sábado, 3 de novembro de 2018

OI. LEMBRA DE MIM?

  
      Muito obrigado gente por entender que eu precisava de um tempo, que eu precisava parar de escrever sobre o que não interessa a tantos como eu acreditava, haja vista que tenho falado mais em mim do que naquilo que poderia interessar a maioria. Por isso eu vou, mesmo com o coração apertado por não estar com vocês todos os dias como vinha fazendo, deixá-los por algum tempo. Não por minha vontade, mas pelas circunstâncias.  E desta maneira eu brindo a todos com a minha ausência. 
Um beijo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A COR DA PRIMAVERA


       
       Hoje é dia primeiro de outubro, primavera, e como todas, tem a cor rosa por distinção.  Hoje não é só o primeiro de tantos dias desse mês, mas o momento exato para as pessoas se convencerem de que o câncer existe, mutila, tira a vontade de viver senão nos tira a vida. 
"Através da Internet eu conheci uma pessoa com quem mantive uma grande amizade ou algo tão grande quanto é o amor.  Com ela reconheci o poder da mulher e suas fraquezas.  Com ela eu aprendi a respeitar o choro e a festejar o riso. Com ela eu aprendi o que é ser generoso, haja vista que no leito de morte ao invés de rogar a Deus por sua cura, relacionava os miseráveis a quem fornecia semanalmente o básico para o seu sustento e o de suas famílias, para dividir entre eles os bens que deixava e pelos quais tanto lutou para tê-los.  Eu quero deixar aqui um beijo rosa, mesmo que seja um botão dessa flor, a essas guerreiras  e esses guerreiros que sorrindo, pelo menos na presença da gente, lutam contra essa abominável doença  enquanto rezamos a  Deus para curá-los, mesmo que os médicos, como se estes pudessem sanar este mal, e não o milagre, lhes cobrem os olhos da cara.

domingo, 30 de setembro de 2018

I GOT TIRED


              Quando criança eu trabalhei muito para ajudar meus pais com as despesas, mas no momento em que eu percebi que estudando se ganhava mais e com menos esforço que todo mundo eu resolvi meter a cara nos livros, como fiz anos a fio, até conquistar um emprego que condissesse com o meu sacrifício. Enquanto isso o tempo se arrastava, tal quais as lagartas, em direção do futuro,  ao passo que descobria que metade da minha vida eu passara estudando e o tinha feito duas vezes mais do que a maiorias dos meus amigos. A diferença é que eles gastavam a maior parte  de seus salários com as garotas, com os seus familiares e com os seus outros amigos, enquanto eu, enclausurado no campus como estava, quebrava a cabeça para entender que dois triângulos em perspectiva axial, quer dizer, em perspectiva central, quando estudados no espaço tridimensional, a sua reta de fuga é o eixo de perspectiva. O que isso tem a ver com o trabalho que eu pretendia exercer no futuro? Nada. E o que me interessava saber se para qualquer quadrilátero inscritível, a razão entre as diagonais é igual a razão da soma dos produtos dos lados que concorrem com as respectivas diagonais? Nada também, eu diria. E para não dizer que não acho graça nenhuma, ao contrário dos meus amigos, por ter ficado tantas horas em sala de aula para entender que a hipotenusa de um triângulo retângulo é sempre o lado oposto ao ângulo reto.  Enquanto eu enlouquecia tentando enfiar essas coisas na minha cabeça os amigos gastavam parte dos seus salários com as garotas em lugares dos quais eu nunca tinha ouvido falar, mas babava quando os ouvia contar sobre as aventuras que tiveram. Enfim, a lagarta chegou ao topo da árvore e antes que ela comece a devorar-lhe as folhas eu vou  socorrer a minha. Não a minha lagarta que já não é mais essas coisas, mas a árvore que, pelo que me deixa parecer, ainda viça a olhos distantes. Vou descansar o cateto para não morrer confuso, e depois deixarei que o sol me doure o corpo para depois vê-lo desbotar com as lambidas da lua.
Um beijo, obrigado e até lá.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

UM POUCO DE COVARDIA.


  

    Muitas vezes, senão todas, eu fiz questão de passar perto de onde você morava, mas nada além de uma porta fechada ou uma janela encostada a mim você permitia, pois se guardava trancada por detrás das brancas paredes como quem foge da justiça ou de quem a ama tão desesperadamente que talvez viajasse léguas e léguas para senti-la um pouco mais perto.  Perto de quem sonha com a impossibilidade da conquista, mas longe dos esperançosos e também dos covardes, pois  se resguarda à escusa da própria sorte.  Hoje, há tantas luas distante de sua presença, de sua voz e dos olhares  morteiros que me dava quando nem mesmo o nome a gente sabia eu me vejo sem forças de dizer que o amor persiste.  Não o amor conquistado pelos heróis com suas valentias, mas o amor que os derrotados têm por quem se esconde,  mas não se nega a rogar pela sorte do outro.  E assim o tempo tem passado e com ele o amor, que deveria morrer a cada passo que dela se distancia e, no entanto, cresce como o cacto nas areias quentes do deserto.

domingo, 23 de setembro de 2018

TOQUE DE PELE.


    

     Em ser o primeiro a abarcar esta história talvez eu não ajuizasse, mas a pretensão de ser o último certamente comigo eu não carrego. De qualquer forma comento o episódio, até porque dentre aquelas, tão bonitas, quem sabe não fosse a mais conveniente no momento? E, quanto a vestimenta, um longo solto com renda na barra de um amarelo ocre ou azul limão com verde brancacento tal qual soluços choramingados nas madrugadas por quem se acha ou pensa saber-se resolvida na vida, por que seria? E como eu digo; não se trata de um vestido qualquer, mas daqueles alçados por finas faixas a escorrer-lhe aos ombros, soltas a cada gesto como se os seios volumosos, firmes e gostosos, quisesse mostrá-los a mim, a você, a ninguém. Sandália rasteira de tiras de couro cru como cru e rasteiro são os olhos e o atrevimento dos que dissimulam olhá-la por baixo da fina roupa de algodão branca debruçada sob as vestes de seda pura que apura a pele lisa de finos velos a cobrir o que não devia como se ocultar o que gostaria de mostrar pudesse. Antessinto mais do que ouço a voz macia em tom de arrepio, o hálito de bala – gosto agridoce de hortelã de outra boca na minha –, pernas impendidas, coxas contornadas, e entre as paralelas o aprazível anseio do amor ao invés dos que a mim impingem e que nada se assemelha ao deleite que o amor proibido, tal qual doce bandido,  apresa, oprimido, os desejos mais ocultos de quem, languescida e triste jazerá na enxovia fria dos tabus a sua primeira e última turgescência.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

CASA DE CAMPO

     
    Das cinco vezes que meu carro foi roubado, quer por roubo, com arma na cabeça ou por furto, três foram naquele ano e duas no mesmo mês, por isso decidi mudar para uma cidade qualquer aonde casa não tivesse cerca, o povo dormisse de janela aberta e delegacia fechasse para almoçar. Nenhum lugar talvez me interessasse mais do que aquele aonde o povo se cumprimenta dando a mão e chama o outro pelo nome. Estava decidido, entraria em contato com todas as imobiliárias do interior em busca do que me aprouvesse. E foi em uma dessas buscas que encontrei aquela que seria a minha zona de conforto, de paz e de tranquilidade. A propriedade pertencia a uma viúva que depois da morte do marido foi para a casa da filha em Petrópolis. Dona Celta era baixinha, talvez um pouco fora do peso, mas, para confundir qualquer julgamento, tinha jeito e sorriso de adolescente que me reportava aos tempos de escola quando tentava pegar uma coleguinha com esse nome e não peguei. Dona Celta, pega de surpresa, não declinou da oferta que o prefeito fez a ela pela compra do imóvel onde pretendia construir o primeiro hotel da cidade. Dona Celta justificou-se constrangida, mas depois de um café e muitos pedidos de desculpa me levou até o carro, que, para meu desespero não estava onde o deixei ou achava que o tinha deixado. Essa dúvida era a certeza da caduquice. Será que foi de táxi, de ônibus ou andando que cheguei aqui ou o meu carro foi roubado? Como não se tratasse de fato corriqueiro foi preciso o dia inteiro para resolver o caso. Dona Celta, coitada, aceitou-me por hospede em sua quitinete onde varamos a noite conversando, pois o carro estava assegurado e a cama garantida, só restava tomar banho e me deitar. Isso era o que eu pensava, mas não D. Celta, que saiu do banho embrulhada numa toalha.
– Olha rapaz – disse sorrindo – a água está uma delícia. Vá tomar seu banho que já já levo a toalha.
Jesus do céu! Será o que estou pensando ou fiquei louco e não sabia?
Eu estava nu debaixo d'água quando ela, sem tirar os olhos de onde nem devia ter olhado, entregou-me o prometido, e, como eu achasse que tudo aquilo fosse um sonho, puxei-a para dentro dos meus braços e a beijei na boca. Beijei como talvez beijasse a garotinha que não peguei, como também, fartei-me naqueles seios por conta de nada ter conseguido quando a flor da pequena criatura era botão.
– Celta, eu amei uma menina da escola com seu nome quando era criança, mas não tive os privilégios que ora você me dá – disse mordiscando a orelha dela.
– Eu também quis um garoto naquele tempo, mas quando descobri que vocês são a mesma pessoa tratei de esconder seu carro só para você ficar. Agora eu vou levar você pra minha cama já que antes não me levou pra a sua...

domingo, 16 de setembro de 2018

XÔ INVERNO.

  
   Eu, e alguns dos que me prestigiam lendo minhas bobagens, temos um amigo que há muito desistiu das tentativas de nos engordar com as elaboradíssima receitas publicadas no blog. Acredito que este possa ser o motivo de estar comentando sobre política nesse momento, e hoje, como o dia não está lá essas coisas, até porque o sol não bota a cara na janela há uma semana, a pessoa em questão decide por  discorrer sobre partidos políticos que nada mais são, segundo deixa entender, do que uma fábrica de emprego vitalício aonde os escolhidos se perpetuam sem nem mesmo obterem o mínimo necessário de votos para isso, haja vista que basta um ou mais dos seus dinossauros vencer o pleito com sobras de votos para levá-los na manga para uma possível eventualidade que necessariamente não seria usada a favor do povo. As baterias desse nosso amigo, no entanto, estão todas viradas para uma determinada legenda que, segundo me dizem, recebe aquilo que o governo tira do povo para realizar suas campanhas. Eu também me arrisco nesse tipo de comentário, mas como diz o Faustão; – já estou fora do peso e da idade para correr esse tipo de risco. Ficam aqui, entretanto, os meus votos de sucesso ao amigo e a página, que, certamente, cortarão caminho ou baterão de frente com os pré-históricos animais. E para não dizer que fora da primavera eu não falo de flor, direi que a Céu, amiga de todos nós, acaba de colher um beijo a mais no jardim de sua existência. Quanto a mim, pobre menino – como a própria Céu me tratou uma vez – ainda me vejo adubando o girassol que, se o tempo não conspirar contra, abrir-se-á tão logo o inverno nos tire de cima, os cobertores.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

NÃO SERIA GALO?

 
     Do nome da pessoa não me lembro, mas do apelido; Magé, eu jamais esqueceria, pois que nasceu no triângulo mineiro e foi morar numa cidadezinha no interior do Estado do Rio, que deu origem a alcunha que lhe deram.  Magé era alto e magro, queixo quadrado, cabelo espetado e muito falante.  Talvez fosse falador por conta do pinto que, pelo que falavam,  dizia ser o maior dos que já se tinha visto e do qual se orgulhava mais do que da mulher e dos filhos, pelo menos, pouco se lembrava de falar neles. Talvez Magé fizesse tanta propaganda do seu negócio por achar que o Livro dos Recordes só registrasse o que pudesse ser visto por todas as classes e idade, o que não seria seu caso.
 Cara, se você quiser eu posso lhe mostrar o maior pinto dos que você já teve notícia, e outra coisa; nenhum deles tem cabeça parecida com uma maçã; no formato e no tamanho, senão o meu   dizia olhando dentro dos olhos da gente.
 Saí prá lá, cara!,  respondia quem o ouvisse falar daquele jeito.
Na sexta-feira passada, o caboclo, que é reservista da brigada paraquedista, como eu, desfilava na parada de 7 de setembro, e quando, marchando com o batalhão, passou na frente do palanque do presidente, calhou do povo aplaudi-los naquele momento, ao que Magé, emocionado e achando que suas protuberâncias, enfim, eram reconhecidas, acabou errando o passo e confundindo a tropa.
Algumas pessoas, bastante emocionadas, o abraçaram no final do desfile, não pelo que ele achasse, mas pela grandeza da pátria ali representada.  Mesmo sem ter certeza de coisa nenhuma,  Magé agradeceu a todos e cheio de pompas tentou falar sobre o pinto, mas foi persuadido a não fazê-lo. A mulher do ex paraquedista, no entanto, chamou a esposa de um dos amigos do marido à parte e disse;  se Magé ficar falando no tamanho do seu negócio diga-lhe que tamanho não é documento, até porque o pinto dele não canta como canta o galo dos seus amigos. Pelo menos suas mulheres riem de felicidade, têm olhos brilhantes, pele macia e viçosa, e até provem o contrário, são muito bem resolvidas sexualmente, enquanto eu, dona da ave em questão, fico na seca, chorando pelos cantos as minhas mazelas.  
Eu não faria isso porque não me caberia, mas alguém deve ter falado com ele, haja vista que, desde aquele dia ninguém, inclusive a sua família, teve notícias do sujeito que, envergonhado, fugiu na calada da noite.

domingo, 9 de setembro de 2018

MEU AMIGO TOTÔIO.

     
    Tive vontade de cobrir Totôio de porrada e no entanto acabei rindo da cara dele.  Sabe quando a gente sai conversando e do nada surge um cara e lhe dá um encontrão e nem olha para ver o que aconteceu com aquele em quem esbarrou? Pois é. Foi o que aconteceu com a gente, quer dizer, com Totôio.  Eu não sei se o cara estava desligado ou com pressa ou se era a gente que atrapalhava o pessoal que seguia em direção ao metrô, só sei que Totôio ficou puto com aquilo por isso saiu correndo, deu a volta no quarteirão e atropelou o cara quando passou por ele. O pior é que Totôio, com o forte esbarrão, acabou por jogá-lo ao chão. Coitado do moço que não esbarrou na gente de propósito, até porque era cego.  Na semana passada foi a mesma coisa senão um pouco pior. Eu e Totôio marcamos de ir à cidade e quando embarcamos num vagão que estava apinhado de gente notamos uma jovem  sentada no lugar que é reservado aos idosos e bem na frente dela uma senhora de idade avançada mal se mantinha de pé com o balanço do trem enquanto a moça fingia dormir.  Aí não prestou. Totôio praticamente expulsou a garota com aquelas cutucadas que deu na pobre coitada que amedrontada meteu as mãos dentro da bolsa, de onde tirou uma bengala tipo telescópio, e empurrando os que estavam a sua frente atendeu as ordens de quem, bufando como um touro gritava os direitos dos idosos a quem fingia desconhecê-lo. Se o trem não estivesse com as portas fechadas eu juro que teria me jogado lá fora. Meu Deus do céu, quando é que eu vou me dar conta que sair com esse sujeito é pura roubada? Mas acho que não adianta.  Hoje, quando saí para comprar pão vi Totôio fuçando o celular que lhe dei de presente de aniversário e como tinha os fones no ouvido achei que estivesse selecionando suas músicas, por isso fui saindo de fininho. Não tinha passado dois minutos que eu esperava para ser atendido quando vi Totôio com aquele jeito de urubu malandro que tinha tipo assim, olhos fechados, balançando ao sabor da música. Ainda tinha oito pessoas na minha frente quando escutei um pum daqueles.  Parecia uma bomba explodindo ali dentro. Não me refiro ao mau cheiro que empesteou o recinto, mas ao barulho que fez.  Envergonhado peguei o cara pelo braço e o arrastei lá pra fora. - Pô, cara. Como você me dá uma dessa! - Perguntei puto dentro das calças, ao que surpreso  me disse que, estando a música  naquela altura achava que ninguém fosse escutar, mas esqueceu-se que a música estava alta só para ele, não para os outros, que só ouviram o barulho do pum.
Totôio jurou de nunca mais voltar aquele estabelecimento, enquanto eu jurava que jamais sairia com ele novamente, o que muito duvido.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

SANatóRIO

     
      Não sabia se tinha amor por quem escrevia ou pelas postagens que fazia.  A única certeza era quando pensava que não só ele como outros poderiam estar sentindo o mesmo pelos textos ou por quem os escrevia.  Só não tinha dúvidas quanto as palavras que achava serem endereçadas a si, pois,  entre poucas certezas,  muitos TALVEZ e algumas respostas sem perguntas decidiram de se encontrar, mais por conta de um do que daquele que chegou a implorar por isso.   Na minha ou na sua casa?,  perguntou o outro que em resposta ouviu;  na sua.  E lá se foram eles. Queriam porque queriam se conhecer, se tocar, se fritar.  E no elã da coisa, se comer, se mastigar e até cuspir depois de beber  o que sentisse se fosse o que achasse.
E assim foi. Enquanto um dizia por cima do ombro que não sabia o nome que se dava ao que achava que sentia, mas, fosse lá  qualquer nome que outro desse a isso, diria que estava certo, que tinha acertado na mosca porque nada nesse mundo poderia ser mais intenso do que o sentimento que o levara ao seu encontro, e querendo ou não, também o trouxera até a si   diria salpicando de saliva o lóbulo esquerdo do outro.
Se tivesse clima para qualquer coisa naquele momento entre eles, seria por parte de um enquanto por parte do outro só depois de muito hálito quente no outro lado do seu lóbulo, que por sinal, chispou os olhos dos dois de desejo e inquietou mãos que se perdiam por aqui ou por ali  nunca se soube direito.  Pensamentos vagos de um e de outro também aconteceu.  Vagos de tudo e de qualquer coisa que não tivesse a ver com um ou nada a ver com outro e às vezes nem com os dois ou vice e versa.  Um com jeito de santa ou de monge talvez tivesse o corpo suando frio no calor do Rio. Ao passo que o outro, um gato miando dentro do peito, como se a lua estivesse a pino ao meio-dia.  Antes, uma cama arrumada, vazia. Nela, jazia atravessada, a esperança da fantasia de duas pessoas trancadas num quarto de milha aos brados, aos gritos, aos berros de dois pares de olhos que choravam o silêncio rompido da madrugada ajoelhado na beira do leito, morto, de sono.

sábado, 1 de setembro de 2018

CONTE COMIGO.

   
   Na saída do metrô uma jovem e elegante mulher deixava a estação às pressas.  Usava um vestido longo, do tipo indiano, calçava sandálias de tira de couro e no pescoço um bonito colar contrastando com as cores da roupa. Era, definitivamente, uma mulher elegante, bonita e bastante atenciosa, porque, mesmo com o fone no ouvido não deixou de dar atenção ao mendigo que chamava por ela.  A moça parou, livrou-se dos fones e com um leve sorriso nos lábios lhe deu um forte e demorado abraço.  Não o deu intimada ou por obrigação, até porque, ninguém a julgaria se fugisse daquele homem e no entanto o abraçou prazerosamente como se fora alguém de quem muito gostasse. Ninguém, por mais que tentasse, sabia o motivo daquele gesto até que surgisse uma mulher segurando um microfone, um cinegrafista com sua pesada câmera no ombro  e um bando de curiosos.  A repórter questionou o motivo que a teria levado a fazer o que tinha feito.  Em resposta a mulher respondeu que vinha passando quando foi abordada por quem lhe pedia um abraço.   Aí eu dei  respondeu com cara de espanto.   Mas ele é um maltrapilho, inclusive está sujo e mesmo assim a senhora o abraça?  perguntou.   Sim, abraço.  Respondeu.  E por que razão a senhora fez esse tipo de coisa?  Continuou a repórter.   Porque eu também já senti necessidade de ganhar um abraço, mas por vergonha de pedir acabei ficando muito pior do que se tivesse pedido e alguém me negasse. – Respondeu.   Mas ele é um mendigo  repetiu a repórter.   Não me importaria se um mendigo me tivesse abraçado quando precisei e não seria a miséria jogando essa pessoa na sarjeta que ia me afastar dela  concluiu.   Mas ele, moça, pode ser pobre de qualquer coisa, menos de dinheiro  falou a repórter  inclusive a senhora acaba de abraçar um dos homens mais ricos desse país, já que estamos falando de um famoso cantor.   Espantada com o que acabava de ouvir a mulher retrucou;  mas não o estou reconhecendo, quem é ele?  E a repórter, se dirigindo ao cantor lhe falou  Diga para ela o seu nome.  Mas ele não disse. Preferiu cantar para ela;
– Entra na minha casa
Entra na minha vida
Mexe com minha estrutura
Sara todas as feridas
Me ensina a ter santidade
Quero amar somente a ti
Porque o senhor é o meu bem maior
Faz um milagre em mim.
Assim que começou a cantar e a mulher, reconhecendo se tratar de Régis Danese, voltou a abraçá-lo e chorou comovendo a repórter, o próprio cantor e aqueles que estavam ali.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A ESPERANÇA.

   
     Um grupo de senhores se acotovelava para ver um velho que na juventude queria mudar o mundo. Os jovens talvez não associassem suas vidas a de um coroa que desde os 20 anos fugia dos políticos que o queriam filiado a suas chapas. Aos 25 viajou ao nordeste brasileiro onde, com dois amigos, constataram a miséria daquela gente. Perturbado desistiu do passeio e voltou ao Rio onde se filiou ao partido assediante. E foi abrindo mão dos seus próprios prazeres que retornou ao lugar aonde a pobreza doía mais. O primeiro discurso que gaguejou foi num palanque improvisado por quem nada tinha que pudesse perder; 
– Gente, eu não deixei minha zona de conforto por motivo nenhum que não fosse o de ajudá-los. Não vou prometer trabalho fácil, água limpa e fresca, e muito menos vou segurar seus filhos chorosos de fome no colo porque seria pouco para quem tem sonhos tão grandes como eu e vocês. E não pensem que vou fazer milagre porque não vou, pelo menos de imediato - disse provocando risos - mas quem sabe - continuou falando -  eu não possa melhorar um pouco a saúde, a educação e o provento dos professores? Seria bem mais fácil do que cavar um poço ou trazer o São Francisco para cá. Também não lhes darei dinheiro porque não tenho, só o que posso e vou fazer será trazer algumas montadoras, pelo menos uma, para cá, gerando alguns milhares de emprego. Lutarei para que o Estado  as isentem de impostos nos primeiros 10 anos. Isso não é uma promessa, mas um sonho que eu quero sonhar com vocês, até porque, sou engenheiro e fiz grandes amizades nas fábricas onde estagiei por tanto tempo. Sinto que posso contar com alguns daqueles empresários, mas dependo de vocês. Agora, por favor, não exijam de mim um hospital porque este é o primeiro passo que as fábricas dão na construção da obra. Prometer eu não prometo, mas encaminhá-los a quem possa empregá-los isso eu garanto. O resto vem com tempo e com trabalho. Só tem uma coisa; para fazer esse milagre acontecer eu, infelizmente, vou precisar do voto de cada um de vocês e dos amigos de vocês nas eleições, e se por acaso vocês não acreditarem nas minhas palavras e por isso não me derem seus votos eu terei de perguntar-lhes; Vocês vão dá-los à quem se não confiarem em alguém? Gente, eu só voltei até vocês para oferecer ajuda e caso não queiram acreditar em mim, acreditem, pelo menos em Deus e no que ele pode ter guardado para lhes dar.  
Com o mínimo necessário de votos o jovem se elegeu. As escolas foram reformadas e outras construídas. O hospital, se não é de referência, pelo menos nada fica a dever a nenhum deles e tudo graças ao trabalho dos que antes viviam com os braços cruzados. Hoje, a metade dos que ali estudaram está formada e os filhos encaminhados. As principais ruas foram calçadas e a pracinha, aonde o jovem trocava sonhos por votos, tem seus bancos ocupados pelos aposentados que veem na alegria das crianças a felicidade que não tiveram. 
E assim o velhinho afastou-se dos outros idosos porque não tinha voltado aquele lugar para ser aplaudido, mas para ter certeza que valeu à pena trocar a sua juventude pelo sorriso dos que nem em Deus, talvez mais acreditassem.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

LEI DA PIZZA.

      

    Entregando pizza em sua moto, Zé Luis sustentou os pais e os estudos por oito anos. Nos seis primeiros formou-se em direito, conseguiu o registro da OAB e bacharelou-se em ciências jurídicas. Nos dois outros se preparou para a prova de juiz substituto. Não precisou bater de porta em porta atrás de emprego na área escolhida porque ninguém pagaria a um advogado recém-formado o que a pizzaria lhe garantia. E era assim que funcionava, enquanto  Zé  esperava a encomenda ficar pronta, abria os livros e lia tudo sobre Direito Constitucional, Penal, Econômico, Direito Civil e Direito Empresarial. Chegado o grande dia  trocou a folga com um colega e partiu para a primeira etapa da prova objetiva que o gabaritasse ao cargo. Tempos depois o resultado era estampado no Diário Oficial mencionando o entregador de pizza como um dos três primeiros colocados na seleção do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região, naquele estado. Como negar aplausos a esta criatura que ao invés de aproveitar o dinheiro do seu trabalho para curtir a vida, como fazem os jovens de sua idade, preferiu ficar seis anos indo à faculdade depois de cansativos dias pilotando a velha moto nas entregas que fazia? Fora aqueles dois fundamentais para o pretendido cargo de substituto.  E olha que nem para titular talvez se estudasse tanto. O pior é que o cargo não tinha lotação fixa, já que esses magistrados cobrem férias e licenças de titulares, por isso podem atuar em qualquer vara de acordo com a demanda. O primeiro compromisso do então magistrado era julgar um processo movido contra uma casa de massas prontas e que, para seu espanto, não era outra senão a pizzaria que lhe deu a primeira oportunidade de emprego, inclusive pagou-lhe os melhores salários além de incentivá-lo a chegar aonde finalmente conseguiu. Zé Luis, enfim, cumpriria com o seu dever e com as normas da lei do seu estado.  Executaria com firmeza de caráter o diabo do processo, mesmo sendo o acusado seu mentor intelectual.  Mas convenhamos, não seria um rato na calçada assustando a freguesia que levaria um juiz a penalizar  seu proprietário. Até porque,  as mesas só eram montadas naquele espaço quando a casa estava cheia, e pelo que o protocolo fornecido pela vigilância sanitária afixado no quadro fazia crer, a inspeção havia sido feita há menos de dez dias. Além do mais, rato não é um ser inanimado, e em parte nenhuma no mundo se processa o bicho por procurar comida.

sábado, 18 de agosto de 2018

O CARA II

Quando saiu do banheiro ela sabia que o filho da senhoria a estaria espreitando e como vaidosa que era, desfilou como nas passarelas dos sonhos de quem imaginou que assim que ela fechasse o registro do chuveiro o deixaria assistir a melhor cena daquele espetáculo, mas precisaria que a gravidade colaborasse puxando a toalha que nem por um decreto deixava qualquer parte daquele corpinho cheiroso e bonito à mostra. Vivida como era não deixaria de perceber que alguém na plateia esperava para aplaudi-la enquanto fingisse não estar sabendo que um par de olhos arregalado a lamberia às escondidas. Depois entrou e fechou a porta  às vistas de quem procurava enxergá-la pelo buraco da fechadura que desgraçadamente estava encoberto por qualquer coisa deixada na maçaneta. – Meu Deus do céu, será que a minha sorte não muda nunca?  Resmungou o curioso sabendo que nada poderia ver através do buraco, mas como tinha fé no criador, arriscou mais uma olhadela e para sua surpresa lá estava ela do outro lado da porta nua como sempre sonhou vê-la.  – Meu pai do céu, obrigado! Eu jamais duvidei da sua existência – exclamou sem tirar os olhos da fechadura olhando a mulher que parecia brincar com o que  ele pudesse estar sentindo.  E ela deixava que ele se lambuzasse olhando aquilo tudo ali tão pertinho dos seus olhos, da sua boca e das mãos.  Assim que percebeu que ela sabia que ele a olhava, correu para se trancar no banheiro, mas foi alcançado antes que fechasse a porta. Com um dedo nos lábios ela pedia silêncio. Depois abaixou-se e o beijou na boca. –  Naquele momento nem da cor da toalha que ela deixara no quarto o rapaz se lembrava. Sem desgrudar do beijo ela o colocou sentado na tampa do vaso. Desamarrou-lhe os cordões do pijama e, sem cerimônia, sentou-se no colo de um felizardo que só queria vê-la sem roupa e nada além disso, mas ela, pelo menos naquele momento, parecia enlouquecer, haja vista que se levantava e sentava. Sentava e se levantava, e de novo, outra vez e assim foi acelerando as subidas e as descidas até que deu grito e desandou a chorar. Por isso teria diminuído o ritmo frenético que dera ao que vinha fazendo.  Se foi câimbra ele não soube dizer, mas sabia que o grito tinha acordado a cidade inteira. Preocupada com o que os donos da casa pudessem pensar, ela apeou do colo em que esteve montada e foi para o quarto dormir. Alguém, não se sabe se a mãe ou uma das irmãs perguntou se estava tudo bem ao que ela respondeu que sim. Que havia tido um pesadelo.  Virou para o canto e dormiu, enquanto ele, só depois de provocar o próprio grito contido com o travesseiro.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O CARA

   

    A última casa que papai alugou foi para um casal de jovens, pelo menos ele tinha 20 anos enquanto ela, como nos disse, 32.  Minha mãe gostou tanto dos dois que até comer eles comiam com a gente e  eram visto mais na nossa casa do que na que pagavam para morar. A simpatia do rapaz e a doçura da mulher causavam ótima impressão em minha mãe que já os considerava parte da família. Eu também gostava deles e dessa vez não era só por causa da mulher, mas pelas roupas que vestiam e olha que nada eu entendia da moda feminina e da masculina um pouco menos. Agora, as camisas que o cara vestia, meu Deus do céu! Só em manequins eu tinha visto.  Quanto aos sapatos, nem neles eu vira antes, por isso namorava os dele, até que um dia resolveu me perguntar se eu  gostava do que estava olhando ou se eu tinha alguma coisa contra já que eu não tirava os olhos dos pés dele? Ao que respondi que não. Que claro que não.  Quer dizer, que não tinha motivo algum para não gostar daquela maravilha. Então ele, gentil como deixava parecer que era, descalçou-se e   empurrando aquela belezura para o meu lado sugeriu-me que o calçasse.  E eu o calcei.  Jesus do céu, como era macio e bonito. Eu estava até sem jeito de pisar naquilo.  Adorei, disse olhando para quem sorria pelo bem que a mim havia feito.  Olha, cara  disse-me  dá-lo eu não posso, até porque a minha mulher é quem compra o que eu visto e calço.  Mas fica aqui a dica; sempre que você sair para comprar só compre aquilo que for bom, porque o resultado será sempre afirmativo. Mas se você quiser pode usar o meu porque a minha mulher não vai se importar, é só pedir.  Mais à frente você compra o seu.  concluiu sorrindo enquanto eu, envergonhado, devolvia o que provei.  Na época eu não tinha aonde cair morto, por isso eu não comprasse roupa e sapatos de marca como ele comprava.  Aliás, nem era ele, senão aquela gostosura quem comprava e foi graças a ela que o marido me mostrou como ficamos bem vestido se não entregamos o nosso suado dinheirinho à nossa mãe, dinheiro esse que entregava a ela até que eu completei 25 anos, quando saí de casa. Meu pai também agia assim e eu achava aquilo lindo. 
Um dia, finalmente, o casal brigou e a moça foi dormir lá em casa. Chegou com os olhos vermelhos para nos braços de minha mãe chorar sua tristeza.  Jesus de Nazaré, lá vou eu curtir outra insônia por conta dessa mulher, e para infernizar meus pensamentos a danada foi a última a tomar banho para dormir.  Meu coração bateu descompassado quando a vi, de toalha, sair do banheiro para o quarto e assim que a porta se fechou corri o olho para o buraco da fechadura, mas algum desavisado, para não dizer um palavrão, havia pendurado alguma coisa na maçaneta de maneira que cegava a vista que se podia ter.  Voltei à cama para dormir, mas só Deus sabe depois do quê, eu consegui.  Mas não fez mal aquilo ter acontecido já que não pensavam se mudar tão cedo e como eu tinha 17 anos e só aos 25 eu partiria, muita história ainda eu ia ter para contar.

sábado, 11 de agosto de 2018

HCE

      Aos 19 anos eu fui internado no Hospital Central do Exército com pneumonia. Era lá, isolado da tropa, que a gente era tratado por um médico, capitão do exército e por freiras do Mosteiro de São Lucas.  No segundo pavilhão haviam cinco enfermarias com 19 leitos cada, enquanto a minha tinha 12, mas só 6 doentes, contando comigo, as ocupavam. Desde a minha chegada os soldados vinham saber como era servir na brigada paraquedista e se eu  não tinha medo de saltar sem ter certeza do paraquedas abrir e por que eu adoecera se paraquedista diz que é forte como rocha?   O pior é que não respondi a nenhuma daquelas perguntas na esperança de vê-los de volta aos seus lugares ou as prestativas enfermeiras não mediriam nossa pressão, como não perguntariam se passamos bem à noite e muito menos rezariam com a mão na testa da gente. Pelo menos foi isso que o sargento me falou quando cheguei, inclusive que as moças só entravam na enfermaria se todos estivessem acomodados em seus devidos lugares. Normalmente chegavam de mansinho para não atrapalhar o repouso que o tratamento exigia e graças a tais sutilezas muitas vezes as peguei olhando para o lugar aonde os hormônios se concentravam se eu pensasse em qualquer uma delas. Eu tinha certeza de que elas não olhavam só para mim, mas também para os que não percebiam a curiosidade que traziam nos olhos. Talvez ninguém as visse com maldade a não ser um mente suja como eu as via. E por falar em mente suja eu já nem sei se devo me envergonhar das coisas que falo ou se confesso que colaborei em muito com aquilo, principalmente quando vinham pela manhã ou na hora em que todos pareciam dormir.  Esses eram os melhores momentos quando eu deixava o lençol escorrer para fora da cama de modo a instigar os olhares possivelmente curiosos. E elas, pelo que dava a entender, adoravam a imagem que tinham.  Pelo menos ficavam horas olhando para ela.
Não demorou dois meses e o soldado paraquedista estava de alta o que fez das doces enfermeiras as pessoas mais tristes daquele pavilhão.  E lá foi ele de volta ao batalhão para dias mais tarde sobrevoar o lugar de onde as belas e eficientes enfermeiras viram varias vezes um coração pulsando forte diante de seus olhos. 

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

O PODER DAS MENINAS

    Joãgamela vivia se gabando de ter mais amigos do que qualquer um por aquelas bandas. E olha que não estou falando de nenhum exemplo de beleza já que era  alto e magrela. Tinha 10 anos, mas ainda cursava a 3ª série do fundamental.  Morava com os pais e mais três irmãs pouca coisa mais velhas, cuja incumbência era cuidar dele e da casa quando os pais trabalhavam.  Só que não, porque, esqueciam do compromisso quando se trancavam no quarto com os amiguinhos do irmão.  Quanto ao número de amigos ninguém contestava que Joãgamela tivesse porque o espaço em que morava vivia repleto deles. Tinha até quem mentisse conhecê-lo para se enturmar por ali. As irmãs de Joãgamela, como eram mais velhas, escolhiam as brincadeiras. Os mais bonitinhos eram levados para brincar dentro de casa, enquanto os demais jogariam bola com o irmão na quadra lá fora.  E como cada  garota podia escolher dois meninos para brincar com ela, tinha vez que faltava jogador pra completar os times, mas ninguém reclamava de nada, haja vista que tudo era muito bem organizadinho. Lá fora o jogo tinha juiz e regras a serem cumpridas, mas, lá dentro, quem sabe? Era um tal de puxar cabelo, beliscão na bunda e os esbarrões que as sábias mãozinhas bobas davam sem que soubessem quem era. Até sabiam, mas a criatividade das meninas ia longe as vezes saltava a cerca da imaginação, principalmente quando uma perguntou se o sexo dos anjos era iguais entre eles ou só espiando se podia ter certeza. Enquanto lá fora os moleques corriam atrás da pelota a turma aqui dentro procurava esmeradamente por essa resposta.  Depois das olhadas de São Tomé e dos toques comparativos chegavam a conclusão de que só um estudo mais aprofundado daria a eles a certeza que procuravam, mas isso era brincadeira para outro dia. No final da jornada os meninos não faziam ideia dos gols que marcaram lá fora, enquanto lá dentro as meninas sabiam com quantas bolas tinham brincado.  Dúvidas sobre Joãgamela ter mais amigos do que qualquer um já não tinham, até porque, espaço para brincar era o que não faltava naquela democracia aonde meninos feios, inteligentes, bonitos e até desprovidos de inteligência tinham vez nas brincadeiras que os filhos dos Gamela faziam.  Era uma democracia na acepção da palavra. A diferença era Joãgamela  chutar a bola lá fora com tanta força que os meninos não conseguiam segurar, enquanto as irmãs seguravam, até com certo desprendimento,  as bolas dos meninos lá dentro.
Criança tem cada uma...

domingo, 5 de agosto de 2018

O TAXISTA

      Isso é um roubo, o senhor me cobrar 50 reais por uma corridinha de Laranjeiras até o Cosme Velho, um roubo e se não fosse essa chuva nojenta eu teria vindo a pé – disse a mocinha puxando a saia para encobrir o que ela permitia das coxas. –Mas a senhorita não precisa me dar esse dinheiro, só que precisa desemburrar essa carinha linda porque assim eu fico sem jeito - disse com os dois olhos dentro do decote.  Você sabia que o estresse faz mal a saúde, que deixa o rosto das garotas bonitas como você todo manchado e cheio de rugas, sabia? – Perguntou rindo. – Qualquer um fica desse jeito numa hora dessas, ora bolas! Afinal de contas, o que o senhor quis dizer quando falou que eu não preciso pagar pela corrida, o que pretendia dizer com isso? – Ora, menina. Tá pensando que eu não sei que nas sextas-feiras você pega táxi para voltar a casa de onde só na segunda te deixam sair? Os colegas que te levam voltam para trabalhar, mas quando terminam, vão tomar chope e bater pago, como eu também faço, enquanto você fica presa naquela casa sabe-se lá fazendo o quê. Hoje, dependendo de mim, você não volta pra lá, pelo menos agora, mas para isso é preciso que combinemos aonde você gostaria de ir, se num barzinho onde a gente tomasse uma cerveja e jogasse um punhado de conversa fora ou, se preferir, a gente dava um pulinho num motel para conversar, só isso. Depois eu te levo pra casa e os 50 paus ficam pra você comprar qualquer coisa para si. Depende de você – concluiu, parando o carro. – O senhor já fez esse tipo de proposta pra sua mãe, seu velho nojento? E vai ligando esse carro ou eu chamo a polícia – Gritou com ameaças de abrir a porta, mas desistiu quando um cano frio de 38, que o taxista tinha na mão, encostou na cabeça dela. – Não, moço, por favor. Tira isso da minha cara, por favor, eu te peço! – Disse se debatendo em desespero. – É claro que tiro, mas enquanto isso vai tirando essa roupa que eu vou te ensinar a respeitar aqueles a quem você provoca tesão – disse desafivelando o cinto e pulando para junto de quem, de braços cruzados sobre os seios, implorava tremendo por sua sorte. – Por favor, moço, não faça nada comigo, por favor, não me machuque. – gritava, mas ele avançava, e com as costas da mão deu-lhe uma bofetada tão forte que foi atirada de encontro a porta com um fio de sangue no canto da boca. Ele, que não desistia das intenções a puxou pelos cabelos para o banco onde a violentaria. E o faria em punição por ser ela mulher, por ter saído para trabalhar, por ser jovem e bonita, por vestir uma saia curta, por usar  decote mostrado o colo e por ela morar numa terra sem dono, sem lei e sem ninguém que punisse com severidade aqueles que desrespeitam os direitos dos outros. Felizmente um taxista, que sabia das taras do cara, e vendo o carro parado ali, resolveu avisar a polícia do 10ª DP, que, de arma em punho, lhe deu voz de prisão. Dois tiros, duas sirenes. Um carro da polícia para o caso, uma ambulância para a menina que continuava casta e um saco plástico preto onde puseram o estrume que jaz nu, com um furo de bala no meio da testa e outro a um palmo abaixo do umbigo.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

ESCARLATE ATÉ AOS PÉS.

      A professora Dalila tinha algo a ver com Dalila, o que não quer dizer que fosse o cara pequeno e magro a quem dava selinhos por trazê-la à escola.  Também os seios generosos que aprisionava sob a camisa abotoada a partir do pescoço não seriam, assim como a calça jeans arrochada justificando a beleza do corpo nada tinha a ver com Dalila.  Quanto a Sansão, a gente estava se lixando para ele.  Na verdade queríamos mais que se danasse,  porque o importante é que a professora ficava mais tempo com a gente do que com ele. E a gente se amarrava em ficar com ela, principalmente pelo poder que exercia sobre tudo e todos chegando a induzir a maioria das alunas aos estudos sem prometer nada que não pudessem conquistar a partir da sala de aula, ao passo que os meninos esmeravam-se para impressioná-la. Talvez esse fosse o algo que tivessem em comum.  E para não contradizer os textos anteriores, muitas vezes fingi que não estava entendendo a matéria só para tê-la abaixada ao meu lado explicando aquilo que eu já sabia. E como era bom o seu hálito arejando minha cara, os acordes de sua voz a lamber-me os ouvidos e o cheiro delicioso de flor a vazar-lhe da pele. E se tudo não bastasse, tinha os aprisionados que de vez em quanto tocavam o meu braço e o ombro, naturalmente. Professora Dalila jamais soube o que os leves toques causavam em mim. 
Todas as aulas dessa jovem mulher tinham cheiro de festa, mas a melhor foi a do seu aniversário, na casa dela.  Estava linda naquele longo, de cuja generosidade do decote percebia-se que um descuido, por menor que fosse, daria aos prisioneiros a chance de fugir do cativeiro, o que, infelizmente não aconteceu porque Dalila era tão ou mais poderosa do que Dalila. Dalila e as sandálias de tiras de couro finas encobertas por um longo vermelho que mal deixava os pés serem vistos, mas não o suficiente para escondê-los de quem os acreditava encantadores, como eu. 
Enfim, detalhes da festa não trago de todo na lembrança, mas nenhum outro, por menor que fosse aos meus olhos, eu dele esqueceria se tivesse a ver com Dalila.  O  acarminado da roupa que vestia, por exemplo,  pintava do mesmo vermelho as minhas bochechas sempre que de mim se aproximava. O cabelo curto roçando o pé do pescoço, o riso branco clareando o espaço, a simetria dos dentes, os gestos, a fala e os beijos que dava na gente, como esquecê-los? Eu a olhava com os olhos desejosos do homem que eu seria mais tarde.  Naquele momento, entretanto, eu não passava de um garoto, mas que via em Dalila, não uma mulher simplesmente estonteante, mas um corrimão onde me apoiei no momento da  subida difícil que fiz.

terça-feira, 31 de julho de 2018

EU GAMO E ELA, GAZELA

     
    Duas estudantes caminhavam de mãos dadas pelo estacionamento do Hospital de Marechal Hermes onde casais gostavam de namorar devido a pouca luminosidade que tinha à noite. Eu ouvia música enquanto esperava um amigo que encerrava o plantão a quem dava carona de vez em quando.  E como diziam que o local não era de muita segurança eu o aguardava no carro que tem vidros filmados. Aquilo tirava das garotas a ideia de estarem sendo observadas o que as levou a sentar no capô de um carro novinho e que para meu desespero o carro em questão era o meu. Não demorou e já estavam se beijando e no calor daquele segura daqui e esfrega dali não só elas, como eu e quem mais pudesse estar vendo, explodíamos de tesão. Também pudera, enquanto uma enfiava a mão por debaixo da blusa da outra eu aqui prendia minha entre as pernas para não fazer em mim o que desejava fazer com elas. Cinco minutos depois já estavam deitadas, uma quase encima da outra, pois tinha uma das pernas enfiada no meio das pernas da outra o que nos dava a  certeza de saberem o que estavam fazendo. O insulfilme as impedia de ver como me deixavam. A garota que estava por cima permitia que os seios ficassem à mercê da criatividade da parceira, e, no frenesi do que as possuía, uma enfiou a mão por baixo de saia da outra  enquanto um peito escapulia à voracidade dos lábios gulosos da amiga. O ato estava próximo da conclusão quando um imbecil e o farol desregulado do seu carro acabaram com a festa.  As duas corriam as gargalhadas enquanto eu procurava com o quê secar meu suor.
Depois fiquei me perguntando; quando essa coisa teria começado e que tipo de gente tem  coragem para tanto? Que tipo de papo é usado para convencer a parceira a correr esse risco que, por pouco, não as levou a concluir o que começaram? Sim, porque se não fosse o maldito farol o caso teria tomado proporções maiores, como certamente tomou em outro lugar um pouco mais apropriado.
Tempos depois rodou um filme na minha cabeça. Foi quando João e a mulher, com quem tinha se casado, vieram à festa da cerveja na minha cidade.
-Esta é Neide, a mulher com quem passarei o resto da minha vida - disse-me João, meu amigo, enquanto eu me perguntava de onde conhecia aquela garota?
Neide era uma pessoa muito bonita e que não olhava ou falava com quem não vestisse saia. Dificilmente falava com homem por mais bonito que fosse, enquanto puxava assunto  com as meninas, mesmo sem conhecê-las.  Aí, caiu minha ficha. As garotas no capô do meu carro...

- João, meu amigo. Algo me diz que você escolheu a mulher certa, e pelo que vejo, jamais terá olhos para outro homem além de você.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

POBRE CRIANÇA.

   
      Com a sobra das obras que o patrão dava ao meu pai, a gente construiu uma casa de madeira e mais três para alugar. Com iniciativa da minha mãe ele tinha comprado um terreno onde fizemos as obras, pelo qual pagaram intermináveis parcelas. O primeiro aluguel ajudou muito aos meus velhos tirar o nariz de dentro d’água, até porque, sempre tinha um parente com filho dormindo e comendo lá em casa. O primeiro, dos três inquilinos, foi um operador de trator, jovem de 28 anos casado com uma garota de 17, com os quais eu fiz boa amizade. Mas nunca procurei saber onde o sujeito trabalhava, só sabia que voltava para ficar com a mulher nas sextas-feiras de tarde.  Mulher que não tendo o que fazer durante a semana, vivia me atazanando o juízo.  Uma vez até me perguntou se eu sabia como se faz um filho. Eu disse que sabia, mesmo não sabendo nada a respeito.  A única coisa que de fato eu sabia era o que tinha ouvido contar. Uma tarde ela disse que ia me levar ao cinema e quanto esse dia chegou a gente sentou perto um do outro, mas tão junto, que em nossas poltronas cabia, sem sacrifício nenhum, pelo menos mais uma pessoas. Quando as luzes se apagaram ela pegou minha mão e como quem não quer nada a enfiou por debaixo da sua blusa.  Aquele era o primeiro peitinho que eu bulirei antes dos 15 anos. É claro que eu já tinha bolinado em outros, mas eram lisos como os meus, porque em peito de criança não nasce mamilo. Quando voltamos fomos direto para a casa dela. Ela tirou minha camisa e foi ao banheiro enquanto eu me livrava dos sapatos e desafivelava o cinto. Eu não sei o que ela tinha ido fazer lá dentro, mas sei que a pessoa que me pegou seminu naquele lugar era o tratorista, dono da casa e daquela mulher.  Mal tinha entrado me deu um sorriso perguntando por ela ao que eu dei de ombros.  Se perguntasse o meu nome, nem dizê-lo eu saberia, tal era o pavor que eu estava sentindo.  O engraçado é que ele nem fez ideia do que aconteceria se não tivesse chegado naquela maldita quinta-feira.  A mulher que ouvira a voz do marido a tempo de se recompor saiu perguntando. – Por que essa cara tão feia, meu amor? – Perguntou.  Eu fui mandado embora, mulher. Como é que você queria que eu estivesse? – Respondeu quase chorando. 
A droga é que esse cara, tá certo que era o dono da mulher, mas bem que podia ter sido mandado embora no dia seguinte e não naquele para empatar o que eu não tive tempo de começar. 

terça-feira, 24 de julho de 2018

AH, ESSAS CRIANÇAS...


      
       Imaginava entre as pernas lisinhas e bem torneadas não só ter os olhos, 
que eu tinha, mas ter a boca e aquele algo a mais que não sossegava quieto  nas calças enquanto o lençol, cúmplice, escorregava aos pés da cama me induzindo a jogar o jogo que quando jogo me prostra esgotado por meia hora, mas que me dá um prazer tão grande que ninguém jamais explicou. Fortuitos lábios entre outros lábios. Lábios que não eram meus, mas corados, pequenos e rosados, de quem dorme o sono da menina que cresceu e ninguém viu(?). Foi diferente das outras vezes que a via e foram tantas. Mas desta estranho, mas surpreendente. Foi como um sonho daqueles que se acorda suado, molhado, mas com vontade de sonhar mais.  Tipo assim, uma droga injetada, mal administrada ou não se explica o meu estado. Um pesadelo, talvez, mas quem me garante que a causa não fosse mais importância do que o efeito que fez? Não continuassem os espasmos a contorcer-me o corpo, tal qual criança de pé se contorce pra segurar o xixi, e eu garantiria que os múltiplos espasmos – ou seriam orgasmos?, fossem vibrantes assim como os sinos em dia de missa. Sonho ou pesadelo, verdade ou fantasia? Não importa se promessas não são negadas ou quebradas. Se desejos proibidos, pecado capital, incesto de mãe desejosa de filho. Enfim, nada de concreto teria acontecido mesmo que eu tivesse esquecido o que me lembrei de dizer. Aliás eu não disse, pensei. Porque se dissesse, talvez lhe conviesse correr cama afora mostrando aos olhos gulosos do vento, as pernas nuas assim como os seios pontiagudos mirando a cara espantada de quem, sem vergonha, a desejava enquanto dormia.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

COISAS DE ANJO.

     
     Antes da curva  acenei a quem me fizera tão bem naquele dia tão angustiante da minha vida. Até beijo eu  joguei, mas não deu sinal de que tivesse visto. Talvez porque a distância fosse curta para quem tinha passos largos e grande de mais para quem tem vista curta.  Aquela foi a primeira e a única vez que nos vimos. Enquanto eu era um pobre carente de um ombro ela era um ente enviado de Deus.  Talvez não fosse um ser comum como a gente, porém bastante especial a ponto de ofuscar minhas vistas com o brilho de sua luz. Quem sabe não seria ela um anjo, um Arcanjo ou um Querubim, quiçá  Serafim?  O nome talvez não fosse assim tão relevante se o bem que fizera não nos surpreendesse - diriam os que comentaram o assunto. Felizmente o sufoco passou sem deixar sequela que se notasse, eu, inclusive, me atrevo a dizer que já estou pronto para outra. Estou pronto uma vírgula, até porque um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.  Pensando assim foi que decidi abrir minha correspondência e responder aqueles que me viram às portas de me tornar o bobo do Rei ou o cavaleiro da rainha. Na segunda hipótese eu teria de ter língua grande para lamber-lhe os pés.
Quando voltava da viagem que fiz à pracinha eu contei na estrada empoeirada o número de pegadas que deixara na ida e as comparei com o da volta, aonde concluí que gastei mais sola na ida do que gastei retornando ao ponto de partida. -Era o peso do fardo que carregavas, teria dito Teresa Dias, ou os pecados que confessastes àquela santa, retrucara Smareis que me viu curvado quando parti e empertigado na volta.
Não bastasse o cansaço e o sofrimento ainda tive que responder as pessoas que me mandavam mensagem de carinho.  A primeira foi  um carismático português com quem comentei sobre o assunto.  Quanto a moça bonita que todas as manhãs me deseja bom dia eu falei de flor, de lua e estrelas, de sonhos e de amor, ao passo que ela, meio sem jeito me dissera que corara com aquelas palavras.    E foi assim, entre perguntas e respostas, que vi o comentário de quem se identificava como a pessoa que mais sabia da minha vida embora não dissesse seu nome.  Na hora até pensei que se tratasse de homem, mas diante do que falou eu tive certeza de que era uma doce e bondosa mulher e não fosse a caixa de mensagem e nem no escritório eu teria dado as caras.  Ficaria sem saber da mulher que certamente mudará o ritmo das minhas melodias.   Ai eu me pergunto; será que a velhinha quis dizer alguma coisa que tivesse a ver com ferida mal cicatrizada e eu não notei? Sim, porque se ela me disse alguma coisa através do olhar eu não sei, haja vista que eu só apareci por lá para falar de mim e não para ouvir o que os olhos da velha pudessem dizer.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A PRAÇA.


      

    Andei muito a procura de uma arma com a qual combatesse o sentimento que tomou meus pensamentos e a minha tranquilidade de assalto. A minha esperança era encontrá-la no mercado ou perderia a vontade de sair, de comer e de dormir como vinha acontecendo. Era como aquilo, tipo o que os estudantes, as mocinhas de tenra idade e os loucos e inconsequentes sentiam quando se apaixonavam. Pelo menos era o que eu achava, mas pelo visto não é. Como é que eu, que não me preocupava com essas coisas, a não ser com meus filhos e com aqueles que contam comigo, fui cair nessa? Está na cara que não fiquei esperando a resposta cair no meu colo, por isso saí à caça. Pensei muito enquanto caminhava e foi assim, sem saber aonde estava indo que cheguei tão longe. Antes, enquanto eu caminhava teve um instante em que eu precisei sentar para descansar. Estava exausto. Três horas andando não é para qualquer um, mas não pensem que me sentei à beira do caminho porque o Erasmo já estava lá. Por isso, entre tantos lugares naquela lonjura,  eu tivesse escolhido a pracinha. Meu Deus, como era longe.  Era tão longe que nem mesmo no mapa devia constar. E acreditem, seria mentira se eu confessasse ter planejado aquela viagem, até porque, era cedo quando me levantei, tomei café e saí para dar umas voltas e foi sem perceber que comecei a caminhada. A princípio com passos de tartaruga e na medida em que o corpo esquentava eu ia apertando o passo. Quando vi já estava correndo e foi correndo que ouvia as bobagens que falavam. É claro que correndo não se entende o que dizem, mas sei que o papo que rola entre os que fazem caminhada não tem nada de sério. Continuei correndo até sumir na poeira. Não sozinho, como afirmei, mas acompanhado dos meus bons e maus pensamentos. Dos bons eu só falo se for bem das pessoas, enquanto os pensamentos maus são os que me derrubam da vaidade  que as mulheres que eu tive juram que tenho.  E foi naquela pracinha, longe do mundo e de tudo, que eu pedi licença a uma velhinha para sentar ao seu lado e contar tudo o que não tinha coragem de dizer para o meu analista. Abri todas as portas e todas as janelas do meu coração para essa mulher. O bom foi que ela ouvia sem me interromper.  Aliás, ela, em nenhum instante abriu sua boca, ao passo que eu não fechava a minha. Falei um montão. Falei dos meus medos,  dos meus sonhos e dos pesadelos, como falei do amor que me tomou de assalto e quase foi morto se essa velhinha não tivesse aparecido quando mais precisei. Permaneci ao seu lado por uma boa hora e meia e quando percebi que o mundo que eu carregava havia rolado das minhas costas foi que me levantei, beijei suas mãos, que sem dizer uma palavra, me viu sumir na poeira de volta à casa.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

O BOBO DO REI.

       As sandálias rasteiras e o longo disfarçando a silhueta era o que se podia ver da criatura que tal qual a brisa que lambe a cara e me desalinha os cabelos  passa sorrindo para onde o queixo aponta. Pegadas, de pés que alicerçam a obra e mal tive o privilégio de ver, somem com o passar do vento.  Das pernas, que a sombra da seda branca encobre, talvez não soubesse tanto pois certamente me matariam se eu as tivesse visto.  
Tudo o que a mim foi possível ver me excitou, e o que a seda escondia não só conta o que a minha imaginação faz questão de criar como me escala para coadjuvar a história.  Olhos de melaço, cabelos de areia, seios de menina pintada de bronze pelo sol agudo do posto 6, pensamentos de mãe de pós-parto. Ela é assim, e  foi assim, desfilando a incógnita da mulher  perfeita que cruzou meu caminho como se nascida com essa intenção tivesse. Até atrasou a passada como se a intenção de instigar com seus olhos de melaço de cana os demônios dos meus ela quisesse. A guerra da mulher desejável  e o Gigante, que depois que a conheci, já não era tão grande, estava por fim declarada.  Gigante da verdade, de paz e de coerência, ora se prostra aos pés da mulher  que despretensiosa o enfeitiça com  voz segura de quem sabe o que fala, enquanto, curvado aos encantos da feiticeira ele mente, imposta a voz e nega a felicidade que sente.  Era o desespero de quem não podia sucumbir na primeira batalha.  Não tivesse o bobo da corte contado à princesa a mesma piada que contara à rainha e ela, sorrindo, talvez o escolhesse para seu cavalheiro, mas não.  Acabou denunciado pelo rei aos guardas que o jogaram no calabouço úmido da indiferença onde, condenado por plágio da própria obra,  morrerá de amor e de vergonha, com ela no pensamento.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

UMA CABINE PRA DOIS.

       Quase um ano eu morei num lugar apertado, mas tão apertado,  
que parecia a cabine telefônica da minha rua.  Só que o sacrifício valia a pena porque tudo o que é necessário à sobrevivência de quem depende de ajuda havia ali ao alcance da mão.  Talvez o lugar não fosse tão apertado assim, até porque cabine telefônica não tem tudo a tempo e a hora como tem a de um Boeing e aquela era  aconchegando e moderna. Por isso a minha gratidão a mulher que me proporcionava essa coisa, inclusive viagens a lugares diversos sem que eu precisasse sair antes da hora, é tão grande.  Devo a ela pelo que fez por minha saúde e pela minha vida.  Esse tipo de relação nos aproximou de tal modo que até seus amigos acabaram se apaixonando por mim e foi graças a esse sentimento que me calei quando vi que foi ela quem procurou o sujeito que a pôs deitada e tocou  os seus seios.  Até entre as pernas eu vi que buliu.  Só não sei se foi por covardia que virei a cara para não ver o que faziam ou foi por achar que ela, como senhora do próprio nariz, sabia bem o que estava fazendo.  Muitas vezes me calei quando chamaram a sua atenção ou lhe falavam coisas com as quais não concordava ao invés de sair em sua defesa.   Outras vezes eu a vi cochichando,  mas poucas fiquei sabendo com quem e sobre o que cochichava.  Na última vez que eu a ouvi cochichar ela acabou chorando quando a pessoa lhe disse que as dores eram normais e que só passariam quando chegasse o momento, mas precisava esperar o sinal o que só dias depois aconteceu.  Na hora me deu uma vontade danada de dar uma voadora em quem provocou suas lágrimas, mesmo eu não sabendo se era qualquer homem, um médico ou uma cozinheira.    
Ultimamente andavam dando força para ela. Enquanto umas desejavam sorte outras falavam coisas que eu não entendia. Uma vez uma velha lhe deu uma bronca tão grande que eu pensei que ela fosse morrer com aquilo.  Era sobre uma ultrassonografia que deveria ter feito naquele dia, mas por medo ela fez que esqueceu.    No Boeing onde morava eu sabia de tudo. Até conheci muitos lugares, só não sei se tão lindos como ela falava.  Mas acho que eram, porque havia  risos e muitas vezes eu escutava coisas lindíssimas a respeito e mesmo que eu não concordasse acabava achando  lindo também.  Durante o tempo que morei lá eu não dei opinião sobre nada.  Talvez por delicadeza ou por não saber como me expressar, mas, será que se eu soubesse eu teria coragem de discordar de alguém?  Acho que não.  Hoje, tantos anos depois eu me vejo numa casa tão grande, mais tão grande que sou capaz de me perder aqui dentro, mesmo assim eu sinto saudades daquela cabine.  Aí eu me pergunto, Será que enquanto eu estava no Boeing, que era a sua barriga, mamãe foi tão feliz quanto eu que vivia ali dentro?