comércio com fregueses renitentes e a indústria para dar suporte por isso a coisa flui, menos no hemisfério em que vivemos. Aqui a gente sua no inverno e no outono perde a plantação. Tem queimada no norte e no nordeste e no sul inundação. Aqui se morre sem ficar doente por ingerir o que garantem melhorar sua saúde. Nos hospitais públicos têm remédio e quanto têm não há quem saiba ministrá-lo. Leito para enfermo são macas no corredor e médico assinam mais atestado de óbito que alta para quem entrou doente. Diagnóstico só pra nomear o mal que vai matá-lo e não para o enfermo ficar pedindo que acelerem sua morte porque aí quem torce o rabo não é a porca, mas tu que oras pela melhora. As coisas são assim nas terras onde se morre a todo instante; morre-se por falta disso ou por excesso daquilo. Morre-se por falta de água em São Paulo e por enchente em Porto Alegre. Morre-se pela doença contraída, pela desigualdade social, por tristeza ou por vergonha. Há dias eu tentei mover o mundo, mas sem a hipotética alavanca e o ponto fixo no espaço, nada pude, nada fiz. Pedir ajuda só através de reza ou oração, mas pensa comigo, quando o cara morre morre rezando, inclusive os parentes rezam também e mesmo assim a alma vaza entre os rosários e crucifixos desta para melhor. Então não mais o que fazer. Desesperado arrisquei um acordo com o diabo, mas infelizmente sua agenda estava cheia com pedido dos políticos. Como nada mais tinha que eu pudesse fazer, arrebanhei meus amigos e fomos rezar na intenção de uma flor que há muitos e muitos anos teimou desabrochar no cair da noite por achar que agindo dessa maneira não perderia as suas pétalas o viço da bondade e o colorido da generosidade. É bom que se frise que ela fez isso somente depois de de ter mostrado para quê e por quê veio, como se fosse preciso dizer ao sol que o dia sem ele é descolorido. Talvez esse detalhe tivesse criado naquela flor a essência com a qual perfumou o jardim onde viveu seu quase centenário. Nossos amigos que ora lamentam a imagem do caule que antes vergava e não quebrava, umedecem seus olhos ao vê-la dobrar de dentro para fora num jarro de vidro esquecido num canto de mesa, ao passo que pétalas, várias, diversas, milhares, lutam para não secar, não perder a cor o que as impossibilitaria de exalar o perfume que as manterão vivas, bem vivas em nossas lembranças.
O dia, hoje, amanheceu sem sol. As flores caladas, sem um comentário, nem mesmo sobre a própria beleza como se de luto todas se vestissem. No alto dos galhos, destoando da verdade, a brisa rege o balé das folhas e de vez em quando me traz o perfume de um botão desabrochando. Aroma esse que me fez lembrar de uma flor que continua linda no vaso das minhas memórias, por mais que o tempo venha a passar...