segunda-feira, 30 de março de 2020

COROA VIVO.

     Ser solteiro tem suas vantagens (acho que já falei isso num texto)  ao passo que os outros não têm. Por exemplo: há  um ou dois meses um  bichinho que podia dizimar com o mosquito da dengue, com as formigas e com o vírus H1N1 infelizmente nos escolhe pra tirar o sossego e me prender dentro de casa. Há dez dias que não vejo homem pra botar defeito ou mulher pra me olhar de cara feia a não ser o porteiro trazendo  livros e compras que faço.  Trouxe, mas deixou à porta do octogonal  como pedi.  Sim, porque meu apartamento não é outra coisa  senão um octógono, pois tem quatro paredes, um teto, um piso e duas portas que dão à cozinha e ao meu quarto. Infelizmente não gratifiquei os entregadores para não tocar em dinheiro.  A única contravenção foi  o teclado da maquininha que teclei com as mãos nuas, mas não sem lavá-las depois.  Felizmente ninguém mora comigo pra dividir os problemas que surjam, portanto. qualquer um que apareça é meu. Agora se tivesse mulher morando comigo  com certeza já teria indicado vaso de planta pra mudar de lugar, cachorro pra lavar, tapete pra bater e me olhando  de cara feia...   Certamente eu teria engraxado e colocado os sapatos no lugar como nunca me pegam fazendo.  Os casados não reclamam porque acham que serão recompensados ao irem pra cama.  Esses caras, coitados, pensam que são cachorro, aquele bicho que ganha agrado quando senta se ela manda.  No fundo no fundo não é nada disso.  Elas os cansam para não serem cutucadas ao deitar. Acham e dizem às amigas que transar depois de cinco anos de casado não tem graça nenhuma.  Só elas pensam assim enquanto babamos pelas celulites e estrias que têm.  A gente que mora só não tem nada disso.  Não tem quem negue carinho, mas também não tem quem os aceite enquanto isso o vírus triplica de quantidade, através dos incrédulos, mantendo pessoas como eu longe dos amigos  e morrendo de medo de não ser mais lembrado por eles ou de ser esquecido por elas.

quinta-feira, 26 de março de 2020

CADA UM DÁ O QUE TEM.


     
     A moça que faz a limpeza na minha casa às sextas-feiras apareceu ontem a noite. Podia ter ligado, mas não ligou. Veio saber se precisava de alguma coisa. Não lhe perguntei por que não ligou porque tenho idade pra saber que exerço a profissão em qualquer lugar que eu queira inclusive na minha casa e como a ordem é não sair dela, não me arriscaria em outro lugar. Com esta certeza Vilma bateu-me à porta. 
– Não, meu amor.  Não preciso de nada que você queira fazer, aliás, até preciso e principalmente de mulher jovem, bonita e querida como você, mas nem me pagando pediria qualquer coisa a você nesse sentido.
– Poxa seu silvioafonso, eu nunca fiz nada que seu dinheiro não me pagasse e quando venho por conta da nossa amizade, por estar pensando nas necessidades que o senhor está tendo aqui dentro sozinho, o senhor  me rejeita e nem me dá tempo de explicar a que tipo de “serviço” eu vim lhe prestar...
Essas foram as últimas palavras de quem há cinco anos trabalha pra mim. Vilma não é minha diarista, mas gente da minha família. Vilma é mais do que a moça que faz a limpeza e cuida da casa. Vilma faz compra e nem sou eu quem anota as faltas, apenas pago e recebo o que compra.  Vilma troca as roupas de cama, as toalhas e muitas vezes dispensou visitas na hora da minha sesta.   
 Eu sei que o senhor gosta de tirar um cochilo depois do almoço.
Vilma atende e anota os recados; extras que jamais agradeci por ter feito e agora a rechaço como a um cão que teima entrar na casa da gente. 
Eu tenho mais de 55 anos, tenho pressão controlada, trabalho mais do acho que preciso e portador de apetite por mulher bonita que, de tão grande, até Deus duvida. Tenho e não nego, mas Vilma não sabe. Sabe que moro sozinho, que defendo as mulheres, falo de amor como quem vive apaixonado e reclamo da vida “difícil” de quem morar sozinho...  E eu a coloquei à correr sem mesmo lhe perguntar  a que veio  àquela hora da noite além de se prontificar a fazer o que acha que o vírus não me permite...

segunda-feira, 23 de março de 2020

TRÊS MOCINHAS ELEGANTES.

    Foi difícil escolher entre as três a mais bonita, mas quando me decidi combinei de não falar com as outras o que pudesse rolar entre a gente.  Beijos nós demos muitos. Abraços talvez nem tanto, mas ninguém largava ninguém e quando perguntavam se a gente estava ficando negávamos na maior cara de pau.  Depois foi a outra de quem me aproximei.  A gente marcou para que me perguntasse se eu estava ficando com alguém e eu para negar que estivesse.  Então a gente se beijou muito, os  abraços não foram tantos, mas ninguém largava ninguém até que o cansaço nos separou.  Ontem, na missa de sétimo dia do pai das mocinhas, avistei a terceira, a mais espertinha. Estava longe da vista das irmãs quando a puxei para um canto. 
– Você vai pra onde quando a missa acabar?  –  Perguntei.
– Vou pra casa, pra onde "tu" acha que eu ia?  –  Respondeu com as mãos na cintura.
– É que eu preciso falar com você...  Que tal tomar um sorvete quando a gente sair?, eu pago. Aí te conto o que você vai gostar de saber.   
O coro ainda cantava quando a bandida sumiu. No carro, entre a palheta e o para-brisa havia u'a multa. Era só o que me faltava... Ah não. Não era u'a multa.  Era um bilhete marcando o lugar do encontro. Oh garota danada! Naquela tarda a gente beijou muito,  mas muito mesmo.  Abraços não foram tantos, mas ninguém se largou até o princípio da noite e mesmo que me perguntassem  se eu tinha com quem ficar eu negava.  É claro que eu não diria a verdade pois, se para uma e para outra eu neguei não seria pra essa uma que eu diria a verdade. 
Hoje à tarde voltei a ver as meninas. Iam as três de mãos dadas na frente da mãe. Bonita a mãe delas.  Talvez a beleza estivesse no jeito como me olhou ou, quem sabe, na forma elegante como me sorriu. As malas já estão no carro ou talvez desse tempo de ver a viúva, digo, as meninas, antes de ir.

quinta-feira, 19 de março de 2020

O PIOR ALUNO DA ESCOLA

       
       Olhava pra mim como quem olha o pai, o mestre, o senhor, e me constrangia com aquilo como se eu fosse um menino pego fazendo arte. Não sei o que poderia querer de mim se tinha 18 ou 19 anos, talvez.  Será que elas sentem o mesmo que estou sentindo quando as olho do jeito que ora me olha?  Paguei a conta e saí.  Arrisquei uma olhada para flagrá-la ainda me espionando. Da moça até me esqueci, mas do sorriso com o qual me envolvia confesso que não.  Ontem, na padaria, a vi novamente. Aliás, ela me viu antes de mim e eu, que até o momento me achava senhor de todas as situações, me desconsertei diante de tão bela mocinha.  Ainda não sabia o que fazer com as mãos quando ela, sorrindo como da primeira vez, me perguntou se silvioafonso seria o meu nome e se eu fui amigo de um cara chamado Toninho na juventude.  
- Sim, sim senhora.  Fui amigo dele e também me chamam por esse nome.   
- Pois sou filha do seu amigo e logo que vi o senhor me lembrei das fotos que papai nos mostrava e das histórias que contava de vocês dois.  Em momento nenhum o meu pai falou o seu nome sem que uma lágrima fugidia embargasse a voz dele. 
A desenvoltura com que a pequena falava me reportou aos momentos inesquecíveis de um menino pobre e burro que se tornou amigo de um garoto magrinho, porém, inteligente como o diabo e filho de pais abastados.  
- O senhor está chorando?, perguntou a pequena.  
Envergonhado escorri as costas da mão sobre os olhos negando a verdade.  
Quantas mulheres, que tinham idade pra ser minhas filhas, passaram por minha cama.  Quantas outras me ensinaram o que jamais pensei que fosse possível entre um homem e uma mulher num motel e hoje, no entanto, me curvo diante de uma que tem carisma como as outras, inteligência de algumas e a postura que minha filha teria se eu a tivesse e o pior é que me leva de volta à estrada que tantas vezes sujou de poeira meus pés descalços e separava o casebre dos meus pais onde eu morava, do palácio daquela gente?(!)
Toninho.  Sem aquela amizade eu não seria nada além de um pobre e velho sonhador, como ainda me sinto, pois sem ela e a sua bondade eu não teria sido seu colega num banco de faculdade.  Saudades daqueles tempos eu tenho, mas lembranças da gente eu tenho muito mais, principalmente depois de ouvir o que sua filha me disse. Beijei-a na testa e fui à igreja chorar por seu pai.

segunda-feira, 16 de março de 2020

UMA JOVEM NA RUGA DA MINHA TESTA.

    
    Eu conversava numa roda de jovens quando uma garota, por volta dos 16 anos, me tratou de senhor ao referir-se a minha pessoa.  Antes de responder ao que me perguntava me apresentei dizendo que senhor eu não era, nem de mim e nem de ninguém. E continuei dizendo que a nobreza do pobre está em não esconder a sua condição e esta nobreza eu tinha. E mais, por que a senhorita trata por você pessoas com mais posses, mais educação e estudos e no entanto escolhe a mim para chamar de senhor?, perguntei a quem franzia minha testa e pintava outros fios dos meus cabelos de branco.  Talvez o restante dos jovens rissem do meu jeito de lidar com a idade, não com a deles porque jovem também já fui e sei disso, mas com a minha já que para eles estou fora de moda como diriam se lhes perguntasse.  Não fiquei mais do que meia hora com a garotada que fazia dos meus conhecimentos alvo de suas inquisições e eu gostava daquilo e eles também, certamente. Perguntas que se pode  fazer aos mais velhos ou aos mais sábios, dependendo de como se olhe a pessoa.  Muitos reclamam da impulsividade da garotada, mas esquecem que o seu questionamento é a mola da criação e das duas uma; ou mudamos nós o mundo ou ela nos muda a todos. Eu me lembro de quanto os filhos se trancavam pra jogar videogame e os pais produziam outros mais complicados. O ritmo continua o mesmo, só o leme do barco mudou de mão.   Isso a partir do momento em que um jovem, hoje bilionário, decidiu criar uma empresa onde os jovens pudessem fazer no computador o que lhes viesse à cabeça e nada de horário, uniforme ou a obrigação de ir todos os dias ao trabalho era exigido. Muitos levavam seus skates e alguns até o cachorro. Não sei se por isso ou pelo jovem ser o dono do itinerário do mundo é que a empresa se tornou no que é hoje em dia: dona da maior fatia do mercado de informatica. E ela me chamou de senhor quando na verdade senhor são vocês, crianças de meia idade que sustentam o presente e elabora o futuro da gente. 

quinta-feira, 12 de março de 2020

EM FAMÍLIA

    Existem fatos que a ciência e só ela poderia explicar, mas não o faz e muito menos os curiosos que se dizem entendidos ou não seria novidade ver o raro se tornar banal. Enquanto nada acontece sigamos com fé porque de pé já me bastam os cabelos. Isso me lembra um colega de trabalho me chamando para o aniversário da mulher. Eu fui, mas se soubesse que me tratariam bem como me trataram eu não teria rejeitado os convites anteriores. Eu acho que ninguém recebe como eles, principalmente a esposa que até na minha boca botou um pedaço do bolo que estava comendo.  Quer gesto mais fofo?
 Tudo ia bem até o momento que os mais íntimos brincaram com o dono da casa fazendo alusão ao que ele teria de grande dentro das calças. A mulher ria para não constranger quem brincava, mas não ficava à vontade com tal brincadeira. O marido, entretanto, esse  não se cabia de felicidade.  
Quando me despedi ela me deu dois beijinhos e alguns docinhos numa caixa. Nela, na caixa,  tinha uns dez dos mais saborosos e um número de telefone. Queria que eu ligasse pra se desculpar, certamente. Mas eu não liguei. Não nos falamos naquela semana só na outra porque ela ligou. Primeiro as desculpas, depois marcou para que eu fosse visitá-la.  Talvez por esquecimento marcou a visita para o mesmo dia e mesma hora que  a empresa queria o marido dela visitando um cliente bem longe dali.  Gente, com que cara eu faria uma coisa dessas? O que essa gentil e doce criatura  poderia querer comigo na casa dele sem o marido por perto?
Por favor, gente. O cara não era meu amigo, mas sim colega de trabalho. A mulher dele era qualquer coisa de enlouquecer, mas e o tripé de que tanto falaram, como disputar com aquilo? Está certo que o meu nunca me decepcionou e nem às mulheres com quem saí,  mas ele não tem o tamanho e muito menos peso parecido com o dele. Por que trocaria um bife, felizmente bem temperado, por uma churrascada em época de vacas magras?Na cama ela disse que apreciava uma carne macia como a que o marido tinha a sua disposição, mas tem hora que um bom pedaço de músculo deixa qualquer entendido no assunto de queixo caído, como ficou.Hoje o colega se tornou um bom amigo enquanto a esposa e fiel companheira diz que já sou de sua família.

segunda-feira, 9 de março de 2020

O ARQUITETO

    
     Recentemente li um autor que falava em reformas. Dizia das paredes de tijolo que os arquitetos derrubam para pôr as de vidro. - A luz do dia é imprescindível - justificava o profissional -  enquanto o escritor dizia sorrir. Sorria por achar que a casa que fez com tanto esmero se tornaria um imenso jardim com teto. Hoje cedo me lembrei dele, do autor e ri como se eu tivesse dito aquela bela "besteira". Jardim com teto, vê se tem cabimento!  Minutos depois eu me pus a pensar: talvez o arquiteto sugerisse algo semelhante se eu reformasse a minha. Certamente que ele substituiria a janela do meu quarto onde só um de cada vez pode se debruçar por algo parecido com as enormes paredes de vidro que o autor relatou em seu livro.  Rebaixaria meu teto e aí sim eu poderia ver onde as incansáveis aranhas tecem durante o dia e a noite embrulham o que vão comer de manhã. Não, doutor.  Nada disso eu desejo pra minha casinha, aliás, se eu fosse contratá-lo para alguma reforma seria para engrossar essas minhas paredes que de tão velhas se parecem tanto comigo. Também pediria que alteasse a janela de maneira que eu pudesse ver a chuva que vem quase que todos os dias e o brilho da lua ao cair da noite.  Meus jardins, se eu os tivesse, eu os queria ao relento, sem luz artificial, sem mesinhas e poltronas a sua volta, sem piso de madeira e sem teto onde os insetos fossem caçados pelas bravas tecedeiras. E se não fosse pedir muito pedira que me reservasse um canto onde eu pudesse cantar  os meus versos, recitar a poesia dos amigos que eu gosto e chorar as tristezas que de vez em quando se acercam de mim.  Ah, e um outro, bem escurinho,  onde eu pudesse guardar as minhas lembranças e  nele uma porta mais larga por onde, um dia, quem sabe?, Deus pudesse mandar me buscar.

quinta-feira, 5 de março de 2020

CADÊ MEU AVÔ?

   
   Hoje eu não acordei. É verdade, não acordei porque não dormi.  Até deitei como costumo fazer, mas cadê sono? Só me restou embarcar nos pensamentos e viajar até a estação da casa do meu avô onde o trem das lembranças resfolegou, resfolegou e parou. Nada tinha mudado no lugarejo além do meu avô que já não tinha mais como bulir comigo. Ele teve muitos filhos com "minhavó": seis meninas e cinco meninos, mas parecia que filho homem nunca tivera, pois ficava tão feliz com a minha chegada que nem sei mais se o neto era ele ou eu. Mas vamos ao sonho; na casa dos meus avós tudo era grande. Grande não; imenso, pois a casa tinha onze quartos e uma cozinha do tamanho da casa que eu moro.  Tinha uma dispensa e um banheiro, este ficava lá fora. Para que banheiro dentro de casa se embaixo da cama de cada um cabia um pinico pras necessidades da madrugada? Havia peixes, muitos peixes no rio perto da casa e cada um desse tamanho, oh! Era peixe a dar com pau e cada um maior e mais bonito que outro. Ah, tinha um campo pra gente jogar bola, mas ele era imenso, maior do que tudo nessa vida e eu muitas vezes morri e não consegui chegar na outra baliza. Foi pena ele ter encolhido como encolheu. É verdade, até porque eu sempre fui desse tamanho, o campo é que ficou pequeno. Lá, na casa do meu avô duas laranjas médias bastavam pra me encher a barriga. Hoje uma caixa das grandes me abre a apetite. Meu avô era igual ao avô de todo mundo, só que o meu tomava pinga na venda e eu ficava de porre quando me abraçava. Eu, hoje bebo duas vezes mais e ninguém cai ao meu lado.  Era tudo grande naquele tempo, mas hoje nem eu tenho o tamanho de quando vovó trocava ovos por pão e açúcar e meu avô galinha por farinha, cachaça, macarrão e fumo. A ponte para atravessar o rio de peixes a gente chamava de pinguela, varal era corda e caldo de cana garapa. E foi com isso na cabeça que completei a viagem. Cheguei agora, agorinha mesmo. Só deu conta de lavar a cara e correr pra contar pra vocês.

segunda-feira, 2 de março de 2020

LOS HERMANOS.

     
      A primeira vez que fui à Argentina encontrei-me com Cecília, uma velha amiga que há muito morava por lá.  Foi maravilhoso encontrar-me com quem além de bonita e educada  tem sempre um braço pra colocar no ombro de quem precisa. Dez anos depois e eu estava de volta à terra de los hermanos. A primeira atitude foi ligar pra minha amiga. É sempre bom um amigo por perto nessas ocasiões. 
 –Cecília se foi. – Disse a mulher depois de perguntar o meu nome e o disse com voz, não de quem estava feliz com a sua ausência, mas com tristeza pelo que me deu parecer.  Desliguei como se fora um robô. Recolhi os calcanhares pra perto da bunda na cama onde estava sentado para me deixar esbofetear pela maldade daquelas palavras. 
Cecília era jovem,  tinha dois terços da minha idade, era cheia de graça, coragem e amiga dos amigos que tinha. O que teria acontecido a essa adorável mulher, logo a ela, uma pessoa boa e feliz?
Poucas eu tinha visto com tanta saúde e tanta vontade de viver, e no entanto se foi. Meu Deus, como é tênue a linha entre a vida e a morte! 
     Eu estava muito triste pra perceber que a campainha que tocava era a do meu telefone. Mas era. Certamente seria o gerente perguntando o que eu queria comer no almoço ou nada que me interessasse naquele momento, mas eu estava enganado. A voz era delicada e transmitia tanto amor que eu praticamente perdi a minha; era Cecília...
Voltava do supermercado quando a rabugenta empregada, argentina, lhe disse que um tal de afonso ou seria silvioafonso?, havia telefonado. Cecília correu a ligar aos hotéis que habitualmente recebem brasileiros até me encontrar.  Muitas vezes me rasguei de felicidade, mas juro, juro por Deus que nenhuma foi tão maravilhosa quanto a que eu tive ao ouvir a voz de Cecília. Naquele dia  almoçamos juntos como há dez anos fizemos e juntinhos tomamos o lanche da tarde como da primeira vez.  Só não jantamos como jantamos no primeiro encontro porque estávamos bêbados.  Eu bebia por felicidade e Cecília porque me via feliz como eu de verdade estava.  Os bares fechavam quando fomos pra casa.  Ela pra casa dela e eu pra aquele hotel que tem por hábito hospedar brasileiros felizes que ficam tristes para em seguida devolver a eles uma alegria tão grande que na hora da janta preferem se embriagar a ponto de só pensar em cama onde possam dormir. Dormir, dormir e nada mais além de dormir pra sonhar com toda a felicidade que a vida possa nos oferecer.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

DE FAMÍLIA.

     Eu me comporto como um cara de posses, de bons costumes e muito bem relacionado, daí o meu sucesso com a mulherada.  Agora aqui pra nós; se eu fosse obrigado a falar a verdade me negaria dizer que não tenho onde me deitar pra morrer. Mas enquanto não me obrigam vou curtindo tudo o que tenho direito, como encontrar-me com a gata por quem venho arrastando asa e que, por sorte, também confunde ator com personagem. Eu, pra ser sincero, não gostaria de ofendê-la com as mentiras que sustentam minha pose e muito menos com a verdade que me fraqueja as pernas.  Se Deus, esse ser misericordioso, virasse de costas por uns instantes eu a convenceria das minhas mentiras só para levá-la aos meus aposentos ou ela, quem sabe, me levar aos dela. O primeiro passo foi dado ou não aceitava o convite pra conversar. Vagando em pensamentos quase não a percebo sentar-se ao meu lado.
- Débora, me chamo Débora  disse esticando a mão.
- Paulo  menti apertando a mão dela.
 Ajeitou-se no banco e cruzou as pernas. Uma cumpridona como a outra que de tão bem torneadas pintaram de vermelho o meu rosto.
- Sou toda ouvido, pode falar.
Afastei do meu ombro o demônio que me atentava e falei sobre a vida dos nobres como se falasse de mim e quando perguntei pela dela contou-me, na maior simplicidade,  dos namorados que teve e do pai insistindo que trabalhasse. Não escondeu a vontade que tinha de sair de casa, mas não sem antes completar os estudos.  Falava com certa tristeza, como criança justificando uma arte e eu a ouvir como surfista a espera da onda.  Calamos por alguns segundos para gargalhar das bobagens que falamos logo depois e não fosse o sorveteiro e o calor que fazia e estávamos rindo até agora.
- Adoro passas ao rum.
- Já eu coco com goiabada.
A cobertura escorreu e só não sujou a blusinha porque eu a lambi e o fiz com tamanha avidez que até me surpreendi com a velocidade com que enfiei minha língua naquela boca de passas ao rum. Meti  meu linguão com tanta vontade que arrepiei os pelos do corpo dela se não os tinha raspado. Com os olhos na minha boca deixou-se lamber até o fundo da casquinha. Duas horas depois não mais se lembrava do gosto que tinha. Chupava o que não tinha gosto nenhum. Não era gelado, porém mole muito menos.  E chupou como se nada disso fosse verdade. Quer dizer, se derreteu com aquilo atochado na sua garganta ali, agarradinha a mim, seu fiel sorveteiro. Em suma: nem por toda verdade  do mundo a garota, pelo menos naquele momento, largaria mão do prazer que a mentira lhe deu.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

SÓ OLHAR...

       
       Eu penso que todo mundo sabe que menino acorda do mesmo jeito que noivo em noite de núpcias. Pois é. Acordam com a lança em riste tal qual gladiador lutando por sua vida. Hoje, talvez dos meus amigos eu seja o mais jovem dos velhos que somos. Pois acreditem que ainda acordo como eles acordavam quando eram pequenos ou seja; com a agulha da bússola apontado o norte e sempre que tem gente  em casa na hora de me levantar eu fecho os olhos bem apertados e penso na morte da minha mãe. Gente, só de pensar que minha mãe pudesse morrer a agulha da bússola,  por mais imantada que seja, se transforma em linguiça de porta de venda.  Minha mãezinha que me perdoe tocar no assunto, mas como  contar essa história sem falar que menino macho acorda de piru duro do jeito que sem querer eu contei? Só com ele pendurado como linguiça de porta de venda diriam vocês ao passo que mamãe daria na minha cara.
No carnaval daquele ano a garotada resolveu sair no bloco do sujo.  Bloco de sujos é um amontoado de menino vestido de menina e elas vestidas de menino.  No dia do desfile eu não teria acordado se a turma não me chamasse. As meninas me viram deixar o quarto esfregando os olhos e qual não foi seu espanto me vendo naquele estado? Os garotos que esperavam no portão porque mamãe os queria lá fora souberam do caso, mas nada disseram. Pelo menos naquele momento. As mais sabidinhas já tinham visto, mas tocar, só as mais saidinhas enquanto as bobinhas, bem essas só algum tempo depois. Mas, voltando ao momento em que se descabelavam diante da imagem que, sem querer, permiti que tivessem. Foi quando mamãe berrou e eu nem precisei pensar na morte dela pra me recompor, pois um segundo depois eu já estava como o Toninho, o Edinho e o Sérgio neguinho estavam lá fora; molinho molinho. Daquele momento em diante passaram a me olhar com outros olhos: os meninos com um tiquinho de respeito e um montão assim de inveja, enquanto as meninas...
Dizem as más línguas que umas caíram da cama com o sonho que tiveram e que os moleques não dormiram na noite em questão.
Ah, o desfile do bloco foi um sucesso. Pelo menos pra mim.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

TEM GENTE NOVA NO PEDAÇO

      
    É muito difícil morar em apartamento, como disse no texto anterior.  Antes era um cachorro e uma criança que corria atrás dele gritando à um metro e meio acima da minha cabeça e isso a qualquer hora e a todo momento. Durante o dia, tudo bem.  Mas na hora do meu descanso é que o bicho pegava. Enfim, como diz o ditado: não tem mal que dure pra sempre e nem bem que nunca se acabe e graças a esta certeza eis que os vizinhos indesejáveis resolveram deixar o lugar. Ajuntaram as tralhas em um caminhão de mudança e partiram pra enlouquecer outro infeliz. Um mês inteiro de silêncio e sossego pra minha cabeça.  O apartamento foi limpo, pintado e alugado aos atuais moradores.  Marido e mulher sem filho e bicho pra cuidar, como me disse o porteiro.  Quem mora em apartamento tem por hábito tentar adivinhar quem são seus vizinhos e é através do barulho que a coisa acontece.  Esses, por exemplo, são uma incógnita porque o cara bate a porta, que me acorda, às 6 da manhã. Pega o carro e só volta às 8 da noite, enquanto a mulher, coitada, começa a gemer tão logo sai o marido.  Na parte da manhã, até a hora do almoço é que eu acho que tentam matá-la por estrangulamento tais os gritos que vêm lá de cima.  Á tarde é a dor de dente que leva umas duas horas para passar, ao que eu me pergunto: por que não ir ao dentista para cuidar do incômodo?   Á noite ela chora, resmunga feito criança, mas já não sei se por causa do dente ou por outras torturas que venha o marido a fazer. Agora, se alguém ama alguém a ponto de morar junto, por que não livrá-lo do sofrimento da dor? – Me pergunto.  
Ontem o porteiro me apresentou à pobre mulher. Jesus do céu como é feia! Eu até tive pena da criatura. Feia e sofredora.  Tudo junto.  Mas aqui entre nós: o que Deus deu de feiura recompensou com um corpo bem feito, seios pequenos e durinhos e muito bem torneados.  Cinturinha fina, um par de pernas de causar inveja à Cláudia Raia e uma bunda não sei de quem. Fora a doçura com que nos trata.  Aparentemente não sofria de mal que a fizesse chorar, gemer e gritar como eu ouvia e mesmo com gente em casa com ela, pelo menos voz de homem ou de mulher rouca eu escuto quando coloco a boca do copo na parede e o fundo na minha orelha. Mas deve ser gente que vai socorrê-la, claro. No elevador trocamos algumas palavras entre as quais o número do celular que ela fez questão de dizer e eu de não decorar.  Gente, do jeito que sofre essa mulher o papo não é outro senão sobre doença e esse é o tipo de conversa que não quero ter. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

VIAJAR É PRECISO.

   
   Ontem eu fui ao andar de cima reclamar do cachorro que não me deixou dormir. Toquei a campainha, bati à porta e nada. Ninguém pra dar um basta naquilo, e o bicho ali, coitado. Uivando como loba no cio. Depois de muito insistir decidi ir embora. Eu já ia descendo as escadas quando o elevador deu sinal. Era ela. Pelo menos eu achava que fosse, e era.  Chegava de onde eu não fazia o menor juízo.
– Boa noite seu silvioafonso, o senhor por aqui? – Perguntou com ar de quem tomou alguns drinques.
– Sim senhora, eu mesmo. Tentei falar com vocês, mas como ninguém atendia o interfone decidi subir pra ver o que está acontecendo com seu cachorro que late como se estivesse sofrendo e como  eu morro de pena dos bichos, subi pra saber se precisavam de ajuda – menti.
– Entra pra gente conversar.  Já é tarde e os moradores querem dormir.
    "Ufa, eu vim buscar lã e acabo levando a ovelha". – Tudo bem, dona Claudete.  Mas e o seu esposo, não vai reclamar do avançado da hora?
– Claro que não, até porque eu não tenho marido, pelo menos enquanto ele estiver viajando. Entre por favor e fique à vontade enquanto tomo uma ducha. É rapidinho. 
"O cachorro já não latia, mas devia ser cego pra achar que a minha perna estivesse no cio".  Dona Claudete se abaixou pra acabar com a alegria do bicho, mas me excitou muito com os seios vazando pra fora da toalha. Segura a toalha e solta o cachorro ou segura o cachorro e continua me mostrando essa coisas, dona Claudete. – Gaguejei muito, muito nervoso. Ela riu. De fato ela riu, mas eu não. Principalmente quando disse que assim que eu saísse ela ia dormir, mas antes beberia qualquer coisa e se eu não queria acompanhá-la. Um drinque, pelo menos.  "Que susto, pensei que fosse pra dormir com ela". 
 – Claro! Até para o inferno eu iria com a senhora, tive vontade de dizer, mas não disse. Pelo contrário, falei que me sentia honrado em beber com pessoa tão agradável.  E bebemos bastante.
   O cachorro dormia quando o sol bateu na janela. Dona Claudete, que tinha deixado a toalha não se sabe onde, dormia agarrada como não quis que o cachorro ficasse ao passo que eu a mantinha agarradinha como a cadelinha ficaria no cachorro dela se ela deixasse. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

VELHO É A VELHA!

   
     Meus amigos não falam, mas sabem que me comporto como se tivesse 30 anos. Acontece que só me dei conta disso quando fui ao Maracanã com meus filhos.  Nesse dia uma dessas adoráveis criaturas me fez entender que a vida que eu penso levar não é nada mais que um filme rodando na minha cabeça. Foi quando entendi que na realidade não passo de um velho amontoando tralhas num canto para não esquecer quando for embora.  No dia do jogo notei que um me tratava  como se eu tivesse 5 anos e não como o pai dele, que sou.   A cada depressão do terreno, um meio fio fora dos padrões, uma rua para atravessar,  lá vinha ele segurar no meu braço fingindo que era  pra não se perder.  Hoje eu entendo que era ele cuidando de quem se nega acreditar que precisa.  É um tipo doce e espontâneo de provar seu amor pelo pai, enquanto o outro, mais velho, o faz de maneira diferente: em silêncio.  Da mesma maneira como se sonha um sonho bonito ou se tem lembranças de coisas que agradecemos por não tê-las esquecido: em silêncio.   E é em silêncio que ele me prova a grandeza do seu amor. Fala pouco, mas o suficiente para que entendamos que atitude é mais importante que palavra em demasia.
Falar de filho nunca foi uma boa a não ser na sua presença porque longe é sinal de vaidade e exibicionismo. Eu sei que tem hora que não dá pra segurar e por isso gritamos pra quem tem ouvido para escutar o quanto amamos nossas crianças e o quanto por elas somos amados.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

EU NA CRECHE.

    
    De segunda a sexta-feira não se abre cortina e muito menos janela entre 7h e 17h no meu apartamento. Nesses dias as professoras da creche ao lado do prédio onde moro se juntam pra falar do que rola nas redes sociais enquanto a molecada se farta na areia do parquinho. Tem vez que resolvo arregaçar as cortinas, escancarar as janelas, tirar a camisa que estou vestido pra olhar a petizada jogar areia um no outro, puxar as tranças da coleguinha, pular corda e amarelinha e tudo ao som da doce e agradável gritaria.  Mas isso depois de um balde de Heineken bem gelada pra dar coragem ou nem cortina eu abria, claro. Aí, depois de ter ido para a galera, essa mesma galera, que o dia inteiro ouve nervosa os gritos das crianças, finalmente me descobre na janela do apartamento completamente nu, como acham que eu fico. É risinho daqui, piadinha dali até que eu sumo. Sumo, mas apareço dançando ao som de um bolero que ponho pra tocar. O som não alcança os ouvidos das curiosas porque a algazarra é grande, mas o gingar do meu corpo já dá entender às operárias da educação que um homem alto, boa aparência e dono do próprio nariz está ali, ao alcance de um número de celular que balbuciem ou de um encontro casual na saída do trabalho delas. E tome Heineken gelada para refresco de um e inveja de muitas que, tenho certeza, gostariam de olhar a molecada do mesmo lugar que a vejo. Infelizmente o dever me nega o direito de beber toda hora e por isso as cortinas nem sempre se deixam acariciar pelo vento e muito menos as meninas dos meus olhos vão à janela espiar as outras que só pensam em brincadeira enquanto as mestras, olhando pro meu prédio, só pensam naquilo.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

NO BALANÇO DAS ONDAS.

   
     A vida de marinheiro é ingrata com ele e com sua família. A do Rodrigo, por exemplo, que vive mais tempo embarcado do que com a Alice  com quem se casou jurando que seria o melhor marido do mundo, não seria a exceção. Talvez até fosse, se acreditasse no amor de sua mulher. Disse, certa vez, que ela só se casou por conta da estabilidade e pela liberdade que teria com ele embarcado.  Também me falou que a viu entrar no banheiro com o celular escondido e quando foi conferir percebeu que a esposa se derretia pro homem com quem falava.  Meia hora mais tarde ela saía para um compromisso inadiável de onde voltou tarde da noite.  No dia seguinte Rodrigo se dispôs a segui-la. Disse que ia sair com uns amigos e que telefonaria quando voltasse, até deixou o carro caso ela precisasse.  Alugou um Fiat com vidro escuro e ficou a espera do azar, mas não sem antes ligar avisando que não o esperasse para o jantar.  Não esperou para ver o carro sair da garagem. Com o coração apertado o seguiu até o motel, o mesmo onde cheio de amor a levou muitas vezes.  Esperou do lado de fora até que resolveu invadir o recinto. Muniu-se com um pedaço de pau e gritando palavras de baixo calão à esposa, quebrou todos os vidros do carro da mulher e só fugiu porque a polícia foi chamada.  Chegou a casa bufando e xingando e só sossegou quando a esposa, vindo do quarto, perguntou  o por quê de tudo aquilo.  Só se deu conta do que tinha feito depois que o irmão, a quem a esposa emprestara o carro para levar a namorada ao motel, chegou perguntando se ele estava maluco, se tinha pirado.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

SÁBIAS PALAVRAS.



     Maluco beleza foi o cara que disse que de sábio e louco todos temos um pouco. E não é que ele está com o a razão!  Muitas vezes ouvi quem aconselhasse outras pela vida difícil que levam e no entanto ela também vive uma vida conturbada.  Todo mundo ou quase todo mundo gosta de dar bons conselhos quando na verdade vive interrompendo o que dizem ou  completando a frase dos outros. Esse tipo de gente pode aconselhar alguém? E esses que falam de amor como se a vida dos apaixonados fosse um mar de rosas como ele dá a entender que seja a sua, quando na verdade soluça por um amor não correspondido. De sábio e louco todos temos um pouco, sim. É verdade. Mas não é para inverter a ordem das coisas. Primeiro você age como sábio, quer dizer; escuta, escuta e escuta o que o outro tem pra falar. Ouça até que o argumento do coitado se esgote e só então, olha bem. Só quando o silêncio se fizer presente é que você deverá abraçá-lo. Só isso, entendeu?, um abraço e nada mais além do abraço. Acontece que abrimos as portas, sempre, para o louco passar primeiro. Por isso esse furdúncio adoidado que se vê por aí. Cada um sugerindo ao outro o que jamais faria se fosse com ele. Ninguém foge à regra ou não falaria o que acabei de dizer.
Ontem, entre uma cerveja e outra, uma bonita senhora, muito bem vestida e pintada, ergueu um brinde a um de sua mesa. O cara deveria ter ficado muito feliz não fosse o laser dos olhos dela apontar em minha direção.  Risquei um sorriso de agradecimento, paguei a bebida e saí. O manobrista me entregou o carro e o garçom um bilhete.  Se ligo para o celular do bilhete eu me contradigo do que disse acima, ou, caso contrário, travo a engrenagem do giro do mundo.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

MEU PEQUENO PET

    
     Achei estranho Lurdinha me chamar na casa dela se mal essa garota me cumprimenta, principalmente àquela hora da noite. Todo mundo sabe o que eu faço pensando nela quando estou sozinho. Quanto a garota é uma forma de tratar até porque ela tem a idade da minha mãe. A diferença é que mamãe não mora sozinha, tem dois filhos, marido e muito que fazer em casa enquanto ela, pelo que dizem, leva vida de princesa. Tem até quem jura levar vida duvidosa. E por pensar como esses caras é que eu pago 500 Pai Nosso e 500 Ave Maria pelo pecado que me leva cometer. Eu levo mais tempo rezando que pecando, mas é vermelho como um pimentão que eu pago a penitência já que a danada da tentação não me sai da cabeça. 
Estava pronto pra tocar a campainha quando ela me recebeu. Vestia shortinho, camiseta e sandálias de dedo.  Nada provocante. Pegou na minha mão e me arrastou pro quarto dela. Jesus do céu, será mesmo que Deus existe ou sou eu que estou sonhando? Me empurrou se escondendo atrás de mim e com o dedo me apontou umas caixas que pediu pra eu abrir.  – Mas como assim, por que você  não abre?  – Perguntei. Ela, tremendo como se tivesse febre, me pedia para abri-las e foi cheio de coragem que peguei o cabo da vassoura e, de longe, cutuquei o que pudesse ter lá dentro. Depois de muito cutucar saiu uma lagartixinha desse tamanho esfregando os olhos. Parecia que o barulho a tinha despertado de um cochilo. 
– Nada sério Lurdinha. Apenas um filhote de lagartixa que mau nenhum faz a ninguém. Era só isso?  –
Perguntei de novo.   Era sim. Desculpe, mas é que eu morro de medo desses bichos falou me abraçando. Como é que eu posso te pagar por isso?  
 – Ah, não foi nada  – respondi. Deixa pra lá. Qualquer coisa pode me chamar que eu corro pra te ajudar. Sabe que pode contar comigo.
Ela me deu um beijo no rosto e bateu a porta atrás de mim. Em casa fui direto pro banheiro buscar motivo pro padre me mandar rezar. 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

INTERCÂMBIO.

      Eu nunca traí minhas namoradas.  Em contrapartida jamais alguma delas me traiu, até que a última me chamou pra conversar. Primeiro me apresentou Sophie, 18 anos, francesa, recém chegada para o programa de intercâmbio. Sophie se hospedaria na casa da minha garota que por conseguinte se hospedaria na casa dela, em Paris.  Enquanto Sophie lutava para entender a cultura da gente a minha focava nos estudos de cuja área escolheu pra trabalhar. Levei Shophie ao cinema, ao teatro, à praia e ao motel.  Não, no motel não. Brincadeira. Saíamos todas as noites, muito mais do que saí com minha gata.  Sophie fazia tudo para entender o que eu dizia e eu a pegava, apalpava e até fazia coisas que não devia para ajudá-la.  E a gente ria. Ria muito, até de mais. Beijos se eu dei não foram tantos, talvez nem ela soubesse quantos, mas sabe que me empenhei para fazê-la entender que precisava tomar cuidado com os rapazes bem e mau intencionados.  Por isso eu tocava em seu peitinho pra dizer que não permitisse que fizessem nela e quanto a isso então nem pensar, falava passando levemente a mão em suas coxas. E Sophie ria, ria de se engasgar  enquanto o sangue me fervia dentro das calças, digo, das veias.   Essa é a melhor lembrança que eu tenho dos meus 17 anos. Fiquei responsável pela francesinha durante o tempo que ficou com a gente enquanto a minha gata, de quem já nem me lembrava, se casava com um português que vivia em Nice mais tempo do que eu tinha de idade.  Hoje, sozinho com os meus botões, me lembro das meninas que fizeram parte da minha história. Tempo em que errar era possível para acertar mais tarde.  Eu acho que não errei tanto ou as garotas não teriam o que contar na roda de amigos ou nas páginas dos blogs que escrevem, como eu.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

E QUEM NÃO É?


                               
   
   Eu acho difícil encontrar diferença entre homem, supostamente, honrado e homem, supostamente, safado. O mesmo se dá com político, supostamente honesto e político, supostamente, desonesto. Tudo depende do momento e das oportunidades que aparecem.  Se o político honrado tem o poder de mover o mundo com uma canetada certamente ele o fará para o bem da população, mas quando um mau político senta a sua mesa e lhe pede um favor, certamente que a honra será deixada de lado, se ele souber que os privilégios que goza a sua família de uns tempos para cá é por conta dessa pessoa que ora lhe pede um favor. O mesmo acontece com o homem que se mantém honrado até que uma  belíssima e distinta senhora o cerca com sua graça e disposição para agradá-lo no que precisar e antes que ele responda como marido exemplar, eis que a fenda de um belo vestido vermelho deixa transparecer a metade das coxas roliças, bonitas e macias da bela mulher.  E quando o honesto político e o homem padrão se dão conta a vaca já foi pro brejo com sininho amarrado no pescoço e tudo.  Eu não estou advogando em causa própria por dois motivos: primeiro porque não sou advogado e depois porque a irmã da mulher do meu filho e todo o Brasil sabem que eu moro sozinho e vir a minha casa desacompanhada numa noite de chuva é o mesmo que pedir a Deus que a mate e ao Diabo que lhe carregue. Pois foi assim,  num passe de mágica, que eu deixei de ser um homem honrado para me tornar no cafajeste que vocês dizem que eu sou.
 – Oh, é você?, entre, fique à vontade.  Quem foi o maluco que te trouxe pra me visitar numa noite fria e chuvosa dessas, garota? Me diz,  enquanto pego a toalha pra você enxugar os cabelos.
 – Ninguém me trouxe. Eu queria conversar com alguém que não fosse o pessoal lá de casa, por isso tirei o carro e vim pra gente bater um papo.  Espero que você esteja sozinho, não quero atrapalhar.
 – Não, tudo bem.  Não tem ninguém aqui em casa, aliás, quase sempre eu estou sozinho. As vezes vendo televisão, lendo um livro ou escrevendo textos pro meu blog e se falo com alguém é pelo celular na maioria das vezes. Aceita um café? Em cinco minutos eu faço. Dizem que poucos sabem fazê-lo como eu.
 – Você não tem nada mais forte aí não?  Tenho medo de pegar uma gripe.
 – Ah, sim. Tenho vinho, cerveja e...
 – Uísque, vodca ou conhaque, você tem? Se não tiver, paciência. Eu tomo cerveja, mesmo...
(Ai vem essa turma maldosa e chama o político de safado.  Ah, vai se catar.)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

BENDITAS SACOLAS.

      
      O que minhas sacolas teriam a ver com a mulher, da minha idade, que não tirava os olhos das coitadinhas  em um ônibus, praticamente, vazio?  Nada, pelo menos eu achava. Pois como não tirava as butucas de cima da gente me vi obrigado perguntar se ela queria sentar-se com a gente. Sem responder a pergunta ajeitou-se num assento atrás do meu para, junto a minha orelha esquerda, me dizer; - o senhor sabe como é, né?, a gente que mora sozinha e já tem um pouco de idade vive se perguntando se deve ou não deve puxar conversa quando aparece alguém desacompanhado, assim como o senhor, pra passar o tempo. 
- Tudo bem, madame, é que eu achava que a senhora quisesse sentar no lugar onde estão as sacolas, só isso.  
- Bem que eu gostaria, mas aqui atrás está bom. A gente se fala do mesmo jeito.  Pena que não vejo os olhos quando o senhor fala comigo.  Adoro conversar com quem fala olhando nos olhos. Já o senhor vê os meus quando fala.  O senhor gosta de olhos azuis? Eu gosto dos olhos que tenho.  Mas, aqui entre nós: eu até que gostaria que o lugar estivesse desocupado porque assim a gente ia conversando e quem sabe, mais pra frente, a gente não se tornasse amigo, não é mesmo, moço? Pois é o que eu sonho, sabe? Penso muito em ter alguém com quem conversar porque já ando cheia de falar com a minha gatinha e com as plantinhas do vaso na minha janela e ninguém me responder.  Dá até pra pensar que não respondem porque não entendem o que eu falo ou eu que não escuto o que dizem.  Quando estou fora de casa falo com todo mundo, com conhecidos e com aqueles que acho que conheço. Faço isso porque a minha memória já não tem o brilho de antigamente e para eu me esquecer das pessoas não custa nada, por isso até pra manequim de porta de loja estou dando bom dia. (risos) Mas, vem cá. Eu acho que o senhor não me é estranho...  A propósito; eu vou saltar no próximo ponto e caso o senhor queira fazer uma surpresa pra essa velha, venha tomar um chá comigo hoje à noite. Eu faço uns biscoitinhos daqui, oh! Está vendo aquela casa rosa?, pois é lá que eu moro.  Toque a campainha e vai entrando que estarei te esperando.  Até logo. Ah,  meu nome é Florisbela, mas pode me chamar de Flor.   E o seu?...

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

DA COR DO MAR.

    Eis o porquê de a praia fazer bem à saúde e aos olhos da gente. Basta que o sol ponha a cara de fora pras duas aparecerem, de cerveja e refrigerante em punho, a brindar os passantes, os conhecidos e os amigos que têm. A mais velha, quer dizer, aquela que já tem idade pra beber por aí é a mais expansiva ao passo que a outra só ri, assentindo ou discordando. E assim vai o sol se arrastando preguiçoso pra dentro das águas gostosas do Arpoador. Aliás, praia que tem jovens de cabelo parafinado surfando cada qual sua onda.  Que tem quem caminhe na orla, arrisque braçadas para além da arrebentação e tem os que tomam cerveja sentado nas pedras ou em cadeiras rolantes para aplaudir a tristeza do sol, por se pôr, há de se crer que também é gostoso. Fora a certeza do bem que nos faz um sorriso bonito. Pois olhe que hoje, alguém muito especial me disse bom dia com um sorriso desse tamanho nos lábios. E o fez me encarando com aquele par de olhos verdes, ou seriam azuis?, que me deu até vontade de me jogar daqui de cima lá embaixo, dentro d'água, de tão feliz que fiquei. Se eu tivesse coragem a tomaria no colo e jogava sua cadeira na caçamba do lixo. 
   Eu, como poucos, sei me esquivar das bobagens que escuto  e acho graça das mais elaboradas, mas quando alguém, sem abrir a boca, se declara pra gente é motivo de festa, de fogos de artifício formar corações enquanto o da gente explode dentro do peito.  Falar com os olhos é algo de sensacional, de maravilhoso e isso se não fossem verdes, ou seriam azuis?, como os dela.
   Ontem um amigo, que eu não via faz tempo, me apresentou à realeza. Ela me ofereceu uma cerveja e refrigerante pra esse amigo que deixou de beber. E ficamos ali a esperar o sol que até veio antes, me parece, enquanto o mar, feito criança, provocava as pedras e saía correndo.  Só a mais alta deu por esse detalhe já que a menor abduzira-se com o celular, mesmo estando ao lado da gente.  A mais bonita, se é que isso é possível, divagava entre o azul do céu, o branco dos barcos, das gaivotas e o verde piscina do mar. E o fazia com olhar azulado, ou seria esverdeado? Ou seriam azuis? Ninguém perguntou se alguém era casado ou casada. Se morava perto ou distante e se trabalhava, estava de férias no Rio ou não. Não. Ninguém ousou perguntar. E eu me refestelando com o sorriso que me dera. Eu não sabia que um dia alguma mulher fosse abalar as estruturas de um cara do meu tamanho como essa, com quem sonhei essa noite, me abalou. Quando tentei falar-lhe a respeito ela colocou um dedo na minha boca e disse que havia sonhado comigo. E disse me olhando com aqueles olhos que não me refletiam de volta como muitos faziam, mas me deixavam enxergar no fundo deles a beleza de sua alma.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

ÁRDUO OFÍCIO.

       O cara não perguntou dos problema que me levaram a ele, preferiu que eu falasse tudo de mim. Que fosse sincero e nada escondesse. Apontou-me uma poltrona enquanto sentava em outra à um metro e meio da minha. Quando me disse pra não esconder nada eu confesso ter ficado um  pouco assustado já que não o tinha procurado pra dar satisfação das coisas que fiz e sim tratar um pequeno desvio.  Então eu cocei a cabeça, esfreguei a palma das mãos na cara, pigarreei e, falei.  Falei como não pensei que fosse capaz, principalmente para um estranho, ou teria sido porque ninguém me interrompia? E ele ali, acomodado naquela poltrona sem riscar um friso que fosse na testa, ao passo que eu, enquanto falava tentava cortar um naco da madeira do braço da poltrona com as unhas. 
E o cara na dele... Foi quando percebi que, falar como eu estava falando, me aproximou de um passado há muito arquivado na minha memória.  Aí  foi que desandei a falar e o fiz por exatos 60 minutos e não fosse o sujeito, aquele que me indicou a poltrona e me fez soltar a língua,  me dar a mão e me levar à porta e eu acho que ainda estaria falando de coisas das quais nem me lembrava.  Na porta me disse até quarta, ou seja, a próxima sessão seria à dois dias.  Foi maravilhoso aquele resto de tarde e no dia seguinte ainda muito melhor.  Não saberia dizer melhor do quê eu estava me sentindo, mas que eu estava mais leve e muito mais feliz, com certeza estava. Ontem, pela 5ª vez me sentei a sua frente e só calei depois de ter dito coisas que se fosse à polícia ela me prendia, mas continuei sem medo do que tinha falado enquanto ele, caladão como sempre, parece não ter percebido o mea-culpa ou um friso teria surgido em sua testa.  Falar junto aquela pessoa me dava um prazer tão danado que nem a fortuna que pagava pra ele me dizer bom dia, quando eu entrava, e até quarta, quando eu ia embora, me incomodava. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

ABRA O OLHO...


   Uma pessoa das nossas relações deixou bem claro quando disse num texto dela que o melhor que se pode ter de alguém interessante não é poder tocar uma parte, qualquer parte, do corpo dela, mas a graça de  poder espreitá-la através de uma porta entreaberta por onde uma nesga de luz permitisse mostrá-lo.   Aí é que eu me pergunto; o que eu faria se tivesse o poder de decidir pelos outros? Será que eu tomava a decisão que a escritora disse que gostaria ou invadia o recinto com a minha virilidade em riste para mostrar o tamanho e a beleza da peça? Nesse caso correria o risco de ser agarrado e trancafiado num xadrez ou, sei lá, poderia até ser convidado para uma noite de amor com ela.  Nunca se sabe o que uma mulher poderia fazer vendo um bicho, como o meu, pulando na sua frente. Eu também já olhei através do buracos  de fechadura, mas se o fiz foi sabendo que a pessoa que estava do outro lado jamais me deixaria tocá-la.  Por isso, achando que espioná-la fosse o mesmo que subir o primeiro degrau de uma escadaria, optei por subi-lo.  Já corri riscos  escalando telhados e árvores (na minha casa havia algumas) para olhar a vizinha ou qualquer rabo de saia que se fechasse num quarto pra se trocar ou tomar banho e como diz minha amiga blogueira olhar a intimidade dos outros  tem um misto de prazer e pecado e não importa se invadimos ou não a  privacidade de alguém. Agora, não sejamos hipócritas falando que olhar o corpo nu e gostoso da pessoa que sonhamos ter em nossa cama não seja qualquer coisa de maravilhoso. 
Quando eu tinha 14 anos Deus levou a mulher do irmão da minha mãe pra morar com ele, por isso eu posso dizer que depois que ela se certificou de que eu estava dormindo, num colchonete ao pé de sua cama, minha tia trocou a calcinha ali, à meio metro dos meus olhos gulosos. Naquele dia eu levantei cedo para ficar mais tempo no banheiro sonhando com ela.

sábado, 11 de janeiro de 2020

BAIXA PRESSÃO.

    
    Caso a Celeste, viúva de um amigo morto há dois anos, fosse decente, não forçaria o noivo, que não aguenta bebida, a beber o que a gente bebeu. E por conhecê-la do jeito que a conheço, aceitei passar o réveillon na companhia de quem, na semana seguinte, viajaria em lua de mel. E assim encaramos o litro de uísque que eu tinha levado e as cervejas que ela, eu e o cara derrubamos. Quando vi Celeste misturando uísque na minha cerveja eu tive certeza do caráter que tinha. Queria me embriagar para, sei lá o que ela ganharia com isso. E só por curiosidade, pra ver até onde a maldade é capaz de chegar eu decidi  ajudá-la acelerando o processo. Comecei falando meio enrolado e a rir sem motivo. Entornei um copo de cerveja e fingi querer dormir debruçado na mesa. Embora estivesse sóbrio e muito melhor do que eles, deixei que me levassem, aos tropeços e escorregões até o sofá no canto da sala de onde eu via e ouvia o que faziam no quarto. O cara devia estar muito mal pra ela correr do quarto pra cozinha, da cozinha pro banheiro sussurrando palavras tipo oração, mas certeza, certeza eu não tinha.  Preocupado fui ver se precisavam de ajuda. O cara estava muito mal e se eu não o tivesse arrastado até o Hospital, onde ficou em observação, o cara teria morrido.
  Vocês podem voltar pra suas casas que a gente liga quando o Dr. lhe der alta  –  disse a enfermeira entre os dentes.
Voltamos, mas achamos por bem conversar um pouco no carro. Ela me questionando quanto a súbita melhora da bebedeira e eu tentando enrolá-la do jeito que dava.  Era madrugada quando decidi ir embora. Ela, talvez por gratidão, tomou as chaves do carro, olhou na minha cara e falou que qualquer oficial na lei seca saberia que eu tinha bebido.  Eram 10 da manhã quando ligaram para avisar que o sujeito estava de alta. Assim que chegamos ele me deu um abraço. Um forte abraço como se visse nas olheiras da gente o cansaço de quem passou a noite inteira rezando nos corredores  frios de um hospital.
 Ufa, que susto!

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

OBRA DO ALÉM.


   Vendi a motocicleta que me deram de aniversário. Quer dizer, dei de entrada num carro pra fazer Uber. Cinco dias trabalhando eu recebi um chamado pra pegar um cara lá pras bandas do cemitério.  Lugar onde um amigo morreu porque o casaco ficou preso na cruz,  mas como era dia eu fui. Peguei a mala pesada do passageiro e enfiei dentro do carro e sem pensar no amigo com o casaco preso na cruz eu dei partida no carro e vazei. Sumi daquele lugar. Depois de ter feito a maior parte do trajeto resolvi puxar papo, mas como ninguém me respondeu eu olhei para trás e vi que ele tinha sumido. Ninguém estava mais ali. Só eu. Meu Deus do céu, seria uma alma penada! Fiquei mais arrepiado quando lembrei do amigo morto com o casaco preso numa cruz dentro do cemitério. O meu desespero só acabou quando o celular tocou e minha chefe me perguntou se eu estava maluco. Embarquei a mala, mas não embarquei o passageiro...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

A PONTE.

 
     Eu sei que 2019 foi bom, mas nada posso dizer de 2020 embora a ponte que me levou de um ano para o outro fosse maravilhosa. Principalmente depois do convite de um amigo pra passar o natal na casa deles. Sabe aquela mulher por quem passei o ano me arrastando? Pois ela me apareceu no meio da festa com um sorriso desse tamanho assim pro meu lado, mas tão bonito ele era que achei que não fosse pra mim. Gente, ela me deu um sorriso e eu, claro, sorri de volta e até daria a barriga pra coçar se ela quisesse e como eu não sabia que ela estaria no pedaço acabei enchendo a cara. Bebi o suficiente pro Diabo, aquele que me atentou o ano inteiro, enfiar a coleira no meu pescoço e dar pra ela puxar. Mas agora já era. Depois que a vi se esgueirando pro meu lado eu pirei de verdade. Sim, eu pirei porque chegou me dando beijinhos como se fôssemos velhos amigos. Logo ela que jamais olhou nas fuças de quem lhe deu todas as chances do mundo inclusive a chance pra me mandar pastar ou quem sabe dar um passa fora como se faz com cachorro. Agora me chega assim, do nada, só para acender meu pavio. Essa mulher, que nunca se importou com a minha presença, como falei em textos recentes, ora me presenteia não só com a companhia como com esse sorriso que eu nem sabia ser tão bonito.  Fora essa voz de gata passando o rabo na perna da gente e os seios durinhos que eu lambi com os olhos através do decote do seu longo de seda.  E eu babando como idiota com aquela boca gostosa pertinho da minha. Boca que muitas vezes beijei nos meus sonhos.
 Aqui está muito barulhento  ela disse  e nem ouvi-lo direito eu consigo. Que tal à varanda pra gente falar e se ouvir melhor  concluiu.
 Hem!, o que você disse? Ah, meu Deus! Se alguém me beliscar eu juro que meto a mão na cara  pensei.
Ela se levantou me arrastando pela coleira até a varanda quando eu pensei que seria beijado na boca porque falava com o nariz encostado no meu até que um baixinho barrigudo me olhou de cara feia e aos beijos vazou de carro sabe Deus pra onde. Só me restou voltar pra minha concha pra continuar sonhando o que a minha sorte me nega.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

ALTAS ONDAS.


     Meu amigo de surf caiu de uma onda tão grande que a prancha com a qual cavalgava  a bandida partiu quebrando-lhe o fêmur. Naquele momento de dor e tristeza teria confessado à reportagem que ia parar com o esporte, que nunca mais surfaria onda nenhuma. Na quinta-feria seguinte fui visitá-lo e tão logo o cara me viu foi gritando:
 – Aí, brô. Num adianta vim me contar história não porque nem tu, nem ninguém me tira da decisão que tomei, falô? Tu num faz ideia do que eu tô sentindo...
Foi o bastante para  que eu lhe desse um esporro, até porque a pessoa que teve o vento esparramando cabelo na cara enquanto trepa uma prancha, jamais esquece os mares que singrou à exaustão para encontrar umas ondas, muitas vezes desconhecidas e traiçoeiras que o levassem aos prazeres que só o mar e uma tábua lixada sob os pés de um cara corajoso como ele, puderam lhe dar. A euforia de surfar em pleno contato com a natureza não se esquece assim tão de repente ou o surfista não sonharia quando seus pés tocam as dobrinhas do carpete da sala ou quando vê as marolinhas de uma represa ou também não se arrepiaria no momento em que olhasse as curvas de uma palmeira 
na orla da praia. 
Portanto, Brô, como gostas de chamas aqueles que surfam contigo, não me venhas com chorumela porque eu aceito qualquer coisa como Ex. Mas ex-surfista, meu camarada... Jamais.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

COBRA CRIADA.


     
    Eu sei que não devia me meter, mas como calar quando um amigo vem chorar no ombro da gente? Se ele não me puxasse as orelhas eu diria que desde outubro o pobre diabo vem perguntando se os amigos, aqueles que juram amizade, vem ou não passar as festas de fim de ano com ele, como há 12 anos.  Mas como nada disseram o pobre ficou achando que a qualquer momento apareceriam na porta dele como gostavam de fazer, mas quá. A tristeza da pessoa não é por não responderem quando perguntado, mas pela falta de respeito para com quem impediu filhos e outros amigos de vir abraçá-lo por sua casa não comportar tanta gente. O natal ele passou sozinho, mas, quanto  aos fogos, estes verá espocando lá embaixo pela janela.  
Se eu pudesse dizer alguma coisa eu diria que sou partidário da vaia que faz do teatro o que dele se espera, mas não da indiferença, do silêncio.   Não existe prisão maior do que isso.  A meu jeito de ver foi ingratidão com quem ficou, até poucas horas, como um cão esperando o  dono que morreu sem que ele soubesse.  Esse tipo de gente, coitada, nem com o passar dos anos prova ser o que diz.  Que pena.  Dá pena porque o chorão deixou de fazer reservas pra viajar com família, mas, agora já era.  Eu, daqui do alto da serra, lamento por ele e antes que me culpem por fazer publica suas lamúrias, peço perdão. Vou encerrar dizendo que com o tempo o criador de serpente se torna amigo dos bichos, mas não conheço nenhum que saísse delas ileso.
Feliz ano novo.

sábado, 28 de dezembro de 2019

CRUZES!!!I.

   

      Tem gente que tem medo de alma do outro mundo.  Eu também tenho e passar em frente a um cemitério  nem pensar, muito menos à noite.  No meu aniversário uns amigos quiseram realizar um dos meus sonhos por isso se juntaram e compraram uma moto usada para me dar de presente.  Mas como nada  nos é dado de mão beijada, eu teria de ir a um cemitério, por volta da meia noite, pra fazer uma foto pra comprovar.  Eu queria muito aquela moto, só celular eu não tinha pra fazer a bendita foto. Daí eu ter convidado um amigo, medroso igual a mim, para fazê-la. Na hora que disparou o flash eu disparei atrás dele, não do amigo, mas do flash, porque o amigo nem saiu do lugar gritando;  me larga!  Me larga! Me larga!  Eu só parei quando cheguei em casa e só  no outro dia fiquei sabendo que o amigo tinha morrido por achar que seguravam o casaco dele, quando na verdade tinha agarrado numa das cruzes das sepulturas...
Ufa!, que susto.