sexta-feira, 29 de junho de 2018

DEMÔNIOS DA MINHA VIDA.

     
     Nintem, quando eu fui dormir já era hoje. Achava que fosse acordar lá pelo meio dia, mas qual.  Acordei de madrugada com a barulhada que faziam no corredor. Duas malucas, mãe e filha, que seriam minhas novas vizinhas, entulhavam suas bugingandas na frente da minha porta.  A minha cara de sono devia estar mais feia do que já é ou não teriam me pedido desculpas ao invés de me estenderem a mãe e dizerem seus nomes. De fato eu estava brabo, mas pra corrigir minha atitude me dispus a ajudá-las. No decorrer do dia já tocaram minha campainha umas cinquenta vezes. Pô, gente. Por que não batem em outra porta, pelo menos pra me dar um pouco de sossego, mas não.  Preferem encher o saco de quem não acha a menor graça nas músicas que ouvem e nas que cantam o dia todo. E elas não estão nem aí para a cara feia que eu faço. Talvez por entenderem que a cara não é de reprovação,  mas uma forma de contestar a saia curta  que mal cobre um palmo abaixo da cintura da mãe e os shortinhos, assim como a camiseta solta sobre os peitos bicudos da filha que parecem ainda vão furar meus olhos.  Essas imagens deveriam fazer de mim o mais feliz dos mortais, mas como eu me conheço,  faço até cara feia para que não me deixem ver o que a saia curta não esconde, até porque, não estou a fim de pagar aluguel de casa para ninguém, muito menos quero um processo por assédio como o Diabo vem tentando. Agora, aqui para nós. Toda a vez que a campainha toca me dá uma vontade danada de pegar essa criança no meu colo para niná-la até que durma. Infelizmente os 17 aninhos dela não permitem.
– Jesus, afasta de mim esse cálice!  
É para evitar esse tipo de coisas que eu as quero longe dos meus desejos e das  possibilidades que posso criar e como podem ver estou fazendo de tudo para mantê-las bem longe dos meus olhos, mesmo que eu enlouqueça quando não me procuram. Tem vez que até me esqueço que a mãe trabalha e a filha faz faculdade, inclusive nos domingos as bobas vão à missa por conta de um tal de Padre Pátrio de Mello que deixa a mulherada ensandecida quando canta.  Até cantar o infeliz canta.  Enquanto  os maridos fecham os olhos para rezar o perigo ronda.  
Não  teria que me incomodar com tais coisas porque não tenho compromisso  até moro sozinho , mas confesso que temo pela integridade das famílias, do santo que veste cuecas e com a do meu reinado que mal começou e já se vê ameaçado. Tenho deixado a porta destrancada para não me assustar com a campainha, mas a garota, por causa disso acabou por me ver tomando banho. Disse que tinha me chamado e como não respondia ela foi entrando até que chegou onde eu estava. E o pior é que eu estava pensando nela. Enquanto eu me esfregava pensava e talvez por estar me esfregando e pensando a garota ficasse do outro lado do vidro o tempo que ficou. 
Se ela me viu do jeito que eu fico quando tenho aqueles pensamentos, eu não sei.  Mas sei que faz cinco dias que não durmo pensando nela me olhando.
Eu sempre falo aos meus amigos que o bem se curva diante do mal, mas para não ver perdurar a tradição resolvi comprar a questão.  Só não sei se terei como pagá-la.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

NA MOSCA.

      Depois de anos longe da pátria e dos amigos eu finalmente percebi no desprezo daqueles que falam mal da nossa terra o quanto ela é grande, vibrante e o por quê de tanta inveja que ela causa. Eu pouco me importei se alguém deixou ou não deixou de assistir o que rolava na tevê quando vazei do bar aos pulos, gritando, rindo e chorando de orgulho por essa terra que há muito tem servido de chacota  para os que não sabem que aqui nós temos quatro colheitas por ano, um clima tropical e gente bonita e hospitaleira que nasceu e mora nesse chão abençoado e que de vez em quando nos veste de amarelo, como agora. Para muitos o motivo da minha grande alegria não era relevante, mas para quem é vaiado pelos países vizinhos, o momento era tudo o que se podia desejar de um país gigante e vibrante como o nosso.  Ninguém entendeu coisa nenhuma, mas eu e o resto dos brasileiros sabemos o quanto nos deixou felizes quando atingiu o centro do alvo depois de várias tentativas. São momentos como estes, que infelizmente só de quatro em quatro anos a gente tem para mostrar o tamanho dessa grandeza. Grandeza do amor que a nossa pátria mãe gentil tem por quem nasceu ou escolheu  este lugar para viver.  É nesses momentos que eu sou o que quiserem que o brasileiro seja, mas, mesmo contra todas as vontades a gente não desiste nunca.  No arremesso seguinte, acertamos a mosca novamente, mas desta vez, antes de sair gritando a beleza do feito eu vi alguém engolindo a alegria que sentia às escondidas.  Como uma mulher casada com um nativo daquela terra cantaria vitória se o marido chora o que a nossa amarelinha lhe impingiu?
Gritar de alegria a moça não gritou, mas pude ver nos seus olhos dela a minha felicidade refletida, e como eu não sabia que além de linda e triste aquela brasileira escondida num canto de bar aonde todo o tipo de gente se reunia era casada, eu perdi o medo e o respeito e saí abraçando os que estavam ali, inclusive ela, a quem beijei na boca. Eu sabia que perdia a razão naquele instante, mas não o suficiente para deixar de perceber o quão macios e gostosos eram os seios dela comprimidos no meu peito na hora do beijo. Não sei se o meu país continuará tão bem como está indo, mas aquele beijo eu tenho certeza, continuará adoçando a minha boca a vida inteira enquanto dela eu me lembrar, assim como o cheiro do seu corpo jovem que levarei comigo para onde quer que eu vá.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

DOCE PERIGO.

   
       Talvez fosse a mãe, mas a filha era mais provável que fosse a pessoa responsável pelo furdúncio no apartamento ao lado. Até Doli, a cadelinha, latia fundo nos meus ouvidos, mas como não era sempre que o fato acontecia eu não via como reclamar.  A voz deixava claro que alguém dançando ao som de Anita era possuído pelo espírito da coisa. A cadelinha, coitada, latia, talvez de tristeza, com a maluquice de sua dona. E eu, é claro, dizia adeus a concentração que precisa para concluir o trabalho daquele dia. A maioria das pessoas tiram o domingo para ir à igreja, talvez para pedir a Deus que fatos como esse não ocorram com elas. Mas pela razão de não ser cristão eu jamais entregaria o meu trabalho como tinha prometido. Enquanto isso o som naquela altura parecia endoidecer a mulher.  Aí não deu para segurar...  Fui lá e esmurrei aquela porta. A cantoria acabou, o som abaixou e a cadelinha só o rabo manteve abanando no momento em que abriram a porta e Terê, a filha da dona, apareceu suada como pano de cuscuz e me banhou com aqueles olhos lindos que mais pareciam esmeraldas.  A moça estava sozinha e sozinha conseguia fazer todo aquele barulhão.  Aí sim, eu me dei conta de que, independente da saia curta e da blusinha molhada colada nos seios, eu só vestia a parte de baixo do pijama.  
- Você veio para derrubar minha porta ou quer me falar alguma coisa?  Perguntou com os olhos no cadarço do pijama. Felizmente ela olhava só para o cadarço porque a blusinha molhada desenhando os peitinhos  que cabiam inteiro na minha boca  já estufava  minha roupa na frente. 
 Não, é que eu pensei que vocês precisassem de alguma ajuda, visto que o barulho me deixou bastante preocupado  disse-lhe meio sem jeito, mesmo percebendo que ela não estava normal.  Parecia ter bebido, mas cheiro de álcool eu não senti ali, mas sobre a mesinha de centro alguma coisa que me chamou a atenção, infelizmente naquele momento  Doli tentou escapar pela porta que dona deixara aberta. O que eu impedi.  Doli não conseguiu escapar, mas os seios da moça sim, conseguiram. Os dois. Foi quando ela se abaixou  para tomar o pet no colo. Ai, fui obrigado a ajudá-la a levar o animalzinho para dentro, porque a dona não ia dar conta daquilo sozinha, porque não ia lá muito bem das pernas, mesmo que fossem um senhor par de pernas.  Meu Deus, que pernas!  A moça tentou esconder o açúcar  como disse que era –,  mas eu a impedi. Abracei-a e a levei ao chuveiro.  Eu poderia ter tirado suas roupas já que não estava nem aí para o que eu fizesse ou deixasse de fazer, mas optei por deixá-la embaixo do chuveiro com água a lhe escorrer na cara.  Tranquei o cachorro com ela atrás da porta para depois cuspir meus marimbondos por ter cedido ao cavalheiro a vez do cafajeste que existia em mim.

domingo, 17 de junho de 2018

DE QUE JEITO?

          
            Baiano não era má pessoa como dizia a patuleia. Está certo que o viram  pegar dinheiro de um mendigo, mas ninguém disse que eram moedas com as quais pagou o ônibus de volta à casa e que no chapéu, de onde as tirou, ele deixou uma nota de dez. Também falam que fica puto quando tocam a campainha da casa dele, mas não dizem que só o faz quando querem sacaneá-lo. O que de fato o exaspera a ponto de gritar com quem se atreve.  A turma espraguejou quando a menor de 14 anos, usuária de drogas, foi acolhida na casa dele.  Mas ninguém viu que a avó, de 76, que morava na rua por conta do vício da neta, também foi morar com ele. O mundo é assim mesmo. Malicioso e mal agradecido. Quando alguém faz alguma coisa errada, mil dedos apontam para o seu nariz.       O mesmo acontece com quem vive para a caridade. 
- Não bajulemos os demônios ou  subjugamos o bem. 
Muitas pessoas deixam de ajudar por medo de arder na fogueira do ódio dessa gente. 
Uma vez - disse-me Baiano - foram à sua casa pedir agasalho para moradores de rua. E como tinha dois iguais cedeu o que não era tão bonito o que deu a entender que só o tinha dado por achá-lo feio e não por generosidade. Gente, colcha não é artigo de decoração, mas sim inibidor de frio. Só isso!
Hoje eu soube que Baiano encheu o tanque da Van antes de partir para  Nova Friburgo onde, em 2011, ajudou as vítimas da chuva que por pouco não sucumbiram na lama. Só que desta vez será ele quem vai pedir que venham ao Rio doar sangue, pois a greve dos caminhoneiros deixou a zero aquele estoque.  Esse cara com certeza arcará com todas as despesas trazendo e levando essa gente bondosa de volta à sua cidade. Custo irrisório às vistas de quem pensa fazer o bem, mas será dinheiro jogado fora aos olhos dos pessimistas. Algumas mulheres, certamente, estarão entre eles dando motivos às línguas do mal para criticar quem não cruza os braços quando chamado. 
Já falaram que Baiano não é boa pessoa ou já  o teriam fisgado para marido. Enquanto a gente fala dos outros os outros falam da gente. Enquanto eu faço o mal para muitos, praticando o bem, a maioria não faz nada agravando o caos. De qualquer maneira não vamos perder as esperanças, mesmo que garantam que a felicidade é efêmera como a vida, e não eterna como é a morte.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

SORTE NEM TODOS TÊM.

 
    No dia que Mariana achou dinheiro na rua dela eu confesso que chorei. A família fez uma festa por conta de sua sorte, enquanto eu me debulhei em lágrimas por saber que rico não anda aonde o pobre mora para perder dinheiro.  Portanto, só quem precisasse trabalhar o dia inteiro para ganhar algo parecido morava ali. Quem sabe aquele dinheiro não compraria a comida de uma semana inteira ou os remédios de um parente doente? 
 Se eu perdesse 50 reais minha mãe me tirava o couro antes de me matar.  
Isso me lembra a época dos meus nove para dez anos quando encontrei um dinheiro no canto da cozinha lá de casa, mas não peguei. No dia seguinte o dinheiro ainda estava lá, quietinho, do mesmo jeito. No outro dia e no outro também.  Eu achava que só eu sabia dele. Certamente quem o deixou já nem se lembrava do dinheiro. Aí a tentação começou a fazer cócegas, mas o sossego só foi embora no instante em que o diabo, que  me atazanava o dia inteiro,  me induziu a cometer o delito que mudaria o meu jeito de enxergar a vida. Olhei para os lados e como nada me impedia de fazer o que a minha mãe dizia que criança educada não faz, eu o peguei e como quem não quer nada saí porta afora.  Não pensava em gastá-lo, pelo menos naquele momento,  mas para escondê-lo entre o forro e as telhas no único banheiro que nós e o resto dos moradores tínhamos para usar.  Infelizmente a minha felicidade durou pouco. Bastou que eu me apropriasse do bem alheio para mamãe, com uma ripa de madeira  e aos berros, me acordar e as minhas irmãs para que déssemos conta do dinheiro que ela separava, todos os dias, para papai ir trabalhar. –  Por isso o dinheiro parecia o mesmo. E como ninguém confessava, mamãe pegou minha irmã pelo braço para espancá-la, mas antes que a pancadaria começasse eu me entreguei.  Mamãe estava pendurada na minha orelha no momento em que indiquei o lugar onde o tinha escondido.  Nessas horas mamãe batia em todos os filhos para que um não risse do outro e quem teve o azar de ser o primeiro foi minha irmã mais velha de 13 anos, que já tinha corpo e cara de mulher, mas que não passava de uma criança. Doeu-me saber que alguém pagaria por um erro que não cometera. 
Subi na tampa do vaso para ter acesso ao esconderijo da minha desgraça.  Naquele dia minha mãe me bateu tanto, mas tanto, que mal conseguia falar, até que, reunindo o resto de suas forças, chamou pelo irmão a quem deu a incumbência de completar o que tinha começado.  E titio –  que vivia às custas do meu pai – me bateu muito.  Mais do que eu pensei que fosse aguentar. No outro dia mal consegui levantar para ir à escola. Portanto, se alguém quiser perder dinheiro que o faça longe do caramelado dos meus olhos para não umedecê-los. Quanto a educar na base da porrada, depende do educando e de seu educador, até porque, meus pais formaram cidadãos batendo na gente e a gente criou cidadãos iguais a eles, mas com bons exemplos e ótimas conversas.

sábado, 9 de junho de 2018

TEMPOS ANTIGOS.

                                 
    Eu e Otabílio passamos algum tempo da nossa infância na casa um do outro.  Eu, mais na dele, porque seu pai era advogado e o meu assentava tijolos.  O irmão de Otabílio  preferia a companhia das meninas a brincar com a gente, o que envaidecia o pai que achava o caçula o mais esperto dos filhos, porque, brincar com garotas era bem mais interessante do que brincar com meninos – dizia.   Dona Alicia, a mãe, era meio que estranha. Gente boa à beça, mas tinha umas coisas que eu não entendia, como podia me deixar pensar que gostava mais do cachorro do que do marido, pelo menos não dava um passo sem que o Dogue alemão – duas vezes maior que o meu – estivesse ao seu lado. Mas isso não era problema meu e sim do marido dela, porque o importante era brincar naquela casa onde, no fundo, havia uma bela quadra para a gente bater uma bola.  Muitas vezes o pai dos garotos jogava com a gente. Só o caçula é que não.  Preferia as meninas com quem brincava de casinha. Dona Alicia até achava engraçado, mas quando aparecia por lá era por causa do jogo, não pelo filhinho. Mas deixava de se concentrar no jogo quando Rex esfregava o negócio nas pernas dela. O engraçado é que com a gente o bicho não fazia essas coisas, mas bastava D. Alicia sair porta da cozinha afora que ele vinha com aquele troço   maior do que o do meu pai  se esfregar em suas pernas. Aí, ela, meio sem jeito, voltava para casa. Por isso vivia com ele preso lá dentro e como ela mesma dizia,  era para não se constranger, como agora.
Cachorro maluco, aquele. Sempre tentando transar com as pernas da dona, que negava, mas morria de rir com o cio do bicho. Eu era meninote, mas como eu invejava o danado. O pior é que o marido achava lindo o afeto entre os dois, enquanto eu, maldoso, desde sempre, só via sacanagem naquilo tudo.  
Muitas foram as manhãs que eu acordei como se tivesse lambendo o par de pernas daquela mulher. Os vestígios no lençol não me calavam a verdade.
Com o tempo a gente cresceu e cada um seguiu seu destino. Eu escolhi a área que me sustenta.  Otabilio é oficial do exército e o caçula mora com um bando de mulher, só não sei do que vive e muito menos o que faz com elas. O Rex e o pai dos garotos morreram.  D. Alicia agora, um pouco mais madura, tem outro cachorro, o terceiro, mas nenhum é menor do que foram os outros. Quanto a se casar novamente, jamais declinou desejo. Os vizinhos afirmam que os bichos morreram de inanição enquanto o dono, de lutar para mantê-los sadios. Aí eu me pergunto; como de inanição se comida não faltava naquela casa e por que morrer pelos bichos se dinheiro não faltava para cuidar de tudo?

terça-feira, 5 de junho de 2018

COMPULSÃO

      
     João nunca tinha dinheiro disponível para ajudar em casa, mesmo trabalhando e recebendo um bom salário. Seus pais viviam dizendo que o filho precisava se casar ao invés de gastar com prostitutas  como fazia.  Ele corre o risco de pegar uma doença  diziam eles  mas João não lhes dava ouvidos, até porque era um sujeito compulsivo no tocante a sexo, e qualquer mulher com quem se casasse, jamais transaria todos os dias como queria.   Mulher quer casar e ter filhos, mas como, se na hora de transar sempre tem uma desculpa?  Disse franzindo o cenho. A metade da vida João pagou pelo que as mulheres lhe davam e a outra ele se resolveu sozinho.  Infelizmente, com a chegada da crise, a firma o mandou embora. A ele e a outros. Rapidinho o dinheiro acabou e a abstinência judiou de João. Só Andreia, uma das prostitutas com quem mais ficava, permitia que,  de vez em quando, ele desse uma rapidinha, mas só para não desagradar o freguês de tantos anos. Naquela manhã, depois de ter trabalhado a noite inteira, Andreia, cansada, finalmente aceitou que João a acompanhasse até a casa. No caminho, João, depois de algumas palavras bonitas e falar do amor que tinha por ela, terminou por pedi-la em namoro, ao que ela ficou de pensar.  É claro que, se Andreia era de fato a sua prostituta preferida, por que não pedi-la em namoro e receber de graça o que lhe custava os olhos da cara? E foi com esse pensamento que João se tornou seu namorado, depois noivo e por fim, seu marido.  Agora ele tinha a puta dos seus sonhos ali, na sua cama. Mulher que está sempre pronta aos seus desejos por mais estranhos que fossem e quanto a dor de cabeça, jamais falara a respeito. Com ela, João tem, agora, dois filhos lindos, um bom apartamento e o trabalho dela que rende a eles ótimos fins de semana e uma poupança bem melhor do que tinha antes. Pena que de manhã, quando ela chega da batalha, esteja tão cansada que antes do marido gozar ela já está dormindo. Os pais de João, depois de muitos conselhos, enfim, tiveram a felicidade de ver o filho casado, com filhos lindos e uma esposa amorosa e trabalhadeira.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

TAL MÃE, TAL FILHA.

     

      Eu tinha cinco anos quando fomos morar numa casinha de fundo num subúrbio carioca.  Na frente moravam, Gilda, seus pais e a filha Adalgisa, da minha idade. Gilda tinha uma amiga com quem ela e a filha dividiam o quarto, dando a menina motivos de ver e ouvir o que rolava entre elas. Muitas vezes Adalgisa me falou da intimidade das duas. Bastava eu fingir que estava dormindo para começarem a pouca vergonha – dizia franzindo o cenho. Segundo Adalgisa, as duas se enfiavam debaixo dos cobertores e faziam coisas que faziam mamãe dar gritinhos, arranhar a cama com as unhas e algumas vezes a ouvi chorando. Baixinho, mas ouvi – contou a menina.  
Foi difícil fazê-la entender que não era pecado abraçar, fazer carinho e beijar as pessoas que a gente gosta e se o fazem às escondidas era para não pensarem que estão fazendo coisa feia – eu disse a quem adorava me contar essas coisas, porque fazia minha calça estufar na parte da frente – ela dizia sorrindo.
 Éramos crianças, mas tinha coisa que já bulia comigo.
Aos sete anos meus pais, finalmente, compraram um terreno onde fizeram um barraco e depois outros para alugar – graças ao patrão do meu pai que levava as sobras da obra para a gente.   Depois que mudamos não vi mais Adalgisa.
Na semana passada, num bar, eu tomava um café enquanto uma jovem olhava para mim e como insistisse, ergui minha  xícara em cumprimento, ao que ela sorriu – talvez me achasse familiar. Antes da segunda golada a mulher me perguntou de onde a gente se conhecia. – Dessa vez foi eu quem sorriu, já que era o homem que usava desse artifício para puxar assunto e não o contrário.
– Muito prazer, Adalgisa.
Essa mulher poderia ter qualquer nome, meu Deus. Menos esse...
Um filme rodou na minha cabeça, e na dela, depois que eu disse o meu.  Adalgisa morava na mesma rua do famoso clube de Swing, da região. – Só não me pergunte se já fui lá, porque não fui. Morro de vontade, mas tenho medo – falou escondendo o rosto com as mãos.   Vamos marcar um dia, a gente vai junto  – disse-lhe, encostando a cara junto aos cabelos dela.
Naquele dia a gente tomou oito chopes e duas caipirinhas o que nos deu coragem para conhecer o tal clube.  Numa sala acarpetada em  vermelho uma morena cavalgava um homem duas vezes maior do que ela. A luz não nos favorecia e os detalhes passavam despercebidos, menos os corpos nus e o que eles faziam.  Um gordinho transava com quem tinha idade para ser sua mãe. Outros casais, que faziam coisas do arco da velha, nos prostraram numa poltrona para olhá-los. A morena, que vimos com o grandão na entrada, chegou perto da gente, deu um sorriso para Adalgisa enquanto abria o zíper da minha calça e colocava a boca.  Seu parceiro a tirou do meio das minhas pernas para fazer em mim o que ela fazia e como me recusei o cara arreganhou as pernas de Adalgisa para lambê-la, mas ela o afastou e saiu me puxando para fora. 
– Desculpe, mas não é a minha praia. Eu não fazia ideia do que pudesse acontecer lá dentro, mas de uma coisa eu gostei e muito – disse Adalgisa sorrindo – foi de ver aquela coisinha miúda que antigamente estufava a calça de um certo moleque. Jesus do céu! Eu jamais imaginaria que, um dia, aquilo tivesse aquele tamanho. Parabéns – disse abraçando e beijando o meu rosto.  
Quando perguntei o porquê de ter tirado a cara do cara de entre suas pernas ela me disse que, se fosse a moça que tentasse...  Adalgisa não deve ter prestado atenção ou teria visto minha calça estofando quando enfiei a mão no bolso.