segunda-feira, 23 de setembro de 2019

UMA VELHA CANÇÃO.


     
      Ouvindo Cazuza eu descobri que tenho um pouco a ver com o poeta, só não sou, como diz em uma de suas canções, muito exagerado.  Mas confesso que as vezes me excedo além dos limites. Não vou dizer que por eu saber que o "homem só é considerado homem quando faz um filho,  escreve um livro e planta uma árvore" tenha relação com a música e muito menos torna diferente aquele que faz tudo isso.  Eu, por exemplo. Desde muito cedo, ainda menino,  eu plantava semente de mamão, mas nunca vingaram. Depois comecei a escrever, mas não fui além de um contador de casos meio sem graça, e por fim as namoradinhas. Começou com as coleguinhas da escola. Depois com as meninas da rua onde a gente morava e com aquelas que frequentavam os lugares onde eu ia.  Depois de crescido comecei a escrever livros, pois queria que lessem minhas histórias da mesma maneira como eu gostava de ler a dos outros, e foram oito as tentativas, sendo que cinco estão publicadas e outras aguardando vez. Mais tarde vieram os filhos, aos pares. E daqueles que a mim foram dados a conhecer eu registrei todos. Dei a eles meu nome e com o auxílio da mãe de cada um os fiz cidadãos. E por fim, a árvore.  Comecei escolhendo um lugar para plantá-las.  Arei e adubei a terra antes de semeá-la. Depois reguei para que crescessem e chegassem ao que hoje chamamos de mata. E foi em um descampado ao norte do país  que cultivei o aglomerado verde que o mundo admira e respeita  como se fosse o pulmão do mundo.  E tudo por conta de uma canção, pois se não fosse por ela a minha modéstia não teria me permitido revelar a identidade daquele que, sem pretensão, plantou a floresta que ora desmatam e queimam.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

TERRA DO NUNCA

   
     Conheci dois irmãos no alto de uma favela onde um menino de seis anos e a irmã de cinco eram criados. O mais velho queria vender bala no sinal como seu pai fazia, e a irmã, voar como Sininho e Peter Pan na Terra do Nunca. Aos 10 ele realizou o sonho graças a bala perdida que encontrou seu pai, enquanto ela, a menina que sonhava conhecer Peter Pan para ensiná-la a voar com ele, já não pretendia parar de crescer.  Agora pensava ser médica pra cuidar dos pais e de quem mais precisasse. Aos 15 o menino largou a escola pra ganhar mais dinheiro lavando carros, enquanto ela desejava ser comissária de bordo, não pra voar, dizia mentindo, mas pra conhecer o mundo caso não conseguisse estudar medicina. Aos 17 ele saiu da favela pra não ceder às ordens do crime, enquanto a irmã que já não sonhava com a fada tilim-tim, mas também não achava nada fácil vestir o jaleco branco, decidiu continuar  estudando. E assim falava a criança que aos 5 anos queria voar como a fada Sininho. Aos 18 eis que se forma numa escola de poucos investimentos e talvez por isso não foi aprovada nas provas do Enem. Largou os estudo porque não teria como pagar as mensalidades da faculdade, por isso quis arranjar um trabalho, mas sem experiência precisou esperar muito e só com 20 anos foi admitida numa empresa terceirizada que prestava serviço de limpeza num aeroporto pra onde a menina que sonhava ser passarinho foi designada.  Hoje a moça descansa do almoço olhando avião. E entre os encantos da aterrissagem e o milagre das decolagens o que mais me encanta é o brilho que isso traz pros seus olhos, talvez não tão intenso como aquele dos 5 anos quando dizia que voar como Sininho voava com Peter Pan era o que ela queria pro seu futuro.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

A maioria dos meus textos é baseada em algum momento da minha vida o que não justifica dizer que eu seja machista ou falso garanhão, até porque a espécie humana voa comigo num balão aonde tudo é possível, inclusive curtir a paisagem.

(Isto posto, vamos ao conto de hoje:)


     
                                                            " O GOSTO DO CIO"
       O que farias se a mulher que cantaste a vida inteira decidisse ir pra cama contigo depois do trabalho?  Largavas tudo o que estivesses fazendo ou marcavas pra quando estivesse mais descansada?  Eu cá não sou adivinho, mas tenho certeza que trocarias a data da realização do teu sonho enquanto eu largava mão de qualquer coisa para levá-la à fazenda ou à uma casinha de sapê, como canta Paula Toler.  Esse é o tipo de coisa que se resolve na hora ou se perde o bonde da oportunidade.  Como o amigo sabe, o cheiro de uma pessoa que tomou banho às sete da manhã já não é o mesmo no final do expediente, por isso eu pergunto se refugas ou continuas fuçando o lugar onde o cheiro que vem à tua cara já não é tão prazeroso.  Não é prazeroso para alguns, porque na minha rua havia uma família que tinha quatro filhos, três rapazes e uma mulher, que se tornou minha amiga e confidente e com quem os irmãos achavam que eu tinha tido um caso.  Tempos depois os rapazes casaram e por acreditarem na própria mentira eu, para me vingar, resolvi assediar  suas esposas e foi com calma e persistência que cada uma se deitou na minha cama, sendo que  a última tinha desmaios com a minha boca roçando seu corpo. Até as axilas da moça eu lambi, mas quando cheguei entre as coxas, aí foi que a coisa fedeu... Jesus do céu!  Que cheiro que tinha aquele lugar. Na hora eu até pensei que fosse brochar, mas fiz cara dura e continuei até que gozasse.  Quando terminamos eu sugeri que procurasse um ginecologista e antes de dizer o porquê do conselho me deu um tapa na cara, se vestiu e foi embora. Eu tenho certeza que não comentou que tivesse saído comigo, mas falou qualquer coisa para que, não só os irmãos, mas como toda a família  me ignorasse.  Quando passo eles fingem que não me veem enquanto eu abro um belo sorriso em resposta.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

CLAMANDO PELOS MARIDOS


    

       Revendo a maneira com que trato as pessoas chego a conclusão que preciso melhorar muito, principalmente com as mulheres da minha idade com quem me deito mais amiúde.  As jovens nem tanto, até porque são elas que me pedem para estocá-las, para jogá-las na parede e chamá-las de lagartixa.   Esses dois tipos de pessoa merecem o meu respeito e a minha compreensão e eu as entendo e respeito do mesmo jeito como sei que as mais novas precisam da companhia de homens experientes, enquanto as outras da companhia de quem as escute e concorde com suas necessidades, mesmo que veladas. Daquelas com quem me deitei eu guardo lembranças como guardo de  uma que só descobri que era prostituta por ter me cobrado por um serviço que  não contratei mesmo tendo gozado mais vezes do que eu previ que ela gozasse. Lembro de uma atriz que quase apanhou do marido por sorrir pra mim num restaurante em Vitória.  O mais interessante  foi ela bater à porta do meu quarto horas depois.  Também não me esqueço das que foram trocadas por partidas de tênis nas quadras dos clubes granfinos do Rio. A essas a quem rendo as minhas homenagens, dei o máximo de mim.  É claro que eu buscava o prazer que me deram, mas com elas eu fiz o que os maridos tinham o dever de fazer ou seja; ouvir suas histórias, rir na hora do riso e franzir o cenho na hora de suas angústias. Talvez poucos saibam que tem marido que não está nem aí pras esposas e o pior é que elas não gostam de fazer com qualquer um, mesmo que seja bonito e gostoso,  o que fariam com os maridos se eles se permitissem.  Muitos me aceitaram como amigo de suas mulheres, deixaram que eu comesse em suas mesas, bebesse da sua bebida e indiretamente me permitiram deitar com suas parceiras. Essas mulheres precisam de tratamento refinado por parte dos maridos ou  nossos “trabalhos” se tornarão indispensável como vêm se tornando.


Agora vou abrir um parêntese pra falar com a minha mãe, pena que vou fazer papel de maluco falando sozinho já que ela normalmente nunca me ouviu.  Mas vou falar assim mesmo e para não me virem pagando esse mico acho melhor escrever-lhe uma carta:

 Benção, minha mãe.  Eu tenho certeza que o correio trará esta carta de volta, mesmo assim vou postá-la porque preciso desabafar e não seria legal da minha parte fazer um amigo sofrer com as minhas mazelas.  Pois olhe, minha mãe em que pé o meu sossego se encontra; faz quatro meses que não durmo direito, não trabalho bem e muito mal tenho feito as refeições  e tudo por conta de pessoas cujos pais não lhe deram a educação que você nos deu, minha mãe.  Por exemplo, a gente sabe que a lei permite que se varra a casa, limpe e troque de lugar os seus móveis, mas que o faça sem incomodar os vizinhos, principalmente quando eles trabalham ou descansam do dia a dia.  Eu tenho certeza que, se eu não tivesse tido a graça de conhecer a pessoa que me tirou de perto de você e com quem, felizmente, eu vivo muito bem, essa carta não teria razão para existir, até porque, o fubá que vc soprava na cara do diabo tirava do desgraçado o desejo de perturbar minha paz.  Um dia, eu até peço a senhora que me perdoe,  falei que se deus existisse mataria o filho do desgraçado para ver se com isso o bicho sossegava quieto em sua casa, mas infelizmente essas coisas não acontecem porque são de ordem espiritual e não física.  Enfim, minha mãe.  Vou esperar o término do contrato com muita tristeza, não por envelhecer antes do tempo, mas por não poder contar com a sua ajuda e, é claro, em vê-la fazendo qualquer coisa por mim como nos tempos em que eu era criança quando até sua força a senhora usou para nos por na linha.  É claro que isso fez muito mal a minha formação, mas de uma forma ou de outra o meu futuro foi escrito com letras tortas, mas nele não falta e não faltará o compromisso do respeito que a senhora embutiu nos filhos. Caso não o tivesse feito,  nada disso estaria acontecendo entre mim e o vizinho de cima porque um tatu cheira o outro, como diz Monteiro Lobato em um dos seus livros, lembra do escritor?, pois é...




sexta-feira, 6 de setembro de 2019

A COISA ESTÁ PRETA

      Chovia e só Deus sabe o quanto me custou não ter coragem pra pegar a estrada com a chuva que caía, mas, convenhamos sair debaixo de raios com trovões explodindo em meus ouvidos, só louco.  Eu cerrava as cortinas quando o interfone tocou. Atendi, mas ninguém disse nada ou se disse, com aquele barulho eu não ouvi, por isso desci e na portaria alguém de preto, cabelos pintado de azul, três pirsings em cada orelha e anéis de caveira nos dedos.  Passou todo encharcado sem me olhar. Era uma garota de 19 anos mais ou menos que, no elevador, apertou o décimo e se  encolheu num canto.
No segundo andar as luzes piscaram e no terceiro o elevador deu uma sacudida, mas foi entre o sexto e o sétimo que ele parou. A luz voltou a piscar e o ar desligou quando a energia acabou. Em pouco tempo tudo passou, menos a garota que apavorada desmaiou de nervoso. Tentei consolá-la, mas não me ouvia. No décimo não tinha ninguém para recebê-la e se eu a deixá-la ali, jogada, seria omissão de socorro, por isso a arrastei para dentro de casa. Tentei pedir socorro, mas o celular não tinha sinal. Então eu a estapeei e até assoprei-lhe os ouvidos, mas nada, nem se mexia. Achei que respiração boca a boca fosse uma boa, mas não tive coragem. Fui à cozinha e quando voltei percebi que ela tinha mudado de posição.  Tentei um novo contato, mas não respondeu. 
-Será que ela está mesmo apagada ou ta de sacanagem? - Pensei. Pra ter certeza eu a coloquei na cama, botei minha boca na dela e assoprei uma vez. E outra, e outra até que a coisa virou beijo, e quanto mais eu beijava mais acelerada ficava a sua respiração. Em dado momento ela mais parecia um corredor de maratona num final de prova. 
-Graças a Deus a garota está bem e se quis me testar conseguiu. Escorri minha boca pescoço abaixo em quem resfolegava como locomotiva subindo serra.  Com muita calma e  bastante carinho enfiei a boca em um dos seus seios. Livrei-a dos empecilhos que  a sufocavam e a degustei por inteiro. Eu a bebi como um cão bebe água, até o som que eu fazia com a língua era igual. O vento não me soprava na cara os aromas do campo, mas também não me desagradava o perfume que me trazia. Desci deslizando as encostas até o pomar onde chupei todinha aquela fruta. 
Nada mais eu quis fazer sem que ela participasse, por isso tomei uma ducha e voltei. Voltei a tempo de vê-la amarrar o cadarço do coturno, vestir o casado e bater a porta atrás de si. Foi embora sem me perguntar o porquê dela estar minha cama.
-Este fato me deu a certeza de que ela deixou a tribo para descansar, e foi o que fez.



segunda-feira, 2 de setembro de 2019

CARA DE CÃO.

    
     Tu te lembras de quando te deram um cãozinho para fazer companhia ao teu filho que acabava de nascer? Lembras quando te recebiam no portão sujando as pernas das tuas calças com a terra com que brincavam? Não adiantava reclamar porque todos os dias a cena se repetia e terminava com o pai beijando o filho e num sutil gesto dava um passa-fora em quem latia de felicidade. Tu te lembras? Os dois tinham cinco anos naquela época.  Aos quinze, um foi viajar num intercâmbio de 10 anos no Canadá e te deixou choroso com o cachorro no portão de embarque, tu te recordas?  Hoje o garoto está formado.  Namorou uma colega da faculdade com quem logo se casará e agora, através das redes sociais, ficas sabendo que voltar ao Brasil não faz parte dos sonhos dele.  Coitado de ti meu amigo, que já não tens mais quem te suje a roupa quando chegas do trabalho. O teu filho foi cuidar da vida dele muito além de onde possam alcançar teus olhos e pelo que deixou perceber, há muito que te esqueceu enquanto o cão definha de saudade, sem forças pra correr ao encontro de quem, durante anos, lhe dava passa-foras dos quais jamais se envergonhou.