugar atrasado onde o povo falava errado, tudo era longe e não tinha meninos com quem brincasse.  Minha avó também não sabia se era por amor a eles que duas vezes por ano eu aparecia por lá.  Eu jamais diria que era por conta do carinho e das balas que minhas tias me davam, coisa que mamãe jamais faria porque "bala estraga os dentes", como dizia.  Quando eu chegava era uma grande alegria, pelo menos da parte das minhas tias, que ficavam toda assanhadas.  Era sempre a mesma coisa, meu sobrinho querido pra cá.  Meu sobrinho querido pra lá e toma de ir à venda comprar bala, pirulito e chiclete.  Gente, como eu era feliz com aquilo.  Minhas tias compravam sempre no mesmo lugar, com Didingo, o filho do dono do estabelecimento que me pedia pra não deixar ninguém entrar enquanto mostrava  as novidades pra minha tia.  Muitas vezes me perguntei se titia era tão esquecida assim que  Didingo tivesse de mostrar as mesmas coisas pra Ela?.  Pra ela e pras outras que lá iam com a mesma desculpa.  Um dia eu estava todo feliz contando as balas que titia tinha comprado quando  um cachorro veio em minha direção e pra não ser mordido eu corri procurando por ela que, coitada, nada poderia fazer se  Didingo, aquele malvado,  estava em cima dela dizendo coisas tão feias que titia chorava  com ele agarrado à suas costas.  Se não fosse o medo do cachorro eu nem sei o que faria com Didingo naquele momento.  Aonde já se viu tratar  freguês daquele jeito?!  O pior é que no outro dia ela  queria voltar e só não voltou porque tinha brigado comigo e eu não quis ir.  Ela disse que eu não podia ter entrado sem avisar, por isso falou feio daquele jeito.  Parece até que eu era culpado do Didingo fazer com ela a maldade que fez.   Eu nunca vi minha tia tão zangada como naquele dia e o pior é que no dia seguinte ela queria voltar lá e só não voltou porque eu não quis ir.  Não fui com ela, mas fui com a irmã mais velha que pagou um monte de bala pra mim enquanto o Didingo, depois de piscar um olho pra mim como quem diz; “deixa comigo, menino.  Deixa que serei mais educado”. E entrou com ela pra mostrar as novidades, mas dessa vez eram muitas ou não demorariam tanto lá dentro.  Todo dia eu saía com elas, não com todas ao mesmo tempo e se eu morasse lá, com elas, a minha barriga teria crescido de tanta bala que Didingo deixava a gente chupar.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

DOSE PRA CAVALO (Lado 1).

     

     Acompanhei minha mãe numa viagem à casa da irmã dela. No dia seguinte titia nos levou a uma festa onde um cara, meu Deus, mas que cara bonito, decidiu dar em cima de mim. Ah, se eu não fosse casada... Se eu não fosse casada faria com ele o que as prostitutas fazem com quem paga bem.
 No melhor da festa quiseram ir embora e para evitar qualquer tipo de tentação decidi ir com elas, mas, quem me aparece trazendo um champanhe, duas taças e põe uma na minha mão? O gato. Eu já tinha bebido o bastante, mas não recusei. Brindamos uma, duas e sei lá quantas vezes, mas o suficiente para não me lembrar mais de nada, que dirá se eu era ou não era casada. Deixei que fizesse comigo o que no seu lugar  eu faria com ele. Atrás da casa, para onde fui arrastada, ele fez de mim a princesa que eu sou e a puta que me tornei naquele momento. Sinceramente não sei como me deixei convencer. Bastaram umas doses, uma hora e meia de papo pra tirar meu sossego, minha razão, minhas roupas e fazer de mim o que todo cafajeste deve fazer. Ele, apesar de bonito, era rude, forte e tinha um baita cheiro de macho. Aí eu não resisti e deixei que me acariciasse os  seios, as coxas e passasse aquela mão, aquela mão enorme no meio das minhas coxas. Colocou-me de encontro à parede e abriu minhas pernas. Abaixou e meteu a boca onde ninguém se atreveu, nem mesmo meu marido. Deus, como sonhei com aquilo!   Em retribuição enfiei a metade daquele gigante na minha boca e olha que ele era grande.  Só em filmes de sacanagem eu vi parecido. Meu marido era pinto perto dele. Depois me virou de quatro, afastou minhas pernas e aos poucos forçava a entrada. Eu estava muito excitada, mas custou mesmo assim. Custou, mas entrou. Não a metade, mas todo. Ele empurrava, de vagar.  Beijava meu pescoço, mordia minha orelha, lambia minhas costas e eu, querendo ajudar, controlava tudo com uma das mãos. Talvez para não doer mais do que já estava doendo. Dei vários gemidos até que entrou a metade.  A dor deu lugar ao prazer e ele sumiu todo dentro de mim, até  usei a mão para ter certeza.
Gente, eu consegui!
E ele estocava. No princípio devagar para depois estocar com mais força. Estocava e me chamava de puta, de safada, bandida. Ele e muito menos eu sabia o quanto aquilo me excitava. Eu nunca traí ou pensava trair meu marido, mas já que aconteceu, tudo bem. Naquele momento eu não queria pensar em mais nada além dos orgasmos a que eu tinha direito. E os tive não uma ou duas vezes, mas muitas, muitas vezes. Até desfaleci com aquilo dentro de mim. Depois me carregou para casa e como era tarde  só mamãe nos recebeu. Estava desconfiada, mas não falou nada. O gato foi embora e eu entrei pra dormir. Acordei toda doída e como mamãe resolveu ficar mais dois dias eu corri para os braços daquele animal. Sim, porque entre ele e o cavalo não há diferença nenhuma. 
Quinze dias pra desinchar. Mamãe disse que me entendia e confessou que também ficava inchada quando visitava a irmã. 
- Por que não falou antes, mamãe? – gritei avançando pra ela – se tivesse falado eu não ficava me corroendo com esse remorso a não ser que a senhora não o sentisse quando voltava doída pra casa.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O IDIOTA.

 
     –Se o cara daquela barraca não parar de olhar para cá eu vou me aborrecer. Ontem só faltou me comer com os olhos.  Será que nunca viu ninguém de biquini, e se não viu, por que não vai na areia que está assim de mulher mostrando tudo ao invés de ficar, tipo lagarto diante dos ovos?  Se não parar eu vou lá, já disse, e  se duvidar  mando tirá-lo do Camping.  Duvida só pra ver...
Luciana se irritava por qualquer coisa fora do normal. A prima e o namorado, com quem dividia a barraca, morriam de rir com o seu mau humor.
 – O cara. Ah, esse idiota de calças num calor desse? Dizem que é empresário, mas o que adianta se faz tudo pra parecer o babaca que eu acho que é?  Enquanto os amigos correm com as pranchas pra água ele fica como cachorro vigiando osso.  Essas coisas me tiram do sério.  
Luciana, mulata alta, magra e como advogada que se tornaria, reclamava de toda e qualquer extravagância. Só não reclamou quando veio falar com ela.
– Oi, tudo bem, posso falar com você? – Disse estendendo a mão. – Eu não sou bom com o seu idioma,  mas preciso muito falar com você. – Disse num português muito claro para o russo que dizia que era.
– Entra, senta aí – falou Luciana apontando um banco ao lado da porta.  O rapaz era grandalhão, tinha 1,90m de altura e uns 100 quilos mais ou menos, porém manso como a  brisa das manhãs. Ia começar a falar quando foi interrompido.
– Por que não tira essas calças e veste um short? – Luciana quis saber?
– Bem, eu prefiro ficar assim em respeito as pessoas e principalmente a você.  Portanto esqueça as calças e falemos de você...
– Não senhor, agora fiquei curiosa. Por que não pode mostrar as pernas, você usa prótese, tipo perna de pau, é isso? – perguntou abrindo os braços.
– Não, não é nada disso, mas é como se fosse. Posso até mostrar, mas pra ser sincero, eu não gostaria. Mas olha bem, eu só mostro se você insistir, caso contrário esquece.
– Não, eu estou preparada.  Mostra aí, vai! – Disse sorrindo.
– Então tá. Mas não diga que eu não te avisei.  O russo levantou e abaixou as calças até os joelhos.  Luciana quase caiu para trás.  O sujeito parecia um senegalês com aquilo espremido dentro da roupa.   Luciana fingiu que achava aquilo normal, por isso abriu uma cerveja e deu para ele.
– Você não vai beber? – Perguntou ele. – Não, não vou.  Quer dizer, só tem essa. Depois eu bebo – Respondeu meio sem jeito.  – Vem comigo que eu tenho na minha barraca – falou levando Luciana com ele.
Duas horas mais tarde voltou toda feliz.  Nem a prima e muito menos o namorado perguntou qualquer coisa, até porque ninguém ia acreditar que aquela que lutava pelas coisas normais encontraria a felicidade com uma fora de todos os padrões. 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

FALOU COMIGO?

       

       Ah, pelo amor de Deus, para de duvidar do que digo. Para de achar que todo homem é banana quando não é cafajeste e de chamar de safada quem sai com amigos e volta de pilequinho.  Para! Para porque nem tudo o que dizem os olhos é verdade. Deixa que façamos da vida o que bem entendermos ou pensarei que aquilo que fiz, e faço, é pecado ou não passa de uma grande mentira.  Deixa, mas acredite que dentro da lei e da anuência das minhas personagens tudo o que faço é viável e também prazeroso, e se elas não gritam de felicidade é porque as proíbo. Não quero que as taxem de mentirosas como fazem comigo.  Pare de julgar a mulher que bebe a ponto de rir de si mesma, pois não é por estar em um bar que esteja a procura de homem.  Lembra do Rafinha, aquele que posa pra revista de modas e vive contando vantagem? Pois ele, esse mesmo, encheu a cara e veio cantar a mulher que há horas bebia com a gente.  Acontece que o idiota foi posto a tapas e pontapés pra fora e para seu azar a garota, além de graduada em artes marciais, exerceu, a seu modo, o direito de reprovar o atrevimento do sujeito. Será que essa gente não pensa que tudo é possível até que um NÃO seja dito? Eu trato todo mundo de igual para igual, porém as mulheres, essas eu trato com mais respeito e cuidado. Cara, eu tenho direito de curtir minha vida como todos têm de curtir a sua e a única diferença é que eu trato as mulheres como se fossem de vidro, uma taça fina de cristal. Por isso eu só falo o que me permitem e se não espalham aquilo que eu faço é porque as proíbo.  Não quero que passem por mentirosas ou invejadas por suas amigas.  Eu, cavalheiro que sou, assumo o que faço, quer acreditem quer não. Sou o que Deus fez de mim e a vaidade só não me toma nos braços porque entendo que elas, com quem tenho saído, merecem o carinho e o respeito que lhes dou.  Isso para não expor a intimidade da gente.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

ABUSO DE PODER

     
      Mas não fiz nada, meu senhor, juro por Deus! Eu só parei para atender uma ligação quando alguém pediu pra tirá-la dali e por ser mulher e bonita eu perguntei, sorrindo, pra onde queria ir. Me leva pro inferno, Arthur, só não quero que meu pai me veja com você - teria dito. Aí eu respondi, brincando,  que a levaria pro motel e como não disse nada, levei. Aí tomamos cerveja e "conversamos" numa boa, mas nada que ela não quisesse aconteceu.  Pode acreditar, pergunta a ela! Se eu a obrigasse não ficava me beijado e feito o que faria com esse tal de Arthur, sei lá como se chama o sujeito que achou que eu era.
Parece história de maluco, mas é verdade, podes crer. Ela sabia o que estava fazendo. Acontece que não sou a pessoa com quem achou que estava se encontrando, mas como não me ouvia  eu toquei pro primeiro lugar que me ocorreu. Na saída topamos com o senhor e a polícia me mandando pôr as mãos na cabeça como se eu fosse bandido e até me trancaram na caçamba da viatura como o senhor bem notou.
 Doutor, não obriguei ninguém entrar no meu carro e muito menos ir comigo pro motel, mas não quiseram me ouvir...  Bastava uma palavra e eu teria ido embora, mas como o senhor pode ver ela chora, mas não larga minha cintura. Se eu soubesse de quem era filha, aqui, oh!, que pegava a mulher. Pegava nada.  Fingia até que não gostava da fruta.
Gente, foi um sufoco na delegacia.  O medo era tanto que não "passava nem agulha".  Achei que ia morrer.
A confusão levou a noite toda. Só terminou porque um advogado amigo meu chegou pra soltar um cliente e me soltou também ou estaria morto numa hora dessa,  eu acho.   Estupro de vulnerável  como o pai falou o meu amigo desmentiu, já que ninguém ali era menor, como ficou provado.  Fiquei muito chateado com tudo aquilo, mas não devo me queixar, pois, se me perguntar eu digo que faria tudo de novo. Gente, nunca uma garota fez o que gosto num espaço de tempo tão pequeno. Ainda sinto o doce daqueles beijos e o perfume do corpo dela exalando do meu.  Amanhã, quer toque ou não toque o celular, o meu carro estará subindo a calçada e, quem sabe, um anjo não entra de novo no carro e me leva pro céu de onde tanto gostei?  

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

PALAVRA SÓ DÁ QUEM TEM.


    Há muito não sei da vida dos outros e da minha ninguém tem notícias faz tempo a não ser que me promovam a padre, me contem seus pecados sem a obrigação de levá-los comigo pra sepultura, aí eu conto.  Marthielo, filho de um velho amigo de noitada me procurou pra conversar. – Pô, cara.  Vim levar um papo contigo e me dizes que vais sair...  –  falou meio sem jeito.  
– Tenho um compromisso na Gávea, mas venha comigo pra conhecer a galera.  Meti o sujeito no carro e toquei pra pracinha Santos Dumont, no Baixo Gávea,  onde se toma umas e outras e se fala de  sexo, de droga e de rock in roll.  Não sei se ainda rola essas coisas, mas na época varávamos a madrugada.
– Senta aí, bonitão, bebe com a gente, vai! – Disse a loirinha entregando um copo  pra quem agradeceu com um sorriso, mas não bebeu –  se não bebe pede  um suco, bebe água ou vem comigo que te apresento um cara que tem o que talvez você goste – disse apontando para um gordinho que vinha passando.  Ele sempre tem uns comprimidinhos com ele –  disse com um largo sorriso.
– Não, cara! Tu ta maluca! – Gritou  se levantando...
Depois me arrependi de deixá-la fazer aquilo.  Pensei até que fosse pedir para ir embora, mas não pediu.  Ficou pra justificar as cervejas e a  garrafa de vodca que tomei durante a noite.  Quanto a ele, coitado,  não se afogou no aguaceiro que bebeu não sei por quê.  Às 5h, disse ele, já não entendia o que eu falava e antes que eu dissesse que música alta nos ensurdece ele  me disse que a orquestra deixou de tocar bem antes das duas e às 3 já não tinha mais ninguém na pracinha.  Tomei a direção do carro e tocamos de volta pra casa.  O pai, muitas vezes, me deu provas de sua amizade, mas o filho naquela noite me deu muito mais e como o dia clareara sugeriu que fôssemos tomar café na casa deles  com o que concordei.   O pai, amigo de velhos tempos, ficou feliz em vê-lo comigo (digas com quem andas) enquanto a mãe, pobre mulher, fechou a cara ao me vir com a cria.   “Comigo só anda quem não tem o que perder”  – teria dito ela uma vez.  Sorte que a Rolleiflex do marido jamais me pegou com drogas ilícitas além do rock, do sexo e das bobagens que digo e escrevo quando estou fora de mim.   Tomamos café com tapioca de calabresa com queijo prato que ela fez por saber que eu gosto.  Gente a mãe do Marthielo entende do negócio, pensei.  Comi duas sendo que uma tinha goiabada no lugar da linguiça.  Às 10h o pai se desculpou, pois tinha um batizado para fotografar enquanto a mulher  que displicentemente puxava a alça da blusa para o lugar me apertava para saber aonde levara seu filho e a quais caprichos o submetera.  Fez tanta pergunta que se Marthielo não estivesse ali eu acharia  que ela queria saber se as pernas cumpridas que  tenho podem pular ou preciso passar por baixo da cerca que separa a mulher direita, como ela se acha, da mulher realizada, tipo as que acha que dormem comigo na minha cama,  segundo me contam,  e que tanta  inveja  lhe causam.   Depois  conto mais se me garantirem ficar de boca fechada como fico com a minha.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

GRANDE E BONITO.


      Por favor, não me forcem falar sobre o que fizemos no banheiro da escola na festa de formatura e por que a mãe da garota se humilhou até receber o que a filha achava que era só dela.  Não gosto nem de lembrar do que fiz com a mãe na frente das tias sob ameaça de ser denunciado por estupro de vulnerável.  Gente, a mãe  tinha 35 anos, a filha 15 e eu quatorze, uma criança... mas não quero tocar mais no assunto. Então por favor não me obriguem a falar naquilo que me envergonha. Agora, se elas achavam que repetindo a cena com a mãe no papel da filha me deixava sem jeito acertaram, mas na época só botou gás no meu balão e graças a isso voei por lugares onde poucos conseguiram.  Comi o que pouquíssimos tiveram chance e bebi na fonte o que a minoria dos puros e santos beberam depois de anos morrendo de sede.  Não tenho orgulho do que fiz no passado, não desmerecendo as mulheres que constam das minhas lembranças e que, por sinal, se gabam de terem a mim na lembrança delas ou não me ligavam como ligam a cada piscada.  Estas, por sinal, sentem-se honradas com tais lembranças, que eu acredito ser a razão da alegria que têm.  Pelo menos é o que à boca maldita me fala.
 Mas como disse, não quero tocar mais no assunto e mesmo que me forcem eu nada direi. Há dias encontrei com a primeira empregada da minha mãe.  Nem me lembrava mais da mulher que além de engordar já não tinha o mesmo brilho no olhar.  Eu tinha 18 anos mais ou menos e ela uns 20.  Meu Deus que fogo.  Não, não me refiro a ela, mas a mim.  Se eu não tivesse pedido pra não tocar mais no assunto eu diria que ela achava que tinha me induzido às sacanagens da vida quando na verdade fui eu quem armou para que ela o fizesse.  No dia que mamãe foi ao médico fui eu quem deixou a porta do banheiro aberta e só depois do banho gritei, para quem me espreitava, que trouxesse a toalha.  Foi quando ela soube o porquê do meu pé ter o tamanho que tem.  Eu também poderia contar que mamãe abrigou a inquilina, uma bela mulher de 30 anos, que depois de brigar com o marido de 25, foi dormir lá em casa até que as coisas melhorassem entre eles.  Ah, meu Deus, como esquecer da mulher invadindo meu quarto com o dedo nos lábios pedindo silêncio? Enfim... nada direi porque promessa é para ser paga e pago aquelas que faço, mesmo que custe a mim ser chamado de mentiroso.