segunda-feira, 12 de abril de 2021

1º TENENTE.

 

   Cirilo morava com a mãe em uma casa pobre num morro do Rio onde eu residia e como fosse bem-educado não se negava descer ao mercado e comprar o que lhe pedissem. Descia correndo e no mesmo pique voltava sorrindo. Dificilmente a mãe, que lavava roupa para fora, exigia tando do Feijão, como ela mesma o tratava. Os trocados, que nem sempre recebia pelos favores,  não tinham tanta importância como o tratamento de branco que davam ao pretinho.   Um dia, porém, a mãe dele, cansada de ouvir gritarem seu nome, o proibiu de fazer mandado. – Eu não quero que te chamem pra fazer nada e se querem comprar qualquer coisa que vão eles mesmo ou chamem outra criança!  Doravante só sais para estudar –  disse com os olhos molhados e a mão na cabeça do filho. Em pouco tempo Cirilo melhorou na escola e assim foi até a faculdade onde se formou em direito, passou no concurso da Polícia Militar aonde ingressou como primeiro-tenente. Com cinco anos de farda o menino de recado voltou ao morro para dizer que a mãe dele já não desce o morro, como ele descia, porque já tem quem o faça.  Quem desce agora é a sua empregada, mas não o morro e sim os 12 andares do prédio onde moram na praia.  Ontem Cirilo voltou, mas desta vez, me pegou de saída e como a visita já era constante eu pedi que entrasse no carro e fosse comigo.  Cirilo estava a paisana, de bata, tipo Tim Maia e uma boina de Reggae enfiada na cabeça. Sandálias de tiras e óculos escuros na cara.  Na mangueira, mais precisamente na rua dos lustres eu subia a caçada para estacionar e como o carona que só ouvia o que eu falava tinha os olhos fixos em dois homens que vinham em nossa direção concluí que parar ali não seria uma boa, por isso arranquei a procura de outro lugar.  Rodei muito enquanto Cirilo, educado como era, me ouvia calado.  Finalmente encontrei uma para estacionar, mas antes de desligar o motor perguntei se ali o lugar era bom.  Cirilo continuava com o mesmo olhar que antes olhava os homens e só então, após cutucá-lo eu descobri que o cachorro estava dormindo.  - Porra, Cirilo!  Perdi uma vaga pertinho da loja aonde eu ia por sua causa!
Na volta uma blitz nos parou numa curva.  Mandou que saíssemos e puséssemos as mãos em cima do carro, mas quando viram o trabuco na cintura do meu amigo a polícia enlouqueceu. Correu todo mundo para trás da viatura e com as armas apontadas para nós um deles começou a gritar para o Cirilo jogar a arma no chão e botar a mão na cabeça.  Cirilo dizia ser o oficial deles, mas ninguém acreditava naquele negrinho que mais parecia um cantor de ‘reggae’ do que outra coisa.   Até que provou o que disse com ameaça de prendê-los.   A turma se desculpou e não fosse a minha intercessão Cirilo os teria posto em cana.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

SANGUE AZUL

   

    Eu tinha uma pintinha nas costas e mesmo que fosse diferente das que já vi nas pessoas em nada me incomodava, muito menos aos dermatologistas. – Ah! Isso não é nada, e não é por ser azul que seria. – diziam os doutores me consolando. – Se existisse alguma dúvida pedia-se a biópsia e pronto, logo se saberia – dizia batendo de leve com a mão no meu ombro. – Que bom, doutor, caso contrário o senhor teria de olhar outra, igualzinha, num lugar nada agradável – respondia para ele sorrindo. – Ah, que nada! Pode dormir sossegado que não é câncer. – completava me olhando sobre o ombro. Com o tempo eu me mudei para o alto da serra de uma cidade agradável, de clima ameno e gente bondosa. Talvez o único lugar no país onde o sistema de saúde funciona de verdade e a prova é que só eu tinha plano de saúde, por isso deixei de usá-lo. Em uma consulta rotineira o clínico me encaminhou a um dermo. Queria que aquela pintinha voltasse a ser examinada. – Ah! Doutor, seus colegas disseram que não era nada que tirasse o meu sono, mas ele, sem me dar ouvido, anotou um endereço e me deu. Dois dias depois a doutora Darci, que até então eu não sabia que era uma mulher, me examinou. Meu Deus! Como vou mostrar a outra pintinha para ela? – me questionava. A doutora pegou um aparelhinho colocou no olho e se debruçou sobre a pinta. Ficou um tempão resmungando com aquilo perto da cara. Depois anotou qualquer coisa na minha ficha – Teu médico fez bem te mandando para cá – ela disse, e concluiu – eu quero uma biópsia da pintinha. – Doutora não faz isso, por favor. Pois se tiver de fazer nessa pinta terá de fazer na outra que eu teria vergonha de lhe amostrar – falei todo cheio de vergonha. – Mas eu quero ver, seu silvioafonso. Mostre-me, por favor! Quem sabe não venha a se tornar outra coisa no futuro – disse a doutora e concluiu: – Agora baixa as calças e me mostre, porque aqui somos médico e paciente e não homem e mulher. – Aí eu baixei. A doutora ajoelhou-se e segurou o falo com as duas mãos e ficou olhando para ele como se fosse a primeira vez que visse uma coisa daquela. Depois foi à mesa e pegou um aparelhinho, que enfiou no olho, para ver o negócio bem mais de pertinho. – Jesus do céu! A doutora com aquele aparelho no olho botava a cara tão perto da pinta que eu tive de prender a respiração com medo do bicho se mexer nas mãos dela. – Eu quero que faça biópsia nessa aqui, também – falou gaguejando. E eu fiz o que a doutora pediu. Fui ao endereço indicado aonde um tal de Darci, que eu achava que fosse um homem, me atenderia e como estava dando aula aos residentes naquele momento  acabei me tornando cobaia para um bando de garotas, recém formadas, que não tirava os olhos do que a doutora lhes mostrava.
E como disse eu já tinha ido a vários dermatologistas e só esse último me pediu a biópsia. Esse médico, quer dizer, essa doutora provou que sua nota, nas provas finais, não foi dez ou não teria suspeitas quanto à cor da pintinha. Um daqueles médicos que disseram que a pinta não era câncer me falou, meses depois da remoção do sinal, que o "nevo azul", como chamam a pinta, não passa de uma alteração benigna da pele que não coloca em risco a vida de ninguém. Por isso, não sugere a remoção, disse ele, mesmo concordando que existem alguns casos em que a células malignas pode surgir no local, mas isso não é comum a não ser quando o "nevo azul" é muito grande ou aumenta de tamanho rapidamente. O que não era o meu caso.

segunda-feira, 29 de março de 2021

VERATRUM.

    

      Estou triste, muito triste com as crianças de hoje em dia e não me perguntem se a culpa é dos pais, da escola, da Internet ou de todo mundo.  Na minha época os pais criavam seus filhos do jeito que eu crio os meus e mesmo que os tempos não sejam os mesmos eu achava que nada havia mudado.  A gente falava para onde ia e a que horas a gente voltava. Hoje elas dizem que estão saindo e vão sem dizer nada além disso. Eu não sei se ficaram mais inteligentes, do que éramos, ou se brincam com a cara da gente.  Elas nos cegam com suas mentiras e o fazem tão bem feito que nem desconfiar do que fazem nós somos capazes.  Os filhos de um amigo, que moram com os pais em um prédio perto do meu, mas passam a maior parte do tempo na minha casa, me pregaram uma peça e não se trata de um dos meninos, mas da irmã mais nova, a coqueluche da família. Foi como se eu tivesse levado um murro no estômago quando tive a péssima ideia de alugar uma dessas cabines onde se paga para ver as garotas tirando a roupa e se exibir para os clientes do outro lado do vidro. Muitos não resistem e relaxam só em olhá-las. Relaxar não foi o motivo que me levou até lá e se fui não foi por outra razão se não conhecer a novidade do bairro em Copacabana.  A mocinha que tirava a roupa na minha frente não tinha mais de 15 anos e mesmo sabendo que para trabalhar num lugar como aquele precisasse, no mínimo, ter 18, eu não podia acreditar naquela verdade. Quanto a garota, era linda, e o pior é que eu a conhecia,  mas nunca reparei nos detalhes. Talvez por isso não quisesse acreditar que a filha de uma família de princípios se prestasse aquele papel.  Ela, e os irmãos, não saíam lá de casa e era para ela que os pais faziam as vontades. Portanto, por dinheiro não era.  Assim que deixei a cabine liguei para os pais perguntando por ela. Disseram que fora com a tia para a casa dela onde passaria mais um fim de semana. Eu fui àquela cabine para conhecer o lugar de que tanto falavam e não para relaxar como os outros e muito menos para ficar do jeito que me encontrava, frustrado e triste.  Como falar com o pai que a filha  tem uma borboleta tatuada nas partes íntimas e atrás uma rosa vermelha?  Como dizer que a menina criada  com tanto amor se mostrava para qualquer um em troca de migalhas, e que tia é essa que a instigava a fazer o que faz com tanta desenvoltura se nem sinal de constrangimento ela dava?
Ontem eu fui ter com eles, mas não ia tocar no assunto até que a menina, assim que  me viu, correu ao meu encontro me dando um abraço e beijando o meu rosto. Olhou para mim, perguntou pelas crianças e ao se soltar dos meus braços pediu-me, num sussurro, que não contasse aos seus pais.  Aquela era a certeza, que eu não tinha, que os clientes eram vistos por elas.  No momento me senti, não caindo do cavalo, mas de um prédio de 30 andares.

segunda-feira, 22 de março de 2021

AÍ, COMO EU ESTAVA CONTANDO

     


     Você diz que eu só falo sacanagem, ou, no mínimo, pensando em coisa parecida. Talvez esteja certa, porque negar não espere porque não vou. Não vou porque a felicidade que encontrei estava exatamente no maravilhoso mundo do faz de conta.  Quanto ao real, ao mundo real, nele os seus habitantes  me levam a crer que a honra não está nos sonhos do homem ou nas fantasias que cria, muito menos no respeito por outras pessoas. Talvez eu até seja um cara doente, na concepção de alguns, e mesmo que tenham certeza, por favor, não me indiquem a um tratamento, pois se o fizerem serão injustos com os que se dizem normais já que pensam, agem e se portam de maneira pior que a minha, como fazem alguns  religiosos. Não aponto à maioria, mas aos que tiram proveito da fé induzindo fiéis a fazer o que envergonharia o pior cafajeste. Jamais me insinuaria diante dessas pobres pessoas e traí-las em nome de Deus, nem pensar. Não sei como dormem com a consciência pesada como a deles. Subjugar  usando cargos ou palavras santas, como fazem alguns, é baixo, vil e só falo porque leio e vejo tevê. Estes sim deveriam ser enfiados em camisa de força e não os que põem cor nas histórias que contam.  Esses belos contadores de histórias, aqueles que não cobram para embarcá-lo em sua nave e viajar pelos sonhos mais coloridos, bonitos e seguro como sonham as mulheres de princípios e as que não têm princípio algum. Parem de pensar que todo tratador de porcos come farelo porque não come, mesmo que suje suas botas. Essa categoria de homem não merece o respeito daqueles que contam histórias. Que falam de fadas e gnomo! De príncipe encantado e sapos apaixonados, como eu falo, e falo sem fugir das verdades, por isso  protagonizo minhas aventuras.  Ninguém nega que 50% do que diz um contador de casos é verdade e os outros 50 também mesmo cobertos de flores ou questionados por quem jamais  fez essa viagem.  Quando o historiador garante que a mocinha se casa com o mocinho e não com o pistoleiro  e o príncipe, que antes do beijo era sapo, se tornará genro do rei, você pode acreditar. Ninguém faz ideia de quanta verdade existe numa história e quantas naqueles que nos apontam o dedo. Portanto, não me tratem por mentiroso porque não sou, quer dizer, muito mentiroso eu não sou e nem para pensar ou só fazer besteira eu vivo. Às vezes eu até faço, não com todos, mas com aquelas pessoas tipo Alice que ao invés de apontar à porta de um sanatório à Lebre e ao Chapeleiro maluco, se entrega totalmente aos que dizem todos além desses dois. 

 


segunda-feira, 1 de março de 2021

BRIZOLINHA

      


        A gente se conheceu numa feira tomando água de coco, mais precisamente na barraca do Zé português, em Copacabana.  Eu ri quando reclamou com o Zé que lhe prometera um coco com muita água, mas deu a ela um coco sem água, praticamente, nenhuma.   O Zé costumava perguntar aos fregueses se queriam o coco com mais água ou com muita "carne"? E como não era adivinho, nem sempre acertava. Com o meu ele também tinha errado,  por isso eu  ri.  Ri da causa e não da consequência, mas ela supôs ser dela que eu estava sorrindo por isso acabei me explicando. Ela riu, me estendeu a mão e falou: –  Meu nome é Neusa.  Neusinha Brizola, como me chamam.  Eu também disse o meu nome e a gente riu junto.  Eu, com ela tentando olhar para dentro do coco e ela por me achar um babaca rindo daquilo.   Hoje Neusinha já não habita entre nós, faleceu há dois dias do meu aniversário em 2011.  Foi duro não vê-la obrigar a turma a cantar parabéns como sempre fazia. Muito duro.  A hepatite complicou seus pulmões e ela, que tinha todos os recursos do mundo, não suportou e se foi. Era chato vê-la fumando aqueles  baseados, principalmente quando dizia que os paraguaios não faziam mal a ninguém.  Hoje eu sinto falta do seu sorriso, dela reclamando do coco com o Zé e até fumando aquelas coisas eu sinto saudade.  Neusinha era da turma do Arpoador, a turma para onde fui levado, mas não frequentava.  Na época, por volta de 1985,  aceitei acompanhá-la a uma festa na Rua Duvivier, pertinho do Copacabana Pálace e o Beco das Garrafas, onde todo mundo cheirava e fumava até que a polícia apareceu e acabou com aquilo. Levou todo mundo para a delegacia, menos ela que foi levada para dentro de um carro preto me puxando pela mão.  No carro estava o motorista, um segurança e seu pai, então governador do Estado que não me queria no carro com ela, mas Neusinha o convenceu a mudar de ideia ou se atirava para fora do veículo que avançava pela avenida Atlântica a toda velocidade.  Eu era o único "careta" que com quem ela saía e por incrível que possa parecer a gente nunca transou.  Nunca toquei nos seus seios ou tentei qualquer coisa com quem, aos olhos dos outros, era tudo menos puta, pelo menos aos meus olhos não era. Talvez por eu não beber, não fumar outra coisa, além de cigarro, não cheirar ou injetar nas minhas veias o que meus heróis morreram injetando é que ela dissesse que acreditava em mim quando falava para os demais.  O meu pai adorava o pai dela como político e eu só dele como pessoa.  Eu já morava em Friburgo quando comprou uma frisa na Marquês de Sapucaí para o desfile daquele ano, mas infelizmente faleceu três meses depois.  O mais interessante é que ela havia me procurado, pelo menos foi o que me falaram, mas como troquei o chip do celular por causa das ligações que vinha recebendo, perdi o contato ou a minha namorada teria assistido, pela primeira vez,  ao carnaval do Rio no melhor lugar ao lado de mim e da minha amiga querida.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

AMIGOS PARA SEMPRE.

 

      Só quem não conhece o meu bom humor pode dizer que eu sou um contador de  vantagem e talvez eu até seja, mas quero lembrar que ninguém sai por aí dizendo das suas mazelas. Eu, por exemplo, não saio, mas tem momento que não dá para segurar e acabo falando. Um dia desses, só para me explicar, o Cagalizo, um amigo dos velhos tempos, me procurou com uma garrafa de vinho embaixo do braço. E para meu azar foi no dia que eu escolhi para descansar e sair da cama tão cedo não estava nos meus planos, mas com ele esmurrando a porta...  Entrou erguendo a garrafa no alto. Enquanto eu fui ao banheiro escovar os dentes ele serviu o vinho e abriu um pacotinho de azeitona que tinha consigo.
– Eu não bebo de manhã e você sabe disso falei p
ara quem me apontando o relógio do microondas dizendo: –  são duas da tarde, meu caro.  Eu não ficava tanto tempo na cama desde quando mamãe me pegava no colo.  Não fosse o maluco querendo derrubar a porta eu ainda estaria dormindo.  Cagalizo ergueu a taça, olhou para mim, e virou de uma só vez.  Em poucos goles esvaziou a garrafa e só então começou a chorar. Ele chorava, enxugava o nariz e reclamava da mulher, dos filhos e até do patrão falou mal. Disse, entre outras coisas, que Deus não gostava dele ou não teria lhe dado uma cruz tão pesada.  Aliás, não só Deus, não gosta de mim como os amigos também não gostam como eu gosto deles – dizia tentando espetar a azeitona fujona com a ponta do palito. Limpou a boca com as costas da mão e se levantou para jogar água na cara.  O constrangedor não foi o desabafo ou o vinho que me fez tomar fora de hora, muito menos a cadeira puxada para o lado da minha e o hálito de bebida com azeitona tão junto da minha cara,  mas aquela mão cheia de dedos escorregando pelo meu ombro quando foi se sentar.    Dizem que eu sou um cara educado, mas não tive como ficar sentado naquele momento. Dei uma desculpa qualquer e fui fazer, não me lembro o quê.  Mas o infeliz foi atrás e sobre meu ombro falou-me tão junto à orelha que um arrepio correu-me da nuca aos calcanhares. Dei um salto para frente (eu disse para frente, viu, senhores faladores?) e gritei com ele.  
– Pô, Cagalizo!  Tu chegas sem avisar, me tiras da cama, me fazes beber e comer na hora que eu não estou a fim, me contas teu passado e o pior, tu queres me dar ou me comer, fala o que tu tens na cabeça, sujeito?  E faças um favor para o seu camada: vás embora e me ligas  assim que lembrares da besteira que vieste fazer com um cara que gosta tanto de ti.
Nunca mais vi o sujeito de quem tanto gostava e devo favores.   

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

VALEU JAPA. VALEU!

    


        Quando vejo um caminhão de mudança parado em frente ao meu prédio eu tremo dos pés à cabeça: seria um novo morador nos brindando com sua chegada ou um velho amigo se afastando do aconchego da gente?  Ontem, para minha tristeza, a senhora do 501 estava de mudança. Ela, o marido e a filha iam morar em São Paulo, aonde eu havia morado em alguns anos da minha vida.  Com certeza que vão fazer falta, principalmente a mulher e a filha. Jamais poderia imaginar que japonês fosse gente tão boa como aquelas duas mulheres. O marido, um sujeito nascido na pobreza de Kamagasaki, era grosseiro com todo mundo. Talvez por conta da infância e da juventude que teve, como me disse a mulher embora tivesse, ele mesmo, falado que iam morar na Liberdade, o bairro mais japonês do Brasil. Meu Deus! O que farei eu,  daqui em diante, quando chegar bêbado de madrugada me apoiando nas paredes sabendo que Mikomy, a única filha daqueles dois, já não estaria mais lá embaixo a minha espera para me arrastar para casa, fazer um café forte e me enfiar embaixo do chuveiro frio?  É claro que eu só sabia porque ela me contava no dia seguinte, e pelo que eu sei, nem dormir comigo eu penso que tivesse dormido e se o fez eu tenho certeza que não fizemos do jeito que ela merece.  A mãe, que diferente do marido era muito risonha, dizia que eu era um bom homem e era pena que vivesse sozinho num momento difícil como esse.  Por isso eu sentia dó de Dona Sheraki.  Ela deve sofrer o  diabo nas mãos daquele gordinho de cara amarrada.  O velhote não permitia que saísse nem para ir à padaria se não fosse acompanhada por ele ou pela filha ao passo que ele fazia até mesmo o que achava errado nos outros.  Foi lembrando desses momentos que subi para tomar uma, ducha, como faço quando volto das caminhadas, mas ao entrar no meu quarto, ainda secando os cabelos, deparo com  Mikomy estirada na minha cama, nua como viera ao mundo, contudo em uma nova edição melhorada.  –  O que você está fazendo pelada na minha cama, sua maluca e o que você fez para entrar aqui na minha casa se a porta estava trancada, posso saber?  –  Estou nua, sim,  mas você também não está vestindo  –  disse com as mãos estendidas para mim.  Mikomy era a melhor amiga que eu já tive na vida e agora, com ela estirada na minha cama puxando o braço eu entrei em parafuso.  Será que eu devia mesmo fazer o que ela parecia ter vindo para fazer sem me arrepender ou era uma boa oportunidade que eu tinha de fazer direito o que bêbado jamais teria feito naquelas circunstância?  De repente aquela seria a última oportunidade que nós teríamos de estar junto e como não havia ninguém por perto nos espionando, nada mais justo que fazer por ela o que ela fez por mim durante todo o tempo que morou a duas portas da minha.   Muitos se despediram de mim e de muitos eu já me despedi, mas nenhum adeus me doeu tanto como quando Mikomy beijou-me a face, enxugou os olhinhos repuxados e embarcou no carro do pai.  

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

BOA NOITE CINDERELA.

     


     Hoje eu estou velho e acabado, mas já tive momentos melhores, pelo menos aos olhos da minha mãe e das garotas que gostavam de homens altos, simpáticos e de boa família.  E modéstia à parte; esse cara sou eu.  Meus amigos também eram bons rapazes ou o pai de um deles não nos teria permitido jogar bola na quadra do seu quintal nos finais de semana.  Muitas vezes D. Alice e o marido, donos da quadra e pai e mãe de dois desses garotos, nos chamou para almoçar. O marido se incumbiria da churrasqueira e ela das outras panelas. Sr. Otávio, pai de Otacílio e Otavinho, tinha o dobro da idade dela e talvez por conta disso, repousasse depois do almoço   D. Alice sentava com a gente enquanto o marido tirava um cochilo. Nunca, essa senhora, deixou de participar da nossa conversa por mais picante que pudesse parecer. Com ela se falava de tudo e qualquer coisa sem que nos apontasse um dedo ou puxasse a nossa orelha por abordarmos determinados assuntos ou pela maneira de discuti-los. Quando Otavinho, seu filho mais novo aniversariou ela fez uma festa, mas devido a chuva incessante a maioria dos convidados não apareceu.  Quando a festa acabou e todos se foram D. Alice nos  deu um suco verde com gosto esquisito, tipo mato triturado com água, açúcar e gelo, para beber e como ninguém disse nada eu também nada disse.  Tomei o meu e ponto final.  A bebida desceu numa boa, pelo menos ninguém se queixou. Infelizmente comigo não funcionou. De repente, assim do nada, me deu um sono tão grande que eu tive de me sentar para não cair e como os filhos já tinham subido para os quartos e deixado a mãe falando o que, certamente já estavam carecas de ouvir, acabei ficando sozinho com ela sentada na minha frente.  Eu estava tão mal que pedi que ligasse para o meu pai me buscar.  Nem bem terminei a frase e perdi os sentidos.  Quando acordei eu estava numa poltrona que ficava num quartinho nos fundos da casa e o pior era que D. Alice estava lá, deitada ao meu lado.  Gente, que mulher maluca! –  Pensei –  e como conseguiu me levar para aquele lugar sem que nos vissem ou será que Sr. Otávio era peça importante naquela engrenagem? Eu já vi muitos casos em que o marido arranjava companhia para a própria mulher.  Quando pensei em me levantar D. Alice se mexeu.  Chegou os lábios, com aquele cheiro gostoso de menta, tão junto da minha boca que não teve um só fio de cabelo que não ficasse de pé.  Certamente  para ter certeza que eu dormia.  Não dormia, mas fingia.  Então ela, com mãos de fada, abriu minha camisa, acariciou os pelos endurecido que nasciam no meu peito,  bolinou com a ponta dos dedos o bico dos meus mamilos arrepiados, desceu a mão além do meu umbigo e lá deixou ficar um bom tempo.  Tempo suficiente para eu ter certeza que pensar e falar sacanagem não é pecado.   Pecado é a pessoa, tantos anos depois, me chamar de safado sem mesmo ter conhecido a coragem de uma bondosa senhora que, com seu marido, nos deixava jogar bola na casa dela.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

HOTEL DAS ESTRELAS

    


     Um dos primeiros empregos que eu tive e talvez o que mais tenha mexido com a minha cabeça foi trabalhar de porteiro num hotel nos Arcos da Lapa, no centro do Rio. As instalações não eram de mau gosto, mas luxo não tinha muito.  Talvez para morar não fosse o mais indicado, apesar de algumas pessoas estarem lá há anos.  A maioria só passava uma noite ou duas por diversos motivos.  De vez em quando aparecia uma garota com namorado fugida de casa, mas no dia seguinte chegava o pai e um policial para buscá-la. Os melhores quartos pertenciam as cortesãs, como os autores de livros gostavam de chamar  as prostitutas, e era com elas que eu conversava quando voltavam das festas cheirando a bebida. De vez em quanto um motorista me chamava para ajudá-lo a tirá-las do táxi, mas para puxá-las escada acima até o quarto nunca aparecia ninguém. Até acompanhá-las ao banho já fui convidado, mas naquele estado eu não me arriscaria perder um emprego que, de certa maneira, pagava a faculdade e me ajudava nas despesas com meus pais.
O dono do hotel era um velho de 69 anos casado com uma garota de 30.  Dizem que ela o ameaçou, caso não parasse de dar em cima das hóspedes, até de abandoná-lo a mulher o ameaçou.  Ela não o queria surrado por maridos ou cafetões furiosos. Devo o meu emprego a essa mulher que afastando o marido da portaria me permitiu assumir seu lugar. Eu só fui selecionado porque era discreto e poderia guardar os segredos do velho, como me pediu logo depois. 
O natal chegou cinco meses depois da minha carteira ser assinada e só então eu tive o prazer de conhecer Dona Alice,  a mulher do patrão.  Ela era bonita e muito se parecia com minha tia,  irmã de mamãe.  Só um pouco mais nova. Tinha uma coisa naquela mulher que me secou a boca quando entrou pela porta e mais seca ficou quando ele nos apresentou.  Aquele sorriso largo abriu qualquer coisa dentro do meu coração. Muitos dizem que eu minto com facilidade, mas juro que estou falando a verdade.  Às vésperas do natal o marido me chamou para jantar com eles, mas como já tinha prometido passar com meus pais, agradeci, mas prometi dar uma passadinha na volta para lhes dar um abraço e avisaria quando estivesse saindo. Só que ninguém apareceu para me receber. Talvez pelo avançado da hora já estivessem dormindo.  Na saída vi um carro estacionando na frente do prédio com D. Alice na direção. Tinha levado o marido ao hospital onde tomava soro naquele momento e só voltou por ter visto, no celular do marido, o WhatsApp que eu havia mandado.  Pensei em ir ao hospital para vê-lo, mas ela não permitiu. Puxou-me para dentro para, em nome da nossa amizade, brindar a confiança que o marido tinha no meu trabalho e em mim.  Ás três da madrugada o celular da moça tocou.  Era do hospital avisando que ele estava melhor e esperava por ela.  A gente se vestiu às pressas e cada um seguiu seu caminho. Não estou mentindo, mas aquele foi um dos melhores natais que eu já passei.  Pena que o marido não aguentasse beber o tanto que diziam beber com as mulheres do meu trabalho. 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

A MALA

         



     Esperei mais de  meia hora por minha mala numa esteira preguiçosa do aeroporto aonde uma velha amiga de blog reside com a família, mas tudo em vão.  Todas chegavam aos pés dos donos, menos a minha velha e surrada mala que eu levava comigo nessas viagens. Seguindo o conselho de uma senhora gordinha que tirava a dela da esteira eu procurei um fiscal.  Moral da história. Minha mala com dois vibradores ultra modernos havia desaparecido como que por encanto.  Eu não sabia como dizer aquilo na recepção até porque fica esquisito um homem de cabelos brancos, como eu, transportar vibradores, um curto e grosso e o outro mais parecendo um extintor de incêndio para carro. Este último era presente para uma amiga espanhola que já me falou que tamanho não é documento.  E como demorasse procurando a palavra para descrever o produto, que não é outra senão "Satisfayer", na língua deles, a atendente decidiu me ajudar.  Ela devia saber do que se tratava ou não me olhava rindo daquele jeito.  Eu disse que o tinha comprado para mim, mas para presentear uma amiga, mas  ela deu de ombros e quando saiu, piscou o olho para uma colega.  E foi assim que eu consegui minha mala de volta, não com tudo o que havia nela porque o strong, que faria a alegria da espanhola, não estava mais lá. Meu Deus do céu, como é que eu ia brigar por um "consolo" se naquela cidade nem gay eu sabia se tinha?  Passei três dias por lá, mais precisamente na casa da minha amiga que vinha me convidando para conhecê-la e a sua família, dos quais eu guardo muito boas lembranças.  O carinho com que me trataram, os passeios que me levaram a fazer e a escola de antropologia onde trabalhou por tantos anos ainda me emocionam toda vez que me lembro.  No dia que voltei para casa uns amigos foram me pegar no aeroporto e como não paravam de rir e muito menos deixavam de jogar piadinhas acabei perguntando o por quê daquela alegria ao que me disseram que em um certo blog alguém pedia pra me avisar que a TAP havia mandado para a família que eu visitei e não para o meu endereço o objeto que tinha sumido da minha mala e como a embalagem deixava ver o que tinha dentro me pediam, encarecidamente,  que eu o retirasse de sua casa o mais rápido possível para não piorar o estrago que vinha fazendo na cabeça das filhas.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

FUNCIONÁRIO NOTA 10

 


     Na hora eu fiquei triste.  Dez minutos depois, confuso. Meia hora mais tarde eufórico e agora me sinto assim, como direi, feliz. É isso.  Eu fiquei muito feliz e vou falar por que.  Era abril e o mundo surfava uma onda sem a menor ideia do tamanho que ficaria meses depois. A ordem era ficar em casa e se possível com a máscara enfiada na cara longe uns dos outros.  Abraço, beijo e até mesmo um aperto de mão, nem pensar.  Por isso adiantei as férias da Vilma, minha empregada, que só retornaria ao trabalho quando a pandemia passasse, mas ela, desobediente como é, veio me procurar duas vezes nos meses de junho e julho, mas não permiti que entrasse para evitar o diabo da tentação.  É duro ver uma empregada com os dotes da minha zanzando dentro de casa.  Já é difícil em dias normais, imagina agora que ando chupando o dedo.  O dedo e o resto da mão, se me faço entender.     
–  Quando precisar de você eu te chamo – falei e saí de perto para não me arrepender do que havia falado.   
Hoje cedo a campainha tocou e para minha surpresa era a mãe dela.  Disse que a filha tinha viajado com o namorado para conhecer os pais dele e enquanto estivesse fora ela, a mãe, viria fazer o trabalho da filha e para evitar qualquer tipo de  constrangimento decidiu me falar. 
Vilma jamais mencionou que fosse filha de alguém como aquela mulher.  Alta, esguia, seios e lábios fartos, (seios nem tanto) pernas longas, como as da filha e generosa quando se curva na frente da gente. Nada havia naquela mulher que justificasse a idade que tinha. 45 anos era muito para uma pessoa com tão bela aparência. Os olhos tinham a beleza da noite e a postura digna de uma rainha.  Aquela pessoa não era para trabalhar em casa de família, principalmente na casa de um velho se ele não admite ter a idade que tem. O risco que se corria era grande, o dela e o meu.  Acho que o meu se tornava maior a partir do momento em que passando por mim esfregou na minha cara as suas peras maduras.  –  Senta aqui, mulher! Vamos conversar –  disse sorrindo pra ela. –  Eu preciso de um café, onde está o pó, posso saber? –  Perguntou com as mãos na cintura.  –  É claro que não – respondi puxando-a para uma cadeira ao meu lado.    
– Sente-se e vamos conversar.  Depois a gente pensa em café –  falei para quem fingia não me ouvir  Acabei eu mesmo fazendo o bendito café com ela nos meus calcanhares.  Quando notamos a confusão que fizemos dentro daquela cozinha começamos a rir.  Ela com as duas mãos na xícara e eu com as duas mãos nas mãos dela.  Conversamos até o almoço ficar pronto.  Depois do lanche da tarde, nós dois, juntos, preparamos a janta.   Dona Wilza não era só a dona de um rosto bonito, como também era dona das pernas que me tiravam o fôlego.  A vontade de pedir que ficasse comigo pelo menos àquele resto de noite esmoreceu  assim que se levantou, esfregou o vestido para tirar o amassado, curvou-se diante de mim e me beijou a face.  Andou até a porta de onde, por cima do ombro, me disse que a partir do dia seguinte serviria o café às 8h em ponto.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A REVANCHE

 


    Tem gente que não tem noção do ridículo ou não mandaria a mulher me chamar para jantar depois de ter se juntado a outros sequelados pra invadir minha casa, me ameaçar de porrada e dar cabo das minhas bebidas. Eu precisei me beliscar pra ter certeza de que não estava sonhando. Será que esse animal já se esqueceu do que fez comigo ainda esses dias?  É claro que eu dei  uma desculpa para não ir, mas com aquela pretinha linda, de pernas exuberantes, cheirando a sabonete na minha frente e falando daquele jeito acabei aceitando.  Depois que fechei a porta foi que a ficha caiu.  E se o marido, aquele covarde, quisesse aprontar de novo comigo?   Meu Deus quantas vezes botei minha vida em jogo permitindo que ela, com medo de ficar sozinha, dormisse na minha casa enquanto o valentão viajava?  Ah, seja o que Deus quiser. Para quem correu os riscos que eu já corri isso é moleza.  Toquei à campainha e uma das convidadas me recebeu. A pretinha tinha ido buscar a mãe, disse a mulher olhando pro dono da casa, e logo estaria de volta. – Ué, a pandemia acabou? – Perguntei pra mim mesmo – me admira muito alguém encher a casa de gente com esse vírus rodando por aí.  Cumprimentei os presentes com um sorriso e me dirigi à janela para atender o celular.  Pedi desculpas ao dono da casa e prometendo voltar dentro de poucos minutos voltei para casa onde a pretinha me esperava na porta. – Meu marido me pediu para te convidar e eu te convidei, mas quem precisa de um abraço, pelo menos nesse momento, sou eu – disse abrindo o berreiro.  Entramos, tomamos um copo de vinho enquanto ela falava. Depois a levei para o quarto para se refazer do choro. Duas horas depois chegávamos a casa dela.  Ela na frente e eu um pouco depois. –  Parece que o senhor usa o mesmo sabonete que usamos aqui em casa, disse o marido. Pelo menos o cheiro é igual.  Qual a marca do seu?, perguntou o covarde. O nome eu não sei. Ganhei de presente naquele dia que vocês foram lá em casa, lembra? – Perguntei com o sorriso da vingança estampado na cara.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

FELIZ ANO NOVO

       


     Quando deu meia noite o povo esqueceu o distanciamento social, as máscaras de proteção e correu para o abraço. Lágrimas, risos, beijos trocados, copo de cerveja e taças de champanhe compartilhados. Branco sorrindo pra negro e filho de pobre brincando com os mais abastados.  Valia tudo na passagem do ano da pandemia e, de certa maneira, eu fiquei com inveja da coragem daquela gente que sem medo de ser feliz festejava a despedida de um ano que parecia não acabar mais.  E tudo aqui embaixo,  no pátio de um prédio na orla do Rio. Meia noite e meia e já não se ouvia os fogos a não ser um aqui e outro acolá enquanto as vozes no pátio já não tinham a mesma euforia. Duas e quarenta da madrugada. O elevador não sobe e não desce, todos se trancam dentro de casa. Cinco horas. Nem uma nuvem no céu da cidade que não dorme, mas cochila como eu diria caso um carro ou outro não cortasse a principal avenida em desabalada carreira.  Faltam dez para às seis. É hora do sol se insinuar por cima do muro, mas banhistas não vai encontrar, só gari lhe dará as costas para queimar. Sete e meia. Café quente aqui dentro como o dia promete lá fora.  Sete e meia.  A praia começa a encher.  Também me dou conta dos carros que deixam o prédio com os incautos voltando pras suas casas para, quem sabe, enlouquecer no dia seguinte quando a ficha cair. Onze horas. Água do macarrão fervendo e um prato na mesa já que não espero ninguém.  Café, de sobremesa, eu não tomo, mas como uma fruta com os olhos na televisão. Olhos que não se sustentam, não por conta da macarronada, mas pelo hábito da sesta de todos os dias.  Às quatorze horas sempre a televisão tem um bom filme na sessão da tarde.  Eu o assisto. Um café, que não tomei no almoço, cai bem e inspira quem o toma para passar o resto do dia. Se for domingo, tem futebol às 16h e depois o Faustão e para encerrar o primeiro dia do novo ano: retrospectiva 2020.  Tudo o que aconteceu é mostrado aqueles que viverão no ano novo o mesmo que viveram no anterior.  Assim foi e assim será o ano na vida de cada um.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

PORTA NA CARA.

  
        

     Levantei cedo e como de costume deixei a mesa pronta para o almoço. Num balde de prata, cheio de gelo, coloquei 3 garrafas do melhor champanhe no centro da mesa. Quem sabe aparece alguém para bebê-lo comigo.  Na cabeceira um prato de porcelana, uma taça de cristal, um garfo, uma faca e um guardanapo branco para combinar com a toalha.  Por volta das onze atendi à porta onde as malucas mantinham o dedos enterrados na campainha.  É claro que não olhei no visor porque elas, como sempre, o estariam cobrindo com a mão.  Coloquei na cara um bonito sorriso, arrumei a gola da camisa e abri a porta pra elas. Mas se alguém pensou que havia mulher  vestida de gorro, sandália vermelha e mais nada além disso cobrindo o corpo enganou-se porque não eram mulheres, mas um bando de homens que entrou me empurrando e dizendo coisas que eu não entendia.  Enquanto o mais forte se referia a sua própria mulher os demais me atingiam com tapas e pontapés dos quais nem eu nem sei como pude escapar. A barulhada só terminou quando alguém, com o champanhe na mão, perguntou se o que tinha na garrafa era o que dizia o rótulo ou não.  Antes que eu afirmasse uma rolha espocou e o cara, já sorrindo a essa altura, foi enchendo as taças na medida que iam surgindo.  Taças que eu nem sabia onde as tinha guardado e até que puseram uma na minha mão.  Tive sorte porque o medo já tinha mijado nas minhas calças. 
– Nunca tomei nada igual – Diziam uns aos outros. A conversa girava em torno da bebida quando outras garrafas foram arrumadas no balde. Do assunto que os levou lá em casa ninguém mais se lembrava, mas eu sim, porque o negão que metia o dedo na minha cara era o mesmo que batia na mulher quando transavam, e foi ela quem me falou na noite que dormiu aqui em casa por ter brigado com ele. 
 Quando o último saiu da minha casa, carregado, eu levantei a duras penas e fui limpar a sujeira e como estava de barriga vazia peguei uma fatia do peru e levei o resto de volta pro forno.  Mas pera aí. De onde surgiu esse bicho que nem cogitar comprá-lo eu cogitei?  Certamente trouxeram para justificar o champanhe. 
Nunca tanto homem entrou na minha casa para beber comigo como naquele natal, a não ser acompanhado de suas mulheres, que por sinal nem deram as caras para me livrar do enrosco.  Limpei a sujeita e já ia pro banho quando a campainha voltou a tocar.  O som me arrepiou, por isso me arrastei até à porta na intenção de saber o que pretendiam uma hora daquela.  Do outro lado diziam que eu embriaguei seus maridos, mas não fui homem o bastante  para convidá-las a beber com a gente.(?)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

PRESENTE DE NATAL

 


De março para cá não tenho visto marido,  pai ou namorado cuidando 
da esposa, da  filha ou da namorada como cuidava antes do vírus.  Talvez porque ninguém acreditasse, por mais idiota que fosse, que uma pessoa jovem ou não, solteira ou bem casada, se permitisse ser abraçada, beijada ou mantivesse qualquer tipo de contato por mais encantador que fosse o sujeito, muito menos por um cara que além de morar sozinho e ser um bom tipo, como elas próprias confessam, se arriscariam diante daquelas unhas. Isso deveria rolar na cabeça de cada uma e daqueles com quem moram.  Mas pelo que deixam parecer não é o que acontece ou eu não teria encontrado entre uma almofada e outra do sofá da minha varanda a calcinha vermelha que a empregada, segundo disse a patroa, havia roubado. E não só a calcinha, mas grampos de cabelo e até sutiã pendurado no registro do chuveiro eu já encontrei. Pessoas de ideia fraca como essas, me lembram animais demarcando território. 
Na pia da cozinha há uns copos com marca de batom na borda a espera da empregada  voltar ilesa da quarentena para lavá-los.
Peguei o resultado do meu exame de sangue, felizmente não reagente,  me dando a certeza de não ter contaminado ou de ter sido contaminado por alguém.  É o que me faz ficar preso aqui dentro sabendo que esse tipo de exílio desencadeia males mais sérios a todos, como a morte por tédio ou por solidão.  Pena que eu nada possa fazer em socorro além de permiti-las desabafar no meu ombro a cada vez que necessitarem já que sabem que podem contar com o meu e com algumas palavras de conforto.  As vezes enfiar os dedos em seus cabelos também dá resultado, fora o hálito quente e gostoso ao pé da orelha.  Eu tenho arriscado fazer essas coisas porque até onde eu sei errar é perdoável, mas nunca por omissão.  Morrer eu sei que a gente vai um dia, mas de depressão ninguém aqui dentro morre se nem dormir sozinho eu consigo.  Talvez o amor acabe comigo nas "festas de fim de ano" pois já andam falando que a entrega dos presentes ainda não terminou.
 – Ninguém vai deixar de te dar uma lembrancinha, Sr. Silvioafonso. – Disseram do lado de fora  sabendo que as via no olho mágico, e ouvir o que falavam me enchia a boca d'água porque para elas me aparecerem só de gorrinho vermelho na cabeça e sandália alta nos pés, não custa nada.  A dúvida está no que possam fazer comigo. 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

PUMA DO MEU CORAÇÃO

   

     Comprar uma puma, como se chamava esse carro, era sonho de todos os jovem da minha idade e eu precisei abrir mão de muita coisa para ter o meu.  Esperei mais do que podia para ter a capota arriada e sair a mil atrás das garotas que até então esnobavam o fusca azul pavão que eu tinha.  Antes eram elas que não aceitavam que eu as levassem à Rádio (Mayrink Veiga) onde rolava o programa Hoje é Dia de Rock. Mas depois, com aquele carro fedendo a novo, até as mais metidinhas imploraram por um rolá na caranga ao meu lado.  Valeu me matar trabalhando para nos fins de semana sair atrás de quem nem olhava para onde eu estava.  Não fossem as largadas na pista eu nem saia de casa.  Deixar de sair comigo pra não andar de fusca era sacanagem e olha que o meu era top dos topes, tipo, suspensão rebaixada, tala larga na traseira e escapamento Kadron, que dava a ele caráter esportivo.  Finalmente eu tive como dar um basta naquilo. Chega de mulher feia falando errado e comendo de boca aberta ao meu lado.  Chega de esconder dos meus pais as garotas feiosas com quem eu saía.   Depois do carro novo eu assumi outro patamar, como diz o craque do mais querido. 
Na sexta-feira, quando saí do trabalho, peguei a caranga e toquei para a casa de uma que há muito eu mantinha na alça de mira.
 Vim te buscar para gente ir a um show –  mostrei-lhe os convites, mas ela nem se deu o trabalho de olhar, apenas se desculpou e disse que já tinha compromisso.  Compromisso com Robertinho que tinha carro que não era fusca, certamente.  Eu não entendo essas garotas.  Só porque o cara tem um carrão ela troca um show no Canecão pela murada da praia da Urca. 
 Então tá, depois não me diga que não te chamei.  Atravessei a rua até o carro que ela só viu porque veio bater o portão nos meus calcanhares.  Pulei à porta para dentro do carro e antes de dar a partida escutei uma voz perguntando: 
 Bonito carro, é teu? – Assenti com um gesto. – Não sabia que tinha trocado o fusca.  Olha, pensando bem eu vou aceitar seu convite. Espere um pouquinho que vou me trocar. "Com um carrão desse eu vou até pro inferno" –  ela teria pensado, mas antes de fechar à porta eu gritei para que me ouvisse:
 Ah, que pena... Eu tinha certeza que não sairia com quem anda de fusca. Por isso convidei uma garota que não se importa com essas bobagens.  Desculpa, mas estou indo buscá-la para ver James Brow no Canecão, comigo. Não é sempre que o negão vem dançar e cantar num país como o nosso.  Acenei com dois dedos na testa e saí com a puma cantando pneu.
James Brow veio três vezes ao Brasil e em uma delas eu fui ao Canecão para vê-lo. Brow inspirou ninguém mais, ninguém menos do que Michael Jackson, Toni Tornado, Tim Maia e outros mundo afora, mas infelizmente o Rei do soul  canta e dança só em nossas lembranças.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

UM DIA DE CÃO

    

    O dia era frio e nublado e nada de especial havia acontecido naquela triste terça-feira até o UBER branco do Leonardo parar para uma bela mulher embarcar com a cadelinha.  O motorista era bem falante, razoavelmente vestido e parecia trabalhar naquilo que mais gostava, enquanto a mulher, que se vestia com sobriedade, demonstrava, apesar de ter a graça das jovens da zona sul, estar vivendo o pior momentos daqueles dias. A cadelinha que irradiava felicidade, talvez por não saber para onde a levavam, não parava de lamber a dona e latir para todos lá fora até que a moça atendeu o celular e  o motorista ficou sabendo o motivo da tristeza dos belos olhos azuis.   Leonardo, que não tinha o hábito de ouvir o que diziam no banco de trás, não pôde deixar de escutar o que a dona da cadelinha dizia ao celular.  "Cinco mil e duzentos reais, só a cirurgia e mais um mil e trezentos para os exames e como não dispunha daquela quantia –  dizia ela para alguém do outro lado da linha –  decidiu pagar 500,00 para o veterinário sacrificar a bichinha".
Leonardo, que não teve como não ouvir a conversa, pediu desculpas e se arriscou perguntando se ela daria a cadelinha pra ele, e como a resposta lhe foi favorável, Leonardo deu meia volta e levou a mulher, agora toda sorridente, de volta para casa.  O motorista levou a nova amiguinha à casa de um amigo, que também gostava de bichos, para levá-los à veterinária onde Leonardo pagou 250,00 pela remoção de um nódulo no ovário e mais 120,00 pelos exames.  A bela mulher, coitada, pagaria 500,00 só para sacrificar o pobre animal enquanto Leonardo, com a grandeza de poucos, gastou muito menos para salvá-la da morte.  Leonardo deu novo endereço à cadelinha e até o nome da criatura ele trocou.  A partir daquele momento a felizarda seria chamada de, VIDA.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

NA MESMA MOEDA.


    mão explodiu na cara dela, não por ter olhado, mas por ter sorrido para alguém que tomava chope naquele bar onde os carros param quando fecha o sinal.  Eu não sabia que era casada ou não teria acenado como fazia nas vezes em que ela passava e eu tomava chope com meus amigos e para dizer que eu não fiz nada, saí correndo atrás do carro que acelerou e sumiu antes das porradas que o motorista ia levar.  Senti muito ter causado tudo aquilo e  não poder fazer nada doeu muito mais.  De qualquer forma ficou a certeza deu que o covarde só bateu porque mulher não revida, mas comigo seria diferente, por isso fugiu quando corri atrás dele.  Eu não a conhecia e muito menos sabia o seu endereço porque se soubesse não ia prestar.  Agora estou eu aqui na inauguração do bar do meu amigo tomando o meu chope e quem eu vejo sentado com duas garotas contando vantagem?, o covarde da noite passada.  Eu não podia estragar a festa  do amigo porque poucos, como eu, sabem da luta que travou para abrir esse negócio. Foram anos de trabalho e renúncias e não seria eu, um amigo de infância, que ia estragar tudo, mas ninguém me proibi de tropeçar no garçom e derrubar a bandeja de chope encima do safado, até porque, acidentes acontecem.  E foi o que fiz.  O cara tomou aquele banho e quando quis se encrespar com o garçom eu o segurei pelo músculo, que liga a clavícula ao pescoço, mandei que se calasse e com um sorriso falso nos lábios o levei para se lavar num chuveiro nos fundos do bar.  Peguei o celular que deixou sobre a mesa e com desculpa de levar para ele, eu liguei para aquela que mais se parecia com a mulher que apanhou naquela noite  a quem eu disse onde, com quem e em que estado o deixei naquele momento. Desliguei e joguei o celular na cesta de lixo.  Hoje a gente até com um certo constrangimento recorda a violência com que o marido a tratou, mas se não fosse aquilo eu não a teria nos braços como a tenho nesse momento.  A gente se entende bem porque se revidasse aquela violência a gente não poderia se encontrar uma vez por semana como vem acontecendo.  Isso nos dá a certeza de que violência não se paga com violência, mas com carinho, beijos e muito sexo, como a gente vem fazendo depois que me deparei com o salafrário na inauguração do bar do meu amigo.  Um dia ele vai entender que nem tudo é porrada.  Nesse dia, quem sabe, a gente não sai pra tomar umas cervejas?

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

ABRA A SUA QUE EU FECHO A MINHA

 

    Sempre que eu me trocava ela corria pra janela, mas eu era mais rápido e fechava a minha na cara dela. Com o tempo eu me dei conta do babaca que eu estava me tornando, por isso decidi que a partir daquele dia a janela do meu quarto não fechava mais e se quisessem me ver do jeito que vim ao mundo, que vissem.  Eu mal dormia pensando nisso, mas ao perceber que tinha gente na janela eu levantava e escancarava a minha. Depois tirava a roupa  e  calmamente ia pelado pro chuveiro.    Eu não olhava, mas sabia que era visto ou mamãe não me diria pra fechar a janela quando  eu fosse tomar banho.  Como ficou sabendo se eu nunca falei nada? Não satisfeita da fofoca que tinha feito veio a minha casa perguntar por minha mamãe, mas porque tanto trabalho se está careca de saber que mamãe sai cedo pra trabalhar?, e o mais engraçado é que foi entrando como se eu a tivesse convidado.  
– Meu professor de música disse que no natal eu vou tocar com as meninas na banda do colégio.  Ele falou que gosta de como toco os instrumentos, mas prefere que eu toque o clarinete no desfile.  Eu sei que falou isso porque eu não poderia tocar piano ou violoncelo enquanto marcho – falou abrindo a geladeira para olhar o que havia dentro. 
  Você sabia que ele queria me beijar?  Ele tem esse hábito, beijar as garotas que a quem ensina música. 
 E o que você fez pra ele não te beijar? – perguntei. 
– Nada. Não fiz nada – respondeu. –  Deixei que me beijasse. Você já beijou alguém?, – me perguntou. 
– Claro, claro beijei – menti sem olhar para ela. 
 – E como é que se beija?  – perguntou fechando a geladeira. 
 – Ah, sei lá, beijando, ué!, – respondi vermelho como tomate. 
– Beijou nada...  Se beijou me mostra que eu quero ver – disse fechando os olhos e com as mãos para trás. Cheguei perto  e todo atrapalhado dei um selinho nela, mas como era cinco centímetros maior do que eu o beijo pegou no queixo.
– Esse beijo não valeu porque você não beijou direito – disse curvando um pouco mais os joelhos. Desta vez acertei a boca, mas coisa rápida.  
– Você sabe o que um homem e uma mulher fazem quando estão juntos num quarto? – perguntou me olhando sobre um ombro.  
– Claro que sei – respondi enfiando as mãos nos bolsos.  Eles dormem juntos, só isso.  – Falei e ela riu da minha cara.
 – Sabe nada, seu boboca.  Nenhum homem dorme quando se deita com uma mulher – disse se abaixando para olhar dentro do forno do fogão – Eles fazem sexo – concluiu como se soubesse todas as respostas –  se eu falo é porque já vi   ela foi dizendo  Vi meu padrasto fazer com minha mãe porque achavam que eu estava dormindo.  Vou te mostrar como é;  baixa as calças e se deita aí,  nessa poltrona, que eu vou me sentar em cima de você pra te ensinar – disse puxando o zíper do jeans para baixo e caminhando em minha direção. 
 – Não, não vou fazer nada disso que você está mandando, aliás, vá embora!  Vá embora ou eu conto pra minha mãe quando ela chegar... (Botei a garota pra fora batendo à porta atrás dela).   
  Faz mais de 50 anos que tudo isso aconteceu e eu ainda me envergonho quando passo embaixo da janela dela sempre que vou visitar minha mãe. que ainda mora lá. Talvez a maluca já tenha se casado e até filhos formados deve ter.  Eu só espero que as crianças não tenham passado pelo que ela me fez passar quando pequeno.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

PRETA OU BRANCA, QUAL A MELHOR?

 

    Antes que a semana terminasse, um funcionário,   admitido numa loja de departamento no mais importante shopping do Rio de Janeiro, já demonstrara ser bastante eficiente no que lhe davam a fazer.  Celso chegava cedo e saía depois de todo mundo.  Dava a entender que muito cedo assumiria um lugar de destaque na sua carreira.  Suas ideias e empreendimento faziam a diferença.  Durante seis meses foi o “funcionário padrão”.  Em um ano já era uma das mais expressivas figuras do shopping e em menos de dois, gerente. A loja bombava e todos se beneficiavam do resultado até que um casal, que negociava a compra de um aparelho de ar condicionado, foi levado à gerência para discutir um desconto maior.  Quando viu que o gerente era um negro que se levantou com a mão estendida e sorrindo pra ele o marido falou para a mulher que se arrependera da compra e queria ir embora.  Pediu desculpas a funcionaria e saíram. Celso o alcançou ainda dentro da loja e pediu que voltasse para conversar e se o problema fosse o preço discutiriam o assunto. 
– A partir desse momento sou eu quem vai atendê-los – disse o gerente sorrindo.  O homem olhou para a funcionária e perguntou o que teria acontecido para um shopping tão importante permitir que um negro assumisse  função tão relevante,  porque negro, na concepção dele,  no máximo consegue vaga de vigia ou  de zelador num lugar como aquele. Falando em voz alta o casal virou de costas e foi embora. Celso não resistiu e pela primeira vez chorou diante a presença de todos, não pela ofensa feita a sua pessoa ou por vergonha, mas por perceber  que faz tempo o ser humano já vem caminhando  a passos largos por esse perigoso caminho.  
No dia seguinte  os  gerentes do Shopping, todos, o aguardavam no estacionamento segurando cartazes que diziam; – Celso, estamos com você, meu irmão! 
Celso tirou o mundo de suas costas e seguiu para a loja onde os  funcionários esperavam por ele gritando seu nome e cada um com um cartaz onde se lia:  “Antes de você nunca os resultados  da loja nos fizeram tão bem. Obrigado Celso!”

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

SABOR DA BALA

    

    Marcinha ficou sabendo que Mendonça, parceiro que a Academia designou para substituir o detetive Cajado, morto numa incursão, era gente boa, mas só não sabia que além de solteiro era alto, forte e muito, mas muito bonito como constatou quando o marido o levou para jantar com eles.
– Gostei que o tivesse trazido pra jantar – disse Marcinha ao marido ao fechar à porta atrás de si – ele é muito mais agradável do que o falecido Cajado e como conversa bem. Fiquei impressionada.  Pode trazê-lo outras vezes se você quiser.  A propósito, porque não o convida para o churrasco que a gente faz na casa de praia se é tão bacana como demonstrou?
  Peçanha achava que vinha fazer dupla com um maluco que só perdeu o parceiro por sair dando tiro  para todos os lados como disseram, mas estava enganado.  O cara foi morto por imprudência e não por outra razão. Fazer dupla com um policial linha dura era de se ter medo, mas esse, quando tirava a farda, era doce e gentil e ainda por cima  casado com uma mulher tão interessante que até ele, para estar ao lado dela, sairia dando tiros a esmo se fosse preciso.
- Eu gostaria de agradecer o jantar dizendo que depois da minha mãe ninguém deu sabor às receitas tão bem quanto a senhora – Disse com um par de olhos verdes cravados nela que corada, pediu licença e saiu pra cozinha.   O marido levantou o copo e brindou o amigo – Que este seja um dos muitos momentos bons que passaremos juntos.
O jantar rendeu assunto pra muitas conversas entre marido e mulher e num certo momento ela falou ao marido: – Por que não convidá-lo para o churrasco na casa de praia nesse fim de semana?
 A cada encontro a amizade se tornava mais forte, até que surgiu um novo convite;  romper o ano com eles já que Mendonça morava sozinho, mas o rapaz declinou o convite.
– Eu gostaria muito e nem sei como dizer isso, mas não posso aceitar.   Não posso porque esta é a primeira vez que vocês rompem o ano juntos e não vou atrapalhar a lua de mel de vocês – disse com uma certa tristeza.  Mendonça mentiu quando recusou o convite.  É claro que ele queria estar com os dois, pois assim estaria perto da mulher que mexia tanto com os seus sentimentos, mas como mulher de polícia tem gosto de chumbo decidiu ficar longe o máximo que pudesse aguentar, mas não demorou para que o procurassem.
– Quem é? – disse para quem não tirava o dedo da campainha.
– Sou eu, Marcinha,  já esqueceu?  – Mendonça ficou mudo.  Abriu a porta e ela entrou  como se conhecesse o lugar.
– Por que não foi mais lá em casa. A gente também sente saudade, sabia? – Perguntou arrumando o casaco no espaldar da cadeira.  Mendonça, ainda sem fala, fechou a porta, empurrando com o pé e a levou pra cozinha.  Abriu uma cerveja e antes do primeiro gole o celular tocou –  Era o dela, que se desculpou e disse ao desligar –  É meu marido, eu tenho que ir.  Deu um beijo na face e falou antes que a porta fosse fechada – Me espere amanhã que eu volto para terminar a cerveja.  – Foi embora, mas não levou o  casaco.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

TENTE OUTRA VEZ.

    

     Você precisa parar de me seguir porque meu marido já anda desconfiado e se ele me perguntar por que fico nervosa quando preciso ir à rua eu acabo falando e se eu o conheço bem ele não vai quebrar sua cara, mas vai denunciá-lo à polícia. Ah, isso eu sei que ele vai. Já ouviu falar em assédio? Então, cara. Para com isso.  Não estrague sua vida em troca de um caso que você sabe que não vai rolar. Não vou me tornar alvo para os  vizinhos ficarem me apontando e o meu marido, coitado,  não merece que eu faça uma sacanagem dessas com ele.  Está certo que o seu coração não tem nada com isso e talvez nem saiba o que esteja fazendo, mas sua cabeça sabe e não vai dar esse mole.  Eu até vou lhe dar dar um conselho e só o faço porque gosto muito da sua mãe.  –  Por que você não procura alguém da sua idade, alguém com a sua cultura, bonita e que o ame como você diz me amar? Não deve ser tão difícil assim até porque não sou tão maravilhosa assim, como diz.  Eu, além de ter idade pra ser sua mãe, sou casada com uma pessoa muito, mas muito ciumenta mesmo.  Agora, se você acha que consegue calar essa boca quando me vir na janela,  não fazer gracinha quando passar por mim eu já me dou por feliz, mas, se insistir nessa coisa eu acabo pedindo ao meu marido pra gente mudar desse bairro. Aliás, já fiz isso, mas no momento não dá.  A multa da rescisão do contrato está fora do nosso alcance.   Seria bom porque você, livre de mim, arranjaria uma namorada, casaria com ela, teria seus filhos e me deixaria em paz.  Talvez seja difícil esquecer alguém que me diz ter um amor tão grande, mas vou arriscar.  Vou arriscar, mas também vou dizer que se eu não fosse casada teria um imenso prazer em sair com você e nem me importaria pra onde você me levasse, mas infelizmente...
 Qualquer mulher gostaria de poder acordar com um cara grandão, atlético, inteligente e bonito como você ao lado dela.  
Eu gostaria, mas não posso, a não ser que façamos o seguinte, vê se você concorda; a gente sai uma vez, mas só uma ou nada feito.  Vamos para um lugar onde ninguém nos conheça,  bebemos qualquer coisa, conversamos um pouco e se tiver clima a gente dança, porque eu gosto de dançar.  Só tem um problema: nunca mais você me procure, nem pra me dar dinheiro, entendeu? 
Então tá combinado.  Amanhã meu marido vai trabalhar um pouco mais tarde.  Meia hora depois eu desço, te pego na garagem e aí a gente decide onde passar o resto do dia.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

INCONSEQUENTE

 
    Tem gente que faz coisas inacreditáveis quando bebe. No meio do ataque de um vírus que matou muita gente por volta de 2020, meu filho, na época com 21 anos e desempregado por conta da pandemia abusou da bebida com os amigos.  Na volta pra casa colocou no meu carro, que pegou emprestado, uma mulher e uma criança de colo que pediam dinheiro para comer.
– Pai, eu gastei no bar o  que daria pra sustentar essas pessoas durante uns dois dias, mas como o dinheiro acabou eu as trouxe para um banho, o almoço e se o senhor não brigar comigo elas ficam para o jantar.  Depois as levo de volta como falei para ela. Eu fiquei olhando pra cara de quem podia ter quebrado uma garrafa e matado alguém numa briga e, no entanto estava ali, olhando pra mim com cara de salvador da pátria àquela hora da noite.  O que eles poderiam fazer antes do almoço seria jantar, dormir e tomar o café da manhã e não ao contrário como dissera e o pior é que trouxe pra casa gente que nunca vimos na vida.  
– Tudo bem, meu filho.  Faça do jeito que vocês combinaram. E eles fizeram.  Meu filho comeu qualquer coisa e foi se deitar.  A moça fez o mesmo, mas num sofá no canto da sala indicado por mim. No momento eu até pensei em ceder o meu quarto, mas achei melhor não. E naquele sofá, mãe e filha,  passaram o resto da noite.  
Pela manhã o cheiro do café fresco me acordou. Foi quando percebi que a moça já não dormia onde a deixei na noite passada, até pensei que estivesse no quarto com meu filho, mas não, não estava, mas e o cheiro do café, quem o estaria fazendo? Era ela.  A bagunça da noite passada fora desfeita, a louça lavada e a máquina batia o monte de roupa suja que havia no cesto.  Depois que minha mulher voltou a morar com a mãe por conta da doença da velha, aquela foi a primeira vez que alguém fez alguma coisa de bom lá em casa.  Meio dia e meia meu filho acordou.  Tomou um banho e sentou-se para almoçar.  A moça, que também tinha feito a comida, nos olhava com olhos de "chef" a espera dos elogios. E eu elogiei, não para deixá-la contente como ficou,  mas pelo sabor que dera à comida. Pelas nossas contas faltava pouco para irem embora. Restava o lanche da tarde e a janta. Á noite, pelo que constava, passaríamos os dois, eu e o filho, sozinhos, mas não foi o que a sorte nos reservou.  Lanchamos e jantamos o cardápio da moça que nada dizia se não fosse perguntado. A casa continua limpa e cuidada como nos primeiros dias do meu casamento e enquanto a filha da protegida do meu filho crescia, eu ficava mais velho.  Meu filho, que passou a dormir no sofá do canto da sala por ter dado seu quarto para elas, voltou a trabalhar. O tempo passou e hoje, dia três de novembro de 2046 nós quatro, depois dos drinques, vários, que tomamos pela colação de grau da filha da moça,  voltamos a casa trocando as pernas.  Isso mesmo, aquela criança que chegou no colo da mãe depois do meu filho ter enchido a cara com os amigos, lembra? Pois é.  Era ela quem se formava em medicina e por conta disso e pelas consequências de um porre que o meu filho tomou há tantos anos que saí do táxi, com todo mundo rindo da minha cara pelas bobagens que eu continuava falando, para beber com eles o resto da festa.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

O VÍRUS

      

      Antes do coronavírus nos deixar maluco a minha avó já falava sozinha.  Ultimamente a velha vem dando palestra e quando me pega rindo diz que eu sou implicante. – Mas como implicante, vovó, se você fala com quem ninguém vê?!   Vovó fecha a cara, pega a vassoura e me põe pra correr.  
Eu ainda vou descobrir com quem vovó bate boca quando está sozinha, mas pelo que vejo, nem mesmo ela sabe.  Nessas horas meu avô, rindo, gira o dedo na altura da cabeça como quem diz; "maluquice de sua avó, coisa da idade".  Esse negócio da mulher ficar presa com um monte de gente falando no ouvido dela dá nisso.  O homem, esse fica numa boa, mas a mulher... não.  A mulher tem afazeres, e não importa se é domingo ou feriado que ela cai dentro.  Arruma a casa enquanto a turma toma café. Depois vem o almoço e as louças para cuidar. À tarde tem o lanche e a noite o jantar para fazer.  Tudo a tempo e a hora  enquanto os outros se refestelam aos pés da TV. Isso quando não estão  implicando comigo,  como diz a bondosa senhora.  Agora me pergunta se alguém se oferece para lavar um prato, varrer a casa ou tirar à mesa depois de comer, pergunta!  Claro que não e se pergunta é por perguntar ou para atrapalhar quem levanta cedo, faz tudo o que é pra fazer e na hora de dormir muitas vezes o cansaço não deixa.
Esse coronavírus está nos deixando neuróticos. Ontem, no consultório médico uma amiga me disse que o cara que estava sentado ao seu lado teve um acesso de tosse. No mesmo momento um velho, do outro lado da sala,  soltou um baita de um pum.  Me pergunta pra que lado eu corri?   Disse ela.   Pro lado do velho, ora bolas.  Pro lado do flatulento.  É melhor sentir cheiro de podre do que perder o olfato, não é mesmo?   Concluiu ela, sorrindo. 
 Espero que a pandemia passe logo pra gente não pegar o bendito do vírus quando for à caixa pra ver se o auxílio social caiu na conta. Não é nada, não é nada, são 600 reais.  Quer dizer, 110 dólares que o governo, tão generoso, nos dá pra passar o mês inteirinho.  Pena que tenhamos de dormir na fila pra receber u'a senha que dará direito a sacar os trocados. Eu queria muito que tudo mudasse logo depois.  Não que mudasse para a melhor, mas que mudasse de maneira que as gerações futuras pudessem saber que os profissionais da medicina fizeram o que puderam pra salvar minha vida, com o risco da sua e de suas famílias.  Eu espero que a partir daí tudo fique como foi feito para ser e não é.