terça-feira, 31 de dezembro de 2019

COBRA CRIADA.


     
    Eu sei que não devia me meter, mas como calar quando um amigo vem chorar no ombro da gente? Se ele não me puxasse as orelhas eu diria que desde outubro o pobre diabo vem perguntando se os amigos, aqueles que juram amizade, vem ou não passar as festas de fim de ano com ele, como há 12 anos.  Mas como nada disseram o pobre ficou achando que a qualquer momento apareceriam na porta dele como gostavam de fazer, mas quá. A tristeza da pessoa não é por não responderem quando perguntado, mas pela falta de respeito para com quem impediu filhos e outros amigos de vir abraçá-lo por sua casa não comportar tanta gente. O natal ele passou sozinho, mas, quanto  aos fogos, estes verá espocando lá embaixo pela janela.  
Se eu pudesse dizer alguma coisa eu diria que sou partidário da vaia que faz do teatro o que dele se espera, mas não da indiferença, do silêncio.   Não existe prisão maior do que isso.  A meu jeito de ver foi ingratidão com quem ficou, até poucas horas, como um cão esperando o  dono que morreu sem que ele soubesse.  Esse tipo de gente, coitada, nem com o passar dos anos prova ser o que diz.  Que pena.  Dá pena porque o chorão deixou de fazer reservas pra viajar com família, mas, agora já era.  Eu, daqui do alto da serra, lamento por ele e antes que me culpem por fazer publica suas lamúrias, peço perdão. Vou encerrar dizendo que com o tempo o criador de serpente se torna amigo dos bichos, mas não conheço nenhum que saísse delas ileso.
Feliz ano novo.

sábado, 28 de dezembro de 2019

CRUZES!!!I.

   

      Tem gente que tem medo de alma do outro mundo.  Eu também tenho e passar em frente a um cemitério  nem pensar, muito menos à noite.  No meu aniversário uns amigos quiseram realizar um dos meus sonhos por isso se juntaram e compraram uma moto usada para me dar de presente.  Mas como nada  nos é dado de mão beijada, eu teria de ir a um cemitério, por volta da meia noite, pra fazer uma foto pra comprovar.  Eu queria muito aquela moto, só celular eu não tinha pra fazer a bendita foto. Daí eu ter convidado um amigo, medroso igual a mim, para fazê-la. Na hora que disparou o flash eu disparei atrás dele, não do amigo, mas do flash, porque o amigo nem saiu do lugar gritando;  me larga!  Me larga! Me larga!  Eu só parei quando cheguei em casa e só  no outro dia fiquei sabendo que o amigo tinha morrido por achar que seguravam o casaco dele, quando na verdade tinha agarrado numa das cruzes das sepulturas...
Ufa!, que susto.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

AGORA VAI.


     Tudo começou na faculdade, não que o Demônio não atentasse antes, mas antes eu era exemplo pra todo mundo até pintar a festa de formatura. Naquele dia foi que eu percebi a bosta de exemplo que eu era.  Enquanto dependeu de mim eu segurei às pontas, mas bastou Susana aparecer para eu ter certeza do que tinha dito. Susana era belíssima, dona de curvas estonteantes, quiçá a mais bela e gostosa criatura a colar grau naquela faculdade. Chegou meio salamaleque me fazendo entender que há muito já surfava naquela onda e o pior é que ela, que nunca se deu ao trabalho de me olhar, decidiu me tirar, tipo, me comer com os olhos e notando que  eu a tinha visto me imobilizou com uma olhada de serpente e sorrateiramente me abocanhou, me mastigou e me cuspiu. Drogou-se como quem aspira ar das montanhas, enrodilhou-se no meu corpo e carregou comigo pro seu ninho. No primeiro instante eu rejeitei, mas depois de beijar levemente meus lábios, eu me entreguei.  Quinze minutos depois, se é que se passou tanto tampo, fizemos uso de mais uma dose. Foi a primeira vez que me rebaixei a ponto de ser lambido pelo sol e por um cão ao mesmo tempo numa praia desconhecida.
 E assim começou a saga de quem hoje, 10 anos depois e ainda escravo de suas fraquezas, promete renascer na festa do réveillon. Todos os dias eu falo que vou parar, mas qual.  Dez minutos depois da promessa  lá estou eu com ela na minha mão e em seguida na minha cabeça.  Não vivi o suficiente para saber até aonde se vai fazendo o que faço, porém sinto que já deu. Chega, não quero mais. Depois das festas eu juro que paro. Aliás, vou parar na madrugada do primeiro dia do mês que vem, porque antes disso preciso brindar com os amigos e com eles ganhar força para deixar o vício dessas cervejas antes que debilitem minha saúde e as minhas posses.

sábado, 21 de dezembro de 2019

GOL DE CRAQUE.

    Passei metade da vida reclamando de Juju até que um chute enviesado quebrou o  basculante do banheiro dela. Bendito chute! Foi Deus quem calibrou meu pé pra acertar a bola naquele vidro.  Juju, como Jurema era chamada, tinha 14 anos quando ficou órfã e veio morar com a gente. Meus pais concordaram em recebê-la e até lhe davam u'a mesada pra cuidar de mim, tipo,  levar à escola e me tomar tabuada depois das aulas. Antes da bolada eu detestava essa garota só por ela me obrigar a catar as roupas do chão e os tênis que me obrigava limpar antes de guardá-los.  Era muito chata e o pior é que dizia para eu arrumar a cama  quando levantasse. Aí eu ficava puto e chutava tudo que visse pela frente.  Mas fazia o que mandava ou me dedurava para o meu pai.  Muitas vezes me queixei com minha mãe, mas ela, mesmo me ouvindo, de boa, ficava rindo e não fazia nada.  Depois do vidro quebrado eu passei a ver Juju com outros olhos e até dava uma mãozinha quando precisa de ajuda, isso enquanto meu pai não encontrava um vidraceiro, pois foi graças a bolada que a vejo tomando banho. No começo, mesmo ficando na ponta dos pés, eu só via os limõezinhos no peito dela, mas hoje, formados, se parecem mais com melões. Fruta que eu adoro quando vejo e quando como.  Meu pai já não fala em consertar nada e eu já não fico na ponta dos pés pra olhar Juju tomando banho.  Antes ela brigava por eu esquecer as coisas jogadas, mas hoje ela esquece a porta do banheiro aberta e até de pegar a toalha ela se esquece ou não me pedia para pegá-la. Mas eu não reclamo, não digo nada. Porque se tivesse de falar alguma coisa seria pra dizer; Juju, muito obrigado.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

ESSE É O CARA.

    Ontem eu fui bem cedinho à casa de uma amiga com quem tenho negócio. Uma pessoa maravilhosa que cuida dos meus pets em sociedade. Sociedade no tocante aos gastos com a saúde, com a alimentação e com o bem-estar daqueles "caras" e como levasse umas sacolas, eis que o mais sacana, ao invés de pular nos meus peitos, como faz quando apareço, preferiu cheirar as compras. E como cheirava, esse safado, até me fez lembrar um viciado amigo meu... E levou tempo esfregando as fuças no lugar onde não foi chamado. É claro que eu levei petisco porque amigo que se preza não vai a casa de amigo de mãos vazias.  Enquanto a maioria recebia afagos no pescoço o danadinho procurava descobrir onde o presente se escondia.  Dependendo de que lado a situação é enxergada o cão está certo ou eu, frustrado por achar que  me amassem, não pelo tempo que passo alisando pelo ou olhando em seus olhos quando falo, mas por me sentir um mero fornecedor de alimentos pra cachorro.
-Puxa, magoei...

domingo, 15 de dezembro de 2019

TEM QUE RALAR.


   
    Sabe quando o cara trabalha o dia todo e à noite, doido por uma cama, mas ainda tem que sentar-se  num banco frio de faculdade para concluir o curso que devia ter ocorrido quando passou no ENEM, mas, por pressão da família, formou-se no que ela queria e não ele? Pois foi o que aconteceu. Hoje, quando podia estar em casa recuperando as forças, física e mental, não vai rolar. Não vai para não perder pontos na prova que a professora, mais linda que já conheceu, dará amanhã pela manhã.  –  Amanhã não tem aula!, gritariam vocês.  Eu sei,  gritaria em resposta, mas diga isso pro corpo docente e aquele que gritar mais alto leva. Leva a mim para o repouso dos príncipes ou para o banco frio de um prédio torto na Gávea, terminava dizendo.  É rezar e jogar o jogo, porque os dados estão a rolar, como diriam os portugueses, e se tudo correr como se espera, formar-se-a naquilo que nasceu pra fazer.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

NEM UM SORRISO...

         

      Passei o dia inteiro da casa pro portão e do portão pra casa esperando por ela. A noite o meu rabo levantou um montão de poeira por conta de sua chegada, mas ela nem a migalha de um boa noite me deu. Passou por mim como se eu fosse um cachorro. Subiu as escadas que vão dar no quarto, fechou a porta e foi dormir. Uma palavra de carinho, um sorriso ou um cafuné se me desse já resolvia, mas não deu. Talvez pelos meus olhos expressarem a alegria por vê-la voltar para onde saiu tão cedo ou, quem sabe, por conta do meu rabo bater adoidado sempre que ela chega ou ainda, essa minha língua cumprida que não para dentro da boca. Mas não faz mal não. Se ela me perguntar amanhã se eu fiquei triste eu digo que não mesmo tendo dado voltas e voltas em torno do rabo e deitado no mesmo lugar, mas dizer que fiquei triste não digo não. Jamais diria. Do que adiantaria falar se falar não resolve. Se falar resolvesse alguma coisa eu seria o primeiro a sair gritando por aí quando ela estivesse doente até que sarasse ao invés de ficar deitado embaixo dessa mesa com os olhos grudados, como estão, na porta do quarto dela.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

JANELAS DE CAROLINA.


    Sempre que passo lá está ela me olhando. E não importa se estou saindo ou chegando. Basta a porta da garagem abrir pra ela correr e disfarçando ficar me olhando assim como quem não quer nada, mas querendo mais do que talvez eu lhe pudesse dar.  E não se envergonhava de ficar horas e horas acotovelada no parapeito de janela olhando pra minha casa.  Eu não me importava com o que fazia até porque eu tinha mais o que fazer naquela ocasião.  O bom é que ninguém jamais me questionou quanto as vezes que deixei de cumprimentá-la, que lhe neguei um sorriso ou simplesmente me importei se me olhasse com interesse ou desprezo. É vergonhoso responder a este questionamento? Claro que é.  Quer dizer, vergonhoso não de responder a estas perguntas, mas de não prestar atenção nas pessoas, mesmo que fosse uma das zeladores do prédio onde eu trabalho. Mas por que, e o que me custava dizer um oi, dar um sorriso ou demonstrar que sabia da sua presença? Pois é. Ontem, ao cruzar com a turma de doutorando que caminhava próximo ao salão onde eu seria diplomado bacharel dei com essa moça, minha vizinha e seus pais adentrando o salão. Ué, pelo que me lembro ninguém da minha turma convidou essa moça.  Foi quando me dei conta que no segundo andar do prédio rolava outra festa além da nossa. A de doutorado onde a princesa, aquela que se acotovelava pra olhar o arrogante súdito, colaria grau dentro de poucos minutos.  Com outras palavras;  a zeladora seria mais importante do que o dono de todas as respostas. Meia hora depois eu ouvia, aliás, todos ouvimos os elogios que o reitor fez a mais brilhante estudando, ora doutora, da universidade naquele ano.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

POIS É!.

     Quando Lucas Prato, aquele que marcou duas vezes pra conquistar a copa América pro Ríver no ano passado, fez o seu gol contra o Mengo a favela calou. Depois levantou as orelhas e rezou, mas como o tempo passava e o Flamengo não empatava a favela sentou e chorou. Argentinos dançavam comemorando o feito até que o artilheiro Gabigol fez o seu.
– Mas como assim?, se o jogo já terminou?, perguntou o argentino inconformado ao patrício que de cara amarrada ofendeu o amigo. Estava puto com a falta de sorte da equipe. A favela enxugou os olhos no primeiro gol do seu time, mas foi no segundo, no apagar das luzes que aquele gol derradeiro, o salvador da pátria, o gol da virada fez a galera voltar a chorar, aliás, morrer de chorar, mas desta vez de alegria porque na favela haveria, não mais uma festa como há muito não fazia, mas um carnaval para o resto da vida.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

ESTADO DE GREVE..

    Faz tempo que me rebaixo para uma mulher que se nega acreditar que eu existo.  Tá certo que é um pedaço de mulher, certamente a melhor da cidade, mas nada justifica o desprezo com que me trata. Será que ela não sabe que é pecado desprezar quem nos ama? É uma pena porque estou cheio de boas intenções, tipo, levá-la para um sorvete, um refrigerante ou pegar um cinema talvez. Na volta pode ser que pinte um lugar onde possamos falar com mais calma, dançar coladinho e até tomar banho morno na hidro se ela quiser. Quantos momentos agradáveis teríamos se me olhasse do jeito que a vejo.
Na semana passada, com a paralisação dos ônibus, muitos trabalhadores ficaram pela rua sem ter como voltar para casa,  mas eu que tenho carro não sofri nada com isso, quer dizer, não sofri até ser parado por uma maluca pulando na frente do carro. A doida entrou como se fosse a dona do carro e eu o seu motorista.  Não sorriu e muito menos falou sobre itinerário. Simplesmente sentou-se na posição de lótus e abriu falatório. Primeiro contra o prefeito e depois difamando o  patrão. Não buzinassem atrás da gente e lá estaríamos.  Sem graça eu ouvia a mulher por quem passei noites em claro, e ela desabafando à um palmo de mim.  Como não me pediu pra entrar e muito menos perguntou pra onde eu ia, resolvi tocar para onde apontava o nariz. Ou seja, um lugar bonito de luzes coloridas e uma garota de botas cumpridas e saia curta sorrindo pra gente. Ela mesma  fechou a garagem enquanto a minha carona, sem se dar conta do lugar em  que estava,  continuava falando. 
– Ei, psiu!... Ei!, vamos conversar no ar condicionado porque aqui fora está quente. – falei cutucando seu ombro. Gente, a mulher só se deu conta de estar num motel quando a interrompi...
– Por que viemos pra cá?, você não ia me levar para casa? – falou como quem acorda do coma.
 – Não, não vou te levar antes de um banho, ver um filme e descansar pelo menos um pouquinho. Depois eu te levo.  A mulher entrou, bateu a porta e se trancou no banheiro. Como demorava pra sair e fui até la e carinhosamente falei junto à porta: – Não precisa correr, não, meu anjo. Aqui ninguém está com pressa.  Aliás pra que pressa se fiquei meses esperando para te ver sorrir, falar com você e até passear de carro como estamos fazendo.  Meia hora depois ela me aparece, linda como nunca, num  robe branco com a logomarca da casa bordada em vermelho, dizendo;  
– Olha, eu só queria uma carona, mas pelo que estou vendo você não vai me levar de volta se eu não colaborar. Por isso te proponho o seguinte; eu facilito as coisas e você não dá chupão no meu pescoço, falou? Mas precisa me prometer que vai me levar pra casa ainda hoje...