segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

VIDA DE CÃO.

     Eu tenho os amigos que fiz por merecer, mas juro que careço de outros, 
talvez daqueles que não adoeçam, que também não choraminguem quando eu ficar triste ou que morram com o mal que talvez possa me matar. Amigos que não sofram por si ou por mim e muito menos pelos que me cercam, já que preciso de amigos que sejam mais fortes do que os que tenho, que possam aguentar firme diante às suas e as minhas mazelas e que jamais precisem levar flores ao pé da minha sepultura e 
muito menos  que me forcem a esse trabalho. 
    Confesso que tenho dois desses que, de certa forma, preenchem boa parte das minhas necessidades, mas que infelizmente têm vida efêmera como efêmero é o tempo que passaremos juntos. Assim pelo menos tem sido a vida que vivem os cães, mas como evitar que chorem quando ficamos tristes, que não comam e não durmam se adoecemos e que morram tão logo nos sepultem?
    Eu preciso de amigos diferentes, pelo menos acho que preciso, mas se não forem melhores que os meus cães eu, certamente, sem ter a intenção de desprezá-los algum dia, me contentarei em mantê-los na minha casa comigo, mesmo que não tenham as minhas manias, preferências e os vícios enjoados que  tenho.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

QUE PENA, ACABOU.



   A gente perdeu Boechat.
Meu Deus, como era importante o trabalho e a generosidade desse cara que se mostrava durão e pra casa não levava desaforo, nem dos políticos.  
Jornalista, não de formação, mas um autodidata que teria começado fazendo pequenos mandados num jornal do Rio já que residia em Niterói de onde nunca havia saído.  Depois, mais familiarizado com as letras e com a máquina de escrever, que dela nada sabia, veio a se tornar um, senão o maior repórter do seu tempo, não só no jornal onde teve o primeiro contato com as coisas do cotidiano como no rádio pelo qual mais tarde se apaixonou.  
Certa vez esse cara tomou um táxi que enguiçou poucos metros à frente e teria ele ouvido o motorista resmungando dizer que precisava trocá-lo já que o seu não dava mais para levar o sustento pra casa. Infelizmente não tinha como, concluiu o taxista. No mesmo dia Boechat comprou um carro novo para ele. 
Agora, vocês lembram do sujeito que deu a ele a primeira oportunidade no jornal? Pois este, mesmo com seu plano em dia, teve todo o tratamento de saúde pago por esse jornalista que ora nos deixa. – Que plano de saúde, que nada. Eu quero pagar o seu tratamento porque acho que não faço mais do que a minha obrigação, disse Boechat ao amigo, recentemente.
   Esse cara para quem choramos nossas pitangas é o Boechat que gastava todo o seu dinheiro com os amigos, com os necessitados e mendigos. Não fosse a sua fiel escudeira-esposa, e a família quem sabe, não passasse necessidade. Esse cara, talvez poucos soubessem ,que tinha casca de jaca e sabor de morango.
Que ele descanse em paz, mesmo que fiquemos cansados de sofrer com a sua falta.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

QUERER É PODER(?)

     Discorrendo sobre a imagem de copo meio cheio ou meio vazio talvez deixasse transparecer que faço parte de um grupo mal amado de pessimistas.  Só que não. De qualquer maneira os livros de autoajuda continuam dando corda aos sonhos das pessoas que acham que qualquer coisa que sonham se torna realidade, quando na verdade não.  Porém não comentam, mas deviam, sobre  os milhares de jovens que são instigados a  continuar correndo atrás de uma bola do raiar do dia ao cair da noite talvez sem saber que poucos ou quase ninguém desponta para o noticiário. O mesmo acontece com quem busca uma chance nos palcos da música, nos do teatro, do cinema e de outros tantos.  Como vemos, são um bando de garotos e garotas que ao invés de se frustrarem diante do sucesso de poucos se sentem fortalecidos enquanto correm na roda dos hamsters.   Eu sou a favor dos meios de comunicação, das escolas, dos pais e dos amigos,  continuarem incentivando seus jovens, mas quem cuidará do futuro dessa criançada que nada sabe da vida senão o que fazemos para que acreditem? Aí eu pergunto; não estaria na hora de criar uma rota de fuga, um plano bê ou quem sabe prepará-las à realidade do mundo?  Estudar, sempre. Engraxar sapatos, fazer pequenos serviços de entrega ou domésticos ajudam bastante, principalmente para quem não teve a sorte de ser bem nascido.  Nada melhor e mais honrado do que no final de um dia de trabalho poder contar as moedas recebidas em troca do que fez.  É nesse momento que a pessoa, sentindo-se útil, vê o horizonte com cores melhores. Ninguém precisa ir à faculdade ou ser alto funcionário para ser honrado. Basta que cumpra com o seu dever, respeite os mais experientes e entenda os desprovidos de inteligência.   Eu não faço parte do grupo que enxerga o lado negativo dos fatos, mas se o jovem não arregaçar as mangas, deixar a bola para os momentos de lazer e fizer qualquer coisa de útil mais cedo ou mais tarde descobrirá que existe mais sonho do que a possibilidade de dormir, e mais copo meio vazio do que copo meio cheio para matar-lhe a sede.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

A PANÇA É DELE.

          
        Eu nunca esquentei com os quilos a mais que a idade me deu, mesmo que já tivesse dito o contrário, mas depois das gozações de um amigo barrigudo que lá uma vez ou outra empurrava aquela pança redonda até minha casa pra compará-la ao pequeno calo na altura da minha cintura que eu tentava esconder, foi que decidi mudar o rumo da minha vida. Primeiro diminuindo a quantidade de comida nas refeições e depois caminhando uma hora todos os dias pela manhã. Essas providências me davam a certeza de que solucionava o problema. Nesse meio tempo fiz uma cirurgia para implantar um dente e antes, é claro, precisei tomar antibiótico e anti-inflamatório, mas, Jesus do céu! Esses remédios me causaram uma baita dor de estômago, e não foi só isso; acabaram com a minha flora intestinal como bem disse o clínico do meu plano de saúde. Felizmente o mal passou e até me deixou magrinho, digo, “magrão”, uma vez que não tenho a mirrada estatura de um certo pançudo. Hoje eu volto ao consultório para retirar os pontos.  Depois é contar com os remédios que vão tentar convencer  o meu organismo de que o "pino" faz parte do meu esqueleto. Aí é correr pro abraço, quiçá para os beijos. 
      Eu sei que vocês estão curiosos quanto ao meu novo sorriso. Acontece que o referido obelisco está longe de ser visto não só por vocês como por outras pessoas, já que, provavelmente, nem caberia gastar tanto dinheiro por algo que pouca ou nenhuma serventia terá. O gostoso de tudo é que não perdi os 80 quilos, só o excesso. Aplausos para mim e gritos de; chupa baixinho! Praquele sacana.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

MANGIA CHE TE FA BENE.

   
    Na minha infância eu comia pouco. Muito pouco, mesmo. Não só eu, mas minhas irmãs e os pais da gente.  Fome não se passava porque dividir era o que mamãe sabia fazer de melhor e foi assim até que eu me tornei rapaz e mudei o rumo das coisas.  Foi a partir desse momento que eu tirei a barriga da miséria. Não só a minha, mas de todos lá em casa. Pela manhã o café era reforçado e no almoço eu comia até dizer chega, mas só depois de degustar as delícias da sobremesa. Os outros eu não sei, mas eu, comia de manhã, à tarde e à noite e como eu era muito magrinho tomava "Sustagem" para ver se "emboçava" os ossos com carne e músculo.  Mesmo assim continuava macérrimo.  Antes era feio ser magro, hoje é fitness.
Mais de 30 anos depois eis que me aparece uma barriguinha que vem tirando o sossego dos meus amigos.  Eu, para ser sincero, nem reparo na protuberância ou ponho defeito no relevo. Mesmo assim eu não me esqueço que até recentemente eu tinha 1,81m de altura e 79 quilos e isso a vida inteira. De repente, do nada, me aparecem 3 quilos para borrar o belo quadro pintado pela natureza. (risos).  Antes desse desastre a minha silhueta era, posso até dizer, bonita.  Eu comia e bebia de tudo a qualquer hora e lugar.  Hoje, entretanto, já não me reconheço; como um terço daquilo que comia antes e não da mesma comida, mas de outros pratos com pouco sal e pouco ou quase nada de gordura. Não bebo nas refeições, não como pães com manteiga e nos doces e bolos eu não me permito pensar para não sofrer. Ah, e caminho durante uma hora todos os dias. Isso há três meses e posso adiantar aos amigos que graças a Deus já perdi 200 gramas.  Não sei se foi de suor ou das lágrimas do meu sofrimento.  Um amigo da praia de Taparica, muito sem graça, me disse que como eu vinha comendo desordenadamente a vida inteira eu precisarei do mesmo tempo para perder tais quilinhos.  Isso se eu não morrer antes.  - Disse-me o fidazunha.  
   Bem, como eu sou muito determinado e não vou parar com o que decidi fazer, eu resolvi comer um pouquinho à mais do que venho fazendo e até voltar com as guloseimas porque vai que o safado acerte e eu não perca esses malditos quilos que a vida me oferta.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

MARIA.

      

       Foi nos seios de Maria que mamei a esperança da sobrevivência. Foi neles que adormeci tão puro de maldade quanto puro era o doce olhar que por inteiro me cobria. Foi junto ao peito, no calor do colo dela que aprendi a primeira prece. Quantas vezes o azul dos olhos dela derreteu lágrimas sobre o meu pequeno corpo?  Poucas não foram as noites em que o soluçar  me  embalou o sono  enquanto a febre que me ardia apiedada disse adeus e foi embora.
Muitas e muitas vezes vi Maria choramingando a ausência do meu pai e, quanto mais falta ele fazia, mais Maria me espremia junto ao rosto jovem e bonito.
Foi ouvindo o palpitar daquele espezinhado coração que eu aprendi a compreender o tempo e principalmente o tempo do cultivo e do plantio, do colher e do armazenar para não faltar. O tempo de agradecer aos que resistiam, como ela, sem perder a fé no trabalho que premente se fazia.
Maria foi uma doce criatura. Não tinha sonhos, talvez nem tivesse vaidade. Era mulher de honra e de trabalho, de coragem e ousadia. Acordava cedo para madrugar na lida. Lavar, passar, cozinhar e cuidar para os filhos não desgarrar para aos perigos da rua, da marginalidade, dos vícios. Cuidava da ninhada como a galinha choca os ovos. Como a leoa da cria, a gata da ninhada e da roça o lavrador.
Café da manhã, uniforme engomado; escola. Almoço, marmita embrulhada; Trabalho. Café da tarde, jantar; Formatura.
- Assim foi a vida sofrida de Maria que amparada e praticamente carregada por causa da artrose, adentrou ao enorme pavilhão de uma universidade pública aonde orgulhosa viu o filho caçula, depois dos irmãos formados, se tornar doutor.  
- Missão cumprida, Maria.
Quantas e quantas noites tu sofrias ao lado dos filhos sem dormir em véspera de provas? Quantas orações ao te deitares tu rezavas sem pensar ti?   Quantas vezes tua barriga reclamou de fome no instante em que um  dos teus chegava do estudo e do trabalho para comer o único pedaço de pão que tu, generosa, deixaste de comer?
Missão cumprida, sim.  Tão cumprida que os teus dias de força e de coragem, de viço e de beleza, como provam as fotos amareladas em cada canto dessa casa,  sucumbiram aos pés do tempo que pintou de rugas a bondade do teu rosto. 
- Maria era o nome dela, que felizmente ainda vive. Nome de valsa e de coragem, de conto de fada e resignação. Nome de santa, de água pura de nascente, de céu azul e noite estrelada. Nome de quero te amar enquanto vida eu tiver.  Nome doce,  nome de mãe, de esposa e de mulher  que se esqueceu de si para servir.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

QUEM É O MAIS IMPORTANTE?


   
    Contam que numa carpintaria, quando todo o trabalho havia acabado, as ferramentas começaram a conversar entre si e criaram uma estranha assembleia. Foi uma reunião de ferramentas para acertar suas diferenças, elas discutiam para saber qual delas era a mais importante para o carpinteiro.
Um martelo logo exerceu a presidência e começou:
– Eu sou eu o mais importante para o carpinteiro. Sem mim os móveis não ficarão em pé, pois sou eu quem martela os pregos!
Mas os participantes lhe notificaram que teria que renunciar.  A causa? Fazia demasiado barulho e além do mais passava todo o tempo golpeando.
O serrote logo quis dar a sua opinião:
– Você martelo?
– Você não pode ser! Seu barulho é horrível! É ensurdecedor ficar ouvindo toc, toc, toc…
– O mais importante sou eu, o serrote! Sem mim, como o carpinteiro serra a madeira? Eu sou o melhor!
O martelo aceitou sua culpa, mas pediu que também fosse expulso o parafuso, dizendo que ele dava muitas voltas para conseguir algo. Diante do ataque, o parafuso concordou, mas por sua vez, pediu a expulsão da lixa. Dizia que ela era muito áspera no tratamento com os demais, entrando sempre em atritos.
– Não, não, não! – Falou a Lixa – Eu sim sou a melhor! Se não fosse eu os móveis não seriam tão lisinhos e perfeitos!
– Eu sou a mais importante!
Mas no final a lixa acatou a ponderação, com a condição de que se expulsasse o metro que sempre media os outros segundo a sua medida, como se fora o único perfeito.
– Ah! Não! Que absurdo! Disse o metro.
– Eu sou o mais importante! Sem mim os móveis ficariam tortos! O carpinteiro nem saberia a medida. Eu sou o mais importante!
– Ah! Mas não é mesmo, disse a plaina.
– Sou eu quem deixa tudo retinho e tiro as imperfeições da madeira. Eu sim sou a indispensável…
– Tsc, tsc, tsc… Nada disso, disse a chave de fenda.
– Se não fosse eu, como o carpinteiro iria apertar os parafusos? Eu sim sou a melhor!
As ferramentas ficaram discutindo até o dia amanhecer…
Logo cedo o carpinteiro chegou para trabalhar, colocou sobre a mesa a planta de um móvel, juntou o material e iniciou o seu trabalho. Utilizou o martelo, o parafuso, o serrote, a lixa, o metro, a plaina e a chave de fenda.
Finalmente, a rústica madeira se converteu num fino móvel.
O carpinteiro usou todas as ferramentas. Usou o serrote, o martelo, o esquadro, a lixa, a plaina, os pregos, o martelo, a chave de fenda, a cola e o verniz para deixar o móvel brilhando…
Enfim ele acabou. Chegou o fim do dia o carpinteiro estava cansado, mas feliz com o que tinha feito! Seu trabalho com as ferramentas tinha ficado ótimo!
O carpinteiro foi para casa.
Quando a carpintaria ficou novamente em silêncio as ferramentas retomaram a assembleia reativando a discussão.
Só que agora elas ficaram admirando o que tinham feito todas juntas com o carpinteiro.
Sabe o que elas fizeram? Um altar de igreja! E tinha ficado lindo!
Elas chegaram a uma conclusão: Todas eram importantes aos olhos do carpinteiro. Ele usou todas! Sem exceção de nenhuma! E o móvel tinha ficado lindo!
Elas descobriram que quando todas trabalham juntas tudo anda melhor!
Foi então que o serrote tomou a palavra e disse:  
-“Senhores, ficou demonstrado que temos defeitos, mas o carpinteiro trabalha com nossas qualidades, com nossos pontos valiosos. Assim, não pensemos em nossos pontos fracos, e concentremo-nos em nossos pontos fortes.”
A assembleia entendeu que o martelo era forte, o parafuso unia e dava força, a lixa era especial para limar e afinar asperezas, e o metro era preciso e exato. Sentiram-se então como uma equipe capaz de produzir móveis de qualidade.
Sentiram alegria pela oportunidade de trabalhar juntos.
Ocorre o mesmo com os seres humanos.
Basta observar e comprovar.
Quando uma pessoa busca defeitos em outra, a situação torna-se tensa e negativa; ao contrário, quando se busca com sinceridade os pontos fortes dos outros, florescem as melhores conquistas humanas.
É fácil encontrar defeitos, qualquer um pode fazê-lo.
 
Mas encontrar qualidades… Isto é para os sábios!
(Ouvi na Rádio Sulamérica)


terça-feira, 1 de janeiro de 2019

TIRO DE LARGADA.


     
    Sabe quando você completa uma maratona e vê do outro lado da fita que ninguém o aguarda pra comemorar? Pois é. É assim que muitas pessoas se sentem ao concluir essa jornada e olha que todos contornam pântanos, senão os mesmos, pelo menos parecidos. Essa gente teve em suas costas um sol de todos os graus. Pedras e um montão de empecilhos deram as caras, mas nada os deteve, pois perseverara. Essa gente entendeu que nem sempre estar mal acompanhado é melhor que estar sozinho. Infelizmente nem todos contam com um abraço para descansar o corpo e curar as chagas, mesmo sabendo que curadas ou não começa tudo no dia seguinte, e não importa se o cansaço foi embora como foram os cabelos que antes, volumosos e viçosos, já rareiam sem a cor de outras maratonas. Isso me lembra a esperança que sangra e não morre. Não morre, mas sente esmaecer o verde e mesmo assim insiste em bater asas a nossa volta. A ciência e a natureza poderiam se tornar razão dessa insistência combinando as duas pra mudar tal quadro. Enquanto o milagre não acontece vamos entendendo que romper a fita de chegada não nos dá direito ao passaporte da felicidade se não for buscada nos campos trilhados que citei. A felicidade inclusive, nada mais é senão uma festa pela qual suamos a testa, gastamos o que temos e o que não temos só para fazê-la durar algumas horas ou no máximo uns dias. O resto é trabalho, risos, lágrimas e alguns amigos para nos ajudar em certos momentos como os ajudaremos se precisarem. 
Feliz ano novo, já que o tiro da largada foi dado.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

FELIZ NATAL, GENTE! FELIZ NATAL.


    
     Fiz uma lista de bons produtos para as festas de fim de ano. Comprei bons vinhos, uísque confiável, uma ótima cerveja, bacalhau da Islândia e o peru  é claro, além do chester que não deixo faltar.  Acontece que eu não comi ou bebi nada igual na casa de alguns amigos onde fui levar meu abraço.  Nessas casas comi panetone, que eu detesto, diga-se de passagem, avelã, castanha e umas fatia de pão seco parecendo rabanada.  Tentei vazar na primeira oportunidade, mas apareceu a mulher do meu amigo com um garrafão de sangue de boi e um copo que empurrou em minha direção.  Empurrou não, enfiaram, ela e os demais,  minha goela adentro. Essa sacanagem durou até que o garrafão daquela porcaria azulada que chamavam de vinho secou.  Quando me arrastaram pra casa eu pedi que me largassem junto ao vaso sanitário. A intenção era poupar a casa da sujeira que a coisa em reboliço na minha barriga faria lá dentro.  Mas que nada.  Ninguém fez o que eu pedi, pelo contrário.  Enquanto enchiam minha boca com a farofa que eu caí na besteira de mandar fazer, eles deitavam e rolavam no melhor que eu preparei para a minha festa.    Em meia hora acabaram com o vinho, com as três garrafas de uísque e aquele monte de cerveja que eu, pobre inocente, achava que tinha comprado em demasia para as duas festas.  O bacalhau saiu a nado enquanto o peru e o chester voaram na escuridão ou foram devorados pelos trogloditas que passaram o ano jurando amor e fidelidade a esse trapo humano que ainda enjoado consegue ver a mesa, a adega e a geladeira vazias num lindo dia ensolarado de natal.  
 Há essas horas os caras devem estar se preparando para o réveillon, enquanto eu busco em outro Estado, pessoas normais com as quais eu possa romper o ano sossegado.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

FELIZ NATAL, GENTE AMIGA.


                     
     Todo ano é a mesma coisa: dou presente como se o tivesse comprado para mim e no entanto o que recebo, um pequeno embrulho, uma caixa de presente que penso conter um relógio ou algo bonito e de certo valor. De fato o presente, que além de pequeno e bonito, é caro e chama bastante a atenção: um cortador de charutos. O pior é que nem cigarro eu fumo, que dirá charuto. Na outra caixa que recebi uma bomba de encher pneu de bicicleta de corrida. Será que a pessoa que se deu ao trabalho não teria se dado conta de que, nem ergométrica eu tenho na minha casa?
Quanto ao resto, todos já sabem; bebe-se e come-se em dois dias o que não se come o resto do ano na casa da gente. E tome de ingerir antiácido...
Feliz Natal, gente e não se esqueça de atender os pedidos do seu coração, porque, como diz Charlie Chaplin, no teatro da vida não ensaiamos as peças.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

VIRA-LATA com PEDIGREE.


   Esse poodle com cara de anjo é a Babi, nossa filhinha que nos deixou não faz  
tanto tempo, mas para lamber as lágrimas que  sua morte nos faz chorar ela teve o cuidado de  nos enviar a Mel. Uma vira-latas com jeito aristocrático, tipo princesa, se isso não desmerecer  sua soberania. Depois o destino se encarregou de nos levar até um posto de gasolina à quilômetros da minha casa onde uma ninhada e sua mãe desmilinguida por falta de comida, careciam de piedade. Entre todos escolhemos o que mais risco de morte achávamos que corria, a quem demos o nome de Luna.  A casa ficou cheia com a presença ilustre dessas pessoas.  Cheia o bastante para manter suas empregadas e senhoras estáticas para não pisar em suas majestades.  O pior, se é que qualquer coisa de ruim pudesse existir nelas, é que Luna, antes um bichinho de duzentos gramas não para de crescer.  Talvez para nos mostrar o quão pequenos somos diante de sua imponência. Obrigado, Babi, mas não repare se eu, longe de suas donas, não esquecer de você antes da  morte me matar de saudade.

sábado, 1 de dezembro de 2018

SÓ DIGA POR QUÊ.

Mas, se pedires com jeitinho eu volto.  A saudade tá apertando tanto que já não cabe mais em mim.  Parece tão complicado, mas não consigo te esquecer e até acho que nunca vou.  Tu ocupastes  grande parte de mim, me fez tão bem...  E tudo que faz bem não se vai com facilidade.   
Por que disseste isso, Gabriela Barbosa. Por quê?

sábado, 3 de novembro de 2018

OI. LEMBRA DE MIM?

  
      Muito obrigado gente por entender que eu precisava de um tempo, que eu precisava parar de escrever sobre o que não interessa a tantos como eu acreditava, haja vista que tenho falado mais em mim do que naquilo que poderia interessar a maioria. Por isso eu vou, mesmo com o coração apertado por não estar com vocês todos os dias como vinha fazendo, deixá-los por algum tempo. Não por minha vontade, mas pelas circunstâncias.  E desta maneira eu brindo a todos com a minha ausência. 
Um beijo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A COR DA PRIMAVERA


       
       Hoje é dia primeiro de outubro, primavera, e como todas, tem a cor rosa por distinção.  Hoje não é só o primeiro de tantos dias desse mês, mas o momento exato para as pessoas se convencerem de que o câncer existe, mutila, tira a vontade de viver senão nos tira a vida. 
"Através da Internet eu conheci uma pessoa com quem mantive uma grande amizade ou algo tão grande quanto é o amor.  Com ela reconheci o poder da mulher e suas fraquezas.  Com ela eu aprendi a respeitar o choro e a festejar o riso. Com ela eu aprendi o que é ser generoso, haja vista que no leito de morte ao invés de rogar a Deus por sua cura, relacionava os miseráveis a quem fornecia semanalmente o básico para o seu sustento e o de suas famílias, para dividir entre eles os bens que deixava e pelos quais tanto lutou para tê-los.  Eu quero deixar aqui um beijo rosa, mesmo que seja um botão dessa flor, a essas guerreiras  e esses guerreiros que sorrindo, pelo menos na presença da gente, lutam contra essa abominável doença  enquanto rezamos a  Deus para curá-los, mesmo que os médicos, como se estes pudessem sanar este mal, e não o milagre, lhes cobrem os olhos da cara.

domingo, 30 de setembro de 2018

I GOT TIRED


              Quando criança eu trabalhei muito para ajudar meus pais com as despesas, mas no momento em que eu percebi que estudando se ganhava mais e com menos esforço que todo mundo eu resolvi meter a cara nos livros, como fiz anos a fio, até conquistar um emprego que condissesse com o meu sacrifício. Enquanto isso o tempo se arrastava, tal quais as lagartas, em direção do futuro,  ao passo que descobria que metade da minha vida eu passara estudando e o tinha feito duas vezes mais do que a maiorias dos meus amigos. A diferença é que eles gastavam a maior parte  de seus salários com as garotas, com os seus familiares e com os seus outros amigos, enquanto eu, enclausurado no campus como estava, quebrava a cabeça para entender que dois triângulos em perspectiva axial, quer dizer, em perspectiva central, quando estudados no espaço tridimensional, a sua reta de fuga é o eixo de perspectiva. O que isso tem a ver com o trabalho que eu pretendia exercer no futuro? Nada. E o que me interessava saber se para qualquer quadrilátero inscritível, a razão entre as diagonais é igual a razão da soma dos produtos dos lados que concorrem com as respectivas diagonais? Nada também, eu diria. E para não dizer que não acho graça nenhuma, ao contrário dos meus amigos, por ter ficado tantas horas em sala de aula para entender que a hipotenusa de um triângulo retângulo é sempre o lado oposto ao ângulo reto.  Enquanto eu enlouquecia tentando enfiar essas coisas na minha cabeça os amigos gastavam parte dos seus salários com as garotas em lugares dos quais eu nunca tinha ouvido falar, mas babava quando os ouvia contar sobre as aventuras que tiveram. Enfim, a lagarta chegou ao topo da árvore e antes que ela comece a devorar-lhe as folhas eu vou  socorrer a minha. Não a minha lagarta que já não é mais essas coisas, mas a árvore que, pelo que me deixa parecer, ainda viça a olhos distantes. Vou descansar o cateto para não morrer confuso, e depois deixarei que o sol me doure o corpo para depois vê-lo desbotar com as lambidas da lua.
Um beijo, obrigado e até lá.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

UM POUCO DE COVARDIA.


  

    Muitas vezes, senão todas, eu fiz questão de passar perto de onde você morava, mas nada além de uma porta fechada ou uma janela encostada a mim você permitia, pois se guardava trancada por detrás das brancas paredes como quem foge da justiça ou de quem a ama tão desesperadamente que talvez viajasse léguas e léguas para senti-la um pouco mais perto.  Perto de quem sonha com a impossibilidade da conquista, mas longe dos esperançosos e também dos covardes, pois  se resguarda à escusa da própria sorte.  Hoje, há tantas luas distante de sua presença, de sua voz e dos olhares  morteiros que me dava quando nem mesmo o nome a gente sabia eu me vejo sem forças de dizer que o amor persiste.  Não o amor conquistado pelos heróis com suas valentias, mas o amor que os derrotados têm por quem se esconde,  mas não se nega a rogar pela sorte do outro.  E assim o tempo tem passado e com ele o amor, que deveria morrer a cada passo que dela se distancia e, no entanto, cresce como o cacto nas areias quentes do deserto.

domingo, 23 de setembro de 2018

TOQUE DE PELE.


    

     Em ser o primeiro a abarcar esta história talvez eu não ajuizasse, mas a pretensão de ser o último certamente comigo eu não carrego. De qualquer forma comento o episódio, até porque dentre aquelas, tão bonitas, quem sabe não fosse a mais conveniente no momento? E, quanto a vestimenta, um longo solto com renda na barra de um amarelo ocre ou azul limão com verde brancacento tal qual soluços choramingados nas madrugadas por quem se acha ou pensa saber-se resolvida na vida, por que seria? E como eu digo; não se trata de um vestido qualquer, mas daqueles alçados por finas faixas a escorrer-lhe aos ombros, soltas a cada gesto como se os seios volumosos, firmes e gostosos, quisesse mostrá-los a mim, a você, a ninguém. Sandália rasteira de tiras de couro cru como cru e rasteiro são os olhos e o atrevimento dos que dissimulam olhá-la por baixo da fina roupa de algodão branca debruçada sob as vestes de seda pura que apura a pele lisa de finos velos a cobrir o que não devia como se ocultar o que gostaria de mostrar pudesse. Antessinto mais do que ouço a voz macia em tom de arrepio, o hálito de bala – gosto agridoce de hortelã de outra boca na minha –, pernas impendidas, coxas contornadas, e entre as paralelas o aprazível anseio do amor ao invés dos que a mim impingem e que nada se assemelha ao deleite que o amor proibido, tal qual doce bandido,  apresa, oprimido, os desejos mais ocultos de quem, languescida e triste jazerá na enxovia fria dos tabus a sua primeira e última turgescência.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

CASA DE CAMPO

     
    Das cinco vezes que meu carro foi roubado, quer por roubo, com arma na cabeça ou por furto, três foram naquele ano e duas no mesmo mês, por isso decidi mudar para uma cidade qualquer aonde casa não tivesse cerca, o povo dormisse de janela aberta e delegacia fechasse para almoçar. Nenhum lugar talvez me interessasse mais do que aquele aonde o povo se cumprimenta dando a mão e chama o outro pelo nome. Estava decidido, entraria em contato com todas as imobiliárias do interior em busca do que me aprouvesse. E foi em uma dessas buscas que encontrei aquela que seria a minha zona de conforto, de paz e de tranquilidade. A propriedade pertencia a uma viúva que depois da morte do marido foi para a casa da filha em Petrópolis. Dona Celta era baixinha, talvez um pouco fora do peso, mas, para confundir qualquer julgamento, tinha jeito e sorriso de adolescente que me reportava aos tempos de escola quando tentava pegar uma coleguinha com esse nome e não peguei. Dona Celta, pega de surpresa, não declinou da oferta que o prefeito fez a ela pela compra do imóvel onde pretendia construir o primeiro hotel da cidade. Dona Celta justificou-se constrangida, mas depois de um café e muitos pedidos de desculpa me levou até o carro, que, para meu desespero não estava onde o deixei ou achava que o tinha deixado. Essa dúvida era a certeza da caduquice. Será que foi de táxi, de ônibus ou andando que cheguei aqui ou o meu carro foi roubado? Como não se tratasse de fato corriqueiro foi preciso o dia inteiro para resolver o caso. Dona Celta, coitada, aceitou-me por hospede em sua quitinete onde varamos a noite conversando, pois o carro estava assegurado e a cama garantida, só restava tomar banho e me deitar. Isso era o que eu pensava, mas não D. Celta, que saiu do banho embrulhada numa toalha.
– Olha rapaz – disse sorrindo – a água está uma delícia. Vá tomar seu banho que já já levo a toalha.
Jesus do céu! Será o que estou pensando ou fiquei louco e não sabia?
Eu estava nu debaixo d'água quando ela, sem tirar os olhos de onde nem devia ter olhado, entregou-me o prometido, e, como eu achasse que tudo aquilo fosse um sonho, puxei-a para dentro dos meus braços e a beijei na boca. Beijei como talvez beijasse a garotinha que não peguei, como também, fartei-me naqueles seios por conta de nada ter conseguido quando a flor da pequena criatura era botão.
– Celta, eu amei uma menina da escola com seu nome quando era criança, mas não tive os privilégios que ora você me dá – disse mordiscando a orelha dela.
– Eu também quis um garoto naquele tempo, mas quando descobri que vocês são a mesma pessoa tratei de esconder seu carro só para você ficar. Agora eu vou levar você pra minha cama já que antes não me levou pra a sua...

domingo, 16 de setembro de 2018

XÔ INVERNO.

  
   Eu, e alguns dos que me prestigiam lendo minhas bobagens, temos um amigo que há muito desistiu das tentativas de nos engordar com as elaboradíssima receitas publicadas no blog. Acredito que este possa ser o motivo de estar comentando sobre política nesse momento, e hoje, como o dia não está lá essas coisas, até porque o sol não bota a cara na janela há uma semana, a pessoa em questão decide por  discorrer sobre partidos políticos que nada mais são, segundo deixa entender, do que uma fábrica de emprego vitalício aonde os escolhidos se perpetuam sem nem mesmo obterem o mínimo necessário de votos para isso, haja vista que basta um ou mais dos seus dinossauros vencer o pleito com sobras de votos para levá-los na manga para uma possível eventualidade que necessariamente não seria usada a favor do povo. As baterias desse nosso amigo, no entanto, estão todas viradas para uma determinada legenda que, segundo me dizem, recebe aquilo que o governo tira do povo para realizar suas campanhas. Eu também me arrisco nesse tipo de comentário, mas como diz o Faustão; – já estou fora do peso e da idade para correr esse tipo de risco. Ficam aqui, entretanto, os meus votos de sucesso ao amigo e a página, que, certamente, cortarão caminho ou baterão de frente com os pré-históricos animais. E para não dizer que fora da primavera eu não falo de flor, direi que a Céu, amiga de todos nós, acaba de colher um beijo a mais no jardim de sua existência. Quanto a mim, pobre menino – como a própria Céu me tratou uma vez – ainda me vejo adubando o girassol que, se o tempo não conspirar contra, abrir-se-á tão logo o inverno nos tire de cima, os cobertores.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

NÃO SERIA GALO?

 
     Do nome da pessoa não me lembro, mas do apelido; Magé, eu jamais esqueceria, pois que nasceu no triângulo mineiro e foi morar numa cidadezinha no interior do Estado do Rio, que deu origem a alcunha que lhe deram.  Magé era alto e magro, queixo quadrado, cabelo espetado e muito falante.  Talvez fosse falador por conta do pinto que, pelo que falavam,  dizia ser o maior dos que já se tinha visto e do qual se orgulhava mais do que da mulher e dos filhos, pelo menos, pouco se lembrava de falar neles. Talvez Magé fizesse tanta propaganda do seu negócio por achar que o Livro dos Recordes só registrasse o que pudesse ser visto por todas as classes e idade, o que não seria seu caso.
 Cara, se você quiser eu posso lhe mostrar o maior pinto dos que você já teve notícia, e outra coisa; nenhum deles tem cabeça parecida com uma maçã; no formato e no tamanho, senão o meu   dizia olhando dentro dos olhos da gente.
 Saí prá lá, cara!,  respondia quem o ouvisse falar daquele jeito.
Na sexta-feira passada, o caboclo, que é reservista da brigada paraquedista, como eu, desfilava na parada de 7 de setembro, e quando, marchando com o batalhão, passou na frente do palanque do presidente, calhou do povo aplaudi-los naquele momento, ao que Magé, emocionado e achando que suas protuberâncias, enfim, eram reconhecidas, acabou errando o passo e confundindo a tropa.
Algumas pessoas, bastante emocionadas, o abraçaram no final do desfile, não pelo que ele achasse, mas pela grandeza da pátria ali representada.  Mesmo sem ter certeza de coisa nenhuma,  Magé agradeceu a todos e cheio de pompas tentou falar sobre o pinto, mas foi persuadido a não fazê-lo. A mulher do ex paraquedista, no entanto, chamou a esposa de um dos amigos do marido à parte e disse;  se Magé ficar falando no tamanho do seu negócio diga-lhe que tamanho não é documento, até porque o pinto dele não canta como canta o galo dos seus amigos. Pelo menos suas mulheres riem de felicidade, têm olhos brilhantes, pele macia e viçosa, e até provem o contrário, são muito bem resolvidas sexualmente, enquanto eu, dona da ave em questão, fico na seca, chorando pelos cantos as minhas mazelas.  
Eu não faria isso porque não me caberia, mas alguém deve ter falado com ele, haja vista que, desde aquele dia ninguém, inclusive a sua família, teve notícias do sujeito que, envergonhado, fugiu na calada da noite.

domingo, 9 de setembro de 2018

MEU AMIGO TOTÔIO.

     
    Tive vontade de cobrir Totôio de porrada e no entanto acabei rindo da cara dele.  Sabe quando a gente sai conversando e do nada surge um cara e lhe dá um encontrão e nem olha para ver o que aconteceu com aquele em quem esbarrou? Pois é. Foi o que aconteceu com a gente, quer dizer, com Totôio.  Eu não sei se o cara estava desligado ou com pressa ou se era a gente que atrapalhava o pessoal que seguia em direção ao metrô, só sei que Totôio ficou puto com aquilo por isso saiu correndo, deu a volta no quarteirão e atropelou o cara quando passou por ele. O pior é que Totôio, com o forte esbarrão, acabou por jogá-lo ao chão. Coitado do moço que não esbarrou na gente de propósito, até porque era cego.  Na semana passada foi a mesma coisa senão um pouco pior. Eu e Totôio marcamos de ir à cidade e quando embarcamos num vagão que estava apinhado de gente notamos uma jovem  sentada no lugar que é reservado aos idosos e bem na frente dela uma senhora de idade avançada mal se mantinha de pé com o balanço do trem enquanto a moça fingia dormir.  Aí não prestou. Totôio praticamente expulsou a garota com aquelas cutucadas que deu na pobre coitada que amedrontada meteu as mãos dentro da bolsa, de onde tirou uma bengala tipo telescópio, e empurrando os que estavam a sua frente atendeu as ordens de quem, bufando como um touro gritava os direitos dos idosos a quem fingia desconhecê-lo. Se o trem não estivesse com as portas fechadas eu juro que teria me jogado lá fora. Meu Deus do céu, quando é que eu vou me dar conta que sair com esse sujeito é pura roubada? Mas acho que não adianta.  Hoje, quando saí para comprar pão vi Totôio fuçando o celular que lhe dei de presente de aniversário e como tinha os fones no ouvido achei que estivesse selecionando suas músicas, por isso fui saindo de fininho. Não tinha passado dois minutos que eu esperava para ser atendido quando vi Totôio com aquele jeito de urubu malandro que tinha tipo assim, olhos fechados, balançando ao sabor da música. Ainda tinha oito pessoas na minha frente quando escutei um pum daqueles.  Parecia uma bomba explodindo ali dentro. Não me refiro ao mau cheiro que empesteou o recinto, mas ao barulho que fez.  Envergonhado peguei o cara pelo braço e o arrastei lá pra fora. - Pô, cara. Como você me dá uma dessa! - Perguntei puto dentro das calças, ao que surpreso  me disse que, estando a música  naquela altura achava que ninguém fosse escutar, mas esqueceu-se que a música estava alta só para ele, não para os outros, que só ouviram o barulho do pum.
Totôio jurou de nunca mais voltar aquele estabelecimento, enquanto eu jurava que jamais sairia com ele novamente, o que muito duvido.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

SANatóRIO

     
      Não sabia se tinha amor por quem escrevia ou pelas postagens que fazia.  A única certeza era quando pensava que não só ele como outros poderiam estar sentindo o mesmo pelos textos ou por quem os escrevia.  Só não tinha dúvidas quanto as palavras que achava serem endereçadas a si, pois,  entre poucas certezas,  muitos TALVEZ e algumas respostas sem perguntas decidiram de se encontrar, mais por conta de um do que daquele que chegou a implorar por isso.   Na minha ou na sua casa?,  perguntou o outro que em resposta ouviu;  na sua.  E lá se foram eles. Queriam porque queriam se conhecer, se tocar, se fritar.  E no elã da coisa, se comer, se mastigar e até cuspir depois de beber  o que sentisse se fosse o que achasse.
E assim foi. Enquanto um dizia por cima do ombro que não sabia o nome que se dava ao que achava que sentia, mas, fosse lá  qualquer nome que outro desse a isso, diria que estava certo, que tinha acertado na mosca porque nada nesse mundo poderia ser mais intenso do que o sentimento que o levara ao seu encontro, e querendo ou não, também o trouxera até a si   diria salpicando de saliva o lóbulo esquerdo do outro.
Se tivesse clima para qualquer coisa naquele momento entre eles, seria por parte de um enquanto por parte do outro só depois de muito hálito quente no outro lado do seu lóbulo, que por sinal, chispou os olhos dos dois de desejo e inquietou mãos que se perdiam por aqui ou por ali  nunca se soube direito.  Pensamentos vagos de um e de outro também aconteceu.  Vagos de tudo e de qualquer coisa que não tivesse a ver com um ou nada a ver com outro e às vezes nem com os dois ou vice e versa.  Um com jeito de santa ou de monge talvez tivesse o corpo suando frio no calor do Rio. Ao passo que o outro, um gato miando dentro do peito, como se a lua estivesse a pino ao meio-dia.  Antes, uma cama arrumada, vazia. Nela, jazia atravessada, a esperança da fantasia de duas pessoas trancadas num quarto de milha aos brados, aos gritos, aos berros de dois pares de olhos que choravam o silêncio rompido da madrugada ajoelhado na beira do leito, morto, de sono.

sábado, 1 de setembro de 2018

CONTE COMIGO.

   
   Na saída do metrô uma jovem e elegante mulher deixava a estação às pressas.  Usava um vestido longo, do tipo indiano, calçava sandálias de tira de couro e no pescoço um bonito colar contrastando com as cores da roupa. Era, definitivamente, uma mulher elegante, bonita e bastante atenciosa, porque, mesmo com o fone no ouvido não deixou de dar atenção ao mendigo que chamava por ela.  A moça parou, livrou-se dos fones e com um leve sorriso nos lábios lhe deu um forte e demorado abraço.  Não o deu intimada ou por obrigação, até porque, ninguém a julgaria se fugisse daquele homem e no entanto o abraçou prazerosamente como se fora alguém de quem muito gostasse. Ninguém, por mais que tentasse, sabia o motivo daquele gesto até que surgisse uma mulher segurando um microfone, um cinegrafista com sua pesada câmera no ombro  e um bando de curiosos.  A repórter questionou o motivo que a teria levado a fazer o que tinha feito.  Em resposta a mulher respondeu que vinha passando quando foi abordada por quem lhe pedia um abraço.   Aí eu dei  respondeu com cara de espanto.   Mas ele é um maltrapilho, inclusive está sujo e mesmo assim a senhora o abraça?  perguntou.   Sim, abraço.  Respondeu.  E por que razão a senhora fez esse tipo de coisa?  Continuou a repórter.   Porque eu também já senti necessidade de ganhar um abraço, mas por vergonha de pedir acabei ficando muito pior do que se tivesse pedido e alguém me negasse. – Respondeu.   Mas ele é um mendigo  repetiu a repórter.   Não me importaria se um mendigo me tivesse abraçado quando precisei e não seria a miséria jogando essa pessoa na sarjeta que ia me afastar dela  concluiu.   Mas ele, moça, pode ser pobre de qualquer coisa, menos de dinheiro  falou a repórter  inclusive a senhora acaba de abraçar um dos homens mais ricos desse país, já que estamos falando de um famoso cantor.   Espantada com o que acabava de ouvir a mulher retrucou;  mas não o estou reconhecendo, quem é ele?  E a repórter, se dirigindo ao cantor lhe falou  Diga para ela o seu nome.  Mas ele não disse. Preferiu cantar para ela;
– Entra na minha casa
Entra na minha vida
Mexe com minha estrutura
Sara todas as feridas
Me ensina a ter santidade
Quero amar somente a ti
Porque o senhor é o meu bem maior
Faz um milagre em mim.
Assim que começou a cantar e a mulher, reconhecendo se tratar de Régis Danese, voltou a abraçá-lo e chorou comovendo a repórter, o próprio cantor e aqueles que estavam ali.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A ESPERANÇA.

   
     Um grupo de senhores se acotovelava para ver um velho que na juventude queria mudar o mundo. Os jovens talvez não associassem suas vidas a de um coroa que desde os 20 anos fugia dos políticos que o queriam filiado a suas chapas. Aos 25 viajou ao nordeste brasileiro onde, com dois amigos, constataram a miséria daquela gente. Perturbado desistiu do passeio e voltou ao Rio onde se filiou ao partido assediante. E foi abrindo mão dos seus próprios prazeres que retornou ao lugar aonde a pobreza doía mais. O primeiro discurso que gaguejou foi num palanque improvisado por quem nada tinha que pudesse perder; 
– Gente, eu não deixei minha zona de conforto por motivo nenhum que não fosse o de ajudá-los. Não vou prometer trabalho fácil, água limpa e fresca, e muito menos vou segurar seus filhos chorosos de fome no colo porque seria pouco para quem tem sonhos tão grandes como eu e vocês. E não pensem que vou fazer milagre porque não vou, pelo menos de imediato - disse provocando risos - mas quem sabe - continuou falando -  eu não possa melhorar um pouco a saúde, a educação e o provento dos professores? Seria bem mais fácil do que cavar um poço ou trazer o São Francisco para cá. Também não lhes darei dinheiro porque não tenho, só o que posso e vou fazer será trazer algumas montadoras, pelo menos uma, para cá, gerando alguns milhares de emprego. Lutarei para que o Estado  as isentem de impostos nos primeiros 10 anos. Isso não é uma promessa, mas um sonho que eu quero sonhar com vocês, até porque, sou engenheiro e fiz grandes amizades nas fábricas onde estagiei por tanto tempo. Sinto que posso contar com alguns daqueles empresários, mas dependo de vocês. Agora, por favor, não exijam de mim um hospital porque este é o primeiro passo que as fábricas dão na construção da obra. Prometer eu não prometo, mas encaminhá-los a quem possa empregá-los isso eu garanto. O resto vem com tempo e com trabalho. Só tem uma coisa; para fazer esse milagre acontecer eu, infelizmente, vou precisar do voto de cada um de vocês e dos amigos de vocês nas eleições, e se por acaso vocês não acreditarem nas minhas palavras e por isso não me derem seus votos eu terei de perguntar-lhes; Vocês vão dá-los à quem se não confiarem em alguém? Gente, eu só voltei até vocês para oferecer ajuda e caso não queiram acreditar em mim, acreditem, pelo menos em Deus e no que ele pode ter guardado para lhes dar.  
Com o mínimo necessário de votos o jovem se elegeu. As escolas foram reformadas e outras construídas. O hospital, se não é de referência, pelo menos nada fica a dever a nenhum deles e tudo graças ao trabalho dos que antes viviam com os braços cruzados. Hoje, a metade dos que ali estudaram está formada e os filhos encaminhados. As principais ruas foram calçadas e a pracinha, aonde o jovem trocava sonhos por votos, tem seus bancos ocupados pelos aposentados que veem na alegria das crianças a felicidade que não tiveram. 
E assim o velhinho afastou-se dos outros idosos porque não tinha voltado aquele lugar para ser aplaudido, mas para ter certeza que valeu à pena trocar a sua juventude pelo sorriso dos que nem em Deus, talvez mais acreditassem.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

LEI DA PIZZA.

      

    Entregando pizza em sua moto, Zé Luis sustentou os pais e os estudos por oito anos. Nos seis primeiros formou-se em direito, conseguiu o registro da OAB e bacharelou-se em ciências jurídicas. Nos dois outros se preparou para a prova de juiz substituto. Não precisou bater de porta em porta atrás de emprego na área escolhida porque ninguém pagaria a um advogado recém-formado o que a pizzaria lhe garantia. E era assim que funcionava, enquanto  Zé  esperava a encomenda ficar pronta, abria os livros e lia tudo sobre Direito Constitucional, Penal, Econômico, Direito Civil e Direito Empresarial. Chegado o grande dia  trocou a folga com um colega e partiu para a primeira etapa da prova objetiva que o gabaritasse ao cargo. Tempos depois o resultado era estampado no Diário Oficial mencionando o entregador de pizza como um dos três primeiros colocados na seleção do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região, naquele estado. Como negar aplausos a esta criatura que ao invés de aproveitar o dinheiro do seu trabalho para curtir a vida, como fazem os jovens de sua idade, preferiu ficar seis anos indo à faculdade depois de cansativos dias pilotando a velha moto nas entregas que fazia? Fora aqueles dois fundamentais para o pretendido cargo de substituto.  E olha que nem para titular talvez se estudasse tanto. O pior é que o cargo não tinha lotação fixa, já que esses magistrados cobrem férias e licenças de titulares, por isso podem atuar em qualquer vara de acordo com a demanda. O primeiro compromisso do então magistrado era julgar um processo movido contra uma casa de massas prontas e que, para seu espanto, não era outra senão a pizzaria que lhe deu a primeira oportunidade de emprego, inclusive pagou-lhe os melhores salários além de incentivá-lo a chegar aonde finalmente conseguiu. Zé Luis, enfim, cumpriria com o seu dever e com as normas da lei do seu estado.  Executaria com firmeza de caráter o diabo do processo, mesmo sendo o acusado seu mentor intelectual.  Mas convenhamos, não seria um rato na calçada assustando a freguesia que levaria um juiz a penalizar  seu proprietário. Até porque,  as mesas só eram montadas naquele espaço quando a casa estava cheia, e pelo que o protocolo fornecido pela vigilância sanitária afixado no quadro fazia crer, a inspeção havia sido feita há menos de dez dias. Além do mais, rato não é um ser inanimado, e em parte nenhuma no mundo se processa o bicho por procurar comida.

sábado, 18 de agosto de 2018

O CARA II

Quando saiu do banheiro ela sabia que o filho da senhoria a estaria espreitando e como vaidosa que era, desfilou como nas passarelas dos sonhos de quem imaginou que assim que ela fechasse o registro do chuveiro o deixaria assistir a melhor cena daquele espetáculo, mas precisaria que a gravidade colaborasse puxando a toalha que nem por um decreto deixava qualquer parte daquele corpinho cheiroso e bonito à mostra. Vivida como era não deixaria de perceber que alguém na plateia esperava para aplaudi-la enquanto fingisse não estar sabendo que um par de olhos arregalado a lamberia às escondidas. Depois entrou e fechou a porta  às vistas de quem procurava enxergá-la pelo buraco da fechadura que desgraçadamente estava encoberto por qualquer coisa deixada na maçaneta. – Meu Deus do céu, será que a minha sorte não muda nunca?  Resmungou o curioso sabendo que nada poderia ver através do buraco, mas como tinha fé no criador, arriscou mais uma olhadela e para sua surpresa lá estava ela do outro lado da porta nua como sempre sonhou vê-la.  – Meu pai do céu, obrigado! Eu jamais duvidei da sua existência – exclamou sem tirar os olhos da fechadura olhando a mulher que parecia brincar com o que  ele pudesse estar sentindo.  E ela deixava que ele se lambuzasse olhando aquilo tudo ali tão pertinho dos seus olhos, da sua boca e das mãos.  Assim que percebeu que ela sabia que ele a olhava, correu para se trancar no banheiro, mas foi alcançado antes que fechasse a porta. Com um dedo nos lábios ela pedia silêncio. Depois abaixou-se e o beijou na boca. –  Naquele momento nem da cor da toalha que ela deixara no quarto o rapaz se lembrava. Sem desgrudar do beijo ela o colocou sentado na tampa do vaso. Desamarrou-lhe os cordões do pijama e, sem cerimônia, sentou-se no colo de um felizardo que só queria vê-la sem roupa e nada além disso, mas ela, pelo menos naquele momento, parecia enlouquecer, haja vista que se levantava e sentava. Sentava e se levantava, e de novo, outra vez e assim foi acelerando as subidas e as descidas até que deu grito e desandou a chorar. Por isso teria diminuído o ritmo frenético que dera ao que vinha fazendo.  Se foi câimbra ele não soube dizer, mas sabia que o grito tinha acordado a cidade inteira. Preocupada com o que os donos da casa pudessem pensar, ela apeou do colo em que esteve montada e foi para o quarto dormir. Alguém, não se sabe se a mãe ou uma das irmãs perguntou se estava tudo bem ao que ela respondeu que sim. Que havia tido um pesadelo.  Virou para o canto e dormiu, enquanto ele, só depois de provocar o próprio grito contido com o travesseiro.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O CARA

   

    A última casa que papai alugou foi para um casal de jovens, pelo menos ele tinha 20 anos enquanto ela, como nos disse, 32.  Minha mãe gostou tanto dos dois que até comer eles comiam com a gente e  eram visto mais na nossa casa do que na que pagavam para morar. A simpatia do rapaz e a doçura da mulher causavam ótima impressão em minha mãe que já os considerava parte da família. Eu também gostava deles e dessa vez não era só por causa da mulher, mas pelas roupas que vestiam e olha que nada eu entendia da moda feminina e da masculina um pouco menos. Agora, as camisas que o cara vestia, meu Deus do céu! Só em manequins eu tinha visto.  Quanto aos sapatos, nem neles eu vira antes, por isso namorava os dele, até que um dia resolveu me perguntar se eu  gostava do que estava olhando ou se eu tinha alguma coisa contra já que eu não tirava os olhos dos pés dele? Ao que respondi que não. Que claro que não.  Quer dizer, que não tinha motivo algum para não gostar daquela maravilha. Então ele, gentil como deixava parecer que era, descalçou-se e   empurrando aquela belezura para o meu lado sugeriu-me que o calçasse.  E eu o calcei.  Jesus do céu, como era macio e bonito. Eu estava até sem jeito de pisar naquilo.  Adorei, disse olhando para quem sorria pelo bem que a mim havia feito.  Olha, cara  disse-me  dá-lo eu não posso, até porque a minha mulher é quem compra o que eu visto e calço.  Mas fica aqui a dica; sempre que você sair para comprar só compre aquilo que for bom, porque o resultado será sempre afirmativo. Mas se você quiser pode usar o meu porque a minha mulher não vai se importar, é só pedir.  Mais à frente você compra o seu.  concluiu sorrindo enquanto eu, envergonhado, devolvia o que provei.  Na época eu não tinha aonde cair morto, por isso eu não comprasse roupa e sapatos de marca como ele comprava.  Aliás, nem era ele, senão aquela gostosura quem comprava e foi graças a ela que o marido me mostrou como ficamos bem vestido se não entregamos o nosso suado dinheirinho à nossa mãe, dinheiro esse que entregava a ela até que eu completei 25 anos, quando saí de casa. Meu pai também agia assim e eu achava aquilo lindo. 
Um dia, finalmente, o casal brigou e a moça foi dormir lá em casa. Chegou com os olhos vermelhos para nos braços de minha mãe chorar sua tristeza.  Jesus de Nazaré, lá vou eu curtir outra insônia por conta dessa mulher, e para infernizar meus pensamentos a danada foi a última a tomar banho para dormir.  Meu coração bateu descompassado quando a vi, de toalha, sair do banheiro para o quarto e assim que a porta se fechou corri o olho para o buraco da fechadura, mas algum desavisado, para não dizer um palavrão, havia pendurado alguma coisa na maçaneta de maneira que cegava a vista que se podia ter.  Voltei à cama para dormir, mas só Deus sabe depois do quê, eu consegui.  Mas não fez mal aquilo ter acontecido já que não pensavam se mudar tão cedo e como eu tinha 17 anos e só aos 25 eu partiria, muita história ainda eu ia ter para contar.