quinta-feira, 29 de agosto de 2019

SONHAR É DE GRAÇA.

    
     Eu sei que não devia, mas já critiquei quem ficasse horas, dias na fila para comprar o direito de ver de perto seu ídolo.  Eu nunca fiquei, mas também não os vi a menos de 20 metros e por não concordar com essa ideia foi que abri comentário sobre a mulherada que grita, chora e quer por que quer uma lembrança do artista e não importa se for um autógrafo, uma selfie ou um pedaço da roupa.  Na época em que abri falatória eu tinha a impressão de que se ele quisesse levar uma, duas, três ou todas pra casa nenhuma diria que não e o que faria esse cara com quem diz que morre por ele?  Eu sei que todos têm uma resposta para esta pergunta, mas, e os rapazes,  teriam eles coragem de passar uma noite com a pessoa em questão? É claro que sim, mas dormir na cama com ele só elas teriam coragem, todas juntas ou a combinar.  Tem momento que eu fico me perguntando; por que gritam, choram e até se rasgam por uma pessoa que nada tem para lhes dar além da música ou da performasse, dependendo do artista?  Esses caras, como sabemos, não são como a gente, são artistas e artista é qualquer coisa fora do comum porque criam sonhos, são artesões ou, se achar melhor, são fadas que nos levam à  ilha da fantasia, próximo a terra do nunca.  Hoje  não falo mais essas coisas, principalmente depois que eu descobri que a vida  é feita de sonhos e quem constrói esses sonhos senão os artista com suas canções, com as histórias que contam e com  a experiência de vida que têm?

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

É DANDO QUE SE RECEBE

    

     Não tinha uma vez que eu não corresse para vê-la subir a ladeira onde a gente morava.  Ela era morena, magra, 14 anos e não muito bonita.  Não tinha corpo e nem jeito de mulher, porém fôra, pelo que nos diziam, estuprada por vários rapazes do bairro e isso mexia muito comigo. Eu sei que é triste falar dessas coisas, mas se quero falar a verdade preciso dizer que um menino de 15 anos morre de desejos pecaminosos quando ouve falar dessas coisas, imagina ver aquela que teve vários rapazes um pouco mais velho  tocando um corpo que não lhes pertencia e muito menos tinham o seu consentimento.  Não quero dizer com isso que eu os invejasse,  mas só de pensar no ato eu sabia que também pecava como qualquer ser humano da minha idade.  Agora eu a vejo atravessar a passarela dos sonhos que eu tive com ela enquanto ela, quem sabe, não pensasse que a minha passarela era o corredor da morte das possibilidades de se casar virgem, não ser tratada pelos pais dos amigos como alguém que tivesse concorrido para que o fato acontecesse.  Quando fiz 18 anos alguém me cumprimentou com voz de mulher. Gente, eu nem me lembrava mais dela quando me cumprimentou e com a mão estendida esperando a minha foi que eu vi na mulher que se tornou a menina de 14 anos que só andava com os olhos lambendo os pés e no momento eram os meus que os lambiam. Um longa metragem passou rapidamente na minha cabeça com um coadjuvante assumindo o protagonismo da cena e mudando o sentido da história. 

sábado, 24 de agosto de 2019

O SERMÃO DO PASTOR



     Eu juro que vi Elzevir transando a irmã, por trás, no fundo do terreno onde moravam.  O pior não foi o encesto, mas o tempo que levei pra dizer que ia contar pro pai dela.  Sim, porque se eu saísse dando com a língua nos dentes o irmãozinho, que tinha cinco anos a mais do que eu, certamente, os quebraria.  Primeiro eu falei pra irmã mais nova que falou pra pecadora.  Depois veio um bilhete marcando um encontro comigo naquela noite, na saída do culto.  Eu precisava estudar para melhorar minhas notas, mas larguei tudo e fui pra frente da igreja esperar por ela, quer dizer, por eles, porque o irmão e mais três  garotos vieram pra cima de mim.  Sorte que eu os vi antes e pude correr.  Correr pra casa deles onde Seu Hermes me recebeu com um sorriso desse tamanho achando que eu tinha “aceitado Jesus”.  Só que não, porque naquela idade eu não queria  nenhum compromisso além da escola pra tomar o meu tempo. Momentos depois Dona Martha chegou com os filhos que, ao me virem conversando com o pai deles, Jesus amado, foi uma puxação de saco tão grande que até seu Hermes desconfiou e se não fosse a esposa mencionar o sermão do pastor eu nem sei o que teria acontecido.  Cinco minutos depois a encestada me chamou num canto pra perguntar o que eu tinha ido fazer lá e eu, claro, menti que tinha ido pra contar “aquele negócio” pro pai dela.  Elzinha quis chorar, mas pegou minha mão e olhando nos meus olhos com o azul dos dela, me subornou;  – se eu deixar você por  a mão dentro do meu sutiã você esquece “essa coisa”?  
   Até hoje, tantos anos depois, ainda tento esquecer “essa coisa”, mas quem me garante que um dia eu vá conseguir?!

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

COM TODO GÁS.


      Eu sou muito acanhado, mas quando os hormônios bolinam a parte de baixo do meu umbigo eu não peço desculpas ou permissão para arredar as cadeiras, puxar a mesa prum canto e dar, na frente de qualquer um, o espetáculo que nem eu acredito que dou. E coisas assim não são impossíveis de acontecer principalmente com quem lida com gente.   Recentemente uma senhora ligou pra o depósito de gás do meu sobrinho pedindo urgência no atendimento e como eu estava fazendo as entregas pra ele não tinha como deixar a freguesa esperando. Acontece que a dona acabou se esquecendo de mim ou eu não teria mofado do lado de fora com aquele peso nas costas e o sol quente na testa como fiquei.
  – Entre por favor, e desculpe por  te fazer esperar – disse a mulher diante de um cara que mal se mexia com aquilo tudo abrigado num roupão branco e toalha nos cabelos.  Ela não tinha uma cara bonita, mas tinha corpo de passista de escola de samba ou melhor; ela era a própria escola de samba e a cada evolução o roupão me premiava com as pernas de sua dona. Quando cheguei à cozinha e ela se abaixou para abrir o armário, eis que um par de belas e apetitosas mamas me salta aos olhos e eu quase atrapalho o andamento da comissão de frente.  
– Desculpa, na correria vesti qualquer coisa só pra não te deixar esperando naquele calor.  Espere só mais um pouquinho que eu vou me trocar e já volto pra te pagar – disse sorrindo.  A freguesa foi para o quarto e como estava demorando mais do que o necessário eu menti que passava mais tarde pra receber. 
– Espera aí, não vai embora não.  É o zíper do vestido engasgou – disse com jeito de gozação.  Ouvindo tal desculpa eu me prontifiquei a ajudá-la, no que ela aceitou. 
– Meu pai do céu, o que era aquilo nu na minha frente, senhor?! Eu jamais tinha visto corpo mais bonito e sedutor que aquele. A minha educação até me puxava pra fora do quarto pelas orelhas, enquanto a minha libido queria me empurrar pra cima da cama com ela.  
– Que mãos grossa você tem, meu rapaz. Você é todo assim ou é a minha pele que é sedosa de mais?  Antes de terminar o que dizia o vestido pulou pro cabide enquanto ela, na ponta dos pés, enlaçava-me pelo pescoço.  
Até hoje meu sobrinho não fala comigo.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

PRATO FEITO.

  Mulher a gente vê "aos monte" por aí. Algumas sem sal e  outras até bem temperadas, sendo que a maioria, se  fosse comestível, seria comparada ao prato principal.  Infelizmente a destemperada que morou comigo durante tanto tempo me trocou por outro e quase me  tirou o apetite quando falou que ia  embora, não por traição ou falta de amor da minha parte, mas pelo ciúme que tinha dos amigos com quem tomo chope, nas sextas, depois do trampo.  Eu tenho certeza que o motivo não foi outro senão os encantos de um  cafajeste que jurava acabar com a sede, que ele achava que ela sentia, mas agora a faz de pasto em sua cama.  Hoje eu sei que se arrepende de ter trocado um cara que, na cama, dava a ela os carinhos que gostava e, caso o gozo não a matasse, compartilhava comigo  um pouco do que lhe dei.  Mas agora Inês é morta, principalmente quando sua amiga confessou que matava a minha fome, aí ela pirou; foi a todos os lugares que eu frequento pra dizer que sou ruim de cama e que muitas vezes já dei  pinta de gostar de homem.  Também afirmou que sou mau pagador e que a empresa em que trabalho só não me manda embora porque é caro contratar outro melhor. Felizmente não falou que a polícia estava atrás de mim por ter  roubado um banco ou  atirado em alguém.  De qualquer forma arranhou bem a minha imagem. Mas não faz mal não porque o  mundo não vai mudar a rota por causa disso e muito menos por causa de uma mulher  que, se bem não me quis, outra, como sua amiga, bem há de me querer.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

A ÁFRICA É AQUI.

   

    Toda noite é a mesma ladainha e por mais que eu esfregue a orelha na parede não entendo o que dizem se estão brigando. Principalmente a moça que fala e chora ao mesmo tempo ao passo que o homem, este não chora, mas grita muito, e o pior é que usa uma linguagem que ela, mesmo brasileira, parece compreender. Eu não sei por que essa mulher não arruma as tralhas e vai embora.  Ninguém, em sã consciência, aguentaria o que ela vem conseguindo. As vezes esse animal me dá a certeza de que vai derrubar o prédio. Não é fácil dormir com tamanha confusão, aliás, é o que de melhor sabem fazer.  A porradaria tem início meia hora após sua chegada  e assim vai até altas madrugadas.  Depois do quebra quebra o pano cai dando vez ao silêncio sepulcral. Nessas horas eu sempre acho que um matou o outro e fugiu. Eu não sei porque, mas já teve momento de eu pensar que ela, psicologicamente, já tivesse morrido, tais os palavrões com que era tratada. Afinal, qual o marido que chama a esposa de galinha, cachorra, puta e vagabunda, entre outras coisas que o idioma não me favorece compreender?  Em duas ocasiões pensei falar com a polícia, mas me lembrei que os apartamentos do meu condomínio pertencem a Marinha e eu não ficaria nada confortável sendo jogado aos tubarões.  Ontem, no elevador subindo pra minha casa, eu conheci os barulhentos.  Ele, um senegalês desse tamanho. suas mãos estavam mais pra raquete de  tênis de quadra de saibro que pra de ping pongue, enquanto ela, uma loirinha meio metro menor do que ele, porém muito gostosa, tipo; "bem resolvida sexualmente" e que estava  mais pra quem parecia viver um conto de fadas do que pra vítima de torturador. Agora, arranhões, manchas roxas ou vermelhidão no corpo se tinha eu não vi, por mais que esfregasse os meus olhos naquele corpinho gostoso.  No elevador o sujeito não tirava os olhos do indicador luminoso enquanto ela, na ponta dos pés o beija e se esfregava com tamanha avidez que, não ele, mas se eu dissesse qualquer coisa, ufa!,  ninguém me entenderia.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

A IRMÃ...



   Fiquei feliz quando Aldeir, um amigo que há muito eu não via, me disse que ia se casar. Porém minha alegria foi desvanecendo a medida que o amigo descrevia a mulher, principalmente quando me contou que tinha estudado no Mosteiro de São Bento, longe dos pais, sem namoro e com acesso restrito à internet. Só faltava dizer que tinha o mesmo nome da mulher do Brad Pitt e como desgraça pouca é bobagem eu fiz questão de  saber qual era. 
– Amor. Eu a trato por amor porque não quero que pensem que estou com ela por causa do nome, por isso a chamo de amor...
Não foi a resposta que me matou porque já sangrava quando fiz a pergunta. 
Naquele momento começou a girar tudo à minha volta e não dar spoiler era quase impossível.  Ainda mais quando lembro que juramos ficar juntos até que a morte nos separasse. Mas, quis o destino que eu a visse, nua, com uma noviça na cama da minha empregada. Na hora  eu não disse nada, até fui pro quarto fingindo nada ter visto, mas saiu correndo, talvez levasse a mocinha com ela e sumiu. Depois disso eu nunca mais tive notícias dela. Foi e não disse nada e nem mesmo ficou sabendo que jamais tive problemas quanto a isso, que não enxergo como traição alguém se relacionar com pessoa do mesmo sexo até sendo casada. Mal sabia que eu jamais a deixaria por conta dessa bobagem a não ser que o fizesse com um homem. Sem esconder sua alegria Aldeir me falava da suposta castidade de quem tantas e tantas vezes me fez urrar de prazer e em outras tantas me desesperei achando que a tinha matado com os múltiplos orgasmos que só eu sabia provocar. E Aldeir gesticulava, falava alto e ria de gargalhar e, não fossem as firulas que fazia e teria percebido a lágrima que eu enxuguei com as costas da mão. Meu Deus, não posso confrontar a felicidade de um amigo, com cara de quem perdeu a mãe num incêndio – pensei –, mas o que faço, senhor,  pra não demonstrar que a noticia matou a esperança tê-la outra vez?
– Eu acredito que adivinhou o que vim fazer por aqui além de falar do meu casamento, não já? – Perguntou abrindo os braços para um abraço. 
– Não, meu amigo. Não adivinhei não – respondi. 
– Eu e a minha noiva decidimos que você será nosso padrinho e não aceitaremos desculpas, quaisquer que sejam. 
A gente chorava abraçado, cada um com o seu próprio motivo.
– Angelina tinha razão te escolhendo entre os outro amigos...


domingo, 4 de agosto de 2019

EU QUERIA UM SIM, SÓ ISSO.


  


    Ficou horas sentada na soleira da porta vendo os patos  se banhando, mas não viu o sol atravessar o lago e ir embora.  Encolheu as pernas, trouxe os joelhos para o queixo e chorou o resto que sobrou daquela tarde.  Não atendeu o telefone, também não comeu e muito menos quis ver ou falar com alguém. Morrer talvez fosse a única coisa em que pensasse.  O engraçado é que há bem pouco tempo essa pessoa fez uma grosseria tão grande com quem passou anos procurando coragem pra se declarar e quando conseguiu quase morreu de vergonha com o passa-fora que levou. Essa é a pessoa chorosa que ora inveja a felicidade dos bichos. Dizem que a partir daquele dia nunca mais o declarante foi o mesmo, pois teria se trancado longe de tudo e de todos e se não fosse a família ameaçá-lo de internação talvez a morte me impedisse de contar essa história. Aos poucos a ideia de sumir foi se perdendo.  Com um amigo que dele  não desistiu, voltou  aos patins e à pedalar.  Algumas vezes  colocava o barco na água e sozinho  remava as mansas águas do lago onde a brisa beijava melhor  que qualquer pessoa.  Não quero afirmar  que do meio do lago  não desse pra ouvir os soluços de alguém chorando, mas  mentiria se negasse que não  a tivesse visto através da folhagem.  E como diz o palhaçopoeta, nada é por acaso, principalmente quando se coloca um barco n'água exatamente quando a mulher que se perfuma, veste a roupa que a gente gosta e é protagonista do filme da nossa vida resolve sentar pra chorar. 
– Ei, moça!,  tá tudo bem com você?, perguntou sabendo de quem se tratava ao passo que ela, dele não se lembrava.  
– Tá, ta tudo bem, sim, obrigado – respondeu enxugando os olhos.  Fingindo não ter ouvido o rapaz sentou-se ao  seu lado. 
– Não, moça. Ninguém chora por nada. Confie em mim e me conte, só quero ajudar. E outra coisa, quando voltar ao meu barco você nunca mais saberá de mim, portanto relaxa...  
– Sabe o que é; é que eu sou desprezível. E pessoas desprezíveis merecem sofrer, principalmente quando se envergonha  aquele que declara seu amor  por você. E o pior é que eu não conhecia a pessoa pra quem fiz essa maldade.   
– Liga não, moça, já passou, e com certeza ele já nem se lembre mais disso e esteja até se relacionando com outra pessoa. Olha, por que não entra, troca de roupa e, quem sabe, chame um amigo pra sair?!  Enquanto a conversa rola a cabeça expurga os pensamentos ruis...
– Você tem razão, vou fazer o que disse. Obrigada – e concluiu – a propósito; caso você não  tenha outro  compromisso além desse;  remar um barco pra ficar me olhando, você pode sair comigo?...