segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A ESPERANÇA.

   
     Um grupo de senhores se acotovelava para ver um velho que na juventude queria mudar o mundo. Os jovens talvez não associassem suas vidas a de um coroa que desde os 20 anos fugia dos políticos que o queriam filiado a suas chapas. Aos 25 viajou ao nordeste brasileiro onde, com dois amigos, constataram a miséria daquela gente. Perturbado desistiu do passeio e voltou ao Rio onde se filiou ao partido assediante. E foi abrindo mão dos seus próprios prazeres que retornou ao lugar aonde a pobreza doía mais. O primeiro discurso que gaguejou foi num palanque improvisado por quem nada tinha que pudesse perder; 
– Gente, eu não deixei minha zona de conforto por motivo nenhum que não fosse o de ajudá-los. Não vou prometer trabalho fácil, água limpa e fresca, e muito menos vou segurar seus filhos chorosos de fome no colo porque seria pouco para quem tem sonhos tão grandes como eu e vocês. E não pensem que vou fazer milagre porque não vou, pelo menos de imediato - disse provocando risos - mas quem sabe - continuou falando -  eu não possa melhorar um pouco a saúde, a educação e o provento dos professores? Seria bem mais fácil do que cavar um poço ou trazer o São Francisco para cá. Também não lhes darei dinheiro porque não tenho, só o que posso e vou fazer será trazer algumas montadoras, pelo menos uma, para cá, gerando alguns milhares de emprego. Lutarei para que o Estado  as isentem de impostos nos primeiros 10 anos. Isso não é uma promessa, mas um sonho que eu quero sonhar com vocês, até porque, sou engenheiro e fiz grandes amizades nas fábricas onde estagiei por tanto tempo. Sinto que posso contar com alguns daqueles empresários, mas dependo de vocês. Agora, por favor, não exijam de mim um hospital porque este é o primeiro passo que as fábricas dão na construção da obra. Prometer eu não prometo, mas encaminhá-los a quem possa empregá-los isso eu garanto. O resto vem com tempo e com trabalho. Só tem uma coisa; para fazer esse milagre acontecer eu, infelizmente, vou precisar do voto de cada um de vocês e dos amigos de vocês nas eleições, e se por acaso vocês não acreditarem nas minhas palavras e por isso não me derem seus votos eu terei de perguntar-lhes; Vocês vão dá-los à quem se não confiarem em alguém? Gente, eu só voltei até vocês para oferecer ajuda e caso não queiram acreditar em mim, acreditem, pelo menos em Deus e no que ele pode ter guardado para lhes dar.  
Com o mínimo necessário de votos o jovem se elegeu. As escolas foram reformadas e outras construídas. O hospital, se não é de referência, pelo menos nada fica a dever a nenhum deles e tudo graças ao trabalho dos que antes viviam com os braços cruzados. Hoje, a metade dos que ali estudaram está formada e os filhos encaminhados. As principais ruas foram calçadas e a pracinha, aonde o jovem trocava sonhos por votos, tem seus bancos ocupados pelos aposentados que veem na alegria das crianças a felicidade que não tiveram. 
E assim o velhinho afastou-se dos outros idosos porque não tinha voltado aquele lugar para ser aplaudido, mas para ter certeza que valeu à pena trocar a sua juventude pelo sorriso dos que nem em Deus, talvez mais acreditassem.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

LEI DA PIZZA.

      

    Entregando pizza em sua moto, Zé Luis sustentou os pais e os estudos por oito anos. Nos seis primeiros formou-se em direito, conseguiu o registro da OAB e bacharelou-se em ciências jurídicas. Nos dois outros se preparou para a prova de juiz substituto. Não precisou bater de porta em porta atrás de emprego na área escolhida porque ninguém pagaria a um advogado recém-formado o que a pizzaria lhe garantia. E era assim que funcionava, enquanto  Zé  esperava a encomenda ficar pronta, abria os livros e lia tudo sobre Direito Constitucional, Penal, Econômico, Direito Civil e Direito Empresarial. Chegado o grande dia  trocou a folga com um colega e partiu para a primeira etapa da prova objetiva que o gabaritasse ao cargo. Tempos depois o resultado era estampado no Diário Oficial mencionando o entregador de pizza como um dos três primeiros colocados na seleção do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região, naquele estado. Como negar aplausos a esta criatura que ao invés de aproveitar o dinheiro do seu trabalho para curtir a vida, como fazem os jovens de sua idade, preferiu ficar seis anos indo à faculdade depois de cansativos dias pilotando a velha moto nas entregas que fazia? Fora aqueles dois fundamentais para o pretendido cargo de substituto.  E olha que nem para titular talvez se estudasse tanto. O pior é que o cargo não tinha lotação fixa, já que esses magistrados cobrem férias e licenças de titulares, por isso podem atuar em qualquer vara de acordo com a demanda. O primeiro compromisso do então magistrado era julgar um processo movido contra uma casa de massas prontas e que, para seu espanto, não era outra senão a pizzaria que lhe deu a primeira oportunidade de emprego, inclusive pagou-lhe os melhores salários além de incentivá-lo a chegar aonde finalmente conseguiu. Zé Luis, enfim, cumpriria com o seu dever e com as normas da lei do seu estado.  Executaria com firmeza de caráter o diabo do processo, mesmo sendo o acusado seu mentor intelectual.  Mas convenhamos, não seria um rato na calçada assustando a freguesia que levaria um juiz a penalizar  seu proprietário. Até porque,  as mesas só eram montadas naquele espaço quando a casa estava cheia, e pelo que o protocolo fornecido pela vigilância sanitária afixado no quadro fazia crer, a inspeção havia sido feita há menos de dez dias. Além do mais, rato não é um ser inanimado, e em parte nenhuma no mundo se processa o bicho por procurar comida.

sábado, 18 de agosto de 2018

O CARA II

Quando saiu do banheiro ela sabia que o filho da senhoria a estaria espreitando e como vaidosa que era, desfilou como nas passarelas dos sonhos de quem imaginou que assim que ela fechasse o registro do chuveiro o deixaria assistir a melhor cena daquele espetáculo, mas precisaria que a gravidade colaborasse puxando a toalha que nem por um decreto deixava qualquer parte daquele corpinho cheiroso e bonito à mostra. Vivida como era não deixaria de perceber que alguém na plateia esperava para aplaudi-la enquanto fingisse não estar sabendo que um par de olhos arregalado a lamberia às escondidas. Depois entrou e fechou a porta  às vistas de quem procurava enxergá-la pelo buraco da fechadura que desgraçadamente estava encoberto por qualquer coisa deixada na maçaneta. – Meu Deus do céu, será que a minha sorte não muda nunca?  Resmungou o curioso sabendo que nada poderia ver através do buraco, mas como tinha fé no criador, arriscou mais uma olhadela e para sua surpresa lá estava ela do outro lado da porta nua como sempre sonhou vê-la.  – Meu pai do céu, obrigado! Eu jamais duvidei da sua existência – exclamou sem tirar os olhos da fechadura olhando a mulher que parecia brincar com o que  ele pudesse estar sentindo.  E ela deixava que ele se lambuzasse olhando aquilo tudo ali tão pertinho dos seus olhos, da sua boca e das mãos.  Assim que percebeu que ela sabia que ele a olhava, correu para se trancar no banheiro, mas foi alcançado antes que fechasse a porta. Com um dedo nos lábios ela pedia silêncio. Depois abaixou-se e o beijou na boca. –  Naquele momento nem da cor da toalha que ela deixara no quarto o rapaz se lembrava. Sem desgrudar do beijo ela o colocou sentado na tampa do vaso. Desamarrou-lhe os cordões do pijama e, sem cerimônia, sentou-se no colo de um felizardo que só queria vê-la sem roupa e nada além disso, mas ela, pelo menos naquele momento, parecia enlouquecer, haja vista que se levantava e sentava. Sentava e se levantava, e de novo, outra vez e assim foi acelerando as subidas e as descidas até que deu grito e desandou a chorar. Por isso teria diminuído o ritmo frenético que dera ao que vinha fazendo.  Se foi câimbra ele não soube dizer, mas sabia que o grito tinha acordado a cidade inteira. Preocupada com o que os donos da casa pudessem pensar, ela apeou do colo em que esteve montada e foi para o quarto dormir. Alguém, não se sabe se a mãe ou uma das irmãs perguntou se estava tudo bem ao que ela respondeu que sim. Que havia tido um pesadelo.  Virou para o canto e dormiu, enquanto ele, só depois de provocar o próprio grito contido com o travesseiro.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O CARA

   

    A última casa que papai alugou foi para um casal de jovens, pelo menos ele tinha 20 anos enquanto ela, como nos disse, 32.  Minha mãe gostou tanto dos dois que até comer eles comiam com a gente e  eram visto mais na nossa casa do que na que pagavam para morar. A simpatia do rapaz e a doçura da mulher causavam ótima impressão em minha mãe que já os considerava parte da família. Eu também gostava deles e dessa vez não era só por causa da mulher, mas pelas roupas que vestiam e olha que nada eu entendia da moda feminina e da masculina um pouco menos. Agora, as camisas que o cara vestia, meu Deus do céu! Só em manequins eu tinha visto.  Quanto aos sapatos, nem neles eu vira antes, por isso namorava os dele, até que um dia resolveu me perguntar se eu  gostava do que estava olhando ou se eu tinha alguma coisa contra já que eu não tirava os olhos dos pés dele? Ao que respondi que não. Que claro que não.  Quer dizer, que não tinha motivo algum para não gostar daquela maravilha. Então ele, gentil como deixava parecer que era, descalçou-se e   empurrando aquela belezura para o meu lado sugeriu-me que o calçasse.  E eu o calcei.  Jesus do céu, como era macio e bonito. Eu estava até sem jeito de pisar naquilo.  Adorei, disse olhando para quem sorria pelo bem que a mim havia feito.  Olha, cara  disse-me  dá-lo eu não posso, até porque a minha mulher é quem compra o que eu visto e calço.  Mas fica aqui a dica; sempre que você sair para comprar só compre aquilo que for bom, porque o resultado será sempre afirmativo. Mas se você quiser pode usar o meu porque a minha mulher não vai se importar, é só pedir.  Mais à frente você compra o seu.  concluiu sorrindo enquanto eu, envergonhado, devolvia o que provei.  Na época eu não tinha aonde cair morto, por isso eu não comprasse roupa e sapatos de marca como ele comprava.  Aliás, nem era ele, senão aquela gostosura quem comprava e foi graças a ela que o marido me mostrou como ficamos bem vestido se não entregamos o nosso suado dinheirinho à nossa mãe, dinheiro esse que entregava a ela até que eu completei 25 anos, quando saí de casa. Meu pai também agia assim e eu achava aquilo lindo. 
Um dia, finalmente, o casal brigou e a moça foi dormir lá em casa. Chegou com os olhos vermelhos para nos braços de minha mãe chorar sua tristeza.  Jesus de Nazaré, lá vou eu curtir outra insônia por conta dessa mulher, e para infernizar meus pensamentos a danada foi a última a tomar banho para dormir.  Meu coração bateu descompassado quando a vi, de toalha, sair do banheiro para o quarto e assim que a porta se fechou corri o olho para o buraco da fechadura, mas algum desavisado, para não dizer um palavrão, havia pendurado alguma coisa na maçaneta de maneira que cegava a vista que se podia ter.  Voltei à cama para dormir, mas só Deus sabe depois do quê, eu consegui.  Mas não fez mal aquilo ter acontecido já que não pensavam se mudar tão cedo e como eu tinha 17 anos e só aos 25 eu partiria, muita história ainda eu ia ter para contar.

sábado, 11 de agosto de 2018

HCE

      Aos 19 anos eu fui internado no Hospital Central do Exército com pneumonia. Era lá, isolado da tropa, que a gente era tratado por um médico, capitão do exército e por freiras do Mosteiro de São Lucas.  No segundo pavilhão haviam cinco enfermarias com 19 leitos cada, enquanto a minha tinha 12, mas só 6 doentes, contando comigo, as ocupavam. Desde a minha chegada os soldados vinham saber como era servir na brigada paraquedista e se eu  não tinha medo de saltar sem ter certeza do paraquedas abrir e por que eu adoecera se paraquedista diz que é forte como rocha?   O pior é que não respondi a nenhuma daquelas perguntas na esperança de vê-los de volta aos seus lugares ou as prestativas enfermeiras não mediriam nossa pressão, como não perguntariam se passamos bem à noite e muito menos rezariam com a mão na testa da gente. Pelo menos foi isso que o sargento me falou quando cheguei, inclusive que as moças só entravam na enfermaria se todos estivessem acomodados em seus devidos lugares. Normalmente chegavam de mansinho para não atrapalhar o repouso que o tratamento exigia e graças a tais sutilezas muitas vezes as peguei olhando para o lugar aonde os hormônios se concentravam se eu pensasse em qualquer uma delas. Eu tinha certeza de que elas não olhavam só para mim, mas também para os que não percebiam a curiosidade que traziam nos olhos. Talvez ninguém as visse com maldade a não ser um mente suja como eu as via. E por falar em mente suja eu já nem sei se devo me envergonhar das coisas que falo ou se confesso que colaborei em muito com aquilo, principalmente quando vinham pela manhã ou na hora em que todos pareciam dormir.  Esses eram os melhores momentos quando eu deixava o lençol escorrer para fora da cama de modo a instigar os olhares possivelmente curiosos. E elas, pelo que dava a entender, adoravam a imagem que tinham.  Pelo menos ficavam horas olhando para ela.
Não demorou dois meses e o soldado paraquedista estava de alta o que fez das doces enfermeiras as pessoas mais tristes daquele pavilhão.  E lá foi ele de volta ao batalhão para dias mais tarde sobrevoar o lugar de onde as belas e eficientes enfermeiras viram varias vezes um coração pulsando forte diante de seus olhos. 

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

O PODER DAS MENINAS

    Joãgamela vivia se gabando de ter mais amigos do que qualquer um por aquelas bandas. E olha que não estou falando de nenhum exemplo de beleza já que era  alto e magrela. Tinha 10 anos, mas ainda cursava a 3ª série do fundamental.  Morava com os pais e mais três irmãs pouca coisa mais velhas, cuja incumbência era cuidar dele e da casa quando os pais trabalhavam.  Só que não, porque, esqueciam do compromisso quando se trancavam no quarto com os amiguinhos do irmão.  Quanto ao número de amigos ninguém contestava que Joãgamela tivesse porque o espaço em que morava vivia repleto deles. Tinha até quem mentisse conhecê-lo para se enturmar por ali. As irmãs de Joãgamela, como eram mais velhas, escolhiam as brincadeiras. Os mais bonitinhos eram levados para brincar dentro de casa, enquanto os demais jogariam bola com o irmão na quadra lá fora.  E como cada  garota podia escolher dois meninos para brincar com ela, tinha vez que faltava jogador pra completar os times, mas ninguém reclamava de nada, haja vista que tudo era muito bem organizadinho. Lá fora o jogo tinha juiz e regras a serem cumpridas, mas, lá dentro, quem sabe? Era um tal de puxar cabelo, beliscão na bunda e os esbarrões que as sábias mãozinhas bobas davam sem que soubessem quem era. Até sabiam, mas a criatividade das meninas ia longe as vezes saltava a cerca da imaginação, principalmente quando uma perguntou se o sexo dos anjos era iguais entre eles ou só espiando se podia ter certeza. Enquanto lá fora os moleques corriam atrás da pelota a turma aqui dentro procurava esmeradamente por essa resposta.  Depois das olhadas de São Tomé e dos toques comparativos chegavam a conclusão de que só um estudo mais aprofundado daria a eles a certeza que procuravam, mas isso era brincadeira para outro dia. No final da jornada os meninos não faziam ideia dos gols que marcaram lá fora, enquanto lá dentro as meninas sabiam com quantas bolas tinham brincado.  Dúvidas sobre Joãgamela ter mais amigos do que qualquer um já não tinham, até porque, espaço para brincar era o que não faltava naquela democracia aonde meninos feios, inteligentes, bonitos e até desprovidos de inteligência tinham vez nas brincadeiras que os filhos dos Gamela faziam.  Era uma democracia na acepção da palavra. A diferença era Joãgamela  chutar a bola lá fora com tanta força que os meninos não conseguiam segurar, enquanto as irmãs seguravam, até com certo desprendimento,  as bolas dos meninos lá dentro.
Criança tem cada uma...

domingo, 5 de agosto de 2018

O TAXISTA

      Isso é um roubo, o senhor me cobrar 50 reais por uma corridinha de Laranjeiras até o Cosme Velho, um roubo e se não fosse essa chuva nojenta eu teria vindo a pé – disse a mocinha puxando a saia para encobrir o que ela permitia das coxas. –Mas a senhorita não precisa me dar esse dinheiro, só que precisa desemburrar essa carinha linda porque assim eu fico sem jeito - disse com os dois olhos dentro do decote.  Você sabia que o estresse faz mal a saúde, que deixa o rosto das garotas bonitas como você todo manchado e cheio de rugas, sabia? – Perguntou rindo. – Qualquer um fica desse jeito numa hora dessas, ora bolas! Afinal de contas, o que o senhor quis dizer quando falou que eu não preciso pagar pela corrida, o que pretendia dizer com isso? – Ora, menina. Tá pensando que eu não sei que nas sextas-feiras você pega táxi para voltar a casa de onde só na segunda te deixam sair? Os colegas que te levam voltam para trabalhar, mas quando terminam, vão tomar chope e bater pago, como eu também faço, enquanto você fica presa naquela casa sabe-se lá fazendo o quê. Hoje, dependendo de mim, você não volta pra lá, pelo menos agora, mas para isso é preciso que combinemos aonde você gostaria de ir, se num barzinho onde a gente tomasse uma cerveja e jogasse um punhado de conversa fora ou, se preferir, a gente dava um pulinho num motel para conversar, só isso. Depois eu te levo pra casa e os 50 paus ficam pra você comprar qualquer coisa para si. Depende de você – concluiu, parando o carro. – O senhor já fez esse tipo de proposta pra sua mãe, seu velho nojento? E vai ligando esse carro ou eu chamo a polícia – Gritou com ameaças de abrir a porta, mas desistiu quando um cano frio de 38, que o taxista tinha na mão, encostou na cabeça dela. – Não, moço, por favor. Tira isso da minha cara, por favor, eu te peço! – Disse se debatendo em desespero. – É claro que tiro, mas enquanto isso vai tirando essa roupa que eu vou te ensinar a respeitar aqueles a quem você provoca tesão – disse desafivelando o cinto e pulando para junto de quem, de braços cruzados sobre os seios, implorava tremendo por sua sorte. – Por favor, moço, não faça nada comigo, por favor, não me machuque. – gritava, mas ele avançava, e com as costas da mão deu-lhe uma bofetada tão forte que foi atirada de encontro a porta com um fio de sangue no canto da boca. Ele, que não desistia das intenções a puxou pelos cabelos para o banco onde a violentaria. E o faria em punição por ser ela mulher, por ter saído para trabalhar, por ser jovem e bonita, por vestir uma saia curta, por usar  decote mostrado o colo e por ela morar numa terra sem dono, sem lei e sem ninguém que punisse com severidade aqueles que desrespeitam os direitos dos outros. Felizmente um taxista, que sabia das taras do cara, e vendo o carro parado ali, resolveu avisar a polícia do 10ª DP, que, de arma em punho, lhe deu voz de prisão. Dois tiros, duas sirenes. Um carro da polícia para o caso, uma ambulância para a menina que continuava casta e um saco plástico preto onde puseram o estrume que jaz nu, com um furo de bala no meio da testa e outro a um palmo abaixo do umbigo.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

ESCARLATE ATÉ AOS PÉS.

      A professora Dalila tinha algo a ver com Dalila, o que não quer dizer que fosse o cara pequeno e magro a quem dava selinhos por trazê-la à escola.  Também os seios generosos que aprisionava sob a camisa abotoada a partir do pescoço não seriam, assim como a calça jeans arrochada justificando a beleza do corpo nada tinha a ver com Dalila.  Quanto a Sansão, a gente estava se lixando para ele.  Na verdade queríamos mais que se danasse,  porque o importante é que a professora ficava mais tempo com a gente do que com ele. E a gente se amarrava em ficar com ela, principalmente pelo poder que exercia sobre tudo e todos chegando a induzir a maioria das alunas aos estudos sem prometer nada que não pudessem conquistar a partir da sala de aula, ao passo que os meninos esmeravam-se para impressioná-la. Talvez esse fosse o algo que tivessem em comum.  E para não contradizer os textos anteriores, muitas vezes fingi que não estava entendendo a matéria só para tê-la abaixada ao meu lado explicando aquilo que eu já sabia. E como era bom o seu hálito arejando minha cara, os acordes de sua voz a lamber-me os ouvidos e o cheiro delicioso de flor a vazar-lhe da pele. E se tudo não bastasse, tinha os aprisionados que de vez em quanto tocavam o meu braço e o ombro, naturalmente. Professora Dalila jamais soube o que os leves toques causavam em mim. 
Todas as aulas dessa jovem mulher tinham cheiro de festa, mas a melhor foi a do seu aniversário, na casa dela.  Estava linda naquele longo, de cuja generosidade do decote percebia-se que um descuido, por menor que fosse, daria aos prisioneiros a chance de fugir do cativeiro, o que, infelizmente não aconteceu porque Dalila era tão ou mais poderosa do que Dalila. Dalila e as sandálias de tiras de couro finas encobertas por um longo vermelho que mal deixava os pés serem vistos, mas não o suficiente para escondê-los de quem os acreditava encantadores, como eu. 
Enfim, detalhes da festa não trago de todo na lembrança, mas nenhum outro, por menor que fosse aos meus olhos, eu dele esqueceria se tivesse a ver com Dalila.  O  acarminado da roupa que vestia, por exemplo,  pintava do mesmo vermelho as minhas bochechas sempre que de mim se aproximava. O cabelo curto roçando o pé do pescoço, o riso branco clareando o espaço, a simetria dos dentes, os gestos, a fala e os beijos que dava na gente, como esquecê-los? Eu a olhava com os olhos desejosos do homem que eu seria mais tarde.  Naquele momento, entretanto, eu não passava de um garoto, mas que via em Dalila, não uma mulher simplesmente estonteante, mas um corrimão onde me apoiei no momento da  subida difícil que fiz.