quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

SEM PENSAR.

  Quando eu saio no meu carro tenho 
por hábito manter os olhos e os sentidos arregalados no  trânsito a minha frente, e isso tem me dado a tranquilidade e a segurança para dirigir que dizem que eu tenho, mas quando estou sozinho em casa, dificilmente me pego olhando as estrelas além das minhas cortinas, já que eu sempre tenho um livro aberto sobre os meus joelhos me prendendo a atenção. Os jornais eu os devoro ao passo que a internet me dá o resto das informações. Desta maneira não me resta tempo para pensar e refletir a vida, a minha e a dos que me interessam. O único momento que eu tinha e já não os possuo para  usar os 10% da minha cabeça era quando eu ia ao banheiro, não para fazer a barba, escovar os dentes ou banhar meu corpo, mas para me entregar ao questionamento dos problemas e ponderar as dúvidas da minha vida.  Naquele lugar eu aprendi  a gostar de quem gosta de mim e a perdoar aquelas que não se esforçam para me compreender. Também foi lá que em alguns momentos eu senti a minha alma se desgarrar de mim e lá, também, já me peguei chorando as fraquezas que eu faço tudo para esconder. Hoje, no entanto, eu levo comigo um livro como companhia. Naquela paz foi fácil começar e terminar a leitura das 720 páginas de OS MAIAS, de Eça de Queirós. Foi tranquilo viajar nas letras de Dostoiévski a bordo das 328 páginas de MEMÓRIAS DA CASA MORTA, das 168 de O ETERNO MARIDO e das 184 de OS POSSESSOS, do mesmo autor. 
Hoje eu termino de ler as trezentas e tantas páginas de suspense, jornalismo, política e amor, do livro; O PLANO PERFEITO, escritas por Sidney Sheldon.   
Talvez a leitura seja a minha cachaça, mas escrever também me deixa embriagado, ou não, pois dirigir requer a mesma sobriedade dos abstêmios e essa preocupação eu tenho para com os livros, quer para lê-los ou escrevê-los, e  ponto e vírgula e coisa e tal.

domingo, 23 de dezembro de 2012

PESADELO DE NATAL.

    A meia noite em ponto o mercado abriu as portas à última liquidação do ano. O povo que ansioso aguardava do lado de fora invadiu a loja num tremendo alvoroço enquanto aqueles que  chegaram antes do tumulto foi dado a preferência da escolha, como a pobre cristã que trocou a igreja pela compra da TV digital de 40 polegadas com preço de fábrica e que seria o seu presente de natal, mas, infelizmente, ao se dirigir para o caixa recebeu um soco no olho e perdeu para o seu agressor a compra que fazia.  Aquele foi um dos gestos violentos entre outros dos quais tomei conhecimento.
     A televisão local anunciara a liquidação pouco tempo depois de terminada a novela, mas foi tempo suficiente para que uma multidão se formasse na entrada do estabelecimento.
      Mulheres, idosos e até crianças corriam em busca do sonho. Empurrões, puxão de cabelo, pisada no pé e beliscões não faltaram entre os que perderam a noite em busca de tão pouco.  A segurança estava apostos, mas não em número suficiente para evitar tamanha confusão. 
      No decorrer da semana eu, que reconheço ser um grande idiota, fui comprando a qualquer custo o necessário para a grande festa, portanto, não me permiti fazer parte daquele grupo de  pessoas que buscavam preço com o risco que correram e os hematomas  que tiveram.

FELIZ  NATAL  A  VOCÊ  E  AOS  SEUS,  DE  QUEM  EU  GOSTO  TANTO.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

QUANTO MAIS FROUXO MAIS DÓI.


           Há muito resolvi doar meus órgãos tão logo passasse dessa pra melhor,  mesmo não acreditando que lugar algum seja melhor  depois da morte, digo, depois da vida.  De qualquer forma eu colocarei à disposição dos médicos tudo aquilo que sustentou a vida forte do meu corpo. Desejaria ver  meu fígado pesquisado por não  ter dobrado  os meus joelhos quando bebi  a produção de destilados desta e de outras terras.  Quero que estudem a minha pele por não frisar de rugas a minha testa por mais que eu sacrificasse as noites da minha juventude. 
E por falar em joelhos, deixarei que descubram os reais motivos que me permitiram sair andando do Hospital para pegar o carro no  estacionamento e dirigi-lo por duas horas no complicado trânsito do meu Rio assim que eu deixei a sala de cirurgia aonde operaram uma das minhas pernas, mesmo eu sabendo da simplicidade daquela intervenção. Quer dizer, simples para alguns e muito complicada para outros, principalmente para os neuróticos, para os esquizofrênicos e  outros perturbados. Graças a Deus eu não conheço um só amigo que se enquadre nesta descrição.  Deixarei também, entre  outros, o meu coração para que dele seja extraída a imensa lista de amigos que sem medidas eu amei. A eles deixarei, inclusive, o melhor dos obrigados por terem feito de graça e riso a minha vida e de amor os melhores dos meus momentos. Mas se tudo isso não passar de um sonho, até porque eu tenho sonhado muito ultimamente, eu vou grafitar na imagem dos olhos de cada um a beleza dos meus sentimentos e o melhor agradecimento pela amizade e parceria que cada um, maluco, pirado, neurótico ou são, se é que tem alguém  de mente sã entre as pessoas que amo, como prova da minha eternidade.
(Foto da Internet)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

POR QUÉ NO TE CALLAS?


       João jurou que não falaria mais dos seus projetos,  seus financiamentos e investimentos, assim como não deixaria o mundo ficar sabendo das suas possíveis viagens de negócio ou lazer, dos males que afligissem seu corpo e do pranto que por ventura chorasse a sua alma. Entretanto Mariah, sua mulher, tem sido vista cabisbaixo, meio macambúzia sentada sob a goiabeira que dá frente para a janela de sua sala de onde se pode ver quem chega, quem sai ou quem por ali passa dando seguimento a vida. Deu pena,  confesso. João, que a todos havia prometido guardar para si as amarguras que tivesse, as tristezas que o acometessem e as dores que sentisse para tão somente dividir com os amigos e parente as alegrias, desde que contagiassem os emburrados  pessimistas. Mesmo impressionando com tais afirmativas João deu com a língua nos dentes e acabou falando mais do que achava que podia.  Falou não, berrou. Gritou as razões que o jogavam  para baixo, como falou das suas angústias e até da sua covardia fez questão que soubessem. Falou da intervenção cirúrgica por que passou e do medo horrível que tinha de morrer. Talvez falasse por receio da coisa dar errada ou por achar que as suas lamúrias fariam dele um cara mais respeitado, mais querido ou quem sabe, até, poderiam se oferecer para carregá-lo no colo como se fora uma criança desprotegida. Pobre João que não é de barro, mas de sonhos. João de fala fácil e vida complicada, que pretende mover o mundo com o seu verbo, com a graça do seu sorriso e com a força que não traz nos braços e talvez nem saiba se tem.  Em contrapartida eu também não calo a boca. Falo o que acho e o que penso, mesmo sabendo, como eu sei, que  isso não é sinal de bravura ou  coragem,  até porque, falar demais é feio. É tão feio que ninguém gosta de conversar com quem não sabe calar a boca, e o  pior, no entanto, é que João fala, mesmo calado, já que usa as letras do computador para se expressar quando o momento requer silêncio. Direito esse que eu também me dou e antes que vocês gritem para mim e para ele um; cala boca Galvão! Eu vou me envolvendo na mordaça para no final da frase colocar o que seria o ponto final do meu momento de Faustão.

domingo, 9 de dezembro de 2012

HIPOCRISIA DE MATAR.



Entre um dos muitos copos de  cerveja e um cigarro que  
fiz questão de não fumar, eu me dei conta de ter sonhado com um Ministério da Saúde que não saía dos mercados aonde conferia a limpeza e as datas de vencimento dos alimentos enquanto o Inmetro nem piscava olhando o peso e a medida dos produtos ali  vendidos. Eu que sou meio idiota e ainda por cima caio na besteira de sonhar acabo tendo um pesadelo e nele vejo que os Institutos não se preocupam com os  corantes, com o excesso de sal e de açúcar dos alimentos, com o glúten que tanto mal faz à saúde, assim como os agrotóxicos, transgênicos, irradiações, fermentação de crescimento e aditivos químicos dos industrializados que comprometem a saúde do ser humano, a do meio ambiente e com certeza a alimentação infanti.  Eu, ainda em sonho,  fico besta com tanto faz de conta neste e em outros países e tudo em troca de impostos recebido que geram divisas e enriquecem a indústria, seus diretores e presidentes. É o caso do fumo; por que manter viva a indústria que amputa ou mata os próprios herdeiros viciados? Talvez ninguém ou pouca gente saiba que os impostos da cerveja, da cachaça, do uísque e outros destilados não são suficientes para tratar e devolver à sociedade aqueles que se entregam à bebida. Neste jogo não deve ter vencedor, talvez    seja      como a guerra, ganha só quem as produz. 
    - Felizmente isso não passou de um sonho ou da ressaca de quem abusou do vício, como eu...  (Foto da Internet)  

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

ATO DE CONTRIÇÃO.

       Eu não estava ali para me divertir, para descansar ou assassinar meu tempo. Eu estava ali para fugir das lembranças que tenho dela, da certeza da minha incompetência de não ter sabido  prendê-la ao meu lado, talvez até por um pouco de vaidade ou muita ignorância eu a tenha perdido.  No fundo, no fundo eu passei para mim mesmo um atestado de burro e o pior disso tudo é que ela não deve estar nem aí para os meus grilos e minhas paranoias.
   Faz tempo  eu venho lutando contra essas lembranças que não chegam a ser ruins até pelo contrário, são maravilhosas, mas vêm tirando de mim o desejo de sonhar, a vontade de sair com os amigos e até de trocar ideias com as garotas da minha turma com as quais eu me regulo  para evitar possíveis pecados  ou aceitar convites que acendam os meus desejos eu tenho evitado.  Nesta praça, no entanto, eu vim tentar fugir de mim, mas a minha sorte que vive aprontando comigo escolheu-me esta praça entre outras só para me ver cair na minha própria armadilha. E olha que eu pesquisei no Google, perguntei a quem soubesse e quando preparei minha rota de fuga, pá! Caio na esparrela que eu mesmo armei. O única vantagem que eu tive nisso tudo foi o sol me lamber a face em despedida. Também lambeu, mas de forma harmoniosa, a moça que chorosa se perdia entre as rosas de cujo estado de penúria pinta de vergonha a minha cara. Foi assim, como essa moça, que eu pensei estar a minha alma. Foi assim, triste a ponto de querer morrer que eu acreditei me encontrar e no entanto alguém, talvez menos forte ou mais apaixonada se entregou a própria sorte e mesmo não sendo forte, teve forças para chegar aonde eu vim. Os últimos raios azul-alaranjado escorrem por sobre a mata, jardins e coqueiral. Escoa por sobre as águas como a sombra segue seu dono para ir com ele, o sol, seu rei, dormir para acordar mais cedo. 
         Na penumbra eu estendi nos ombros dela o frágil braço de quem sofre o mesmo mal e antes que de mim eu discorresse o sofrimento a minha dor chorou primeiro e foi nos braços dela, junto ao peito dela que eu beijei os lábios da mulher que eu pensei, mas não perdi. 


sábado, 1 de dezembro de 2012

POR NÃO TER AONDE IR.

        O meu amigo do Rio vai muito bem graças a Deus e se vocês me perguntarem pela família dele eu direi que certamente deve estar melhor do que antes e tudo graças a sua maravilhosa, mesmo que conturbada, recuperação.  Quanto a mim, ah, eu estou ótimo, nunca estive tão bem, até resolvi  trocar um pouco da minha alegria por beijos e abraços e pelo resumo da ópera  estou dando de brinde o melhor dos meus sorrisos.  Tá certo que a pessoa de quem eu dou satisfação de sua vida continua desempregada, mas Deus tem provido com sopa aqueles que não têm dentes.  Melhores dias, como já teve, hão de vir e ter o que  comer e o que vestir não haverá de lhe faltar.
    Por aqui a chuva finalmente resolveu dar um tempo, parou de encharcar os caras que levantam cedo para o batente e já deixou de fragilizar a saúde dos moleques que mesmo contra vontade vão resmungando para a escola meio que sonolentos, com caras de zumbi.  As águas que escapam ao leito do rio deixaram de encher de barro as ruas, as praças e a cidade, como também já não ameaçam as casas humildes que por falta de condições financeiras de seus moradores foram erguidas na base do sopapo às margens dos barrancos e dos rios.  Esse povo, aliás, tem vivido de teimoso se para ganhar algum dinheiro faz das tripas coração e quando tem quem o ajude a construir sua casinha, mesmo que de estuque, logo aparecem os fiscais da prefeitura para embargar-lhe o sonho, mas se for em área perigosa que o barraco é erguido ninguém dará as caras contestando o risco.  É como se a omissão fosse uma forma de desejar que aquilo tudo desabe na cabeça do pobre diabo e com isso a imprensa possa divulgar a cidade enquanto os políticos da região metem a mão na grana que os governos federal e estadual possam mandar como ajuda.
    Quanto aos familiares que chorarem a perda que tiverem, esses vão se danar à própria sorte.  Ficarão como estão os desabrigados de Nova Friburgo, morando de favor na casa dos outros enquanto a verba que resolveria os seus problemas e os do município sumirá no ralo que hoje, por sinal, encontram se entupidos e malcheirosos
     O resto vai bem e se melhorar, melhora. Como diz a capixaba.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A LUZ ME DÓI NOS OLHOS.

       Eu não sei se vocês se lembram de quando falei ou choraminguei sobre o problema que um amigo muito querido tinha e que vinha acabando com a sua vida, com a de sua família, com a minha e com a dos que vivem  resguardados na proteção da minha casa. Foi aqui, neste espaço que eu abri o meu coração. Neste outro também falei alguma coisa, mas foi  nesse que eu vi sarar  a dor que de leve, ainda sinto. Somente lendo as páginas grifadas vocês terão ideia da dimensão dos fatos.  Pois bem, este jovem com quem dividi cada carinho que dei aos meus filhos e cuja idade é igual a dele esteve internado durante seis longos e sofridos meses em uma clínica de recuperação de dependentes químicos no interior de São Paulo de onde voltou a casa depois da alta recebida. Lutou muito contra o desejo que sentia pela droga, mas perdendo algumas batalhas nessa guerra, sucumbiu, mesmo que contra a sua e a vontade de todos, aos caprichos dela. Nova luta, novos desafios. Muitas lágrimas e novos empregos se perderam. Por último e já fragilizado pela abstinência, sentiu-se mal a ponto de querer morrer. Todos estávamos com ele e dos que juraram amizade eterna, só alguns poucos como sua mulher, filho, mãe, pai e dois ou três amigos, acreditaram nele e não o deixaram. Uma, entre tão poucas mãos que a ele eram  oferecidas, se destacou para envolve-lo num abraço tão forte e verdadeiro que o meu amigo, antes senhor de si e de todas as situações, prostrou-se de joelhos aos pés do seu salvador. Era a mão de Deus que sem dizer uma palavra o abraçou para com ele, como estão ainda, caminhar pela estrada aonde só os puros, os "limpos" de quaisquer vícios, caminham. Atrás dos dois, nós. Nós todos em procissão torcendo e orando enquanto caminhamos. Antes, só pensávamos nas armadilhas da abstinência, mas agora, com passos mais relaxados, seguimos os que vão na frente com os quais falamos sobre tudo e qualquer coisa, até sobre drogas, mas sem tirar do horizonte os olhos secos das lágrimas, porém iluminados pela esperança.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

BURACOS NO CÉU.

    Dia chuvoso o suficiente para provocar pequenas e médias turbulência ao voo que nos levou à Bahia de Caetano, Gilberto Gil e Jorge Amado. Um voo com turbulência bastante para  os comissários me negarem a água que eu pedi. Quanto ao lanche habitual, ah, esquece.  Isso à ninguém foi servido, mas em compensação na volta eu degustei as maravilhas da aviação do meu país, mesmo o avião sacudindo a bebida em minha roupa e a minha filha flutuando no ar como ela mesma disse com seu jeito de criança. Tirado o entrevero entre o solo e o infinito, sobrava em muito, a vontade de chegar e se possível o mais depressa à terra prometida.  Prometida por mim aos que acreditavam no sol a pino, na cor morena das baianas exalando beleza e no peixe frito a beira mar, sem que nos esquecêssemos da dupla que nos brinda a cada vez que algo destilado lhes é servido.         Quanto a chuva, esta nos acompanhou através dos aeroportos,  rodovias, cidades, bares e principalmente pelas praias aonde o acarajé quis fugir do prato para se esconder do frio. Os camarões fechavam-se em arco  como se pudessem  evitar os primeiros goles de cachaça por quem deles não tirava os olhos. Os frios, no entanto, foram dignos de elogios como os queijos de várias procedências, salames tipo italiano e afins. Cerveja gelada para os entretantos  e vodca e cachaça com limão e gelo para esquecer do tempo. A criança não tirava o olho das poças d'água enquanto a mãe, a moça dos olhos de todas as cores do verde, deitava e rolava na tapioca de carne seca, desejo trazido dos tempos de menina.
    Eu já não sei se gostei mais do sacolejo do avião ou da nossa liberdade em relação ao trabalho e a outros compromissos, e não diria, jamais, que os homens daquela terra não ficaram desconfiados com a minha presença. Talvez por eu ter dito, brincando, é claro, que baiano não tem pressa. Não tem hora e não faz outra coisa senão descansar seu corpo numa rede além da hospitalidade e da boa educação com as quais tão bem recebem
    Acredito que foi um pouco de inveja da minha parte, confesso, mesmo que disso eu não me arrependa de ter dito.
              -Al e esposa, a vocês, um beijo e obrigado pelo presente. Não vou porque não posso, mas se pudesse não esqueceria da companhia sempre graciosa, do cuidado com a gente e do sorriso permanente como que desenhado nos lábios de vocês.

domingo, 18 de novembro de 2012

PÉ NO CHÃO, CABEÇA NAS ESTRE-LAS.


        Eu não tenho muita certeza, mas talvez viaje agora, hoje ainda, e se não der, amanhã sem falta ou depois para não perder as passagens.  Não deverá passar desta semana, mesmo que todos   tenham ido,   já que vejo as malas da turma prontas no corredor a minha frente.  Talvez  fique por onde eu vá ou quem sabe, nem volte mais, pelo menos durante os cinco primeiros anos da minha partida.  Eu acho que  me cansei da forma como tudo foi feito  até agora.   O resultado tem sido aplaudido pelos meus pares, mas não é o que nasci para fazer. Talvez, quem sabe, a mudança de ar, a renovação parcial dos amigos, uma nova residência, a escola pros filhos e a perspectiva colorindo com novas cores o horizonte da minha mulher,  sejam a pulsão da mola para novas conquistas, novos embates e novas vitórias.  Preciso, eu sei,  terminar cada matéria  com a mesma alegria dos atletas olímpicos rompendo a fita de chegada.  Eu preciso cravar fundo a bandeira do meu País no ponto mais alto das minhas exigências, da minha fé e da maneira como eu aperfeiçoei o que  a faculdade me ensinou.  Eu quero escrever todas as cartas que estão em branco, mesmo que somente algumas eu poste nos correios de forma que um terço possa chegar ao destinatário e que sejam lidas, uma, pelo menos, entre poucas, por aquele que não entende o que eu escrevo.  Eu quero, porque preciso,  pichar um pedaço de cada muro. Quero dizer com desenhos o que eu penso desse mundo escuro e por que eu me formei  nesse monastério. Eu, talvez não tenha como realizar todas as minhas vontades, porque, querer é possível para quem sonha, mas o poder é só para quem domina os pesadelos. Dizem que o sol nasce para todos e que a sombra é só para quem tem aonde se esconder, mas no entanto esquecem que é durante a noite que as estrelas saem para passear, para festejar com os namorados e para se mostrar a todos os astros que como eu não desistem, mesmo tendo parado para engendrar novas ideias.        

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

POR ELA

          Eu insistia, puxava assunto, desejava-lhe sorte, dava bom-dia e ela, introspectiva, fingia não perceber. Talvez fosse bem casada e a sua vida um mar de rosas virgens, amarelas.  Enquanto a minha que tinha tudo para me deixar feliz, enfeitiçou-se  com a imagem em três dê, da criatura.  Mulher de linhas certas, corpo desenhado a lápis, peitos fugindo a realidade dos padrões e um par de pernas de   fazer pecar os monges. Ela era o feitiço do pajé. Era o fruto maduro fora da estação e linda como flor alguma desabrochou.  Agora, no entanto, eu preciso de um momento, nem respirar eu quero ou posso e como  o cão à espreita da caça não pisca, eu nem pensar, para não perder a concentração, me atrevo. Só os meus olhos, estáticos, hão de observá-la caminhando em minha direção para perto, o mais próximo de mim, passar sem notar que eu estou ali. Escapar ao meu olhar, fugir de mim e se duvidar, dos meus pensamentos,  do meu olfato, das minhas tentações eu não creio que seja o seu desejo; ela simplesmente sabe que eu não existo.
     Um ano eu vivi a sua espera. Muitos meses eu ardi em febre por causa dela e enquanto a minha vida se esvaía na sua indiferença  ela desfilava as linhas tortuosas do seu gingado sem reparar  nos aplausos dos meus olhos.
- Quem sabe eu não sou melhor do que pareço(?) e mesmo assim mendigo a  migalha do seu olhar, a sobra de um sorriso distorcido que me faria dar saltos de alegria e  em troca eu lhe sorriria mesmo que a minha presença não fosse por ela percebida e como da corte sorriem os bobos, eu teria orgasmos múltiplos de felicidade; por causa dela.                                                                                                                                            (Foto da Internet).

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

AO VIVO E COLORIDO.

Tudo me fazia acreditar que as roupas tinham sido rasgadas antes de desnudarem o corpo  de sua dona. Esse ato impensado talvez tenha sido praticado por quem não pudesse perder um só minuto que fosse,  mas tinha (quem sabe?),  desejos exacerbados, talvez planejados e compartilhados entre os dois.  Desejos que confundem a gente, que roubam a razão, que machucam, cegam e as vezes ferem de sangrar até morrer.  Talvez  as roupas fossem tiradas por ela ou por uma força maior para jogá-las,  cada peça, num canto diferente.  Umas por sobre a  poltrona, outras na cama enquanto as mínimas se espalhavam no tapete pelo chão. Um pé de sapato na entrada da sala e o outro embaixo do sofá, no quarto.  Este poderia ser um sinal de que o tempo era pouco para grandes feitos.  Esparramada na cama com os braços em forma de cruz e as pernas levemente flexionadas, abertas como um pasto verde depois da chuva,  jazia de costas, inteiramente nua,  uma belíssima mulher.  Cheiro de gente, Martini com cereja, vodka, limão, sussurros e gritos reprimidos,  audácia, gozo e medo.  
Lá fora a sirene da polícia, do Corpo de Bombeiro,  ambulância,  pessoas gritando, acenando,  e o pavor arrepiando a medula. Porta de saída aberta, traçada rota de fuga e as pernas, minhas longas e magras pernas prestes a fugir tão logo deixassem de tremer, e no entanto;  Sarah Menezes, Arthur Zanetti, Thiago Pereira, Alison e Emanuel, Esquiva Falcão, Mayra Aguiar e felizmente muitos outros, agradeciam os aplausos exibindo as medalhas de ouro, prata e bronze que traziam de Londres dependuradas no pescoço.  Passada a carreata o  silêncio tomou todo o espaço, meus olhos arregalados não perdiam de vista o belo corpo estendido à minha frente. Aos poucos foi movendo cada perna, mão e braço, ligeiramente abriu os olhos para fechá-los feridos pela claridade.  Espreguiçou erguendo toda a sua formosura e se dispôs sentar na cama. Tirou dos lábios o sorriso de festa e num gesto, sem pressa, pegou o  lençol esquecido no outro lado do leito. Nele embrulhou-se  para presente, mas não sem antes perguntar meu nome, o que eu queria e de onde eu vinha como se todas as perguntas pudessem, com uma única resposta, atender a sua curiosidade.
- Eu? Eu sou o sonho que amadurece  rejuvenescendo  o homem. Sou o futuro e o presente, sem passado. Sou o sol brilhando com a lua, as estrelas molhadas de chuva e a sombra colorida. Sou você na teimosia dos desejos e você,  a mulher que todos gostaríamos de ter ou  pertencer se cada um pudesse acordar no sonho quando se tiver o direito de sonhar.  
Ela ouviu sem perder da face o ar das curiosas. Perguntou a quanto tempo eu vasculhava as suas curvas  e antes  que eu pudesse responder o lençol  escorregou exibindo, outra vez o belo  corpo, enquanto nua acariciava os pequenos, mas duros seios. Tive medo ou vergonha do meu estado de ereção.  Coloquei a mão no bolso, curvei meu corpo e mesmo antes de cair da cama eu despertei daquela doce ilusão.  (Foto da Internet).

domingo, 4 de novembro de 2012

NEM MENINO e NEM MENINA.

           Brigas constantes e depois a separação dos pais talvez influenciassem negativamente na formação da personalidade de um filho, mas nenhuma porta se abre mais rápido à homossexualidade - não sendo genética -  do que pais omissos.  Aqueles que não conversam, orientam e até puxem a orelha quando necessário.  Indispensável, seria dizer, que o aplauso às pequenas vitórias, por menores que sejam não tem preço. A criança que tem traços ou se comporta como menina, necessariamente não será gay no decorrer de sua vida, mas sente que trilha caminhos estranhos. Não existe só uma causa  que determina a homossexualidade. A igreja, por exemplo, ao atribuir o fato ao demônio discrimina a criança e consequentemente aponta o dedo para os pais como se esses afrontassem a sociedade a vergonha. Eu posso afiançar que um bom punhado de gente não sabe ou não tem  observado que a criança pode transferir sua libido para o homem – seu   pai – ou à mulher – sua mãe.  É tênue o fio onde nossas crianças se equilibram. 
    Todo o cuidado no tocante ao modo de tratar com a futura mamãe e a maneira dela reagir com relação a todos os problemas durante a fecundação do óvulo, a gestação do feto e a criação do filho é pouco, mas ajuda sobremaneira.      
      - Nós, aqui em casa, temos alguns livros de Charles Darwin, outro tanto de Lacan, Jung, três de Piaget e 24  de Freud, e em um específico, Sigmund determina a postura de cada um de nós diante da vida. Pai ausente ou pouco afetivo, assim como, mães dominadoras e possessivas, costumam consolidar a figura do gay na sociedade.
    O menino com este perfil, tão logo atinge a adolescência é assombrado pela crise existencial e só a presença de um terapeuta, e daquele que tomou o lugar do  pai, que teria morrido, abandonado a mulher e o filho ou mesmo quando presente, mas não está nem aí para a família, poderão ajudá-lo a se entender e com menos sacrifício exercer no futuro as atividades que a vida impõe. Isso sem contar que  também faz parte de uma sociedade formada por pessoas maravilhosas, mas que tem na sua maioria pessoas preconceituosas,  machistas, hipócritas e homofóbicas.   
      Dos onze aos 18 anos é quando o jovem começa a se questionar.   Enquanto o amigo quer levá-lo para jogar bola  ele quer levar o amigo para a cama. No grupo de sua relação todos falam de meninas, mas ele, sem jeito, cala ou sofre por fingir ser o que não é. O conflito é grande e muitos se perguntam por que as garotas não os atraem, mas os meninos, sim? A tentativa de suicídio voa em torno das possibilidades da criança que não vê apoio nos pais, nos parentes e nos poucos amigos. Conversar com ele alguns até conversam, mas ouvi-lo, entendê-lo, aceitá-lo, poucos ou ninguém. Os pais deveriam fazer exame de consciência para descobrir o quanto colaboraram para esta situação. Deveriam lembrar-se das farpas trocadas, do silêncio na hora da fala e das ofensas na hora de calar. Não é só a genética que determina quem é gay ou deixa de ser.
       Eu, silvioafonso, fui criado da forma mais natural possível; fui levado pelos meus pais a alguns cinemas, vários passeios,  joguei  futebol enquanto meu pai babava do outro lado do alambrado e algumas vezes dei e levei porrada  dos moleques na minha infância. Eu, no entanto, tento mudar, não a linha da vida e muito menos o rumo dos rios, mas já que eu quero e posso, vou ajudar o meu filho com a minha presença sempre que ele olhar para o lado a procura de um amigo.  Quero participar da sua vida  com  o melhor dos meus sorrisos, com as mãos prontas para aplaudi-lo até nos  seus intentos mais bizarros, e os meus braços escancarados para o abraço verdadeiro e mais sincero. Tirarei dos armários todas as portas que possam ter, pois criá-lo dentro de um deles eu jamais  me permitiria e se a arte final não sair de acordo com o projeto, eu o amarei do mesmo jeito como eu sei que me amariam, caso eu não fosse o resultado positivo de um estudo tão audacioso.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

SAUDADE QUE MATA.

       Foi assim quando Elvis morreu. Depois foi a vez do meu pai e a morte se mostrou burra naquilo que faz.  Elvis embalou os meus sonhos no colo de minha mãe. Bastava que ela cantarolasse, Pocketful of Raimbows baixinho junto ao meu rosto para que eu tivesse o mais calmo e bonito dos sonhos. 
      E o meu pai?  Ah, esse não tinha defeito. Meu pai foi o primeiro a dizer que eu não precisava dançar, forçar uma garota a fazer o que não quisesse só para mostrar para os amigos que eu sou homem.   Meu pai foi um garanhão descoberto pela minha mãe, sua primeira e última namorada. Com ela ele teve os filhos que o destino achou que merecia. Viveu com a gente o suficiente para nos ensinar o que era esperança e dignidade. Hoje ele se encontra sozinho numa cova rasa, só para ficar mais perto dos pés da mulher que amou  quando ela fosse visitá-lo. Nesta data eu os sinto namorando. Ela abraçada as flores e ele, certamente, extasiado com o perfume e a presença delas.
      A morte é isso. Um poço de injustiça e crueldade. É matreira, mentirosa, indesejável. Quantos marginais, inimigos da sociedade já foram alvejados de morte pela polícia e estão por aí distribuindo maldade sem que a morte ouvisse pelo menos o estampido dos tiros? Quantos bebês saudáveis têm morte repentina para desespero dos pais e indignação dos médicos? Esses são os perfis da morte. Eu queria que ela nos fosse útil e que não vivesse por aí tirando, tão somente, a vida dos outros. Que ela tivesse a dignidade de, pelo menos,  nos brindar matando as dores do abandono, as dores da criança com fome, do velho sem esperança e principalmente a dor do amor, e para terminar com a cabeça e o nariz erguidos, que ela se matasse enquanto a gente, em festa, morreria de felicidade.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

NOS TORMENTOS E NA ALEGRIA.

      Eu sou daqueles que olham as estrelas, mas  só veem a luz ao invés dos astros. Sou um cara que não vê a chuva  melancólica, mas a fonte do viço, da vida. Eu não vejo a rosa como um 
punhado de
 pétalas protegidas por espinhos, mas uma flor para acalentar a vida e abrandar a dor da morte. Eu não vejo o pranto como rastro de sofrimento, mas uma forma bucólica de escoar a
 tristeza do corpo e a
angústia da solidão. Hoje, porém, eu precisava me manter na cama, deitado e se possível dormir o dia inteiro com a cabeça e os pés cobertos  até que a minha alma retornasse ao próprio
 corpo.  
Eu queria, se possível fosse,  deitar pela janela o meu olhar mais distraído e mesmo que os prédios vizinhos me bloqueassem a vista, fingir que via os barcos de velas coloridas
 riscando de branco o azul do mar.
      Hoje eu não queria ver e muito menos saber de nada que não fosse as ondas se esparramento na areia dorada da restinga. Eu não queria entender otempo, as horas e 
muito menos saber se vai dar praia ou vai chover, porque o 
que eu quero, de verdade, 
é poder chorar até desidratar meu corpo, ficar lerdo, bobo, perder o tino, pois
 assim, eu creio acabaria o sofrimento. 
       Talvez a minha agonia tivesse aumentado por saber que a mulher que divide comigo as tristezas e os momentos de alegria  me olhou daquele jeito.  
 Seus olhos 
eram como duas esmeraldas banhando de verde toda a  minha lanquidez.  
 Perguntas não seriam necessárias já que os seus olhos decodificavam dos meus tudo o que eu sentia.       (Foto da Internet).
     

domingo, 21 de outubro de 2012

DO VIRTUAL PARA A CADEIA LÓGICA

        Existe muita semelhança entre as redes sociais e a roleta russa.  Roleta russa é aquela brincadeira irresponsável que alguns idiotas fazem depois de colocar uma bala no tambor e rodá-lo, aleatoriamente e com o cano junto ao ouvido apertar o gatilho esperando não morrer. 
     Mas, voltando às redes sociais; você fica ali, esquecido da vida  rabiscando alguns poemas  para o blog ou batendo um papo interessante no MSN com as amigas, se não estiver azarando, é claro,  o cara que você acha mais interessante. Fica ali visitando as páginas das amigas, compondo versos e quando menos espera, pow! Lá vem um espírito de porco atrapalhar a sua vida. Esses caras chegam como quem não quer nada, vêm de mansinho como uma doença, no sapatinho, como diria o Palhaço Poeta.  Chegam com aquela conversa mole, até que são adicionados, exatamente na página que eles escolheram, enquanto você, pobre diabo, tem a sua vida conturbada por uma pessoa que nasceu para fazer mal aos outros. Essas criaturas, vampiresas da felicidade alheia, conquistam, prendem, julgam e ferem de morte os sonhos e a esperança de qualquer um. Eu só tenho que lamentar quando isso acontece.      Conheço alguns casos, inclusive já aconteceu comigo. Eu usava o Orkut para conhecer pessoas e esquecer a vida corrida que eu tinha. Foi com aquela ferramenta que eu conheci o amor. O primeiro e verdadeiro amor da minha vida.  Ali eu descarregava as minhas angústias, os meus medos e os sonhos para cuja realização eu tanto batalhei. Tudo ia bem até que a minha página foi clonada.  Eu jamais enviaria textos para um estranho com tanta intimidade, como fizeram no meu nome. Puseram palavras na minha boca que a minha educação, em tempo algum, me permitiria dizer. Sabedor da minha aflição, meu filho que é da Polícia Federal e que nasceu com a missao de dar sentido a minha vida, tomou para si a minha dor e não sossegou até que localizou e prendeu os gênios da Internet que, agora, ensinam informática aos seus "maridos", na cadeia.
- Frustrado  deletei a página aonde conseguira a sorte grande. Foi através do bate-papo do Orkut que eu encontrei uma linda e meiga mulher cujos olhos pintam de verde a esperança e as matas e ainda por cima me dá o privilégio de dividir comigo o teto, a mesma cama e a sua vida.
      Com o passar do tempo eu acredito que as coisas se acertarão. Os sabidos ficarão mais comedidos e os outros, talvez não chorem tanto.                                                                                            (Foto da Internet).

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

ROUBOU, MAS NÃO CARREGOU.

         Uma bofetada estalou na cara de Vera que não resistindo a tamanha agressividade caiu aos pés da antiga amiga sujando a roupa, ferindo a alma. Marcelo era legal.  Terceirizado de uma banca de jornal cujo emprego o permitira conhecer as pessoas do bairro que o respeitavam e o admiravam pelo seu comportamento e empenho no trabalho. Há cerca de três meses admitiu que fosse amigo de uma das freguesas cuja intimidade permitiu-lhe confidências e aos poucos alguns abraços. Mais tarde vieram as conversas mais relaxadas até que os beijos não tardaram, e por fim a cama. Pensavam se casar assim que ele terminasse os dois últimos períodos de jornalismo que cursava.        Carmem era possessiva, mas respeitava os caras com quem ficava e a eles pedia o mesmo sentimento. Marcelo, por sua vez, não deixava de ser simpático e gentil com todos, mas Vera, petulante como era, mal ficou sabendo que sua amiga namorava o jornaleiro fez de tudo para roubar dele a atenção e os carinhos e dela, o namorado.  Depois de muito insistir, combinaram  um encontro para um papo despretensioso num horário vago   entre o trabalho  e a primeira aula que teria.  Achando que mal nenhum havia  no que fariam os dois se encontraram na praça de alimentação do shopping da cidade aonde conversaram entre um chope e outro.  Vera prestava atenção no que Marcelo falava, mas como o barulho era alto e dele não queria perder uma só de suas palavras, praticamente se deitou no seu ombro enquanto segurava a sua mão entre as pernas do rapaz. Por descuido ou por maldade, Vera, suavemente tocou-lhe os lábios com um dos dedos e o beijo logo depois. Como Marcelo demonstrou espanto e tentasse se levantar para ir embora, algumas pessoas ligadas a sua namorada se apressaram em  colocá-la a par dos acontecimentos. Carmem, indignada e cheia de ódio procurou pela falsa amiga e a esbofeteou na frente de todos enquanto gritava a traição por ela sofrida.
Hoje, seis meses do fato ocorrido, Vera recebe o convite de casamento da antiga amiga com o homem a quem ela pretendia se entregar para afrontar a outra.
    Escondida na multidão que tomou o salão da igreja Vera viu que Carmem a procurava entre todos, mas nunca ficou sabendo se era para receber das mãos da noiva o buquê ou se era para vê-la sorrindo o sorriso dos justiçados pela  própria coragem de defender o que é seu, sem, ao menos, se dar conta do estrago que poderia fazer.                                                (Foto da Internet)

domingo, 14 de outubro de 2012

VALE QUANTO PESA.

           

    Quando a sua mulher decide que vai perder 30 quilos em seis meses, você já pode imaginar o inferno que se tornarão as suas vidas. 
- Nas primeiras refeições o pão quentinho de todas as manhãs não terá mais a manteiga e o queijo derretendo em suas bocas. O bacon frito e os ovos mexidos que recuperam as energias empreendidas numa noite inteira de jejum e sexo, sumirão de sua mesa. A linguicinha, os apetitosos salgadinhos e os petiscos que acompanhavam as cervejinhas nos finais de semana, assim como o bife à milanesa e os doces da sobremesa que vocês tanto gostam, não mais farão parte do cardápio, entretanto as folhas e os legumes das saladas os farão lembrar das lagartas magras que comiam a planta, e dos gordos elefantes consumindo brotos. Os sorvetes de sabores mil serão trocados por um picolé de limão que talvez amenizasse os desejos de quem tomava um cascão de três bolas cobertas de chocolate. Água, muita água durante o dia e chá verde meia hora após cada refeição substituindo o refrigerante. Duas colheres de chá de gengibre ralada para dar sabor a água e acelerar o metabolismo enquanto o dia inteiro ela falará sobre o que deve ou não ser feito para o almoço e o jantar.
Comer de duas em duas horas e fazer sessenta minutos de atividade física serão o suficiente para torná-los exaustos e desanimados para o sexo de todos os dias. Em compensação dentro de seis meses ela estará mal humorada, sim, porém fininha como uma linha, enquanto você não passará de um cara estressado e rabugento pelo peso que não perde, mas ela, quem sabe, poderá se apiedar de você e o forçará a comer menos do que comia e se exercitar em dobro, e caso você não concorde com a ideia, um pé na bunda certamente vai lhe dar. Aí você cairá na realidade e para não perdê-la comprará aquela roupa ridícula dos fisioculturistas e se matriculará em uma academia. Fechará a boca às delícias da cozinha, aos chopes, escondido com os amigos, e viverá dependurado na balança como carne de porco, enquanto ela o perseguirá lembrando que as 24h de sofrimento e amargura pelas quais passou para conseguir a perfeição do corpo, conquistada, já é, pra ela, a maior felicidade. Talvez por ter conseguido o seu objetivo é que ela tenha repousado as armas com as quais lutou, mas esquecida, porém, que bastará um pequeno descuido para recuperar todos os quilos que perdeu, enquanto você, riscando nos próprios lábios o sorriso da vingança a envolverá nos braços gordos, porém fortes, aquela que o tirou do sério, o engordou pela ansiedade e até o fez envelhecer de certa forma, mas o terá, como tinha; gentil, companheiro e feliz.                                 (Foto da Internet)