Alessandra viajou para ver a mãe
galgar seu último degrau de vida. A moça, sem poder se afastar
do serviço, deu seu jeito e zarpou para São Paulo. Levava com ela
perguntas com as quais viveu a vida inteira se questionando. Infelizmente a velha foi cremada para evitar contágio da
doença. Fora de si e blasfemando contra o criador, Alessandra voltou à casa
antes do previsto. Atordoada mal percebia que fios de cabelo,
não os seus, impediam o escoamento da água no ralo do banheiro. Eram longos fios loiros longe de serem os seus. Correu ao quarto onde encontrou
outros na cabeceira da cama. Com a mesma facilidade com que trocava um vestido a mulher trocou a tristeza pelo ódio do seu marido. Ficou brava, zangada, desesperada, com a traição.
Foi ao quarto da empregada que tinha sido dispensada em função da crise e
ali ficou até que ele voltasse. Chegou com uma garrafa de champanhe
e um largo sorriso como quem chega à uma festa.
Ela
desesperada com a perda da mãe e o marido festejando sabe-se lá o quê!
Se ela não tivesse esquecido a bolsa na sala o cara não teria dado sua presença. Ao vê-la o cara empalideceu, parecia que ia ter um troço. Ela, por sua vez, não estava nem aí para o estado do sujeito.
Meteu o dedo na cara dele e foi gritando; - qual a piranha que
você trouxe pra minha casa e que usou e abusou das minhas coisas e ainda
por cima deixou na minha cama seus cabelos nojentos? Quem foi que se lavou no meu banheiro e entupiu o ralo de pentelho louro, hein, seu canalha, fala! -
Ninguém, meu amor, respondeu na mesma hora que soava a campainha.
Alessandra empurrou o marido para o lado e correu para ver quem era.
Era o porteiro que não conseguindo falar com o morador, subiu
para saber se a loira que procurava por ele podia subir ou não. -
Mas é claro que pode!, gritou Alessandra empertigada. Só não diga que estou aqui ou ela não sobe - concluiu Alessandra. O marido queria morrer ao ver as duas cara a cara, e quase conseguiu de tanto que chorava ao passo
que Alessandra parecia pronta para receber a tal piranha que, por acaso, não deu
as caras. Na certeza de que o porteiro havia contornado a situação, o marido mudando de estratégia partiu para a ignorância. Chamou a mulher de fria, de má
companheira e que não prestava para nada além do emprego que tinha. Nem
para visitar sua mãe doente você achava tempo - disse olhando dentro dos olhos
daquela que fora de si respondeu com uma certeira bofetada.
O covarde retrucou com outra e mais outra e outras tantas até que a mulher
desfaleceu.
Anos mais tarde Alessandra, que deixou o
apartamento e foi morar na casa que sua mãe deixou, leu numa coluna que um rapaz
com a mesma idade e nome do seu ex-marido era candidatando a prefeitura
da cidade em que antes moraram. O tipo não era estranho, mas o nome e a idade davam
a ela a certeza de que o candidato em questão era mesmo o seu antigo marido. As dores que sofreu com os
socos, os pontapés e a traição agora doíam na sua alma. Refeita do golpe que recebeu com a notícia trocou
de roupa, muniu-se do exame de corpo de delito de quando foi agredida e
partiu para o jornal onde fez seu desabafo. Assim que a sua história e a imagem do seu rosto deformado foram publicadas foi que Alessandra teve a
certeza que a ferida que tinha no corpo e na alma finalmente iam cicatrizar.
A propósito; o candidato recebeu os votos necessários para ficar em último lugar.
A propósito; o candidato recebeu os votos necessários para ficar em último lugar.