quarta-feira, 31 de julho de 2019

FRUTA MADURA


   

    Não dava pra ver se era fruta o que ela chupava a não ser a certeza de ter raro sabor tais eram as expressões de quem a sorvia. Os movimentos da língua em torno do fruto eram verdadeiras aulas de expressão facial, corporal, de música ou de dança.  Qualquer coisa sensual beirando o erotismo e às vezes passando de uma despretensiosa lambida às indecências da luxúria, pois se contorcia no trato prazeroso que dava ou que recebia com as chupadas cuidadosas, de forma que não machucasse ou  o deixasse fugir de onde estava. Do último cômodo onde passaria à noite não dava pra distinguir se de fato era fruta ou um beija-flor. Sendo fruta não carecia de tamanho cuidado ao passo que um passarinho jamais prestaria pra ser lambido daquele jeito. E aos poucos a coisa fluía... Passou de pequenos sussurros a palavras confusas, sem sentido. Depois vieram os gritinhos e as contorções que lembravam uma cobra cuja espinha fora quebrada.  Com a desculpa de querer ajudá-la avancei até onde se encontrava aquela que poderia estar sendo drogada por um desalmado que às pressas a deixou se refestelando com algo destemperado e sem gosto que só a ele deveria ser prazeroso, mas na verdade, era ela que praticamente morria com agudeza daquele veneno. Depois que cheguei a garota, de cara amarrada, enxugou as lágrimas, arrumou o vestido e na hora de ir embora colocou o sorriso da mulher resolvida nos lábios e saiu batendo a porta na cara da inveja. Partiu sem deixar seu nome ou um simples muito obrigado.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

PRA RIR OU PRA QUÊ?

  
      Muita alegria ainda te fará rir da barriga doer e mais feliz o teu coração ao passo que em outras ocasiões ficarás num quarto trancado amargando teu sofrimento. 
Talvez porque o mundo não é outra coisa senão uma fábrica de contraditórios e loucos sentimentos. Uma vida, uma só eu não acho o bastante para chegar ao equilíbrio entre a lágrima da alegria e a lágrima do sofrimento, já que derramarás um rio delas no nascimento do teu primeiro filho e um oceano quando se forem teus pais. Também ficarás noites em claro por conta do vestibular e outras tantas cuidando de pacientes. Nas manhãs, tão logo a janela do teu quarto e o dia te permitirem, verás um sol desse tamanho se esfregando nas folhas inocentes da vegetação que sorrindo, porém submissa, curvar-se-á diante o rei. É por isso que me nego a pensar que nem todo prato tem sabor de festa, principalmente quando dou conta do quão tênue é a linha entre equilibrista e palhaço no instante em que esse último precisa, com galhofagem, justificar o desequilíbrio do amigo.
E pra não dizer que não falo de flores; há um mês Jesus apareceu aqui na Gávea. Fora contratado com a missão de fazer do meu clube uma esquadra imbatível, pois só com milagre se conseguiria tal feito.   Foi uma festa saber da contratação, mas até agora não sei se a felicidade de tê-lo entre nós  foi mais saborosa  que a salgada tristeza dos milagres concebidos.  Jesus e os  onze apóstolos,  empataram dois jogos, ganharam um e com isso perdemos a chance da disputa do título o que fez  do santo sepulcro  vermelho se cobrir de um preto desconcertante. Talvez por isso Chico tenha comparado bêbado com equilibrista enquanto a moça feia debruçada à janela sorria pensando que a banda tocasse pra ela.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

À CIGANA


     
       Não faz  um mês que me mudei por conta de um marido ciumento e a minha casa já está cheia de gente novamente.  E não são amigos  feitos no decorrer da vida que estão lá, mas  vizinhos que vão chegando, chegando e acabam ficando.  Sempre vinha alguém  me perguntar se estava tudo bem, se  precisava de alguma coisa ou me chamava pra conhecer sua casa.  Foi tipo, se frequentando, que a gente acabou se enturmando. Atualmente eu preciso bocejar  pra ver se alguém se dá conta de que o sol, faz tempo, escorre pelo telhado e eu não dormi. Se deixasse passavam a noite bebendo, comendo  tira gosto e falando de futebol e mulher.  São pessoas que de uma forma ou de outra vêm pra somar.  Uma completando a outra.  Por exemplo; quem  podia comprava as bebidas; chegava cedo, colocava a cerveja no gelo e voltavam pra casa. Os outros levavam as esposas e o tira gosto, que dava no mesmo.  A minha tristeza era  quando tinha de  enxotá-los da minha casa, mas se não o fizesse, quem levantaria no dia seguinte pra trabalhar, alguém sabe? A metade dos que eu vi  bebendo contava bravata e a outra metade falava mentira. Por isso é que dizem que bebida e verdade não dá rima, mas também não ofende, não é mesmo?  O bom disso é que não brigavam quando um bebia  a cerveja que não comprou  ou se conversava com a mulher que não fosse a sua, desde que dessem  boas gargalhadas e não mudassem de assunto com a chegada de alguém. Mas não pensem que a festa  acabava se uma dessas regras fosse quebrada, a não ser pra quem errasse, claro.  No sábado, quando me levantei, vi que a mesa do café estava arrumada. Mas como arrumada se moro sozinho e não tenho empregada?, a não ser que alguém tenha dormido comigo e não me contaram. Tim tim, disse a mulher d’ um polícia, gente boa,  enrolada numa toalha erguendo a xícara.  Jesus amado eu  estava gostando tanto desse lugar e já vou  procurar outro pra me mudar.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

SEM DIREÇÃO.

   
     No pior trecho entre Barreiras e Natividade, na Bahia, um caminhão em alta velocidade escorraçou-me fora da pista. Felizmente alguém me socorreu e ligou pro seguro da moto. Três dias fora do ar sem ninguém das minhas relações saber de mim.  
– Foi um milagre não ter morrido, diziam ao pé do leito. E tanto era verdade que além de Deus eu precisava agradecer a quem tomou pra si a responsabilidade de cuidar de um moribundo.  E era um faxineira, um anjo com mãos de fada e segurança de arremessador de facas. Eram mãos seguras e de uma maciez tal que me deixava de pau duro.    Quando tive alta ela me levou pra casa, pra casa dela, porque a minha estava há horas dali. – Se não fizer fisioterapia uma pernas vai ficar curta e a outra perde os movimentos, como o Dr. falou, mas não se preocupe que amanhã começam as sessões. Deu boa noite, fechou a porta e saiu.
Meu Deus do céu, teria a fisioterapeuta mãos macias quanto as dela?, e se tiver e o meu negócio vai ficar duro pra me envergonhar, como tem feito?
Para a minha felicidade ou tristeza, adivinha quem veio à tardinha me massagear?, ela, a faxineira, que ao puxar meu lençol deu de cara, mas fingiu não ter visto, o que tinha endurecido ao ouvir a voz dela. Tentei explicar, mas confessou que sabia. Transamos o  resto da tarde, aliás, ela transou com quem mal se mexia.   Você transa bem meu amor!, mentiu mordendo  a orelha.  É, mais ou menos, respondi com a orelha babada.   Talvez eu fizesse melhor se essa coisa não gangrenasse, mas foi gostoso deixar a comida perto de quem parecia estar morta de fome.
Fiquei em sua casa o resto daquele mês.  Foram dias maravilhosos que até esquecemos a  perna.  Eu, pelo menos esquecia não ela.  Todos os dias me acordava com beijos, misto quente e suco de fruta.  Depois saia porta afora com o mesmo sorriso que chegava do trabalho pra preparar o lanche, a janta e depois descansar.  Descansar, aliás, era a única coisa que não fazia.  Muitas, senão todas as noites, ela vinha pra minha cama onde tudo acontecia.
Na sexta-feira santa o seguro pagou minha moto e o DPVAT às despesas.  Coloquei o valor das despesas num cheque e o deixei no criado mudo com um bilhete onde se lia que nada pagaria o que ela me fez e não seriam alguns abraços e outro tanto de beijos a mais que o conseguiriam. Por isso me neguei dizer adeus a quem nem "oi" eu disse quando cheguei.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

COM QUALQUER AMOR

  
      Da festa você não deve se lembrar, mas das cervejas depois das vodcas que tomou talvez reste uma boa lembrança.  Foi o que abriu pra você as portas da fantasia, como o sorriso da moça de corpo perfeito com os peitos fugindo da blusa. Ela que olhava fixo nas meninas dos seus olhos num quarto onde  o melhor da  festa rolava. Foi ali que você conheceu os raios brancos da luz, a velocidade do trem de prata e o riso sem fim. Disso você não se esquece porque tudo naquele momento era belo.  O corpo da moça e os cabelos, as pernas e até os pés pareciam obra de Aleijadinho tal a perfeição dos detalhes, mas foi quando a beijou no pescoço e sentiu seu perfume que o bicho pegou. A flagrância tinha um quê de sagrado e profano,  de feitiço e milagre, de anjo e demônio. Não havia como não cheirá-la se o incontrolável prazer proporcionado aguçava outros desejos.  E ele desceu em espiral pra se estatelar entre os seios onde ficou por um tempo, por tanto tempo que  esqueceu-se da música, dos amigos e de voltar para casa.  E você talvez a tivesse comido durante aqueles longos anos, mas não comeu porque ela não se prestaria a esse tipo de tortura, mas abraçar, beijar, deitar-se com ela em seus braços você o fez da adolescência aos 30 anos.  Havia entre vocês uma intimidade atroz, como unha e carne, amigos de todas as horas, marido e mulher.
Normalmente esquecemos das coisas ruins, mas você não se lembra, pelo menos garante não se lembrar de quem tanto representou para si. Quantas vezes o vi rindo de felicidade.  Quantas outras o peguei dando graças por tê-la conhecido, e como dizia, ninguém, além dela o fazia melhor.
Hoje, tantos anos depois do seu último riso o vejo feliz novamente.  Como feliz se jurou de pés juntos  que ao deixá-la sua vida acabou? Eu, silvioafonso, tenho certeza que desta vez acabou de verdade.  Acabou para as tristezas, para o sofrimento e para o tempo que vivia sozinho. Acabou para quem o quis na sarjeta, na roda de amigos sem nome que do seu nem sabia. Enfim, para esse tipo de coisa e de gente você acabou quando na verdade foram eles que morreram enquanto você dá boas e gostosas gargalhadas junto aos que torciam, como eu, por suas conquistas. Da gente, meu caro, você não se esquece.  Da gente você não tem como deixar de lembrar porque somos sua família e seu futuro, mas se eu estiver errado, esforce-se novamente por hoje. Só por hoje.