terça-feira, 31 de julho de 2018

EU GAMO E ELA, GAZELA

     
    
    Duas estudantes seguiam para trás do Hospital aonde casais se encontravam para namorar.  A luz era pouca quando passaram pelo carro em que eu aguardava uma amiga que eu socorrera. Com os vidros escuros  levantado não tinha como ser visto por elas que aproveitaram para sentar no capô a dois palmos da minha vista e não demorou para se beijaram e no calor dos beijos tocaram com as mãos em lugares que muito me excitou. Também pudera, enquanto uma mexia por baixo da saia da amiga a outra enfiava a mão no meio das pernas da outra. Minutos depois já estavam deitadas, uma por cima da outra e o que eu via na relação era um homem vestido de saia plissada transando com sua mulher e no entanto não passavam de duas estudantes de uma mesma escola. O insulfilme as impedia de ver como me deixavam. A garota que estava por cima permitia que os seios ficassem à mercê da criatividade da parceira, e, no frenesi do que as possuía, uma enfiou a mão por baixo de saia da outra  enquanto um peito escapulia à voracidade dos lábios gulosos da amiga. O ato estava próximo da conclusão quando um imbecil e o farol desregulado do seu carro acabaram com a festa.  As duas corriam as gargalhadas enquanto eu procurava com o quê secar meu suor.
Depois fiquei me perguntando; quando essa coisa teria começado e que tipo de gente tem  coragem para tanto? Que tipo de papo é usado para convencer a parceira a correr esse risco que, por pouco, não as levou a concluir o que começaram? Sim, porque se não fosse o maldito farol o caso teria tomado proporções maiores, como certamente tomou em outro lugar um pouco mais apropriado.
Tempos depois rodou um filme na minha cabeça. Foi quando João e a mulher, com quem tinha se casado, vieram à festa da cerveja na minha cidade.
-Esta é Neide, a mulher com quem passarei o resto da minha vida - disse-me João, meu amigo, enquanto eu me perguntava de onde conhecia  aquela garota?
Neide era uma pessoa muito bonita e que não olhava ou falava com quem não vestisse saia. Dificilmente falava com homem por mais bonito que fosse, enquanto puxava assunto  com as meninas, mesmo sem conhecê-las.  Aí, caiu minha ficha. As garotas no capô do meu carro...
- João, meu amigo. Algo me diz que você escolheu a mulher certa, e pelo que vejo, jamais terá olhos para outro homem além de você.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

POBRE CRIANÇA.

   
      Com a sobra das obras que o patrão dava ao meu pai, a gente construiu uma casa de madeira e mais três para alugar. Com iniciativa da minha mãe ele tinha comprado um terreno onde fizemos as obras, pelo qual pagaram intermináveis parcelas. O primeiro aluguel ajudou muito aos meus velhos tirar o nariz de dentro d’água, até porque, sempre tinha um parente com filho dormindo e comendo lá em casa. O primeiro, dos três inquilinos, foi um operador de trator, jovem de 28 anos casado com uma garota de 17, com os quais eu fiz boa amizade. Mas nunca procurei saber onde o sujeito trabalhava, só sabia que voltava para ficar com a mulher nas sextas-feiras de tarde.  Mulher que não tendo o que fazer durante a semana, vivia me atazanando o juízo.  Uma vez até me perguntou se eu sabia como se faz um filho. Eu disse que sabia, mesmo não sabendo nada a respeito.  A única coisa que de fato eu sabia era o que tinha ouvido contar. Uma tarde ela disse que ia me levar ao cinema e quanto esse dia chegou a gente sentou perto um do outro, mas tão junto, que em nossas poltronas cabia, sem sacrifício nenhum, pelo menos mais uma pessoas. Quando as luzes se apagaram ela pegou minha mão e como quem não quer nada a enfiou por debaixo da sua blusa.  Aquele era o primeiro peitinho que eu bulirei antes dos 15 anos. É claro que eu já tinha bolinado em outros, mas eram lisos como os meus, porque em peito de criança não nasce mamilo. Quando voltamos fomos direto para a casa dela. Ela tirou minha camisa e foi ao banheiro enquanto eu me livrava dos sapatos e desafivelava o cinto. Eu não sei o que ela tinha ido fazer lá dentro, mas sei que a pessoa que me pegou seminu naquele lugar era o tratorista, dono da casa e daquela mulher.  Mal tinha entrado me deu um sorriso perguntando por ela ao que eu dei de ombros.  Se perguntasse o meu nome, nem dizê-lo eu saberia, tal era o pavor que eu estava sentindo.  O engraçado é que ele nem fez ideia do que aconteceria se não tivesse chegado naquela maldita quinta-feira.  A mulher que ouvira a voz do marido a tempo de se recompor saiu perguntando. – Por que essa cara tão feia, meu amor? – Perguntou.  Eu fui mandado embora, mulher. Como é que você queria que eu estivesse? – Respondeu quase chorando. 
A droga é que esse cara, tá certo que era o dono da mulher, mas bem que podia ter sido mandado embora no dia seguinte e não naquele para empatar o que eu não tive tempo de começar. 

terça-feira, 24 de julho de 2018

AH, ESSAS CRIANÇAS...


      
       Imaginava entre as pernas lisinhas e bem torneadas não só ter os olhos, 
que eu tinha, mas ter a boca e aquele algo a mais que não sossegava quieto  nas calças enquanto o lençol, cúmplice, escorregava aos pés da cama me induzindo a jogar o jogo que quando jogo me prostra esgotado por meia hora, mas que me dá um prazer tão grande que ninguém jamais explicou. Fortuitos lábios entre outros lábios. Lábios que não eram meus, mas corados, pequenos e rosados, de quem dorme o sono da menina que cresceu e ninguém viu(?). Foi diferente das outras vezes que a via e foram tantas. Mas desta estranho, mas surpreendente. Foi como um sonho daqueles que se acorda suado, molhado, mas com vontade de sonhar mais.  Tipo assim, uma droga injetada, mal administrada ou não se explica o meu estado. Um pesadelo, talvez, mas quem me garante que a causa não fosse mais importância do que o efeito que fez? Não continuassem os espasmos a contorcer-me o corpo, tal qual criança de pé se contorce pra segurar o xixi, e eu garantiria que os múltiplos espasmos – ou seriam orgasmos?, fossem vibrantes assim como os sinos em dia de missa. Sonho ou pesadelo, verdade ou fantasia? Não importa se promessas não são negadas ou quebradas. Se desejos proibidos, pecado capital, incesto de mãe desejosa de filho. Enfim, nada de concreto teria acontecido mesmo que eu tivesse esquecido o que me lembrei de dizer. Aliás eu não disse, pensei. Porque se dissesse, talvez lhe conviesse correr cama afora mostrando aos olhos gulosos do vento, as pernas nuas assim como os seios pontiagudos mirando a cara espantada de quem, sem vergonha, a desejava enquanto dormia.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

COISAS DE ANJO.

     
     Antes da curva  acenei a quem me fizera tão bem naquele dia tão angustiante da minha vida. Até beijo eu  joguei, mas não deu sinal de que tivesse visto. Talvez porque a distância fosse curta para quem tinha passos largos e grande de mais para quem tem vista curta.  Aquela foi a primeira e a única vez que nos vimos. Enquanto eu era um pobre carente de um ombro ela era um ente enviado de Deus.  Talvez não fosse um ser comum como a gente, porém bastante especial a ponto de ofuscar minhas vistas com o brilho de sua luz. Quem sabe não seria ela um anjo, um Arcanjo ou um Querubim, quiçá  Serafim?  O nome talvez não fosse assim tão relevante se o bem que fizera não nos surpreendesse - diriam os que comentaram o assunto. Felizmente o sufoco passou sem deixar sequela que se notasse, eu, inclusive, me atrevo a dizer que já estou pronto para outra. Estou pronto uma vírgula, até porque um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.  Pensando assim foi que decidi abrir minha correspondência e responder aqueles que me viram às portas de me tornar o bobo do Rei ou o cavaleiro da rainha. Na segunda hipótese eu teria de ter língua grande para lamber-lhe os pés.
Quando voltava da viagem que fiz à pracinha eu contei na estrada empoeirada o número de pegadas que deixara na ida e as comparei com o da volta, aonde concluí que gastei mais sola na ida do que gastei retornando ao ponto de partida. -Era o peso do fardo que carregavas, teria dito Teresa Dias, ou os pecados que confessastes àquela santa, retrucara Smareis que me viu curvado quando parti e empertigado na volta.
Não bastasse o cansaço e o sofrimento ainda tive que responder as pessoas que me mandavam mensagem de carinho.  A primeira foi  um carismático português com quem comentei sobre o assunto.  Quanto a moça bonita que todas as manhãs me deseja bom dia eu falei de flor, de lua e estrelas, de sonhos e de amor, ao passo que ela, meio sem jeito me dissera que corara com aquelas palavras.    E foi assim, entre perguntas e respostas, que vi o comentário de quem se identificava como a pessoa que mais sabia da minha vida embora não dissesse seu nome.  Na hora até pensei que se tratasse de homem, mas diante do que falou eu tive certeza de que era uma doce e bondosa mulher e não fosse a caixa de mensagem e nem no escritório eu teria dado as caras.  Ficaria sem saber da mulher que certamente mudará o ritmo das minhas melodias.   Ai eu me pergunto; será que a velhinha quis dizer alguma coisa que tivesse a ver com ferida mal cicatrizada e eu não notei? Sim, porque se ela me disse alguma coisa através do olhar eu não sei, haja vista que eu só apareci por lá para falar de mim e não para ouvir o que os olhos da velha pudessem dizer.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A PRAÇA.


      

    Andei muito a procura de uma arma com a qual combatesse o sentimento que tomou meus pensamentos e a minha tranquilidade de assalto. A minha esperança era encontrá-la no mercado ou perderia a vontade de sair, de comer e de dormir como vinha acontecendo. Era como aquilo, tipo o que os estudantes, as mocinhas de tenra idade e os loucos e inconsequentes sentiam quando se apaixonavam. Pelo menos era o que eu achava, mas pelo visto não é. Como é que eu, que não me preocupava com essas coisas, a não ser com meus filhos e com aqueles que contam comigo, fui cair nessa? Está na cara que não fiquei esperando a resposta cair no meu colo, por isso saí à caça. Pensei muito enquanto caminhava e foi assim, sem saber aonde estava indo que cheguei tão longe. Antes, enquanto eu caminhava teve um instante em que eu precisei sentar para descansar. Estava exausto. Três horas andando não é para qualquer um, mas não pensem que me sentei à beira do caminho porque o Erasmo já estava lá. Por isso, entre tantos lugares naquela lonjura,  eu tivesse escolhido a pracinha. Meu Deus, como era longe.  Era tão longe que nem mesmo no mapa devia constar. E acreditem, seria mentira se eu confessasse ter planejado aquela viagem, até porque, era cedo quando me levantei, tomei café e saí para dar umas voltas e foi sem perceber que comecei a caminhada. A princípio com passos de tartaruga e na medida em que o corpo esquentava eu ia apertando o passo. Quando vi já estava correndo e foi correndo que ouvia as bobagens que falavam. É claro que correndo não se entende o que dizem, mas sei que o papo que rola entre os que fazem caminhada não tem nada de sério. Continuei correndo até sumir na poeira. Não sozinho, como afirmei, mas acompanhado dos meus bons e maus pensamentos. Dos bons eu só falo se for bem das pessoas, enquanto os pensamentos maus são os que me derrubam da vaidade  que as mulheres que eu tive juram que tenho.  E foi naquela pracinha, longe do mundo e de tudo, que eu pedi licença a uma velhinha para sentar ao seu lado e contar tudo o que não tinha coragem de dizer para o meu analista. Abri todas as portas e todas as janelas do meu coração para essa mulher. O bom foi que ela ouvia sem me interromper.  Aliás, ela, em nenhum instante abriu sua boca, ao passo que eu não fechava a minha. Falei um montão. Falei dos meus medos,  dos meus sonhos e dos pesadelos, como falei do amor que me tomou de assalto e quase foi morto se essa velhinha não tivesse aparecido quando mais precisei. Permaneci ao seu lado por uma boa hora e meia e quando percebi que o mundo que eu carregava havia rolado das minhas costas foi que me levantei, beijei suas mãos, que sem dizer uma palavra, me viu sumir na poeira de volta à casa.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

O BOBO DO REI.

       As sandálias rasteiras e o longo disfarçando a silhueta era o que se podia ver da criatura que tal qual a brisa que lambe a cara e me desalinha os cabelos  passa sorrindo para onde o queixo aponta. Pegadas, de pés que alicerçam a obra e mal tive o privilégio de ver, somem com o passar do vento.  Das pernas, que a sombra da seda branca encobre, talvez não soubesse tanto pois certamente me matariam se eu as tivesse visto.  
Tudo o que a mim foi possível ver me excitou, e o que a seda escondia não só conta o que a minha imaginação faz questão de criar como me escala para coadjuvar a história.  Olhos de melaço, cabelos de areia, seios de menina pintada de bronze pelo sol agudo do posto 6, pensamentos de mãe de pós-parto. Ela é assim, e  foi assim, desfilando a incógnita da mulher  perfeita que cruzou meu caminho como se nascida com essa intenção tivesse. Até atrasou a passada como se a intenção de instigar com seus olhos de melaço de cana os demônios dos meus ela quisesse. A guerra da mulher desejável  e o Gigante, que depois que a conheci, já não era tão grande, estava por fim declarada.  Gigante da verdade, de paz e de coerência, ora se prostra aos pés da mulher  que despretensiosa o enfeitiça com  voz segura de quem sabe o que fala, enquanto, curvado aos encantos da feiticeira ele mente, imposta a voz e nega a felicidade que sente.  Era o desespero de quem não podia sucumbir na primeira batalha.  Não tivesse o bobo da corte contado à princesa a mesma piada que contara à rainha e ela, sorrindo, talvez o escolhesse para seu cavalheiro, mas não.  Acabou denunciado pelo rei aos guardas que o jogaram no calabouço úmido da indiferença onde, condenado por plágio da própria obra,  morrerá de amor e de vergonha, com ela no pensamento.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

UMA CABINE PRA DOIS.

       Quase um ano eu morei num lugar apertado, mas tão apertado,  
que parecia a cabine telefônica da minha rua.  Só que o sacrifício valia a pena porque tudo o que é necessário à sobrevivência de quem depende de ajuda havia ali ao alcance da mão.  Talvez o lugar não fosse tão apertado assim, até porque cabine telefônica não tem tudo a tempo e a hora como tem a de um Boeing e aquela era  aconchegando e moderna. Por isso a minha gratidão a mulher que me proporcionava essa coisa, inclusive viagens a lugares diversos sem que eu precisasse sair antes da hora, é tão grande.  Devo a ela pelo que fez por minha saúde e pela minha vida.  Esse tipo de relação nos aproximou de tal modo que até seus amigos acabaram se apaixonando por mim e foi graças a esse sentimento que me calei quando vi que foi ela quem procurou o sujeito que a pôs deitada e tocou  os seus seios.  Até entre as pernas eu vi que buliu.  Só não sei se foi por covardia que virei a cara para não ver o que faziam ou foi por achar que ela, como senhora do próprio nariz, sabia bem o que estava fazendo.  Muitas vezes me calei quando chamaram a sua atenção ou lhe falavam coisas com as quais não concordava ao invés de sair em sua defesa.   Outras vezes eu a vi cochichando,  mas poucas fiquei sabendo com quem e sobre o que cochichava.  Na última vez que eu a ouvi cochichar ela acabou chorando quando a pessoa lhe disse que as dores eram normais e que só passariam quando chegasse o momento, mas precisava esperar o sinal o que só dias depois aconteceu.  Na hora me deu uma vontade danada de dar uma voadora em quem provocou suas lágrimas, mesmo eu não sabendo se era qualquer homem, um médico ou uma cozinheira.    
Ultimamente andavam dando força para ela. Enquanto umas desejavam sorte outras falavam coisas que eu não entendia. Uma vez uma velha lhe deu uma bronca tão grande que eu pensei que ela fosse morrer com aquilo.  Era sobre uma ultrassonografia que deveria ter feito naquele dia, mas por medo ela fez que esqueceu.    No Boeing onde morava eu sabia de tudo. Até conheci muitos lugares, só não sei se tão lindos como ela falava.  Mas acho que eram, porque havia  risos e muitas vezes eu escutava coisas lindíssimas a respeito e mesmo que eu não concordasse acabava achando  lindo também.  Durante o tempo que morei lá eu não dei opinião sobre nada.  Talvez por delicadeza ou por não saber como me expressar, mas, será que se eu soubesse eu teria coragem de discordar de alguém?  Acho que não.  Hoje, tantos anos depois eu me vejo numa casa tão grande, mais tão grande que sou capaz de me perder aqui dentro, mesmo assim eu sinto saudades daquela cabine.  Aí eu me pergunto, Será que enquanto eu estava no Boeing, que era a sua barriga, mamãe foi tão feliz quanto eu que vivia ali dentro?

sexta-feira, 6 de julho de 2018

SOZINHO A DOIS

     
      Talvez pela pouca idade não me atrevesse a pedir para sair com ela, mas se eu não me atrevo, como saberei se ela aceita ou não?  Tem vez que me dá uma vontade danada de perguntar se ela me enxerga como homem, que estou prestes a me tornar, ou ainda como o moleque que até pouco tempo corria atrás de pipa.   Enquanto não encontro coragem para buscar tal resposta vou dividindo a cama com as garotas da minha sala e outras que, por se acharem mais interessantes do que verdadeiramente são, nem bola me dão.  Mesmo assim eu as levo comigo.   Ontem, como faço desde que me conheço, eu fui me deitar sozinho.  Sozinho fisicamente, porque os melhores pensamentos jamais me abandonam nesses momentos. E foi assim que eu me deitei naquela noite, sem pecado que eu por ventura tivesse cometido, mas também sem promessas de não cometê-lo em um dado momento. Sem medo porque eu sei que se deitará comigo no instante em que o pano da escuridão cair sobre a terra e eu abrir mão do sono. Então bastará que eu feche meus olhos para que as pesadas portas da fantasia se abram. Portas que dão para o salão aonde todas as noites me deixo levar para dançar. Dois para lá, dois para cá. Um passo para a frente e dois atrás. Depois giro com as pernas trançadas as suas e o corpo ardente em chamas. E nesse vem que eu te quero e nesse vai, mas me leva contigo que eu tento conter a febre que pulsa a minha vaidade entre dedos macios de mãos grandes e fortes.  Não sei se para abrandar minha alma ou para assoprar essa brasa que um doce cheiro de flor adentra com  pés de fada sobre o grosso tapete do quarto e com mãos delicadas me rouba o lençol, desnuda meu corpo e nele se encaixa. Eu o toco, lambo aonde posso, amasso, roço, me enrosco. Acaricio o que pulsa, cresce, queima a minha mão, os dedos e os desejos que incham, delatam. O corpo esfria, prostra-se relaxado como se o dela fosse.  Então o sono me abate, me vira para o canto, puxa o lençol sobre um  corpo que jaz, morto, some no vento como se meu o meu corpo não fosse.

terça-feira, 3 de julho de 2018

TRANÇAPERNA.

 
  Recebi um envelope com uma foto e um convite aonde uma professora desejava reunir os alunos a quem, há 50 anos, dera as primeiras aulas. Na foto onde todos se espremem para não ficar fora a gente vê que o menino Toninho era o dono da cena. Também dá para ver  os colares que Teresa Dias, nem para dormir, se separaPedro Coimbra, o melhor aluno da sala, sempre com a fitinha verde amarela pregada na blusa. Não só o livro de poesia que Gil presenteara à Larissa estava com a professora como também o inseparável caderninho onde Cátiaho escreve seus versos. No alto, à direita, Elvira Carvalho, a menina das saias cumpridas, faz caras e bocas. Graça Pires e Ângela, Maria RodriguesGracinha e Diná Fernandes que para chamar atenção fazem pose de artista, não estão nem aí para a coisa. E essa cara emburrada que faz a Janicce, na janela de sua casa de Madeira? Antônio G, Lúcia Silva, Laerte e Majo Dutra, estão mais comportados. Céu, que vivia mexendo comigo, tenta tirar Toché Lopes do sério. É pena não me lembrar do nome dos outros, a não ser o da menina magrinha de tranças grossas e pernas finas que vivia olhando para baixo como se procurasse por algo perdido.  De tão rasteiro a turma a criticava dizendo que ia criar raiz em seus olhos.  Diziam, mas se enganavam, pois flores era o que eu via quando ela me olhava, e a cada piscada abria-se um novo botão de uma nova esperança.  Essa é Sandra. Uma Sandra de nome importado e tão diferente que muitas vezes me peguei rindo por isso. Talvez nem fosse por causa do nome, mas por causa  das tranças grossas e das pernas... Não tão grossas.
Quando eu chegar a escola espero sentir aquele cheirinho de cinema daqueles tempos e que a minha professora ainda tenha no rosto o sorriso que tanto me encantava, e o olhar, antes tão expressivo, não tenha perdido a luz que ofuscava a vista da gente. Eu sei que o tempo passou e levou a infância da gente.  Só espero não ter mudando a ponto de ter que dizer o meu nome para que saibam com quem estão conversando. Quanto as meninas, acredito que a maioria deve ter se casado enquanto os meninos que fugiam do centro das discussões não exercem a profissão desejada ao passo que eu, vermelho de vergonha,  direi que sou aquilo que afirmei que seria quando crescesse. Na despedida a professora certamente ficará na ponta dos pés e não mais se curvará para beijar minha face como fazia enquanto eu precisarei me conter para não correr ao refeitório aonde eu pedia para repetir como se em casa não tivesse comida.
Com esse filme rodando na cabeça e o envelope apertado no peito seria impossível voltar à realidade se essa brisa gostosa não tivesse lambido a minha cara.