segunda-feira, 23 de novembro de 2020

PRETA OU BRANCA, QUAL A MELHOR?

 

    Antes que a semana terminasse, um funcionário,   admitido numa loja de departamento no mais importante shopping do Rio de Janeiro, já demonstrara ser bastante eficiente no que lhe davam a fazer.  Celso chegava cedo e saía depois de todo mundo.  Dava a entender que muito cedo assumiria um lugar de destaque na sua carreira.  Suas ideias e empreendimento faziam a diferença.  Durante seis meses foi o “funcionário padrão”.  Em um ano já era uma das mais expressivas figuras do shopping e em menos de dois, gerente. A loja bombava e todos se beneficiavam do resultado até que um casal, que negociava a compra de um aparelho de ar condicionado, foi levado à gerência para discutir um desconto maior.  Quando viu que o gerente era um negro que se levantou com a mão estendida e sorrindo pra ele o marido falou para a mulher que se arrependera da compra e queria ir embora.  Pediu desculpas a funcionaria e saíram. Celso o alcançou ainda dentro da loja e pediu que voltasse para conversar e se o problema fosse o preço discutiriam o assunto. 
– A partir desse momento sou eu quem vai atendê-los – disse o gerente sorrindo.  O homem olhou para a funcionária e perguntou o que teria acontecido para um shopping tão importante permitir que um negro assumisse  função tão relevante,  porque negro, na concepção dele,  no máximo consegue vaga de vigia ou  de zelador num lugar como aquele. Falando em voz alta o casal virou de costas e foi embora. Celso não resistiu e pela primeira vez chorou diante a presença de todos, não pela ofensa feita a sua pessoa ou por vergonha, mas por perceber  que faz tempo o ser humano já vem caminhando  a passos largos por esse perigoso caminho.  
No dia seguinte  os  gerentes do Shopping, todos, o aguardavam no estacionamento segurando cartazes que diziam; – Celso, estamos com você, meu irmão! 
Celso tirou o mundo de suas costas e seguiu para a loja onde os  funcionários esperavam por ele gritando seu nome e cada um com um cartaz onde se lia:  “Antes de você nunca os resultados  da loja nos fizeram tão bem. Obrigado Celso!”

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

SABOR DA BALA

    

    Marcinha ficou sabendo que Mendonça, parceiro que a Academia designou para substituir o detetive Cajado, morto numa incursão, era gente boa, mas só não sabia que além de solteiro era alto, forte e muito, mas muito bonito como constatou quando o marido o levou para jantar com eles.
– Gostei que o tivesse trazido pra jantar – disse Marcinha ao marido ao fechar à porta atrás de si – ele é muito mais agradável do que o falecido Cajado e como conversa bem. Fiquei impressionada.  Pode trazê-lo outras vezes se você quiser.  A propósito, porque não o convida para o churrasco que a gente faz na casa de praia se é tão bacana como demonstrou?
  Peçanha achava que vinha fazer dupla com um maluco que só perdeu o parceiro por sair dando tiro  para todos os lados como disseram, mas estava enganado.  O cara foi morto por imprudência e não por outra razão. Fazer dupla com um policial linha dura era de se ter medo, mas esse, quando tirava a farda, era doce e gentil e ainda por cima  casado com uma mulher tão interessante que até ele, para estar ao lado dela, sairia dando tiros a esmo se fosse preciso.
- Eu gostaria de agradecer o jantar dizendo que depois da minha mãe ninguém deu sabor às receitas tão bem quanto a senhora – Disse com um par de olhos verdes cravados nela que corada, pediu licença e saiu pra cozinha.   O marido levantou o copo e brindou o amigo – Que este seja um dos muitos momentos bons que passaremos juntos.
O jantar rendeu assunto pra muitas conversas entre marido e mulher e num certo momento ela falou ao marido: – Por que não convidá-lo para o churrasco na casa de praia nesse fim de semana?
 A cada encontro a amizade se tornava mais forte, até que surgiu um novo convite;  romper o ano com eles já que Mendonça morava sozinho, mas o rapaz declinou o convite.
– Eu gostaria muito e nem sei como dizer isso, mas não posso aceitar.   Não posso porque esta é a primeira vez que vocês rompem o ano juntos e não vou atrapalhar a lua de mel de vocês – disse com uma certa tristeza.  Mendonça mentiu quando recusou o convite.  É claro que ele queria estar com os dois, pois assim estaria perto da mulher que mexia tanto com os seus sentimentos, mas como mulher de polícia tem gosto de chumbo decidiu ficar longe o máximo que pudesse aguentar, mas não demorou para que o procurassem.
– Quem é? – disse para quem não tirava o dedo da campainha.
– Sou eu, Marcinha,  já esqueceu?  – Mendonça ficou mudo.  Abriu a porta e ela entrou  como se conhecesse o lugar.
– Por que não foi mais lá em casa. A gente também sente saudade, sabia? – Perguntou arrumando o casaco no espaldar da cadeira.  Mendonça, ainda sem fala, fechou a porta, empurrando com o pé e a levou pra cozinha.  Abriu uma cerveja e antes do primeiro gole o celular tocou –  Era o dela, que se desculpou e disse ao desligar –  É meu marido, eu tenho que ir.  Deu um beijo na face e falou antes que a porta fosse fechada – Me espere amanhã que eu volto para terminar a cerveja.  – Foi embora, mas não levou o  casaco.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

TENTE OUTRA VEZ.

    

     Você precisa parar de me seguir porque meu marido já anda desconfiado e se ele me perguntar por que fico nervosa quando preciso ir à rua eu acabo falando e se eu o conheço bem ele não vai quebrar sua cara, mas vai denunciá-lo à polícia. Ah, isso eu sei que ele vai. Já ouviu falar em assédio? Então, cara. Para com isso.  Não estrague sua vida em troca de um caso que você sabe que não vai rolar. Não vou me tornar alvo para os  vizinhos ficarem me apontando e o meu marido, coitado,  não merece que eu faça uma sacanagem dessas com ele.  Está certo que o seu coração não tem nada com isso e talvez nem saiba o que esteja fazendo, mas sua cabeça sabe e não vai dar esse mole.  Eu até vou lhe dar dar um conselho e só o faço porque gosto muito da sua mãe.  –  Por que você não procura alguém da sua idade, alguém com a sua cultura, bonita e que o ame como você diz me amar? Não deve ser tão difícil assim até porque não sou tão maravilhosa assim, como diz.  Eu, além de ter idade pra ser sua mãe, sou casada com uma pessoa muito, mas muito ciumenta mesmo.  Agora, se você acha que consegue calar essa boca quando me vir na janela,  não fazer gracinha quando passar por mim eu já me dou por feliz, mas, se insistir nessa coisa eu acabo pedindo ao meu marido pra gente mudar desse bairro. Aliás, já fiz isso, mas no momento não dá.  A multa da rescisão do contrato está fora do nosso alcance.   Seria bom porque você, livre de mim, arranjaria uma namorada, casaria com ela, teria seus filhos e me deixaria em paz.  Talvez seja difícil esquecer alguém que me diz ter um amor tão grande, mas vou arriscar.  Vou arriscar, mas também vou dizer que se eu não fosse casada teria um imenso prazer em sair com você e nem me importaria pra onde você me levasse, mas infelizmente...
 Qualquer mulher gostaria de poder acordar com um cara grandão, atlético, inteligente e bonito como você ao lado dela.  
Eu gostaria, mas não posso, a não ser que façamos o seguinte, vê se você concorda; a gente sai uma vez, mas só uma ou nada feito.  Vamos para um lugar onde ninguém nos conheça,  bebemos qualquer coisa, conversamos um pouco e se tiver clima a gente dança, porque eu gosto de dançar.  Só tem um problema: nunca mais você me procure, nem pra me dar dinheiro, entendeu? 
Então tá combinado.  Amanhã meu marido vai trabalhar um pouco mais tarde.  Meia hora depois eu desço, te pego na garagem e aí a gente decide onde passar o resto do dia.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

INCONSEQUENTE

 
    Tem gente que faz coisas inacreditáveis quando bebe. No meio do ataque de um vírus que matou muita gente por volta de 2020, meu filho, na época com 21 anos e desempregado por conta da pandemia abusou da bebida com os amigos.  Na volta pra casa colocou no meu carro, que pegou emprestado, uma mulher e uma criança de colo que pediam dinheiro para comer.
– Pai, eu gastei no bar o  que daria pra sustentar essas pessoas durante uns dois dias, mas como o dinheiro acabou eu as trouxe para um banho, o almoço e se o senhor não brigar comigo elas ficam para o jantar.  Depois as levo de volta como falei para ela. Eu fiquei olhando pra cara de quem podia ter quebrado uma garrafa e matado alguém numa briga e, no entanto estava ali, olhando pra mim com cara de salvador da pátria àquela hora da noite.  O que eles poderiam fazer antes do almoço seria jantar, dormir e tomar o café da manhã e não ao contrário como dissera e o pior é que trouxe pra casa gente que nunca vimos na vida.  
– Tudo bem, meu filho.  Faça do jeito que vocês combinaram. E eles fizeram.  Meu filho comeu qualquer coisa e foi se deitar.  A moça fez o mesmo, mas num sofá no canto da sala indicado por mim. No momento eu até pensei em ceder o meu quarto, mas achei melhor não. E naquele sofá, mãe e filha,  passaram o resto da noite.  
Pela manhã o cheiro do café fresco me acordou. Foi quando percebi que a moça já não dormia onde a deixei na noite passada, até pensei que estivesse no quarto com meu filho, mas não, não estava, mas e o cheiro do café, quem o estaria fazendo? Era ela.  A bagunça da noite passada fora desfeita, a louça lavada e a máquina batia o monte de roupa suja que havia no cesto.  Depois que minha mulher voltou a morar com a mãe por conta da doença da velha, aquela foi a primeira vez que alguém fez alguma coisa de bom lá em casa.  Meio dia e meia meu filho acordou.  Tomou um banho e sentou-se para almoçar.  A moça, que também tinha feito a comida, nos olhava com olhos de "chef" a espera dos elogios. E eu elogiei, não para deixá-la contente como ficou,  mas pelo sabor que dera à comida. Pelas nossas contas faltava pouco para irem embora. Restava o lanche da tarde e a janta. Á noite, pelo que constava, passaríamos os dois, eu e o filho, sozinhos, mas não foi o que a sorte nos reservou.  Lanchamos e jantamos o cardápio da moça que nada dizia se não fosse perguntado. A casa continua limpa e cuidada como nos primeiros dias do meu casamento e enquanto a filha da protegida do meu filho crescia, eu ficava mais velho.  Meu filho, que passou a dormir no sofá do canto da sala por ter dado seu quarto para elas, voltou a trabalhar. O tempo passou e hoje, dia três de novembro de 2046 nós quatro, depois dos drinques, vários, que tomamos pela colação de grau da filha da moça,  voltamos a casa trocando as pernas.  Isso mesmo, aquela criança que chegou no colo da mãe depois do meu filho ter enchido a cara com os amigos, lembra? Pois é.  Era ela quem se formava em medicina e por conta disso e pelas consequências de um porre que o meu filho tomou há tantos anos que saí do táxi, com todo mundo rindo da minha cara pelas bobagens que eu continuava falando, para beber com eles o resto da festa.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

O VÍRUS

      

      Antes do coronavírus nos deixar maluco a minha avó já falava sozinha.  Ultimamente a velha vem dando palestra e quando me pega rindo diz que eu sou implicante. – Mas como implicante, vovó, se você fala com quem ninguém vê?!   Vovó fecha a cara, pega a vassoura e me põe pra correr.  
Eu ainda vou descobrir com quem vovó bate boca quando está sozinha, mas pelo que vejo, nem mesmo ela sabe.  Nessas horas meu avô, rindo, gira o dedo na altura da cabeça como quem diz; "maluquice de sua avó, coisa da idade".  Esse negócio da mulher ficar presa com um monte de gente falando no ouvido dela dá nisso.  O homem, esse fica numa boa, mas a mulher... não.  A mulher tem afazeres, e não importa se é domingo ou feriado que ela cai dentro.  Arruma a casa enquanto a turma toma café. Depois vem o almoço e as louças para cuidar. À tarde tem o lanche e a noite o jantar para fazer.  Tudo a tempo e a hora  enquanto os outros se refestelam aos pés da TV. Isso quando não estão  implicando comigo,  como diz a bondosa senhora.  Agora me pergunta se alguém se oferece para lavar um prato, varrer a casa ou tirar à mesa depois de comer, pergunta!  Claro que não e se pergunta é por perguntar ou para atrapalhar quem levanta cedo, faz tudo o que é pra fazer e na hora de dormir muitas vezes o cansaço não deixa.
Esse coronavírus está nos deixando neuróticos. Ontem, no consultório médico uma amiga me disse que o cara que estava sentado ao seu lado teve um acesso de tosse. No mesmo momento um velho, do outro lado da sala,  soltou um baita de um pum.  Me pergunta pra que lado eu corri?   Disse ela.   Pro lado do velho, ora bolas.  Pro lado do flatulento.  É melhor sentir cheiro de podre do que perder o olfato, não é mesmo?   Concluiu ela, sorrindo. 
 Espero que a pandemia passe logo pra gente não pegar o bendito do vírus quando for à caixa pra ver se o auxílio social caiu na conta. Não é nada, não é nada, são 600 reais.  Quer dizer, 110 dólares que o governo, tão generoso, nos dá pra passar o mês inteirinho.  Pena que tenhamos de dormir na fila pra receber u'a senha que dará direito a sacar os trocados. Eu queria muito que tudo mudasse logo depois.  Não que mudasse para a melhor, mas que mudasse de maneira que as gerações futuras pudessem saber que os profissionais da medicina fizeram o que puderam pra salvar minha vida, com o risco da sua e de suas famílias.  Eu espero que a partir daí tudo fique como foi feito para ser e não é.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

RETRATAÇÃO

      

           Tem coisa que a gente não conta nem no confessório do papa, mas tem vez que a boca seca, o peito aperta e a gente acaba falando. Foi o que aconteceu comigo, mas só falei porque estava muito feliz.  Estava tão feliz com aquela gente ao meu lado que acabei dando com a língua nos dentes.  Na hora eu nem me dei conta que o pai era um dos melhores leitores que eu tenho, daqueles que mandam zap quando o texto demora pra ser publicado.  E não é só comigo que age dessa maneira, mas também com os amigos do filho quando atrasam suas postagens.  Não foi à toa que ficou uma arara lendo o que eu escrevi sobre a ida a casa deles. Eu sei que ele está querendo que eu me retrate, mas sinto muito porque não vai dar.  Não vai dar e eu explico porque.  Foi na visita ao sítio de um velho amigo onde tudo aconteceu, e se melhorar a dor da ferida eu posso assegurar que nem foi comigo que aconteceu, mas com uma pessoa de quem me dou o direito de não dizer o nome. Os meus textos têm por princípio fazer rir ou corar seus leitores e não deixá-los envergonhados como estou no momento.  Não posso e não vou pedir desculpa a ninguém, aliás, vou até reclamar pela demora de um novo convite para visitá-los de novo. O lugar é maravilhoso. Um lugar onde o ar é puro e agradável. Agradável como são as pessoas que moram lá.  Pessoas que nos tratam como parte de sua família, que nos mostram o que é melhor de se ver e nos propiciam o que de melhor têm pra fazer.  Lá eu passei os melhores três dias da minha vida e principalmente as noites em que ficamos até tarde contando e ouvindo casos.  Casos engraçados e não comentários sobre a vida de quem quer que seja.  Eu ri muito e também fiz rir aqueles que talvez nem rir como riram tem rido ultimamente.  Dormi naquela casa os melhores sonos e até sonhei com fadas de mãos macias e querubins sem pecado e sem juízo.  Antes dessa viagem eu não tinha recebido presente tão valoroso como recebi do meu amigo.  Sim porque o convite feito a mim não foi nada mais, nada menos que um lindo e generoso presente dado por uma pessoa que largou sua casa, seu pai e sua mãe e foi se arriscar numa cidade enorme com o propósito de se formar, como se formou.  Quando eu soube que ele não tinha onde ficar ofereci as dependência da minha casa onde ficou o tempo suficiente para se graduar.  Portanto, meu amigo, caso você decida ler este texto ficará sabendo que não será um simples conto da carochinha que vai ditar o fim da nossa amizade, assim como não deixará que seu pai, que me honra lendo meus textos, vire as costas pra gente. Eu fui infeliz quando deixei de dizer que tudo não passou de um sonho.  Um sonho do qual no dia seguinte eu acordei.  Acordei ouvindo os passarinhos cantar no pé de amora na minha janela.  Isso sim, é real, porque o resto, ah, o resto não passou de minha mais pura invenção.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

SABE TUDO

 

     Pouco tempo ou quase nenhum eu tenho estado com meus netos o que muito me entristece mesmo sabendo que sou totalmente diferente do meu avô que me punha nos seus joelhos para contar histórias, coisa que eu não faço porque eu é que me presto a ouvir os netos contarem as suas. Quando eu tinha a idade deles meu avô me dizia coisas que me arrepiavam os cabelos. Eu ficava com os olhos esbugalhados ouvindo o que ele me contava e já pensando que talvez nem dormisse naquela noite se a história não tivesse um final feliz.  Graças a Deus todas ou a maioria terminava com a criança subindo num galho para escapar à fúria do galo que, por desprezo da galinha pintadinha, corria atrás das crianças pra se vingar.  Isso quando um anjo bom não espantava a mula sem cabeça que vinha procurar seu chapéu no quarto da gente, como vovô tão bem me contava.  Essas histórias me causavam medo e apreensão, mesmo assim eu gostava de ouvi-lo contar, mas meus netos, talvez pelo pouco tempo que ficamos juntos, não se espantam com nada que eu venha a dizer, enquanto eu, ah... eu  morro de rir com o jeito com que contam seus casos, já que saltam, pulam, se jogam e rolam no chão ilustrando as histórias que contam.Eles são tão engraçados que as vezes meu maxilar dói de tanto que rio.  Eu, na idade deles, me sentava nos joelhos do meu saudoso vovô para ouvi-lo contar mais uma e caso medo eu sentisse me agarrava ao seu pescoço enquanto ele sorrindo dava outro andamento à história.  Meus netos não.  Esses se preocupam mais com os gestos, as caras e bocas que fazem contanto suas peripécias do que em ouvir o que talvez eu tivesse para lhes contar, e por pior que possa parecer, eu me borro de rir com a ênfase que dão ao que dizem.  Eu acho que não levo jeito pra ser avô porque o meu criava situações que me deixavam pensar que eu era um garoto prodígio e não aquele bobo que muitas vezes minhas irmãs me chamaram.  Eu, só para dar uma ideia, roubo dos meus netos quando jogo damas, xadrez ou cartas.  Não roubo para desmerecê-los ou dizer que sou melhor do que eles, mas para que entendam que são filhos e netos de um cara que nasceu para ganhar, para vencer no jogo e na vida.  O meu analista me diz que isso não é problema porque problema seria se eu fosse criança e quisesse, com isso, provar que não era. (Que vergonha, meu Deus!)  Crianças, perdoem o vovô, vai!


segunda-feira, 5 de outubro de 2020

UM RIO, UM CIGARRO E, NÓS DOIS.

 

     O sol sumia atrás do morro.  A brisa fresca já varria a pracinha quando ela pousou a procura do que comer. Infelizmente, por falta de chuva, talvez o rio nada tivesse a lhe oferecer.  Um senhor de chapéu de aba larga acomodou-se na outra extremidade do banco  e como não dissesse nada deu-me a impressão de que, para ele, ninguém mais estava ali, além dele.  Com o rabo do olho percebi que tirara o chapéu e o punha no colo. Tirou um cigarro do maço e o acendeu na brasa de um isqueiro de corda. Em seguida aspirou profundamente a fumaça que assoprou as golfadas para o alto. Bateu a cinza, olhou a brasa e sem se virar perguntou se eu morava ali perto.  Diante da negativa o idoso começou a falar.  Primeiro dizendo que os filhos não tinham vingado como ele queria.  Reclamou da mulher que ele dizia ser cúmplice dos filhos e por fim desandou a falar mal do governo.  Não do atual, mas de todos.  Disse que era filho de imigrante, que trabalhou mais do que talvez fosse necessário para ser promovido a um cargo melhor e não foi ao passo que político, depois de quatro anos de mandato, fazendo ou não fazendo algo que prestasse, se aposenta com todos os direitos, quer dizer, com direito ao que verdadeiramente não teria direito algum se o país fosse sério, disse-me ele.  Eu assentia com leves movimentos de cabeça a tudo o que o velho dizia enquanto assoprava a fumaça, ora para o alto, ora envolvendo as palavras que me dizia. Disse que o povo, em contrapartida, sonegava impostos e  fraudava, quando dava, tudo o que podia.  Na minha terra é que era bom, como dizia meu pai, mas precisamos fugir por conta da guerra.  Infelizmente viemos para um lugar onde a guerra também é grande e a fome ainda maior. Infelizmente meu pai escolheu a terra errada e nos trouxe pra ela. Durante meia hora ouvi  as lamúrias de alguém que além de um leve sorriso nada mais teve de mim que o incentivasse a continuar protestando. Esmagou a bituca de cigarro embaixo do tênis, ajeitou o chapéu na cabeça  e se levantou.  Olhou para o céu ainda a tempo de ver a garça voando pra casa.   Cuspiu o amargo que o fumo lhe deixara e sem  despedir-se voltou pelo mesmo caminho sem se dar conta que falou por tanto tempo com um burro, ou quem sabe, com um gênio que como ele passava por ali simplesmente.  É pena que esse tipo de gente habite o mesmo mundo  que os esperançosos lutam para melhorar, para que deixe, definitivamente, de ser um terreno baldio.  Aquele em que nada floresce quando se planta e nada se come se por ventura florescer.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

A DONA DA FESTA

     

         O homem é um bicho muito engraçado, disse pra si mesma.  O amigo do meu pai, por exemplo, corre atrás da minha convidada ao invés de me lamber os pés como vivia prometendo caso lhe desse um dedinho que fosse de prosa. É claro que a festa era um pretexto para trazê-lo aqui para casa e mesmo sabendo que o plantão no hospital o impossibilitaria de vir eu pedi ao meu pai que o convidasse para me dar um abraço, pelo menos.  Eu precisava saber por que as garotas falavam maravilhas a seu respeito.  E ele veio. Veio pra correr atrás da vagabunda na primeira oportunidade, e o pior é que levou meu champanhe pra brindar sei lá o quê.  Mas,  por que à garagem se tinha espaço aqui para conversar? Sim, porque foi lá que encontrei a garrafa e as taças num canto. Será que rolou algo mais e só eu não fiquei sabendo?  Bem feito pra mim se rolou, quem mandou bancar a gostosa.  Agora é ele quem me esnoba com aquele olhar, irresistível, de cafajeste.  Quer dizer, irresistível pra outras, porque eu não estou nem aí, para ele.  Ou será que estou? Mas, gente, pensa comigo; não é por  ser um cara lindo e experiente que eu ia me jogar de joelhos.  Já chega o que falam de mim por aí.  A droga é que ninguém consegue esperar e se a gente não dá na hora depois não querem mais. Bem feito, mesmo.  Agora que eu estava afim...  Ah que vontade de matar o desgraçado.  Tempo pra vir me dar um abraço não tinha, mas pra essa sirigaita teve o resto da noite.  E eu pensando que o papo entre eles fosse inocente, mas quando dei pela coisa já tinham esvaziado a garrafa. Acho que se aproveitou da festa e do carro na garagem para fazer atrás dele o que eu é que deveria estar fazendo. Ah, se eu pego esses dois naquela hora...  Se pego eu os matava.  Juro que matava.  Felizmente a sirigaita não mora por aqui e a essas horas já deve ter viajado de volta.  Hoje cedo falei pra irmã dele que precisava lhe falar, mas tinha de ser aqui em casa.   Vesti um shortinho apertado e essa blusinha que um dia me falou que combinava comigo.  A droga é que meus peitos não param aqui dentro e quando ele chegar, se chegar, vou fazer tudo para ele notar.  Tomara que meu pai não venha dormir aqui hoje, pelo menos me disse que não, que não vinha.  Estou tranquila quanto ao que pode acontecer e se acontecer não será como tem sido com os outros.  Primeiro vou provocá-lo ao máximo e se ele não fizer do jeito que eu quero ele pode ir embora, mas não sem antes, claro, fazer um pouquinho, mas só um pouquinho de tudo aquilo que dizem que ele sabe fazer de melhor.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O CASAMENTO DE SANTINHA



     Meu avô tinha onze filhos. Cinco homens e seis mulheres que trabalhavam na roça com ele, menos vovó que cuidava da casa e da boia do pessoal. Vovô era a melhor pessoa do mundo, pelo menos pra mim, porque para os filhos era um tirano, como diziam, e fora os domingos, quando podiam ir à missa e passear pela cidade, ninguém saía para lugar nenhum.  E assim foi com o casamento de Santinha, filha de um colono, que por ser num dia de semana ninguém lá de casa poderia comparecer. Vovô nunca voltou atrás quando dava a palavra por isso só restava dormir.  Assopraram as lamparinas, rezamos, como vovó nos pedia,  e fomos pra cama.   Eu até sonhava com um montão de garotos tomando banho no rio comigo quando alguém me acordou forçando a janela.  Meu Deus, o que seria isso? –  perguntei ao medo que eu estava sentindo.  Será que é o bicho que mamãe vivia dizendo que vinha me pegar se eu não me comportasse direito?, mas eu não estava fazendo nada, só estava sonhando...  Tapei a cabeça e fiquei quietinho pra não ser descoberto por ele e assim permaneci a maior parte da madrugada até que forçaram a janela mais uma vez.  Será que o bicho voltou para me pegar, mas se vai me pegar por que a teria fechado com o trinco?  Ninguém me respondia até que o meu tio tossiu. Ufa, que alívio!  Acho que meu tio espantou o danado e graças a ele, que é corajoso e forte, eu posso dormir sossegado. De repente, assim do nada, um cheiro forte de álcool invadiu o quarto da gente.  Foi bom porque assim titio não ia perceber o que eu tinha feito nas calças.
De manhã, pelo menos na mesa do café, meu tio não disse nada.  Nem do barulho e muito menos do cheiro.  Eu, claro, nem toquei no assunto.  Titio gostava muito de mim, por isso acabei confessando o medo que eu tinha sentido naquela noite.  Meu tio riu muito.  Riu tanto que eu acabei rindo com ele.  Depois me contou que tinha esperado que todos dormissem para saltar a janela e sair.  Sim, porque titio, segundo me contou, não ia perder uma festa daquelas até porque não era todo dia que alguém se casava naquele distrito.  Meu tio era muito esperto o que me enchia de orgulho. Acho que só cresci para ficar igual a ele.  E até acho que fiquei.  Pena que moro no quinto andar e a janela do quarto não dê para a  Rua, como a dele.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

O AVARENTO.

          

     Há meses não sabia do amigo, que segundo diziam,  não se envergonhava de puxar o meu saco e como há muito não sabia dele, resolvi ir à sua casa onde a empregada corria pra pegar o ônibus, mas me falou que seu Antônio  não se encontrava.  Eu já tinha ligado o carro quando alguém falou que eu não podia ir embora sem falar com ela. Aí eu abri aquele sorriso e entrei na casa do amigo ausente.
Entrei para ganhar um abraço e dois beijinhos da mulher dele. 
– Vou fazer um café, sente aí ou vem pra cozinha conversar comigo enquanto esquento a água – disse pondo a chaleira embaixo da torneira.
Marlene estava arrumada  e com o marido e a  empregada fora de casa achei que fosse sair.
– Não, não vou não, e mesmo que precisasse eu não ia. Faz tempo que a gente não conversa.  Eu não ia perder essa oportunidade de saber das coisas e de você.  Como tem passado, por onde tem andado? – disse me estendendo a xícara e se sentando na poltrona a minha frente.  - Ultimamente estou me cuidando mais.  Chega de andar esculhambada.  Agora eu vou ao salão, compro as roupas que gosto e até a praia eu tenho ido sem precisar pedir.  Coisa que antes eu jamais pensaria.  Não sou  mais aquela boboca de antigamente.  Antes era tudo com ele, com aquele mão de porco – disse fazendo careta.  Sorri com a maneira que falou do marido.
O dia acabou e o meu amigo não apareceu.  Então me levantei dizendo que  ia embora.
– Não senhor, tu não vai sair daqui sem falar com ele, não.  Já que ficou tanto tempo, não custa esperar um pouquinho mais – disse com a mão no meu joelho e concluiu mordendo o lábio inferior – Se você soubesse a metade da missa não me falava que ia embora.
Onze horas e nada do marido dela aparecer.
  Desculpa, mas não dá mais pra esperar.  Está tarde e eu ainda tenho um longo trecho pela frente. 
– Tá legal, vou  te deixar ir embora, mas sabia que seu amigo arranjou outra família?  Tu sabias que nem sempre vem dormir em casa, que fica mais com a outra do que aqui, comigo e ainda tem a cara de pau de falar que estava trabalhando?  Que trabalho é esse, gente! Antes eu quebrava o pau, mas agora nem falar  falo mais.  Não vou criar rugas na cara se ele paga as contas os cartões de crédito e ainda por cima não enche o meu saco.  Pronto, falei.   Agora, se quiser ir embora pode ir, mas olha,  a minha cama é grande e cabe você inteirinho nela.  A toalha continua na porta do boxe e os chinelos embaixo da cama. 
– Não me diga uma coisa dessas, Marlene!   Como deixaram chegar  nesse ponto?... A propósito, onde eu deixo a roupa, no quarto ou nos cabides do banheiro?

VIÚVO É QUEM MORRE

 



– Meus pêsames, Marieta. Fiquei muito triste com a morte do seu marido. De que morreu ele, mesmo? Me conta.
– Quem te falou que era meu marido? Nada disso, eu sou viúva, esqueceu? Ele só morava lá em casa, quer dizer, na oficina, só isso.
– Mas a gente via vocês sempre juntos, principalmente a noite e pelo que diz todo mundo até dormir juntos vocês dormiam.
– Não é bem assim, não. Ele, como todo mundo sabe, é mecânico, quer dizer, era mecânico e desde a morte do meu marido que a oficina estava fechada. Quando o Paulão me pediu para alugar eu aluguei, mas não sabia que ele ia dormir lá.
– Mas dizem as más línguas que já o viram entrar e sair da sua casa em altas madrugadas.
– De fato ele tinha essa mania. Vivia querendo entrar lá em casa, mas eu nunca deixei, até que um dia me convenceu e a idiota aqui acabou permitindo. Não uma vez só, como ele disse que seria, mas muitas, contra a minha vontade é claro. Enquanto entrava pela porta da frente, tudo bem, mas se eu não estivesse afim e deixasse ela trancada ele ficava brabo. Um dia, quando viu que eu não ia deixá-lo entrar, como vinha deixando, o danado resolveu forçar a janela. Doeu muito o que ele fez porque estragou o fecho e as dobradiças, por isso decidi, dali pra frente, deixar a porta sempre aberta, mesmo assim volta e meia o safado me forçava a janela até que entrou. Chegou ao ponto de entrar pela porta, ficar lá dentro algum tempo e depois sair pra voltar pela janela que ele já tinha esculhambado. Como eu disse, no princípio aquilo me doeu muito, mas com o tempo acabei acostumando e quando ele não fazia essas coisas eu até achava que já tinha desistido daquelas maluquices. Anteontem ele entrou, como fazia todas as noites, e ficou muito tempo lá dentro, depois saiu. Saiu pra voltar forçando a bendita da janela. Na noite em que ele arrombou o negócio eu fiquei mal à beça, mas depois mandei consertar e ficou tudo bem. O sujeito levou a maluquice tão a sério que entrar pela porta já não bastava. Tinha de sair para entrar novamente, mas pela janela. Dizia que entrar por lugar apertado aumentava o prazer. Vai entender a cabeça desses doidos. Pois é. Ele já estava lá dentro, mas resolveu sair pra se enfiar por onde não devia. Forçou, forçou e acabou enfiando a metade do corpo pra dentro e quando começou a gemer, o que era normal naquele negão, eu pensei que estivesse acabando com a aquela doideira. O pior é que estava. Acabou com a maluquice, com a forçação de barra e com a vida da gente. Ele porque caiu durinho em cima de mim e eu porque perdi o inquilino. Caiu durinho não. Eu quis dizer que caiu mole em cima de mim. Duro ele ficou depois que esfriou. – Explicou a moça chorosa. – Ah, tá. Entendi. – Respondeu ele já se levantando e concluiu – De qualquer maneira, meus pêsames. Posso espalhar que a senhora está alugando a oficina?

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

FÉRIAS NA FAZENDA.


   
    Minha mãe não sabia o que eu via de interessante num lugar atrasado onde o povo falava errado, tudo era longe e não tinha meninos com quem brincasse.  Minha avó também não sabia se era por amor a eles que duas vezes por ano eu aparecia por lá.  Eu jamais diria que era por conta do carinho e das balas que minhas tias me davam, coisa que mamãe jamais faria porque "bala estraga os dentes", como dizia.  Quando eu chegava era uma grande alegria, pelo menos da parte das minhas tias, que ficavam toda assanhadas.  Era sempre a mesma coisa, meu sobrinho querido pra cá.  Meu sobrinho querido pra lá e toma de ir à venda comprar bala, pirulito e chiclete.  Gente, como eu era feliz com aquilo.  Minhas tias compravam sempre no mesmo lugar, com Didingo, o filho do dono do estabelecimento que me pedia pra não deixar ninguém entrar enquanto mostrava  as novidades pra minha tia.  Muitas vezes me perguntei se titia era tão esquecida assim que  Didingo tivesse de mostrar as mesmas coisas pra Ela?.  Pra ela e pras outras que lá iam com a mesma desculpa.  Um dia eu estava todo feliz contando as balas que titia tinha comprado quando  um cachorro veio em minha direção e pra não ser mordido eu corri procurando por ela que, coitada, nada poderia fazer se  Didingo, aquele malvado,  estava em cima dela dizendo coisas tão feias que titia chorava  com ele agarrado à suas costas.  Se não fosse o medo do cachorro eu nem sei o que faria com Didingo naquele momento.  Aonde já se viu tratar  freguês daquele jeito?!  O pior é que no outro dia ela  queria voltar e só não voltou porque tinha brigado comigo e eu não quis ir.  Ela disse que eu não podia ter entrado sem avisar, por isso falou feio daquele jeito.  Parece até que eu era culpado do Didingo fazer com ela a maldade que fez.   Eu nunca vi minha tia tão zangada como naquele dia e o pior é que no dia seguinte ela queria voltar lá e só não voltou porque eu não quis ir.  Não fui com ela, mas fui com a irmã mais velha que pagou um monte de bala pra mim enquanto o Didingo, depois de piscar um olho pra mim como quem diz; “deixa comigo, menino.  Deixa que serei mais educado”. E entrou com ela pra mostrar as novidades, mas dessa vez eram muitas ou não demorariam tanto lá dentro.  Todo dia eu saía com elas, não com todas ao mesmo tempo e se eu morasse lá, com elas, a minha barriga teria crescido de tanta bala que Didingo deixava a gente chupar.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

DOSE PRA CAVALO (Lado 1).

     

     Acompanhei minha mãe numa viagem à casa da irmã dela. No dia seguinte titia nos levou a uma festa onde um cara, meu Deus, mas que cara bonito, decidiu dar em cima de mim. Ah, se eu não fosse casada... Se eu não fosse casada faria com ele o que as prostitutas fazem com quem paga bem.
 No melhor da festa quiseram ir embora e para evitar qualquer tipo de tentação decidi ir com elas, mas, quem me aparece trazendo um champanhe, duas taças e põe uma na minha mão? O gato. Eu já tinha bebido o bastante, mas não recusei. Brindamos uma, duas e sei lá quantas vezes, mas o suficiente para não me lembrar mais de nada, que dirá se eu era ou não era casada. Deixei que fizesse comigo o que no seu lugar  eu faria com ele. Atrás da casa, para onde fui arrastada, ele fez de mim a princesa que eu sou e a puta que me tornei naquele momento. Sinceramente não sei como me deixei convencer. Bastaram umas doses, uma hora e meia de papo pra tirar meu sossego, minha razão, minhas roupas e fazer de mim o que todo cafajeste deve fazer. Ele, apesar de bonito, era rude, forte e tinha um baita cheiro de macho. Aí eu não resisti e deixei que me acariciasse os  seios, as coxas e passasse aquela mão, aquela mão enorme no meio das minhas coxas. Colocou-me de encontro à parede e abriu minhas pernas. Abaixou e meteu a boca onde ninguém se atreveu, nem mesmo meu marido. Deus, como sonhei com aquilo!   Em retribuição enfiei a metade daquele gigante na minha boca e olha que ele era grande.  Só em filmes de sacanagem eu vi parecido. Meu marido era pinto perto dele. Depois me virou de quatro, afastou minhas pernas e aos poucos forçava a entrada. Eu estava muito excitada, mas custou mesmo assim. Custou, mas entrou. Não a metade, mas todo. Ele empurrava, de vagar.  Beijava meu pescoço, mordia minha orelha, lambia minhas costas e eu, querendo ajudar, controlava tudo com uma das mãos. Talvez para não doer mais do que já estava doendo. Dei vários gemidos até que entrou a metade.  A dor deu lugar ao prazer e ele sumiu todo dentro de mim, até  usei a mão para ter certeza.
Gente, eu consegui!
E ele estocava. No princípio devagar para depois estocar com mais força. Estocava e me chamava de puta, de safada, bandida. Ele e muito menos eu sabia o quanto aquilo me excitava. Eu nunca traí ou pensava trair meu marido, mas já que aconteceu, tudo bem. Naquele momento eu não queria pensar em mais nada além dos orgasmos a que eu tinha direito. E os tive não uma ou duas vezes, mas muitas, muitas vezes. Até desfaleci com aquilo dentro de mim. Depois me carregou para casa e como era tarde  só mamãe nos recebeu. Estava desconfiada, mas não falou nada. O gato foi embora e eu entrei pra dormir. Acordei toda doída e como mamãe resolveu ficar mais dois dias eu corri para os braços daquele animal. Sim, porque entre ele e o cavalo não há diferença nenhuma. 
Quinze dias pra desinchar. Mamãe disse que me entendia e confessou que também ficava inchada quando visitava a irmã. 
- Por que não falou antes, mamãe? – gritei avançando pra ela – se tivesse falado eu não ficava me corroendo com esse remorso a não ser que a senhora não o sentisse quando voltava doída pra casa.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O IDIOTA.

 
     –Se o cara daquela barraca não parar de olhar para cá eu vou me aborrecer. Ontem só faltou me comer com os olhos.  Será que nunca viu ninguém de biquini, e se não viu, por que não vai na areia que está assim de mulher mostrando tudo ao invés de ficar, tipo lagarto diante dos ovos?  Se não parar eu vou lá, já disse, e  se duvidar  mando tirá-lo do Camping.  Duvida só pra ver...
Luciana se irritava por qualquer coisa fora do normal. A prima e o namorado, com quem dividia a barraca, morriam de rir com o seu mau humor.
 – O cara. Ah, esse idiota de calças num calor desse? Dizem que é empresário, mas o que adianta se faz tudo pra parecer o babaca que eu acho que é?  Enquanto os amigos correm com as pranchas pra água ele fica como cachorro vigiando osso.  Essas coisas me tiram do sério.  
Luciana, mulata alta, magra e como advogada que se tornaria, reclamava de toda e qualquer extravagância. Só não reclamou quando veio falar com ela.
– Oi, tudo bem, posso falar com você? – Disse estendendo a mão. – Eu não sou bom com o seu idioma,  mas preciso muito falar com você. – Disse num português muito claro para o russo que dizia que era.
– Entra, senta aí – falou Luciana apontando um banco ao lado da porta.  O rapaz era grandalhão, tinha 1,90m de altura e uns 100 quilos mais ou menos, porém manso como a  brisa das manhãs. Ia começar a falar quando foi interrompido.
– Por que não tira essas calças e veste um short? – Luciana quis saber?
– Bem, eu prefiro ficar assim em respeito as pessoas e principalmente a você.  Portanto esqueça as calças e falemos de você...
– Não senhor, agora fiquei curiosa. Por que não pode mostrar as pernas, você usa prótese, tipo perna de pau, é isso? – perguntou abrindo os braços.
– Não, não é nada disso, mas é como se fosse. Posso até mostrar, mas pra ser sincero, eu não gostaria. Mas olha bem, eu só mostro se você insistir, caso contrário esquece.
– Não, eu estou preparada.  Mostra aí, vai! – Disse sorrindo.
– Então tá. Mas não diga que eu não te avisei.  O russo levantou e abaixou as calças até os joelhos.  Luciana quase caiu para trás.  O sujeito parecia um senegalês com aquilo espremido dentro da roupa.   Luciana fingiu que achava aquilo normal, por isso abriu uma cerveja e deu para ele.
– Você não vai beber? – Perguntou ele. – Não, não vou.  Quer dizer, só tem essa. Depois eu bebo – Respondeu meio sem jeito.  – Vem comigo que eu tenho na minha barraca – falou levando Luciana com ele.
Duas horas mais tarde voltou toda feliz.  Nem a prima e muito menos o namorado perguntou qualquer coisa, até porque ninguém ia acreditar que aquela que lutava pelas coisas normais encontraria a felicidade com uma fora de todos os padrões. 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

FALOU COMIGO?

       

       Ah, pelo amor de Deus, para de duvidar do que digo. Para de achar que todo homem é banana quando não é cafajeste e de chamar de safada quem sai com amigos e volta de pilequinho.  Para! Para porque nem tudo o que dizem os olhos é verdade. Deixa que façamos da vida o que bem entendermos ou pensarei que aquilo que fiz, e faço, é pecado ou não passa de uma grande mentira.  Deixa, mas acredite que dentro da lei e da anuência das minhas personagens tudo o que faço é viável e também prazeroso, e se elas não gritam de felicidade é porque as proíbo. Não quero que as taxem de mentirosas como fazem comigo.  Pare de julgar a mulher que bebe a ponto de rir de si mesma, pois não é por estar em um bar que esteja a procura de homem.  Lembra do Rafinha, aquele que posa pra revista de modas e vive contando vantagem? Pois ele, esse mesmo, encheu a cara e veio cantar a mulher que há horas bebia com a gente.  Acontece que o idiota foi posto a tapas e pontapés pra fora e para seu azar a garota, além de graduada em artes marciais, exerceu, a seu modo, o direito de reprovar o atrevimento do sujeito. Será que essa gente não pensa que tudo é possível até que um NÃO seja dito? Eu trato todo mundo de igual para igual, porém as mulheres, essas eu trato com mais respeito e cuidado. Cara, eu tenho direito de curtir minha vida como todos têm de curtir a sua e a única diferença é que eu trato as mulheres como se fossem de vidro, uma taça fina de cristal. Por isso eu só falo o que me permitem e se não espalham aquilo que eu faço é porque as proíbo.  Não quero que passem por mentirosas ou invejadas por suas amigas.  Eu, cavalheiro que sou, assumo o que faço, quer acreditem quer não. Sou o que Deus fez de mim e a vaidade só não me toma nos braços porque entendo que elas, com quem tenho saído, merecem o carinho e o respeito que lhes dou.  Isso para não expor a intimidade da gente.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

ABUSO DE PODER

     
      Mas não fiz nada, meu senhor, juro por Deus! Eu só parei para atender uma ligação quando alguém pediu pra tirá-la dali e por ser mulher e bonita eu perguntei, sorrindo, pra onde queria ir. Me leva pro inferno, Arthur, só não quero que meu pai me veja com você - teria dito. Aí eu respondi, brincando,  que a levaria pro motel e como não disse nada, levei. Aí tomamos cerveja e "conversamos" numa boa, mas nada que ela não quisesse aconteceu.  Pode acreditar, pergunta a ela! Se eu a obrigasse não ficava me beijado e feito o que faria com esse tal de Arthur, sei lá como se chama o sujeito que achou que eu era.
Parece história de maluco, mas é verdade, podes crer. Ela sabia o que estava fazendo. Acontece que não sou a pessoa com quem achou que estava se encontrando, mas como não me ouvia  eu toquei pro primeiro lugar que me ocorreu. Na saída topamos com o senhor e a polícia me mandando pôr as mãos na cabeça como se eu fosse bandido e até me trancaram na caçamba da viatura como o senhor bem notou.
 Doutor, não obriguei ninguém entrar no meu carro e muito menos ir comigo pro motel, mas não quiseram me ouvir...  Bastava uma palavra e eu teria ido embora, mas como o senhor pode ver ela chora, mas não larga minha cintura. Se eu soubesse de quem era filha, aqui, oh!, que pegava a mulher. Pegava nada.  Fingia até que não gostava da fruta.
Gente, foi um sufoco na delegacia.  O medo era tanto que não "passava nem agulha".  Achei que ia morrer.
A confusão levou a noite toda. Só terminou porque um advogado amigo meu chegou pra soltar um cliente e me soltou também ou estaria morto numa hora dessa,  eu acho.   Estupro de vulnerável  como o pai falou o meu amigo desmentiu, já que ninguém ali era menor, como ficou provado.  Fiquei muito chateado com tudo aquilo, mas não devo me queixar, pois, se me perguntar eu digo que faria tudo de novo. Gente, nunca uma garota fez o que gosto num espaço de tempo tão pequeno. Ainda sinto o doce daqueles beijos e o perfume do corpo dela exalando do meu.  Amanhã, quer toque ou não toque o celular, o meu carro estará subindo a calçada e, quem sabe, um anjo não entra de novo no carro e me leva pro céu de onde tanto gostei?  

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

PALAVRA SÓ DÁ QUEM TEM.


    Há muito não sei da vida dos outros e da minha ninguém tem notícias faz tempo a não ser que me promovam a padre, me contem seus pecados sem a obrigação de levá-los comigo pra sepultura, aí eu conto.  Marthielo, filho de um velho amigo de noitada me procurou pra conversar. – Pô, cara.  Vim levar um papo contigo e me dizes que vais sair...  –  falou meio sem jeito.  
– Tenho um compromisso na Gávea, mas venha comigo pra conhecer a galera.  Meti o sujeito no carro e toquei pra pracinha Santos Dumont, no Baixo Gávea,  onde se toma umas e outras e se fala de  sexo, de droga e de rock in roll.  Não sei se ainda rola essas coisas, mas na época varávamos a madrugada.
– Senta aí, bonitão, bebe com a gente, vai! – Disse a loirinha entregando um copo  pra quem agradeceu com um sorriso, mas não bebeu –  se não bebe pede  um suco, bebe água ou vem comigo que te apresento um cara que tem o que talvez você goste – disse apontando para um gordinho que vinha passando.  Ele sempre tem uns comprimidinhos com ele –  disse com um largo sorriso.
– Não, cara! Tu ta maluca! – Gritou  se levantando...
Depois me arrependi de deixá-la fazer aquilo.  Pensei até que fosse pedir para ir embora, mas não pediu.  Ficou pra justificar as cervejas e a  garrafa de vodca que tomei durante a noite.  Quanto a ele, coitado,  não se afogou no aguaceiro que bebeu não sei por quê.  Às 5h, disse ele, já não entendia o que eu falava e antes que eu dissesse que música alta nos ensurdece ele  me disse que a orquestra deixou de tocar bem antes das duas e às 3 já não tinha mais ninguém na pracinha.  Tomei a direção do carro e tocamos de volta pra casa.  O pai, muitas vezes, me deu provas de sua amizade, mas o filho naquela noite me deu muito mais e como o dia clareara sugeriu que fôssemos tomar café na casa deles  com o que concordei.   O pai, amigo de velhos tempos, ficou feliz em vê-lo comigo (digas com quem andas) enquanto a mãe, pobre mulher, fechou a cara ao me vir com a cria.   “Comigo só anda quem não tem o que perder”  – teria dito ela uma vez.  Sorte que a Rolleiflex do marido jamais me pegou com drogas ilícitas além do rock, do sexo e das bobagens que digo e escrevo quando estou fora de mim.   Tomamos café com tapioca de calabresa com queijo prato que ela fez por saber que eu gosto.  Gente a mãe do Marthielo entende do negócio, pensei.  Comi duas sendo que uma tinha goiabada no lugar da linguiça.  Às 10h o pai se desculpou, pois tinha um batizado para fotografar enquanto a mulher  que displicentemente puxava a alça da blusa para o lugar me apertava para saber aonde levara seu filho e a quais caprichos o submetera.  Fez tanta pergunta que se Marthielo não estivesse ali eu acharia  que ela queria saber se as pernas cumpridas que  tenho podem pular ou preciso passar por baixo da cerca que separa a mulher direita, como ela se acha, da mulher realizada, tipo as que acha que dormem comigo na minha cama,  segundo me contam,  e que tanta  inveja  lhe causam.   Depois  conto mais se me garantirem ficar de boca fechada como fico com a minha.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

GRANDE E BONITO.


      Por favor, não me forcem falar sobre o que fizemos no banheiro da escola na festa de formatura e por que a mãe da garota se humilhou até receber o que a filha achava que era só dela.  Não gosto nem de lembrar do que fiz com a mãe na frente das tias sob ameaça de ser denunciado por estupro de vulnerável.  Gente, a mãe  tinha 35 anos, a filha 15 e eu quatorze, uma criança... mas não quero tocar mais no assunto. Então por favor não me obriguem a falar naquilo que me envergonha. Agora, se elas achavam que repetindo a cena com a mãe no papel da filha me deixava sem jeito acertaram, mas na época só botou gás no meu balão e graças a isso voei por lugares onde poucos conseguiram.  Comi o que pouquíssimos tiveram chance e bebi na fonte o que a minoria dos puros e santos beberam depois de anos morrendo de sede.  Não tenho orgulho do que fiz no passado, não desmerecendo as mulheres que constam das minhas lembranças e que, por sinal, se gabam de terem a mim na lembrança delas ou não me ligavam como ligam a cada piscada.  Estas, por sinal, sentem-se honradas com tais lembranças, que eu acredito ser a razão da alegria que têm.  Pelo menos é o que à boca maldita me fala.
 Mas como disse, não quero tocar mais no assunto e mesmo que me forcem eu nada direi. Há dias encontrei com a primeira empregada da minha mãe.  Nem me lembrava mais da mulher que além de engordar já não tinha o mesmo brilho no olhar.  Eu tinha 18 anos mais ou menos e ela uns 20.  Meu Deus que fogo.  Não, não me refiro a ela, mas a mim.  Se eu não tivesse pedido pra não tocar mais no assunto eu diria que ela achava que tinha me induzido às sacanagens da vida quando na verdade fui eu quem armou para que ela o fizesse.  No dia que mamãe foi ao médico fui eu quem deixou a porta do banheiro aberta e só depois do banho gritei, para quem me espreitava, que trouxesse a toalha.  Foi quando ela soube o porquê do meu pé ter o tamanho que tem.  Eu também poderia contar que mamãe abrigou a inquilina, uma bela mulher de 30 anos, que depois de brigar com o marido de 25, foi dormir lá em casa até que as coisas melhorassem entre eles.  Ah, meu Deus, como esquecer da mulher invadindo meu quarto com o dedo nos lábios pedindo silêncio? Enfim... nada direi porque promessa é para ser paga e pago aquelas que faço, mesmo que custe a mim ser chamado de mentiroso.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

MÃO NA RODA.


     Por sonhar com a possibilidade de um dia me encontrar com a gostosa do 615 a sós para um papo descontraído e quem sabe convidá-la para um café, um pedaço de bolo de milho, essas coisas que dizem que ninguém faz melhor do que eu.  A ideia de vê-la sorrir jogando o cabelo pra trás como fazia pra chamar atenção dos caras no bar perto de casa não me saía do pensamento.    Por isso perdi a cabeça e esvaziei o pneu do seu carro e tal qual um meliante me escondi dentro do meu.  Ela ficou uma arara.  Chutou o vento, falou palavrão e até me dirigiu a palavras, coisa que jamais tentaria não fosse provocada. 
– Poxa, logo agora, que estou atrasada – disse dando tapas no carro.
– Algum problema com o carro, dona Olivia? – Falei com cara de bobo.
– Claro né? E logo agora que estou atrasada me acontece uma coisa dessas.  O senhor me ajuda a trocar essa coisa? – Disse fingindo um sorriso.
– Ah, sim, claro que sim.  Abra o porta-malas que eu pego o estepe.
Enquanto desenroscava o parafuso para soltá-lo afrouxei  sua válvula deixando o ar escapar.
– Acho que hoje a senhora não vai passear – disse olhando aquela cara bonita.  Tanto um quanto o  estepe estão vazios a não ser que te empreste  o meu, mas tem que me prometer que vai tomar café comigo quando voltar – falei sem olhar pros olhos dela.
– O senhor faria isso?  Tenho um compromisso e não posso faltar, mas aceito o café quando trouxer o pneu –  disse mostrando a simetria do branco dos dentes.
– Sim, claro, claro.  Combinado.  Quando chegar me chama lá em casa.
Dei um jeito na casa e fiquei esperando.  Antes das 11h a campainha tocou. De um salto cheguei à porta e fiquei esperando um segundo toque e só então atendi.
 – Oh, é a senhora, entra.  Fique a vontade.  Aceita uma água ou quer mesmo tomar o café que falei? Também posso fazer um refresco.  Dizem que o de pitanga é o melhor que já tiveram notícia – falei para aquilo tudo de pé a um metro e meio de mim.
– É muita bondade sua, mas ainda vou almoçar.  Deixa para depois, mas água eu aceito.
– Senta um pouquinho, eu já volto.  Está fresquinha – falei estendendo o copo pra ela.
– Olívia, desculpe tratá-la assim, mas preciso te confessar uma coisa – falei ajoelhando ao seu lado. Desde o dia em que a vi eu não durmo direito.  Minhas noites têm sido de insônia pensando em você. Acredito que saiba que só vim morar nesse prédio para me sentir perto de você, pra sentir seu perfume se passasse por mim e quem sabe não me desse um sorriso?  Felizmente esse dia chegou pena não ser do jeito que eu tinha pensado, mas não vou reclamar se a tenho sorrindo agora ao meu lado.  Desculpe, mas há muito você brinca no rol do meu coração que, coitado, já não tem a juventude dos bons tempos para certas emoções.   Almoça comigo eu te peço.  Atende esse cara que além de não ter com quem conversar tem um amor muito grande guardado pra dar.
Olivia aceitou ficar para  o almoço que desta vez não fui eu quem o fez, mas o chefe do restaurante onde levo as melhores pessoas quando as encontro.
Depois da sobremesa ela beijou-me a face, agradeceu pelo que achou que tivesse feito e partiu prometendo voltar.  Eu sabia que não voltava, que a caça fugia a  minha esparrela.  Tarde da noite acordei com a campainha tocando. Saltei da cama e antes de calçar os chinelos me dei conta do sonho que tive com ela.  Voltei a deitar, mas virei o travesseiro na esperança que sonhasse comigo.


sexta-feira, 24 de julho de 2020

FOLHAS AO VENTO.


     Eu não escrevo para ensinar português se nem tão bom aluno eu fui, e se escrevo,  e escrevo muito por sinal, é por gostar de rabiscar sobre as coisas que eu penso, que me contam ou aquelas que me interessam falar mesmo que não leiam com os olhos que eu gostaria. Na minha página eu recebo diversos tipos de comentários e felizmente nem todos têm um dedo apontando pra minha cara, talvez por achar engraçado me ver escrevendo aquelas bobagens.  Deles eu publico tudo  que valoriza meu tempo curvado sobre o teclado de um computador,  ao passo que dos outros e  principalmente dos que se escondem no anonimato para me ofender eu nada publico, mas também não descarto.  Com eles, tirando a ofensa e os palavrões, eu aprendo a cada postagem.   Agradeço, se é que eu posso, a quem me diz palavras tão belas que em muitos momentos me levam às lágrimas.  Também agradeço a quem me inspira com seus comentários, mesmo querendo que eu morra e vá pro inferno.  Gente,  eu não sou exceção dentre aqueles que se expõem, que dão a cara à tapas como Catiaho e outras que se queixam comigo através de e-mail. Essas pessoas também são apedrejadas, ofendidas e mal pagas e nem por isso desistem como eu não desisto.  Tem momento que riem da gente, que falam da gente tentando nos derrubar como o vento faz com as folhas.  Não quero dizer que somos melhores por pertencer a classe das flores,  as mesmas que o vento beija e acolhe nos braços, mas  só perfume ele leva consigo.  
E pra terminar eu quero dizer que ninguém vence só com aplausos ou desiste com vaias.  Os grandes espetáculos sofreram todo tipo de crítica e venceram e não foi por seus diretores sentarem de frente pro palco, mas por observar a plateia, por sentar com os olhos nos olhos do espectador.  E é assim que a gente tem agindo por tanto tempo; sorrindo com os aplausos e refletindo, ao invés de chorar, com o barulho das vaias.  Estas são o mote, a trilha por onde dramaturgos renomados  caminharam pra chegar onde chegaram. 

segunda-feira, 20 de julho de 2020

GENTE BOA




      Todo mundo já fez besteira na vida, mas ninguém fez pior do que eu.  Foi há poucos dias exaltando a bondade do carioca numa rádio local e só depois  do que falei me dei conta do tamanho da besteira.  Quer dizer, de ter falado que um bando de rapazes e moças indo à casa dos idosos se oferecendo para fazer compra no mercado ou pagar uma conta no banco pra eles. Só depois me toquei que ninguém tinha me procurado até então pra nada disso e não fossem meus filhos me telefonar ninguém saberia de mim.  Depois que a entrevista foi ao ar o interfone e a campainha não parou mais de tocar.  Era vizinho se oferecendo para lavar o cachorro – que nem tenho - fazer a barba – que há 120 dias não faço mais e  outras possibilidades. 
No princípio foi muito legal, mas depois foi enchendo.  Ler um livro, comer na cozinha ou ir ao banheiro sozinho já não era possível e mesmo que a casa, até então solitária e triste, estivesse abarrotada de mulher de shortinho apertado e camiseta amarrada na cintura, saia curta mostrando as coxas afim de me agradar eu não estava feliz. Pô, gente.  Nem abrir a tampa do vaso em paz eu abria sem achar que dentro tinha uma mulher me olhando... E quando vinha o marido falando bobagem, tipo, futebol ou reclamando de suas mulheres?  Ontem, eu não sei onde estava com a cabeça, atendi o interfone com voz de quem comeu um pote de mel e deu no que deu. 

 O senhor está me estranhando, seu silvioafonso? – Disse o negão do 609 que recebe uma baixinha  no apartamento de vez em quando.  A mesma que se eu não expulso fica pra dormir. Um dia desses, saindo do meu quarto,   teria dito, baixinho,  que o meu era bem maior que o dele, do amante do 609.   Na hora fiquei até meio sem jeito, mas depois, pensando melhor,   descobri  que era do quarto que ela falava.  De fato os quartos do último andar são bem menores comparado aos de mais.  No terceiro dia o saco já estava cheio.  Hoje pela manhã, por exemplo,  atendi o interfone tocando na minha cabeça, e pensando que fosse o negão,  acabei  tratando mal a mulher  do síndico que vive me pedindo pra botar aquele carro enorme na vaga dela.  Pô, Dona Sissi, toda hora me chamando pra meter essa coisa tão grande num buraco apertadinho como esse? Por que não troca de vaga, Dona Sissi? Fala com seu marido, quem sabe não te arranja uma do tamanho da minha – me deu vontade de falar.  Mas achei melhor não.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

HELENA X VILMA.

    
    Pequei por palavras e obras, não nego. Pequei mas não me apontarão às portas do inferno por conta de algo que fiz com a inocência de uma criança de colo e não premeditado a ponto de ter o caldeirão por mortalha.  Como poderia prever que Helena me contasse uma história que durasse até a hora do almoço? Certamente  Helena deixou escapar que ultimamente tenho eu mesmo preparado minha comida e quase nunca saio à rua, principalmente para comer, se o prefeito deixasse, e dormir aqui então... como saber se a convidasse ela aceitava, como aceitou? Fiz isso sim, mas fiz por fraqueza  da minha parte e ela também nada fez para impedir-me de convidá-la.  Não estou falando da Vilma, mas dessa feiticeira bendita a quem Deus na sua santa misericórdia haverá de abençoar com a sua bondade.  Nosso senhor, por exemplo, pediu vinho para o almoço com seus fiéis camaradas e eu, pobre diabo que sou, tomei cerveja com quem, gentil pra caramba, veio pra me fazer companhia o que não devia ser motivo pra Vilma vir a minha casa jogar tudo isso na minha cara e muito menos de sair espalhando que sou um velho metido a garotão, mas, no fundo no fundo não sou nem um terço daquilo que Helena falou.  Mesmo assim a perdoo assim como a  Vilma pela propaganda que fez do artigo sem pedir nada em troca.  Perdoá-la não tira de mim os pecados a não ser aquele que cometi falando, no blog, da minha felicidade por ter tido alguém tão linda e gentil dividindo o espaço da mesa comigo. Eu já estava cansado de ter que comer sem ninguém me olhando e brindando com seu cálice no meu o nosso encontro.  Se isso é pecado eu acho que já paguei, não com reza ou promessa, mas quando lavei toda a louça e arrumei a bagunça da casa depois que ela se foi naquela manhã. Agora, se Vilma puder me perdoar eu a recebo de joelhos enquanto Helena, bem, a ela  o meu muito obrigado pelo que disse de mim nas redondezas.  

segunda-feira, 13 de julho de 2020

MINHA DOCE EMPREGADA.


       No meu blog Helena comentou que a Vilma – minha empregada –  não devia ter ido embora assim que a mandei, pois, se fosse ela  – falou Helena –  jamais teria me deixado aquele dia. E disse mais; falou que continuaria ali comigo porque me conhecia o suficiente para saber que mandá-la embora, na verdade, não era o que eu queria.  Segundo a empregada – disse ela – eu não achava necessário alguém comigo naqueles dias.  O pior é que Helena, segundo postagens dela, também vivia só em sua casa e a única vantagem sobre mim era a idade, já que tinha o suficiente para ser minha filha, caso eu a tivesse. Na postagem seguinte, se é que alguém se lembra, eu deixei transparecer que aceitava alguém comigo pra romper a quarentena e tão logo o dia da postagem amanheceu o celular tocou. 
– Pronto, quem fala? – Perguntei.
– Helena.  Sou sua amiga de blog, lembra?
É claro que eu me lembrava já que na extremidade posterior da vara tinha a mim de pescador.  Falamos sério por meia hora naquela manhã e rimos o resto da ligação. Corri à cozinha pra caprichar na salada verde, desci o sorvete do congelador enquanto o óleo esquentava na frigideira.  A ideia era fritar o peixe que mal desliguei o celular  tocava a minha campainha. Helena se oferecera para almoçar.  Sapato do lado de fora, blusa amarrada na cintura deixando à mostra uma boa parte dos seios, que, tal qual o visgo de jaca segura o passarinho pelo pé, segurava meus olhos neles. 
Fiquei feliz com o elogio aos meus temperos e mesmo não comendo como achei que ela comesse não reclamei.  O meu negócio era outro era tirar o atraso que vinha me acometendo há tempos.  Há muito eu não comia o quanto Helena me permitiu. Sim, porque se falasse qualquer coisa contra a fome que eu sentia, talvez não comesse tudo do jeito que eu comi.  
Não existe nada pior do que comer sozinho. Uma vez ou outra, tudo bem, mas vamos combinar; 120 dias é demais. 
À noite ela quis se despedir, mas eu não permiti.
– Não senhora, dorme aí. Amanhã a gente faz tudo de novo, ou seja; café na cama de manhã, almoço na mesa e café à tarde, que tal? Mas ela não concordou.  Jogou a bolsa no ombro e foi embora arrastando o casaco atrás dela.  Disse por cima do ombro que se ficasse talvez até eu engordasse com a volúpia com que eu estava comendo, mas ela, coitada, talvez não saísse viva da pandemia.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

DEIXA QUE EU CHUPO.


    

   Alice será que as pessoas se importam quando alguém faz caras e bocas ao degustar uma fruta na sua frente? Será que chupar ou comer em público envergonha mais as mulheres casadas do que as solteiras que são mais suceptiveis  ou é coisa da cabeça de quem há 120 dias se encontra de quarentena e já começa a ver coisas? Certamente a sua resposta seria a segunda opção haja vista que no mundo onde todos tentam fazer tudo no menor espaço de tempo possível não veem como sentar para comer sossegados.  Eu, para ser sincero, não tenho o hábito de comer em público e até acho feio quando passam mastigando ao meu lado, mesmo que um simples chiclete.  Certamente que pertencendo a outro milênio eu traga  resquícios, não do bom comportamento, mas de quem vê maldade em tudo e por isso  julga todo mundo por si. É, querida Alice,  estou velho para certas coisas, inclusive para viver com  um quebra-cabeça como a inteligência artificial que em breve, o que eu espero não venha a acontecer, acabará com muitas profissões, inclusive com a dos nossos jovens, que aparentemente não estão nem aí para o que lhes possa acontecer, como os da minha geração deram de ombro para os computadores que nos escancaravam a boca, mas nada fizeram. Até pelo contrário, nos melhoraram em tudo e a todos.  Talvez o tempo que levei no meu canto, calado,  fosse pensando nessas besteiras.  Até acho que posso sim chupar minhas laranjas onde quer que eu vá, pois nenhuma das mulheres que conversam comigo se calarão só porque  faço careta chupando o que seus maridos jamais o fariam e muito menos os namorados ou  companheiros daquelas que ainda não tiveram o privilégio de dizer sim ao pé do altar de suas igrejas. E como eu acho que chupo diferente de todo mundo vou continuar minha saga, mas preciso que me deem o que chupar mesmo que eu tenha que pagar para isso, caso tenha vontade.


terça-feira, 16 de junho de 2020

QUEM É VOCÊ?


      Hoje foi quando mais eu senti tua falta o que não quer dizer que não a sinta todos os dias, mas hoje foi como se uma força,  tipo, um torno espremesse meu peito. Na hora pensei em infarto, mas não descartei a possibilidade do vírus quando na verdade era falta da tua presença que por sorte ou por infelicidade nada se parecia com esse tipo de morte já que a dor não era outra senão a dor de lembrar minha cama apertada, do lençol puxado descobrindo meus pés, da minha cara junto ao teu peito e do hálito oxigenando o ar que respiro. Talvez seja o tempo encurtando o espaço da cama que deixa os meus pés de fora, mas agora, do nada, voltar a me engolir como engole o deserto o peregrino com suas tempestades de areia é duro de mais para mim. Antigamente eu te acordava com meus pesadelos, te chamava gritando teu nome se os trovões não me deixavam dormir.   Ontem o barulho na porta me lembrou de quando partiste. Aliás, nem sei bem se foi quando partiste  ou quando adentraste as minhas memórias.   As duas hipóteses me prendem escondido num canto, pois, se os trovões já não cessam aqui dentro em contrapartida a tempestade não cessa lá fora como cessava contigo ao meu lado, e como não tenho para quem correr nesse meu desespero me agarro as tuas lembranças.  Por mais que eu me esforce não consigo lembrar se tu foste minha mulher ou a mãe de quem tive o colo que precisava. As duas marcaram na minha vida a presença dos seus passos. A mulher que me levando pela mão escondia nos meus desesperos a sua própria agonia, mas fez de mim o apaixonado que sou enquanto a mãe, a quem pedia colo nas noites de chuva, tatuava na minha alma a doçura dos bons pensamentos. Por esta razão e por outras que não me lembro, a cama fica pequena a cada momento, talvez com a mesma intensidade como cresce deixando de fora os meus pés.