segunda-feira, 25 de junho de 2018

NA MOSCA.

      Depois de anos longe da pátria e dos amigos eu finalmente percebi no desprezo daqueles que falam mal da nossa terra o quanto ela é grande, vibrante e o por quê de tanta inveja que ela causa. Eu pouco me importei se alguém deixou ou não deixou de assistir o que rolava na tevê quando vazei do bar aos pulos, gritando, rindo e chorando de orgulho por essa terra que há muito tem servido de chacota  para os que não sabem que aqui nós temos quatro colheitas por ano, um clima tropical e gente bonita e hospitaleira que nasceu e mora nesse chão abençoado e que de vez em quando nos veste de amarelo, como agora. Para muitos o motivo da minha grande alegria não era relevante, mas para quem é vaiado pelos países vizinhos, o momento era tudo o que se podia desejar de um país gigante e vibrante como o nosso.  Ninguém entendeu coisa nenhuma, mas eu e o resto dos brasileiros sabemos o quanto nos deixou felizes quando atingiu o centro do alvo depois de várias tentativas. São momentos como estes, que infelizmente só de quatro em quatro anos a gente tem para mostrar o tamanho dessa grandeza. Grandeza do amor que a nossa pátria mãe gentil tem por quem nasceu ou escolheu  este lugar para viver.  É nesses momentos que eu sou o que quiserem que o brasileiro seja, mas, mesmo contra todas as vontades a gente não desiste nunca.  No arremesso seguinte, acertamos a mosca novamente, mas desta vez, antes de sair gritando a beleza do feito eu vi alguém engolindo a alegria que sentia às escondidas.  Como uma mulher casada com um nativo daquela terra cantaria vitória se o marido chora o que a nossa amarelinha lhe impingiu?
Gritar de alegria a moça não gritou, mas pude ver nos seus olhos dela a minha felicidade refletida, e como eu não sabia que além de linda e triste aquela brasileira escondida num canto de bar aonde todo o tipo de gente se reunia era casada, eu perdi o medo e o respeito e saí abraçando os que estavam ali, inclusive ela, a quem beijei na boca. Eu sabia que perdia a razão naquele instante, mas não o suficiente para deixar de perceber o quão macios e gostosos eram os seios dela comprimidos no meu peito na hora do beijo. Não sei se o meu país continuará tão bem como está indo, mas aquele beijo eu tenho certeza, continuará adoçando a minha boca a vida inteira enquanto dela eu me lembrar, assim como o cheiro do seu corpo jovem que levarei comigo para onde quer que eu vá.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

DOCE PERIGO.

   
       Talvez fosse a mãe, mas a filha era mais provável que fosse a pessoa responsável pelo furdúncio no apartamento ao lado. Até Doli, a cadelinha, latia fundo nos meus ouvidos, mas como não era sempre que o fato acontecia eu não via como reclamar.  A voz deixava claro que alguém dançando ao som de Anita era possuído pelo espírito da coisa. A cadelinha, coitada, latia, talvez de tristeza, com a maluquice de sua dona. E eu, é claro, dizia adeus a concentração que precisa para concluir o trabalho daquele dia. A maioria das pessoas tiram o domingo para ir à igreja, talvez para pedir a Deus que fatos como esse não ocorram com elas. Mas pela razão de não ser cristão eu jamais entregaria o meu trabalho como tinha prometido. Enquanto isso o som naquela altura parecia endoidecer a mulher.  Aí não deu para segurar...  Fui lá e esmurrei aquela porta. A cantoria acabou, o som abaixou e a cadelinha só o rabo manteve abanando no momento em que abriram a porta e Terê, a filha da dona, apareceu suada como pano de cuscuz e me banhou com aqueles olhos lindos que mais pareciam esmeraldas.  A moça estava sozinha e sozinha conseguia fazer todo aquele barulhão.  Aí sim, eu me dei conta de que, independente da saia curta e da blusinha molhada colada nos seios, eu só vestia a parte de baixo do pijama.  
- Você veio para derrubar minha porta ou quer me falar alguma coisa?  Perguntou com os olhos no cadarço do pijama. Felizmente ela olhava só para o cadarço porque a blusinha molhada desenhando os peitinhos  que cabiam inteiro na minha boca  já estufava  minha roupa na frente. 
 Não, é que eu pensei que vocês precisassem de alguma ajuda, visto que o barulho me deixou bastante preocupado  disse-lhe meio sem jeito, mesmo percebendo que ela não estava normal.  Parecia ter bebido, mas cheiro de álcool eu não senti ali, mas sobre a mesinha de centro alguma coisa que me chamou a atenção, infelizmente naquele momento  Doli tentou escapar pela porta que dona deixara aberta. O que eu impedi.  Doli não conseguiu escapar, mas os seios da moça sim, conseguiram. Os dois. Foi quando ela se abaixou  para tomar o pet no colo. Ai, fui obrigado a ajudá-la a levar o animalzinho para dentro, porque a dona não ia dar conta daquilo sozinha, porque não ia lá muito bem das pernas, mesmo que fossem um senhor par de pernas.  Meu Deus, que pernas!  A moça tentou esconder o açúcar  como disse que era –,  mas eu a impedi. Abracei-a e a levei ao chuveiro.  Eu poderia ter tirado suas roupas já que não estava nem aí para o que eu fizesse ou deixasse de fazer, mas optei por deixá-la embaixo do chuveiro com água a lhe escorrer na cara.  Tranquei o cachorro com ela atrás da porta para depois cuspir meus marimbondos por ter cedido ao cavalheiro a vez do cafajeste que existia em mim.

domingo, 17 de junho de 2018

DE QUE JEITO?

          
            Baiano não era má pessoa como dizia a patuleia. Está certo que o viram  pegar dinheiro de um mendigo, mas ninguém disse que eram moedas com as quais pagou o ônibus de volta à casa e que no chapéu, de onde as tirou, ele deixou uma nota de dez. Também falam que fica puto quando tocam a campainha da casa dele, mas não dizem que só o faz quando querem sacaneá-lo. O que de fato o exaspera a ponto de gritar com quem se atreve.  A turma espraguejou quando a menor de 14 anos, usuária de drogas, foi acolhida na casa dele.  Mas ninguém viu que a avó, de 76, que morava na rua por conta do vício da neta, também foi morar com ele. O mundo é assim mesmo. Malicioso e mal agradecido. Quando alguém faz alguma coisa errada, mil dedos apontam para o seu nariz.       O mesmo acontece com quem vive para a caridade. 
- Não bajulemos os demônios ou  subjugamos o bem. 
Muitas pessoas deixam de ajudar por medo de arder na fogueira do ódio dessa gente. 
Uma vez - disse-me Baiano - foram à sua casa pedir agasalho para moradores de rua. E como tinha dois iguais cedeu o que não era tão bonito o que deu a entender que só o tinha dado por achá-lo feio e não por generosidade. Gente, colcha não é artigo de decoração, mas sim inibidor de frio. Só isso!
Hoje eu soube que Baiano encheu o tanque da Van antes de partir para  Nova Friburgo onde, em 2011, ajudou as vítimas da chuva que por pouco não sucumbiram na lama. Só que desta vez será ele quem vai pedir que venham ao Rio doar sangue, pois a greve dos caminhoneiros deixou a zero aquele estoque.  Esse cara com certeza arcará com todas as despesas trazendo e levando essa gente bondosa de volta à sua cidade. Custo irrisório às vistas de quem pensa fazer o bem, mas será dinheiro jogado fora aos olhos dos pessimistas. Algumas mulheres, certamente, estarão entre eles dando motivos às línguas do mal para criticar quem não cruza os braços quando chamado. 
Já falaram que Baiano não é boa pessoa ou já  o teriam fisgado para marido. Enquanto a gente fala dos outros os outros falam da gente. Enquanto eu faço o mal para muitos, praticando o bem, a maioria não faz nada agravando o caos. De qualquer maneira não vamos perder as esperanças, mesmo que garantam que a felicidade é efêmera como a vida, e não eterna como é a morte.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

SORTE NEM TODOS TÊM.

 
    No dia que Mariana achou dinheiro na rua dela eu confesso que chorei. A família fez uma festa por conta de sua sorte, enquanto eu me debulhei em lágrimas por saber que rico não anda aonde o pobre mora para perder dinheiro.  Portanto, só quem precisasse trabalhar o dia inteiro para ganhar algo parecido morava ali. Quem sabe aquele dinheiro não compraria a comida de uma semana inteira ou os remédios de um parente doente? 
 Se eu perdesse 50 reais minha mãe me tirava o couro antes de me matar.  
Isso me lembra a época dos meus nove para dez anos quando encontrei um dinheiro no canto da cozinha lá de casa, mas não peguei. No dia seguinte o dinheiro ainda estava lá, quietinho, do mesmo jeito. No outro dia e no outro também.  Eu achava que só eu sabia dele. Certamente quem o deixou já nem se lembrava do dinheiro. Aí a tentação começou a fazer cócegas, mas o sossego só foi embora no instante em que o diabo, que  me atazanava o dia inteiro,  me induziu a cometer o delito que mudaria o meu jeito de enxergar a vida. Olhei para os lados e como nada me impedia de fazer o que a minha mãe dizia que criança educada não faz, eu o peguei e como quem não quer nada saí porta afora.  Não pensava em gastá-lo, pelo menos naquele momento,  mas para escondê-lo entre o forro e as telhas no único banheiro que nós e o resto dos moradores tínhamos para usar.  Infelizmente a minha felicidade durou pouco. Bastou que eu me apropriasse do bem alheio para mamãe, com uma ripa de madeira  e aos berros, me acordar e as minhas irmãs para que déssemos conta do dinheiro que ela separava, todos os dias, para papai ir trabalhar. –  Por isso o dinheiro parecia o mesmo. E como ninguém confessava, mamãe pegou minha irmã pelo braço para espancá-la, mas antes que a pancadaria começasse eu me entreguei.  Mamãe estava pendurada na minha orelha no momento em que indiquei o lugar onde o tinha escondido.  Nessas horas mamãe batia em todos os filhos para que um não risse do outro e quem teve o azar de ser o primeiro foi minha irmã mais velha de 13 anos, que já tinha corpo e cara de mulher, mas que não passava de uma criança. Doeu-me saber que alguém pagaria por um erro que não cometera. 
Subi na tampa do vaso para ter acesso ao esconderijo da minha desgraça.  Naquele dia minha mãe me bateu tanto, mas tanto, que mal conseguia falar, até que, reunindo o resto de suas forças, chamou pelo irmão a quem deu a incumbência de completar o que tinha começado.  E titio –  que vivia às custas do meu pai – me bateu muito.  Mais do que eu pensei que fosse aguentar. No outro dia mal consegui levantar para ir à escola. Portanto, se alguém quiser perder dinheiro que o faça longe do caramelado dos meus olhos para não umedecê-los. Quanto a educar na base da porrada, depende do educando e de seu educador, até porque, meus pais formaram cidadãos batendo na gente e a gente criou cidadãos iguais a eles, mas com bons exemplos e ótimas conversas.

sábado, 9 de junho de 2018

TEMPOS ANTIGOS.

                                 
    Eu e Otabílio passamos algum tempo da nossa infância na casa um do outro.  Eu, mais na dele, porque seu pai era advogado e o meu assentava tijolos.  O irmão de Otabílio  preferia a companhia das meninas a brincar com a gente, o que envaidecia o pai que achava o caçula o mais esperto dos filhos, porque, brincar com garotas era bem mais interessante do que brincar com meninos – dizia.   Dona Alicia, a mãe, era meio que estranha. Gente boa à beça, mas tinha umas coisas que eu não entendia, como podia me deixar pensar que gostava mais do cachorro do que do marido, pelo menos não dava um passo sem que o Dogue alemão – duas vezes maior que o meu – estivesse ao seu lado. Mas isso não era problema meu e sim do marido dela, porque o importante era brincar naquela casa onde, no fundo, havia uma bela quadra para a gente bater uma bola.  Muitas vezes o pai dos garotos jogava com a gente. Só o caçula é que não.  Preferia as meninas com quem brincava de casinha. Dona Alicia até achava engraçado, mas quando aparecia por lá era por causa do jogo, não pelo filhinho. Mas deixava de se concentrar no jogo quando Rex esfregava o negócio nas pernas dela. O engraçado é que com a gente o bicho não fazia essas coisas, mas bastava D. Alicia sair porta da cozinha afora que ele vinha com aquele troço   maior do que o do meu pai  se esfregar em suas pernas. Aí, ela, meio sem jeito, voltava para casa. Por isso vivia com ele preso lá dentro e como ela mesma dizia,  era para não se constranger, como agora.
Cachorro maluco, aquele. Sempre tentando transar com as pernas da dona, que negava, mas morria de rir com o cio do bicho. Eu era meninote, mas como eu invejava o danado. O pior é que o marido achava lindo o afeto entre os dois, enquanto eu, maldoso, desde sempre, só via sacanagem naquilo tudo.  
Muitas foram as manhãs que eu acordei como se tivesse lambendo o par de pernas daquela mulher. Os vestígios no lençol não me calavam a verdade.
Com o tempo a gente cresceu e cada um seguiu seu destino. Eu escolhi a área que me sustenta.  Otabilio é oficial do exército e o caçula mora com um bando de mulher, só não sei do que vive e muito menos o que faz com elas. O Rex e o pai dos garotos morreram.  D. Alicia agora, um pouco mais madura, tem outro cachorro, o terceiro, mas nenhum é menor do que foram os outros. Quanto a se casar novamente, jamais declinou desejo. Os vizinhos afirmam que os bichos morreram de inanição enquanto o dono, de lutar para mantê-los sadios. Aí eu me pergunto; como de inanição se comida não faltava naquela casa e por que morrer pelos bichos se dinheiro não faltava para cuidar de tudo?

terça-feira, 5 de junho de 2018

COMPULSÃO

      
     João nunca tinha dinheiro disponível para ajudar em casa, mesmo trabalhando e recebendo um bom salário. Seus pais viviam dizendo que o filho precisava se casar ao invés de gastar com prostitutas  como fazia.  Ele corre o risco de pegar uma doença  diziam eles  mas João não lhes dava ouvidos, até porque era um sujeito compulsivo no tocante a sexo, e qualquer mulher com quem se casasse, jamais transaria todos os dias como queria.   Mulher quer casar e ter filhos, mas como, se na hora de transar sempre tem uma desculpa?  Disse franzindo o cenho. A metade da vida João pagou pelo que as mulheres lhe davam e a outra ele se resolveu sozinho.  Infelizmente, com a chegada da crise, a firma o mandou embora. A ele e a outros. Rapidinho o dinheiro acabou e a abstinência judiou de João. Só Andreia, uma das prostitutas com quem mais ficava, permitia que,  de vez em quando, ele desse uma rapidinha, mas só para não desagradar o freguês de tantos anos. Naquela manhã, depois de ter trabalhado a noite inteira, Andreia, cansada, finalmente aceitou que João a acompanhasse até a casa. No caminho, João, depois de algumas palavras bonitas e falar do amor que tinha por ela, terminou por pedi-la em namoro, ao que ela ficou de pensar.  É claro que, se Andreia era de fato a sua prostituta preferida, por que não pedi-la em namoro e receber de graça o que lhe custava os olhos da cara? E foi com esse pensamento que João se tornou seu namorado, depois noivo e por fim, seu marido.  Agora ele tinha a puta dos seus sonhos ali, na sua cama. Mulher que está sempre pronta aos seus desejos por mais estranhos que fossem e quanto a dor de cabeça, jamais falara a respeito. Com ela, João tem, agora, dois filhos lindos, um bom apartamento e o trabalho dela que rende a eles ótimos fins de semana e uma poupança bem melhor do que tinha antes. Pena que de manhã, quando ela chega da batalha, esteja tão cansada que antes do marido gozar ela já está dormindo. Os pais de João, depois de muitos conselhos, enfim, tiveram a felicidade de ver o filho casado, com filhos lindos e uma esposa amorosa e trabalhadeira.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

TAL MÃE, TAL FILHA.

     

      Eu tinha cinco anos quando fomos morar numa casinha de fundo num subúrbio carioca.  Na frente moravam, Gilda, seus pais e a filha Adalgisa, da minha idade. Gilda tinha uma amiga com quem ela e a filha dividiam o quarto, dando a menina motivos de ver e ouvir o que rolava entre elas. Muitas vezes Adalgisa me falou da intimidade das duas. Bastava eu fingir que estava dormindo para começarem a pouca vergonha – dizia franzindo o cenho. Segundo Adalgisa, as duas se enfiavam debaixo dos cobertores e faziam coisas que faziam mamãe dar gritinhos, arranhar a cama com as unhas e algumas vezes a ouvi chorando. Baixinho, mas ouvi – contou a menina.  
Foi difícil fazê-la entender que não era pecado abraçar, fazer carinho e beijar as pessoas que a gente gosta e se o fazem às escondidas era para não pensarem que estão fazendo coisa feia – eu disse a quem adorava me contar essas coisas, porque fazia minha calça estufar na parte da frente – ela dizia sorrindo.
 Éramos crianças, mas tinha coisa que já bulia comigo.
Aos sete anos meus pais, finalmente, compraram um terreno onde fizeram um barraco e depois outros para alugar – graças ao patrão do meu pai que levava as sobras da obra para a gente.   Depois que mudamos não vi mais Adalgisa.
Na semana passada, num bar, eu tomava um café enquanto uma jovem olhava para mim e como insistisse, ergui minha  xícara em cumprimento, ao que ela sorriu – talvez me achasse familiar. Antes da segunda golada a mulher me perguntou de onde a gente se conhecia. – Dessa vez foi eu quem sorriu, já que era o homem que usava desse artifício para puxar assunto e não o contrário.
– Muito prazer, Adalgisa.
Essa mulher poderia ter qualquer nome, meu Deus. Menos esse...
Um filme rodou na minha cabeça, e na dela, depois que eu disse o meu.  Adalgisa morava na mesma rua do famoso clube de Swing, da região. – Só não me pergunte se já fui lá, porque não fui. Morro de vontade, mas tenho medo – falou escondendo o rosto com as mãos.   Vamos marcar um dia, a gente vai junto  – disse-lhe, encostando a cara junto aos cabelos dela.
Naquele dia a gente tomou oito chopes e duas caipirinhas o que nos deu coragem para conhecer o tal clube.  Numa sala acarpetada em  vermelho uma morena cavalgava um homem duas vezes maior do que ela. A luz não nos favorecia e os detalhes passavam despercebidos, menos os corpos nus e o que eles faziam.  Um gordinho transava com quem tinha idade para ser sua mãe. Outros casais, que faziam coisas do arco da velha, nos prostraram numa poltrona para olhá-los. A morena, que vimos com o grandão na entrada, chegou perto da gente, deu um sorriso para Adalgisa enquanto abria o zíper da minha calça e colocava a boca.  Seu parceiro a tirou do meio das minhas pernas para fazer em mim o que ela fazia e como me recusei o cara arreganhou as pernas de Adalgisa para lambê-la, mas ela o afastou e saiu me puxando para fora. 
– Desculpe, mas não é a minha praia. Eu não fazia ideia do que pudesse acontecer lá dentro, mas de uma coisa eu gostei e muito – disse Adalgisa sorrindo – foi de ver aquela coisinha miúda que antigamente estufava a calça de um certo moleque. Jesus do céu! Eu jamais imaginaria que, um dia, aquilo tivesse aquele tamanho. Parabéns – disse abraçando e beijando o meu rosto.  
Quando perguntei o porquê de ter tirado a cara do cara de entre suas pernas ela me disse que, se fosse a moça que tentasse...  Adalgisa não deve ter prestado atenção ou teria visto minha calça estofando quando enfiei a mão no bolso.

terça-feira, 29 de maio de 2018

TIA, EU?
(Risos)

      

    Fazia tempo que ia àquela espelunca e não percebera o quanto gentil era o caixa para com os fregueses. Tinha sido de uma delicadeza tão grande com aquele senhor que até achou que fosse seu parente, mas como havia feito o mesmo com u'a moça bonita e depois com uma senhora que tinha idade para ser sua mãe... Ultimamente as pessoas não tem tido tempo para ser gentis com ninguém, mas esse jovem, olha... 
Três dias depois lá estava ele com a mesma cordialidade. Na semana seguinte essa pessoa resolveu passar suas compras por ele só para ver se o tratamento era de acordo com o freguês, até porque, ninguém é cordial o tempo todo.  Mas ele estava enganado. Foi atendido como todo mundo, senão melhor.  Só na hora que recebeu o dinheiro é que, de propósito ou não,  segurou-lhe o dedo, o que o preocupara, de certa maneira. Por que teria feito aquilo se o dinheiro já estava em sua mão e por que ficou me olhando daquele jeito se tenho idade  para ser seu pai? – Resmungou.  Nada ele teria para comprar naquele final de tarde, mas certamente não dormiria se não tirasse aquilo a limpo. Por isso voltou ao mercado, mas, como havia cumprido o horário, já tinha ido embora.  No outro dia, antes de abrir,  ele já estava na porta. Comprou qualquer coisa e seguiu para o caixa que o tratou como sempre e ainda por cima ganhou uma olhada que atravessou sua alma como um punhal.  Talvez se voltasse a segurar-lhe o dedo...  Mas frustou-se. Então resolveu perguntar-lhe se estava tudo bem, ao que respondeu que nada poderia estar melhor com a sua presença. Os dois sorriram.  Ele, entretanto,  só se deu conta que ainda estava com o sorriso nos seus lábios  na porta de casa.  Preocupado decidiu trocar de mercado. Ficou duas semanas sem dar as caras até que achou que podia voltar, mas não deu. Sua mãe, que se recuperava de uma cirurgia, voltara ao hospital e ele queria vê-la. Viajou duas horas e meia e ao sair do carro ouviu chamarem o seu nome. Talvez fosse um parente ou um conhecido que tivesse ido visitar sua mãe, mas não era. Era o caixa que ao vê-lo quis saber o que estava acontecendo.  Os dois foram até a enfermaria de onde voltaram para um café. 
- Estou numa pousada aqui perto.  Amanhã cedo tenho uma entrevista de trabalho e não quero atrasar.  Caso precise de alguma coisa, até de alguém para conversar, por favor, me procure  disse o caixa escrevendo um número num pedaço de papel que ele amassou e jogou no lixo quando se despediram.
– Eu não tenho e nunca tive dúvidas quanto ao que sou, ao que gosto e ao que desejo, e não seria  um cara bonitinho, educado e que, só por me causar arrepios, ia arranjar sarna para mim e não para ele se coçar, mesmo com as unhas grandes como as que eu tenho – soluçou ao lado de sua mãe.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

LEMBREI DE VOCÊ.

   
    Pensei que fosse enfartar quando fiquei sabendo que você ia embora, coisa que eu jamais pensei que pudesse acontecer, mas, infelizmente, eu me enganara. Agora eu fico aqui, pensando na gente, nos seus momentos comigo e nos meus com você. Depois me bate um desânimo que nem ir à rua eu penso. Também não penso em comer e muito menos sair para beber ou falar com qualquer pessoa. Quanto a dormir, em qualquer lugar estava bom, até porque, eu estaria por perto quando chegasse a hora.  Assim eu fiz naquela noite, naquela semana e naquele mês, que foi o tempo que durou a minha agonia.  Acredito que a sua também.  Eu reconheço que peco por ouvir as pessoas para não errar nas minhas decisões e ficar na minha foi o que me aconselhavam porque mulher é assim, mesmo, imprevisível - me disseram. E não fossem os palpites que me deram e eu não teria percebido um par de olhos me procurando como criança  procura bala na festa de Halloween.  Eram olhos lindos como lindas são as manhãs. Introspectivos como os de um tibetano e mais fieis que os do chapim-azul. Era belíssima às vistas de todos e fiel àquilo que se propõe e a Deus.  Minha pressão deveria explodir, com você a minha frente. Deveria estourar todas as minhas artérias, sangrar pelos poros e parar o surdo do meu coração.  Mas nada disso aconteceu.  Naquele momento senti-me calmo como a face tranquila e serene de um lago. Minha pressão, que parecia um motor de barco de prova, transformou-se em remos de barco à vela tal a calmaria que você proporcionou com a sua chegada. Acho que você me sorriu quando seus olhos acharam os meus. Seu corpo parecia responder aos movimentos do meu e foi com um gesto de quem parte sem deixar pista de que volta algum dia, que você olhou para o caminho que seus pés resolveram trilhar. Do jeito que você me deixou eu fiquei e acho que estou, mas na casa onde você estava em todos os cantos, já não resta o que me faça lembrar de você. Só a saudade que o tempo tatuou na minha alma restou de você.  Seria maravilhoso se você não tivesse partido. Seria maravilhoso tê-la em casa nos momentos em que eu, reclamando do patrão e xingando os colegas, pudesse me atirar aos seus pés aonde as queixas, minhas dores e tristezas desapareciam sob o seu olhar bondoso. O que sossega um pouco esse meu coração é a certeza de que você não se foi por cansaço da minha presença, mas para atender aquele que a permitiu passar tanto tempo ao meu lado.  Dois anos e meio foi o tempo do nosso convívio. Você comigo. E eu com você.  Os outros jamais deixaram de serem os outros, enquanto a gente... Eu era um bobo, não nego. Mas um bobo apaixonado pelo irreal, enquanto você, uma realidade apaixonada por um bobo que eu, infelizmente, jamais voltarei a ser.

terça-feira, 22 de maio de 2018

CAPIXABA.

       
           Do centro de Vitória eu embarquei à Colatina. Era um desejo antigo conhecer uma das principais cidades do interior do Espírito Santo e a influência que exerce sobre os municípios do leste mineiro.
Ao retornar, uma jovem mulher com o filho ao lado acenava chorosa para o marido que enxugava os olhos, na plataforma. Eram lágrimas doídas da despedida. Com os olhos molhados ajeitou a criança e sentou-se a minha frente, num dos últimos assentos, no corredor. O momento seria de grande ternura se ela não tivesse tomado a atitude que tomou quando, sem querer, esbarrei no seu seio.  Foi quando o busão deixou a rodoviária que eu, ao me apoiar no encosto do banco da frente esbarrei a mão no seu peito. Eu pensei que fosse tomar um baita esporro da dona. Que ela fosse mandar o motorista parar o ônibus e me jogar para fora enquanto me xingasse de tudo o que é nome.  Mas que nada.  Pelo contrário.  Ela sorriu com um lindo sorriso e ainda por cima prendeu minha mão de encontro a poltrona quando me desculpei.  Naquele momento foi que eu tive certeza de que o Diabo existia. Na certeza de não estar sendo  observado eu me  curvei e segurei um dos seus seios, mas desta vez de propósito. Primeiro por cima da blusa, depois através do decote.   Em nenhum momento a mulher que chorou ao se despedir do marido fugiu às minhas investidas. 
Eu sempre achei que pessoas audaciosas vivem cruzando a linha do perigo, por isso voltei a sentar, mas puxei a mão dela para trás, para o meu colo. Cutuquei um gorducho, com jeito de açougueiro, que cochilava junto a janela ao meu lado, e mostrei-lhe com um gesto de cabeça o lugar onde ela estava com a mão.  Depois me levantei e ao seu lado, de pé no corredor,  botei junto a cara dela todas as minhas vergonhas de modo que ela pudesse, com a sua ousadia, desenvolver a sua criatividade. 
 Incrédulo o gordinho não perdia um só movimento.  Enquanto a mulher se arranjava com o que esfregava na cara eu viajava na certeza de que os cafajestes, assim como mulheres inconsequentes, são capazes de coisas que até Deus duvida, mas, com certeza, deixando atrás de si um rastro de tristeza e sofrimento.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

SONHO DE VALSA.

    
    Seu Justo, um senhor metido a puritano, mas que de puritano não tinha nada, gostava da maneira como o tratavam na padaria, principalmente por parte de Janice, a garota do caixa a quem cantava na maior cara-de-pau.  Talvez, em um desses momentos, a tivesse feito entender que precisava de uma pessoa para cuidar de si e da casa. Por isso Margarida, que era amiga de Janice, começasse a visitá-lo.
 Senhor Justo se arrependeu de não ter dito a Janice, que afora ela, mulher menor de 50 anos, principalmente as bem feitas de corpo e que usam vestidos curtos, não tinha chance na casa dele, até porque, ele sabia o tipo de homem que era.
Em duas oportunidades seu Justo teria descartado a possibilidade dessa pessoa trabalhar em sua casa, mesmo assim não tinha um dia que ela não o procurasse a noite para convencê-lo do contrário. 
Em contrapartida o cinquentão “lutava” para demovê-la da ideia.
– Pois é Margarida. Eu sei que a casa precisa de uma boa limpeza, mas eu não posso pagar o que você merece e mesmo se pudesse talvez eu não devesse já que vivo sozinho.  Você é u'a moça bonita e com predicados que não me deixariam dormir, principalmente  com você aqui, tão perto.  E se digo isso é porque já tive problemas, e não pretendo cruzar essa ponte outra vez – disse sem esconder que mentia.
– Ah, seu Justo, eu sei que o Sr. precisa de uma empregada da mesma forma que eu preciso de um emprego. Esqueça os detalhes que o senhor mencionou e me aceite, vai!  Eu juro que não tiro  o seu sono.  Até pelo contrário. Farei tudo para que seja tranquilo como eu sei que serão os meus se o senhor me empregar – disse com cara de dengo.
   Seu Justo tinha jurado não tocar mais no caso, mas como fazer para se livrar aquele demônio? 
– Oh, bicho desgraçado é mulher! Enquanto uma foge das minhas cantadas outras levantam a minha libido tão alto que parece doer com o estado que fica. Só que o preço para aplacá-la só eu sei quanto custa – resmungou. 
– Não, Margarida. Melhor não. Está na cara que isso não vai dar certo. Eu me conheço, enquanto você...
Margarida não esperou que completasse a frase. Abaixou a cabeça, pegou a bolsa pendurada no encosto da cadeira e já ia saindo quando seu Justo a puxou pelo braço. Margarida rodou nos calcanhares e sentiu o seu corpo encostar-se ao dele.  Um fogo, não se sabe vindo de onde,  cozinhou o juízo de Justo de tal forma que, não resistindo aos impulsos, beijou-a na boca.  Margarida, num gesto ligeiro enlaçou-se ao  pescoço do beijoqueiro e num salto trançou-lhe a cintura com as pernas. Sem desgrudar da moça a leva, como filho de macaco agarrado a mãe e a deita de costas no tampo da mesa.  Não tinha sacado a arma para abater a caça quando a campainha tocou.  Num salto Justo saiu da cama e antes de atendê-la notou que teria perdido a hora se a maldita campainha estivesse desligada. Nada, entretanto, havia do outro lado da porta a não ser um bilhete enfiado por baixo, onde se lia;  Obrigado seu Justo, mas o dono da padaria me chamou para trabalhar com ele. Desculpa a amolação e muito obrigado, de novo. Ass. Margarida.
Seu Antônio era viúvo e diziam as más línguas que antes da morte da esposa o safado levava as mulheres para dentro do estabelecimento onde metia a mão na massa.  Encantadas em vê-lo preparando os sonhos deixavam que lhes queimasse as roscas.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

LOUCA DE PEDRA.

        
     Maria Santa viajou do interior do estado até aquele lugarejo, a quilômetros da capital pernambucana. Infelizmente chegou dois dias após Pedro Barros perder a luta que vencia contra o câncer.  Pedro Barros tinha 20 anos. Difícil foi acreditar que deixasse a mulher viúva, e o filho de 3, tão cedo. Tudo começou aos 17 anos quando Pedro Barros engravidou a namorada Sarah, de 15, como pretexto para se casarem. Com o parto complicado Sarah perdeu a noção das coisas e só 14 dias mais tarde recuperou a normalidade quando a parteira colocou nos seus braços um robusto menino com todos os traços do pai – antes pensava ser uma menina. Pedro Barros acompanhou o sofrimento da mulher que, segundo a parteira, talvez a mãe ou a criança não saísse do parto com vida. Pedro Barros, transtornado, partira em busca de socorro de onde voltou duas semanas depois e conheceu a criança. Foi um milagre – disse à parteira com o filho no colo.
Nesses últimos dois dias, ao levar o filho para brincar na pracinha, Sarah achou que uma mulher, que jamais vira naquelas redondezas, a seguia.  Até pela janela a mulher fora vista bisbilhotando.  Maria Santa tinha 22 anos, era ruiva, altura mediana e muito bonita. A sua aparência e vivacidade lembrava as Bündchens não fosse o aspecto de mulher sofrida e maltrapilha. Certa vez Dona Sebastiana, a parteira que tinha Sarah e o marido como seus filhos, sabendo que a mulher tinha qualquer coisa a ver com eles, decidiu questioná-la.
 – Eu nunca a tinha visto por aqui, mas como estou sabendo que a senhora está seguindo a minha amiga e a seu filho decidi lhe perguntar por quê está fazendo isso? Afinal, quem é a senhora e o que pretende além de tirar o sossego dessas pessoas?
– Ah, eu me chamo Maria. Maria Santa.  Estive internada em um sanatório por três anos de onde fugi para encontrar a pessoa que eu amei loucamente até que roubasse o nosso filho recém-nascido de mim.  Infelizmente, como eu dependia de carona,  cheguei depois que ele tinha morrido. Sofri e sofro muito a ponto de ficar louca, como fiquei, mas estava disposta a esquecer o assunto e até perdoá-lo depois que me falasse o que fez com meu filho  – disse chorando.
– Aonde a senhora conheceu Pedro Barros e o que lhe dá a certeza de que ele roubou um filho que nem a senhora sabe se era dele?
– Bem, os homens nunca têm certeza, mas nós, mães, sabemos quem nos insemina. Com o sumiço dos dois e a quebra do meu resguardo acabei enlouquecendo. Fui internada num sanatório, mas quando descobri o endereço dele eu fugi e foi graças as pessoas generosas que eu estou aqui. Pena que é tarde de mais – disse olhando os pés.
Dona Sebastiana correu à casa de Sarah e a chamou em um canto. Contou-lhe, enfim, um segredo que guardou por 3 longos anos. Tirava, a partir daí, um peso que carregou por tanto tempo na consciência.
– Sua filha era linda, Sarah, mas Deus não quis que vivesse. Pedro Barros ficou desesperado e sem saber o que fazer pegou um trem e sumiu por quinze dias deixando você mais morta do que viva.  Quando voltou entregou-me uma criança dizendo que era sua e dele. Quando perguntei de onde a trouxera ele mentiu e eu, infelizmente, fingi acreditar.  Guardei essa mentira por amor a ele que tinha como meu filho e a você, também, minha querida - disse com lágrimas nos olhos. Você criou um filho que agora é seu, mas também pertence a essa moça que vê em seu filho os traços de Pedro Barros a quem, também, amou, como você. Portanto, se você quiser e se o seu coração permitir, com certeza ela deixará definitivamente a casa de saúde que deve estar virando o mundo atrás de uma louca fujona. Louca, sim, mas por ter perdido um filho, um filho a quem você deu o bonito nome de Jesus.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

HOB CHAMBLER

    Quando Fernando enfartou eu sugeri a Teresa, sua mulher, que o trouxesse para se tratar no Rio e como eu tinha uma casa desocupada a duas quadras da minha prontifiquei-me a ajudá-los. Era justificável Teresa não me considerar amigo da família, até porque, eu a traí com sua irmã que, depois de ouvir as minhas queixas, decidiu me dar o que a minha namorada me negava.
Velhas lembranças – diria o Palhaço poeta. Velhas lembranças.
Eu acreditava que com o passar do tempo ela talvez me perdoasse, mas...
Agora era esquecer o orgulho e cuidar do marido para não perdê-lo.
Ontem, depois da caminhada, decidi por visitá-los.  Acredito não ter sido uma boa hora, não para mim, mas para ela que saiu do banho com uma toalha enrolada na cabeça e um felpudo roupão branco sobre a pele – pelo menos nada eu notei que vestisse por baixo. Coloquei a revista no colo para que ela não visse a protuberância nas minhas calças quando a vi se abaixar na minha frente para sentar. 
– Você não mudou nada – disse-me ela.
Estava na cara que o roupão a trairia. E traiu quando sentou. Abriu-se de cima a baixo e só não mostrou os seios porque os esfregaria na minha cara quando colocasse as xícaras, que trouxe na bandeja, sobre a mesinha. Teresa continuava a mesma mulher gostosa de há sete anos. Aliás, o tempo jamais se atreveria mexer no perfil das mulheres que se cuidam.
– Você não mudou nada – repetiu.
Eu sei que deveria falar sobre o caso do Fernando, mas como, se nem respirar eu podia? Vermelho eu sei que estava, e mais vermelho eu fiquei com a tranquilidade com que deixou a bandeja para cobrir as pernas e os pelos púbicos que o roupão deixou ver. Aí ela, como se nada tivesse acontecido, me entregou o café.
– Pois é, eu estava caminhando quando decidi perguntar se precisavam de algumas coisa.  O Fernando, por exemplo, como está reagindo às fisioterapias?
Teresa sabia que, se eu estava ali, não era só por causa dele, por isso achei que o roupão se abrindo fosse pretexto para testar minha amizade por seu marido. Depois me lembrei dela falando para todo mundo que eu era cafajeste e agora, diante do que parecia estar propensa, poderia, finalmente, provar que estava certa.
Em momento nenhum eu pensei que Fernando não desse mais no couro por conta da doença. Em nenhum instante eu achei que fosse por carência ou por lembrar-se da pegada que nem sabe se eu ainda tenho.  De qualquer maneira comportava-se como um coelhinho frente a arma engatilhada  do caçador.
– Teresa, quem está aí? – Perguntou Fernando lá do quarto com a voz atrapalhada.
– Eu preciso falar com seu marido, em que quarto ele está?
– Eu só não quero que ele saiba que você está aqui comigo. Espere um pouquinho que já volto. – Disse levando uns comprimidos e um pouco d'água lá para dentro.
– Pronto. Não dou cinco minutos e ele estará dormindo como um bebê. Agora venha comigo que vou lhe mostrar uma coisa.
Teresa pegou minha mão e foi me arrastando para um quarto nos fundos da casa onde uma cama com lençol de linho branco salpicado com pétalas de rosa vermelha nos aguardava.
– Meu Deus!  E o cafajeste sou eu...   
Tirei minha mão de dentro das dela e saí em passos largos, quase correndo, para não vomitar na sua frente.
Há um ano Fernando morreu. Eu só não saberia afirmar se em decorrência do enfarto ou pelos motivos que o provocaram.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

MARIAJOÃO

   - Pisou no meu pé por que, cara? "Tá" a fim de arranjar confusão ou alguém "te" mandou me provocar? - disse-lhe na ponta dos pés com os narizes quase se tocando.  O pobre rapaz não queria nada disso, além de um lugar onde pudesse viajar num vagão apertado como aquele. Mas dera azar ao se apertar junto a  Marcelle, uma loirinha que até um ano atrás vivia presa  num corpo que não tinha nada a ver com a sua personalidade. Só depois de muito sofrimento e trabalho conseguiu mostrar aos pais e ao mundo a mulher que havia nele.  Muitas coisas mudaram a partir de então, só o temperamento que não.
Aos cinco anos, Marcelle, já era vista com olhos preconceituosos e jamais soube o que era paz até que resolvesse seus problemas. Com ajuda de um psicólogo e de um amigo, decidiu dar um rumo à sua vida.  Ela e sua mãe sofreram muito quando o pai lhes disse que não faria parte daquela vergonha e a expulsou de casa.
 Marcelle não o perdoou.
Hoje, para seu desespero, o viu na estação pronto para embarcar, mas para evitar confusão, ela não desembarcou. Ficou ali até que o pai saísse do trem. Preferiu perder o compromisso a topar com ele.  Não queria confusão, mas não deu. Não foi possível ficar sem brigar. Não com o pai, mas com quem nada tinha com isso, mesmo pisando seu pé.
- Desculpe.  Eu não quero e muito menos estou atrás de confusão, mas, caso eu quisesse procuraria um cara do meu tamanho e não u'a mocinha pequena e frágil como parece que és. E para provar que te falo a verdade vou trocar de vagão, só para não ficares com raiva de mim - disse com os olhos cravados nos dela. Depois virou-se e espremeu-se por entre os passageiros em direção à saída.
- Meu Deus, nunca um cara tão bonito e educado me olhou e agiu desse jeito - pensou.
Antes que ele saltasse Marcelle o pegou pelo braço.
- É claro que eu o desculpo, mas, por favor, antes de saltar, deixe-me explicar o que está acontecendo. Aí você vai me entender.
No bar que escolheram para conversar os dois se apresentaram. Victor  falou que tinha terminado com a namorada por ter mentido que estava grávida o que lhe dera uma grande dor de cabeça. Depois a firma o despedira, e agora pisava no pé de uma garota brigona.  Enquanto ele falava,  Marcelle selecionava as palavras com as quais contaria sua história. Já Victor, reclamava da sua falta de sorte que andava tendo.
E assim passavam a tarde até que o celular de Marcelle tocou.  Era sua mãe dizendo que o pai sofrera um enfarto e antes de ser operado chamara por ela. Nervosa e sem saber o que fazer contou para Victor que tentou convencê-la a visitá-lo.  
- Eu acho que deves escutar tua mãe, até porque, essa pode ser a última vez que teu pai pede alguma coisa para alguém.  Vá, vá e depois me digas o que ele te falar.
- Tá legal.  Eu vou, mas só se você for comigo...
Quarenta minutos mais tarde chegavam ao Hospital onde o pai de Marcelle fecharia os olhos assim que unisse a mão da filha com a do rapaz e pedisse que o perdoasse. Depois olhou para Victor e pediu que cuidasse dela.  Dado o recado tombou a cabeça e descansou. Uma lágrima surgiu nos olhos de Marcelle para morrer nos lábios de Victor que a beijava.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

THE VOICE KID

    
    Ao completar 15 anos  ingressei na Brigada Paraquedista realizando um sonho de infância. Lá recebemos, eu e 28 recrutas, algumas roupas das mãos de um sargento que nos levaria à companhia onde tomamos banho de mangueira. Era um jato de água tão forte que um cabo e um soldado suavam para dominá-lo. Para evitar que fossemos arremessados uns contra os outros, cada conscrito apoiou-se da maneira que dava. Eu, por exemplo, ajeitei-me de costas, não só para criar base, mas também para evitar certos comentários que poderiam fazer.  Mas não teve jeito. Logo me arrumaram um apelido. Um, não. Vários. Mesmo que eu só tivesse mostrado a bunda não consegui esconder o meu grande segredo.  Grande para mim, mas para eles parecia imenso.
A turma parecia ter esquecido meu nome, pois só me chamavam pelos apelidos pelos quais eu, prontamente atendia na esperança de que não pegasse. Um sargento, no entanto, chamou-me pelo que eu mais detestava e para minha infelicidade o apelido pegou. 
- Kid bambu! Gritou o miserável que nada de importante tinha para me dizer além de me sacanear.  De qualquer forma trocamos palavras sem sentido e cada um seguiu seu caminho. 
Em três meses a companhia já tinha saltado o suficiente para ser brevetada.  Eu, no entanto, não precisei mais de 30 dias para atingir essa meta.  Ninguém constava nas listas de salto mais do que eu e uns três camaradas que não me zoavam. Durante o tempo que fui responsável pelas listas de salto eu lancei menos vezes aqueles que eu não gostava do que eles achavam necessário ou queriam.  Só que eu, não.  Em um mês eu já tinha saltado mais do que qualquer um desejasse, até que, na sargenteação, um superior me perguntou por que os meus colegas faziam ordem unida naquele sol escaldante de abril enquanto eu me refastelava no ar condicionado? 
- Tenente, é que na companhia, só eu mexo com computador e as escalas de saltos são todas feitas por mim.
-  Tudo bem, soldado. Só que eu quero você lá embaixo com os outros.  Ordenou o oficial que saltava duas vezes por semana e jamais ficara de serviço num sábado ou num domingo. Isso mesmo. Saltava duas vezes por semana e tinha os fins de semana livres para fazer o que bem entendesse.  Isso mesmo, tinha. Pensei com os meus botões...
Semanas depois o comandante perguntava por que o tenente estava saltando de quinze em quinze dias e nos finais de semana era visto no quartel?  
- É a escala, comandante. É a escala,  só que não sou eu quem a faz, é o computador.  
Na formatura eu, claro, era o mais novo e também o mais sacaneado.  Quando chamaram o meu nome a turma não perdeu tempo...
-  Kid bambu! Kid bambu! Kid bambu! 
Eu, como já estava acostumado, não dei bola.  Dei um passo à frente para ser brevetado por alguém que se parecia muito com a tia Clarisse, cunhado da minha mãe. 
- Meu Deus, como era bonita aquela mulher... 
Depois fiquei sabendo se tratar da esposa do tenente, aquele que me mandava marchar num sol  escaldante de abril.  O comandante a convidara pela beleza, com permissão do marido, é claro, a  fazer as honras da corporação.
No final da festa recebi abraços de uns, beijos de outros e alguns bilhetinhos marcando encontros.  De toda aquela gente a que mais me impressionou foi uma que além de ter colocado o brevet no meu peito também tinha  letra muito, mas muito interessante.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

QUANTO TEMPO TEM O TEMPO?

     
     Há muito o sujeito me causava repulsa e indignação...  Oh, cara chato, meu Deus! Se eu pudesse dava um soco na cara dele. 
Muitas foram as vezes que troquei de calçada para não ter o desprazer de cruzar com ele. Olhar sua cara então, nem pensar. Se alguém acha que conhece alguém inconveniente esteja certa que esse cara é duas vezes pior. Uma vez fui à casa da Francisca, irmã dele, a fim de ajudá-la em uma matéria que certamente cairia na prova. Mas não deu. Desisti, porque o garoto não sossegou até me tirar do sério. Começou me dizendo que eu era linda e que tinha sonhos românticos comigo. Até aí, tudo bem. Mas quando começou a contar os detalhes daquele sonho nojento, virei bicho.
- Cara, será que você não se enxerga? Quando foi que te dei permissão para falar assim comigo?, disse esfregando o dedo no nariz dele. Mas ele, como todo cafajeste, ria com o estado que conseguia me deixar. 
Desculpando-me com Chiquinha enfiei minhas coisas de qualquer jeito na mochila e saí chutando tudo o que via pela frente. Infelizmente a irmã não tirou nota boa e tudo por causa do desgraçado. Mas foi bem feito para ela, porque, como seus pais, nada fazia para melhorá-lo como pessoa.
Dois meses depois papai nos levou para o outro lado do planeta, pois era assim que eu chamava o lugar onde nos levou para morar. Não fosse a morte da minha avó a gente não saberia das novidades, como a separação dos pais de
 Chiquinha dois anos após nossa viagem, quer dizer, há treze anos.  
Francisca se casara e foi morar em Portugal com o marido. O irmão, aquele idiota de cujo nome, graças a Deus, eu já nem me lembro, montou um consultório após ter se formado onde atende a seleta clientela na parte da manhã, e a tarde, crianças e idosos carentes da região. Tudo de graça. Fora as semanas que viaja à Amazônia, mais precisamente à tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, para tratar os carentes infectados pela malária, segundo titia me contou, e terminou dizendo que só Deus o mantinha de pé pois nem para descansar o rapaz tinha tempo.
Quando eu soube que ele pagava as despesas e as passagens, inclusive os remédios que receitava com o seu próprio dinheiro, eu juro que me deu vontade de sentar nos calcanhares e chorar até que as lembranças de ter sido tão rancorosa e grosseira sumissem da minha mente. 
 Mais de três vezes aqui, eu falei o nome da minha amiga Francisca, mas quantas deixei de falar no dele, do Guilherme, Guigui, como o chamavam quando jovem? Um monte, não é mesmo? Meu Deus, quanto arrependimento...
 Com os olhos úmidos pela perda de minha avó e a
rrasada com o que  minha tia acabava de dizer eu deixei minha xícara de café no balcão e voltei para rezar junto ao corpo. Coloquei minha mão sobre a mão que puseram no meu ombro, de quem recebi um beijo no rosto. Era Guigui, o Dr. Guilherme. Viera para atender seus clientes e dar o último adeus aquela que o viu crescer.  Primeiro por fora e mais tarde por dentro.
Segurei o rosto dele entre as mãos, olhei fundo no azul dos seus olhos e sem dizer de quê e porque,  pedi-lhe desculpas. Beijei-lhe as faces, abaixei a cabeça e, chorei...

quinta-feira, 26 de abril de 2018

BOLINHAS DE GUDE.

      
    Meu pai era boxeador, nas horas vagas, mas era mamãe quem dava porrada na gente o resto do dia.  Meu pai era um sujeito fora da curva, mas alguém tinha que segurar a turma, principalmente a mim, como ela dizia.  A gente morava  a meio quilômetro do comércio, mas qualquer moleque fazia o percurso em 15 minutos, ida e volta. Eu, no entanto, não conseguia fazer em menos de trinta. Ou será que alguém consegue jogar uma partida de bola de gude, principalmente se estiver ganhando, em menor tempo?  Minha mãe ficava uma arara, mas na distribuição das tarefas ir à rua era responsabilidade minha. No dia em que o tio Dilermando veio nos visitar, mamãe pediu-me que comprasse o pão para o café da tarde, mas não sem antes garantir que se eu levasse meia hora, como fazia, haveria de me ver com ela.  Desci a minha rua à mil por hora, mas...
A padaria dava frente para o que sobrou de um antigo armazém cujo telhado parecia estar desabando.  Mesmo assim Vera Olho de Gato passava a maior parte do tempo lá dentro. Parecia não saber o que era medo.  A moça era escurinha, muito magra e bem mais alta do que eu.  Tinha  35 anos aproximadamente e vivia do que lhe dessem. Segundo diziam, era meio perturbada.  Quando me aproximei Verinha me cercou pra pedir dinheiro.  Eu tinha uma nota de dez reais da mamãe.  Eu disse que tinha o dinheiro, mas não podia dá-lo a ela. Então, como ninguém estava olhando, Verinha levantou o vestido e disse que por cinco reais me deixaria tocar naquilo que me mostrava.  Eu, um moleque de 14 anos via, em loco, não a cores, claro, aquilo que me levaria à loucura quando dela me lembrasse. Sem pensar nas consequências aceitei a proposta.  Era só comprar o pão e pegar o troco, até porque era com ele que eu poderia tocar no que ela havia me mostrado. Assim que saí da padaria Verinha me mandou entrar.  Estava escuro e o cheiro não ajudava muito.  Tentei negociar dizendo que era muito dinheiro para botar a mão no que ela tinha em baixo daquele vestido surrado e fedorento.  Então, para não perder o freguês, suponho, me permitiu fazer com ela o que os casais fazem quando estão sozinhos. E eu fiz. Fiz, mas foi diferente de tudo o que já tinham me falado, inclusive quando cheguei em casa sem o dinheiro, que, se Vera não pegou deve ter caiu no meio dos escombros  e sem o pão que ela, com uma dentada comera a metade.
Mamãe pediu licença ao meu tio e me levou para fora querendo que eu a convencesse que não tinha perdido o dinheiro dela jogando bola de gude.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

EU TAMBÉM QUERO...

    O que D. Marinete estaria fazendo por aqui, meu Deus? Acho que vou oferecer-lhe uma carona, até porque, ontem, durante o almoço com os meus amigos em minha casa, percebi que ela estava meio caladona e sempre que nos dirigíamos a ela balançava a cabeça em resposta ou dizia um sim ou um não, simplesmente.  Até o Clóvis, que frequentava a casa dela por ser amigo do marido, percebeu. Foi sorte não ter buzinado ou o  Clóvis, que coincidentemente saía do motel na mesma hora em que ela passava por ali, teria ouvido. Agora, o que estaria D. Marinete fazendo ali enquanto ele estava no motel? Ou será que os dois...  Meu Deus, eu não quero nem pensar...  Acho que deve ser coisa da minha cabeça, só pode ser.  Esses caras não seriam tão audaciosos como a minha mente suja me obriga acreditar para fazer um negócio desses. Até porque D. Marinete e a mulher do sujeito frequentam a mesma igreja, além de serem amigas. Eu jamais teria acreditado se me tivessem dito, mas eu vi com esses olhos caramelados que talvez um dia a terra coma.
Confuso e sem saber o que fazer acelerei e fui embora.  No final do dia eis que D. Marinete bateu lá em casa.  Disse que u'a amiga contou para ela que tinha me visto em Mesquita, em Nova Iguaçu, mas que ela tinha respondido que eu jamais deixaria a zona sul para andar num lugar como aquele.
Fiquei puto com aquela conversa. Deu até vontade de voar na garganta dela, mas acabei confirmando a história;
-Não só a sua amiga me viu como eu também a vi. Ela estava saindo do motel com um dos nossos amigos.  Eu fiquei e ainda estou muito indignado com o que vi, disse-lhe eu.  D. Marinete empalideceu. Chorou de soluçar.  Depois enxugou as lágrimas com as costas das mãos e disse que foi num momento de fraqueza que tudo aquilo aconteceu.
- Eu não tenho nada com a sua vida e muito menos com a do Clóvis.  Só  acho que o seu marido, como a mulher dele merecia um pouco mais de respeito.
- O que você quer que eu faça para você me desculpar e esquecer tudo isso? Perguntou.
- Nada. Não quero que faça nada a não ser que você tenha algo em mente, já que anda cheia de surpresa ultimamente.  Respondi.
- Bem, todo mundo sabe que você tem olho em mim e nenhum homem olha para uma mulher sem pensar em levá-la para cama. Portanto eu te pergunto; o que você faria se eu aceitasse um convite seu para sair? Perguntou empertigada.
- É verdade.  Eu sempre tive olhos gordos em você, mas jamais a cantaria, até porque seu marido é meu amigo e também não tenho a cara de pau do Clóvis.  Mas já que você perguntou...
No momento em que eu a vi em Mesquita jamais acreditaria que tivesse coragem de ir onde acabou de dizer que foi, mas agora, depois da confissão, meu Jesus do Céu! Será que o marido e os filhos conhecem a mulher que os tem por esposo e filhos?  Enfim, como diz minha avó, só o marido e a mulher concordam com os segredos que têm.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

PUNK NA CABEÇA.

    Não viajei no feriadão, fiquei em casa. Fui o único do prédio que esperou por quem não veio, me deu toco. Não me zanguei, até porque chovia muito no final de semana. Teve um momento que até me arrepiei com um trovão. Parecia que o prédio ia cair. Mal eu me refiz do susto tocaram o interfone, e como o sistema ficava meio esquisito quando chovia achei melhor descer para conferir. 
Na portaria alguém se espremeu entre mim e a porta que eu nem tinha aberto direito e se enfiou num dos elevadores. Apertou o dez e, sem me olhar, começou a futucar as unhas. Era u'a moça alta, ossos malares visíveis, um maxilar que definia claramente o queixo. O rosto era longo, cabelos curtos pintados de azul e vestia casaco cumprido até o coturno que escondia as pernas da calça. Por baixo uma jaqueta preta sobre a blusa da mesma cor. Dois piercings no nariz, três em cada orelha, outros nos cantos da boca e uma bolinha de ouro no meio da língua. Nos dedos, anéis de prata em forma de caveira e os olhos com muita sombra no entorno. Mesmo assim era bonita.
No segundo andar as luzes piscaram. O elevador deu uma sacudida, mas seguiu seu trajeto. As luzes piscaram de novo, mas desta vez o elevador deu um tranco mais forte e parou entre o sexto e o sétimo andar.  Acionamos a campainha do alarme, mas ninguém apareceu para ajudar. O ar condicionado parou e o calor tomou conta da gente. Em cinco minutos a garota começou a suar.  Em dez tirou o casaco e o amarrou na cintura. Assim que o ar deixou de circular e as luzes se apagaram eu comecei a rezar e a estranha perdia os sentidos. Apesar do calor ela estava gelada, talvez porque estivesse nua da cintura para cima não obstante o pequeno sutiã. O elevador começou a tremer, deu um novo tranco e subiu. Apagado, mas subiu.  Foi até o andar que eu tinha marcado. 
 - O que eu faço com essa garota, meu Deus? Deixá-la onde estava eu não tinha coragem.  Levá-la até o décimo eu não tinha também. 
Ainda confuso eu a sacudi e bati no seu rosto, mas nem um sinal ela dava de vida. Arrastei-a para dentro de casa eté minha cama.  Tentei ligar para alguém, mas não tinha sinal. Acendi um toco de vela. Dei palmadinhas no rosto, assoprei seus ouvidos, mas ela não se mexia. Achei que respiração artificial fosse uma boa, por isso fechei a porta para não pensarem besteira e me posicionei sobre ela. Curvei-me até sua boca, mas não tive coragem. Como eu poderia colocar minha boca na de uma outra pessoa sem antes escovar os dentes? Corri ao banheiro e resolvi o problema.  Na volta eu achei que ela tinha mudado de posição.  Tentei contato, mas nada. 
-Será que ela está mesmo apagada ou tá tirando onda com a minha cara?, pensei. Com essa possível certeza reiniciei os trabalhos.  Subi na cama com ela entre os meus joelhos e coloquei minha boca na dela. Beijei-a com sofreguidão. Beijava, mas com a atenção voltada para sua respiração que aos poucos ia aumentando até que ficou igual a do Usain Bolt no final de uma prova. 
-Graças a Deus a garota está viva. Eu sei que estava mal, mas agora deve estar me testando. Deixei seus lábios e desci com a boca pescoço abaixo. Ela resfolegava tal qual locomotiva subindo a serra.  Com muita calma e carinho saquei um dos seios  na intenção de lambê-lo, e o fiz. Livrei-a dos empecilhos que  a sufocavam e a degustei por inteiro. Desci, como um cão bebendo água, até abaixo do umbigo onde escalei o monte de Vênus. O vento não me soprava os aromas do campo, mas também não me desagradava o perfume que me trazia. Desci deslizando a encosta por um lado e voltei a subi-la  por um outro.  Escorreguei pelo meio até que cheguei ao pomar. Que contrassenso,  sucumbi afogado na seiva da vida. 
Além do que eu fiz, nada mais pretendi sem sua participação por mais que o meu corpo exigisse. E para fugir dos demônios corri ao banheiro e tomei uma ducha bem fria. Na volta, advinha qual foi a minha surpresa?  A punk estava de pé ajeitando o cabelo. Já era senhora de suas próprias vontades.  Jogou o casaco no ombro e saiu batendo a porta atrás de si. Nem quis saber o porquê de ter acordado numa cama desconhecida.
-Este fato me dá a certeza de que, nem toda porta que abre é para você entrar. Quem sabe não é para você sair?

segunda-feira, 16 de abril de 2018

NO ANDAR DE CIMA.


    Toda noite é a mesma coisa. O vizinho do andar de cima fica até altas horas com os amigos que vão à sua casa fazer não se sabe o quê. Só ouvimos gargalhada, palavrão e barulho de garrafa entre outros. Os vizinhos dizem que já estão acostumados com a sacanagem dos finais de noite.    E a gente esperando o dia amanhecer para poder dormir. 
Na semana passada quase aconteceu uma desgraça. Não fossem os gritos das mulheres alguma coisa ruim teria acontecido.  As vozes, entrecortadas, deixavam perceber que alguma coisa grave estava para acontecer caso um deles, que não sabemos quem, não as ouvisse. Alguns dizem que se tratava de roleta russa enquanto outros afirmavam que podia ser algo pior, se é que existe algo pior do que brincar com a morte em detrimento da vida. Tem gente que depois de velha vira criança levando coleguinhas pra brincar na casa dele.  
No dia seguinte fiz questão de ficar olhando para ver o estrago que a festinha fez em cada um.
Dois homens, um de 15 anos e um coroa na casa dos 65 saíram primeiro. Atrás vieram uma senhora baixinha e forte e duas garotas beirando os 17 e 18 anos. Todos demonstrando que a noite fora bem aproveitada. Uma pergunta, no entanto, não calava; o que um velho e um garoto faziam com três mulheres num apartamento onde a bebida e os palavrões rolavam soltos? Talvez o velho e a gordinha tivessem a experiência que certamente faltava nas  moças e no rapaz, mas não seria suficiente para deixá-los do jeito que ficavam. Gritinhos de mulher e risos de homem as instigando fazer alguma coisa não era raro. Todos bebiam e fumavam, só não sabemos se era o que a lei permitia ou que condenava. Falavam coisas como tirar camisa, quem sabe camisinha? E por que tirar e não botar? Falavam de alguém estar com a boca suja, quem sabe o nariz? Esse tipo de viagem os igualava no tocante a idade e na irresponsabilidade.
Ontem, para o nosso desespero, o número de pessoa ficou maior.  O rapaz chegou com um cara que era a sua cara e tinha o dobro de sua idade, enquanto uma das meninas levou a mãe ou  não se teria ouvido alguém chamar a outra de mamãe quando pediu para usar não se ouviu bem o que. As vozes dos homens eram diferentes uma das outras enquanto as das mulheres tinham o mesmo tom.
Pouco antes do amanhecer alguém tentava colocar um sapato menor do que cabia no pé de uma das moças por isso a ouvi pedindo que não empurrasse com força porque ela não era como fulana, eu não entendi o nome, para aguentar aquele tipo de coisa. As outras riam da covardia de quem se assujeitava aquele tipo de brincadeira. Pelo que pude acreditar, o velho ou o pai do rapaz também reclamou da brutalidade com que o calçavam. E pelo visto, o sapato era um ou dois números menor. 
No outro dia lá estava eu e as minhas olheiras querendo descobrir de quem era o sapato e quem o tentara calçar em quem, se é que era de sapato que se tratava.
Felizmente eu não estava na festa, porque, calçando 44, como eu calço, meu sapato não machucaria o pé de ninguém. Principalmente das mocinhas, mas se fosse o contrário eu nem na brincadeira entrava.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

"PRECISO FALAR..."

    Há tempos nascia a criança mais linda do mundo. Não era simplesmente por ter sido o primeiro filho de um casal que se entendia e se respeitava, mas por ter sido querido e amado antes de decidir se viria. Esse moleque surgiu no mundo para iluminar a terra e o fez de maneira que as flores ficassem mais cheirosas, mais bonitas e o dia mais prazeroso.  Nasceu loirinho como um dinamarquês.  Seus olhos azuis pareciam um céu de brigadeiro e tão esmeralda, ao mesmo tempo,  como se fora filho da mãe do seu pai.  
 Essa criança cresceu para tomar  no mundo o espaço que tomou.  Fez nele o que quis e o que não quis.  Acertou como todos prevíamos, e errou como qualquer um de nós. 
 Hoje você é um homem. Senhor das suas vontades e de todos os seus desejos. Paga pelas dívidas contraídas e recebe os louros pelas vitórias conquistadas.  
Você hoje, meu filho, não fica um poucos mais velho, mas fica experiente o suficiente para entender o amor de um pai e o que ele deseja e reza para que o filho tenha e se torne.  Portanto,  seja o que você achar que pode ser, mas nunca se esqueça do amor e do orgulho que tenho em fazer parte da sua vida.
Seu pai.
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                                                    (DE FRENTE PARA O PERIGO)
       Um recém-chegado dos cafundós de Garanhuns se espichava como um lagarto num dos bancos do Terminal do Tietê. Enganavam-se os que achavam que exibir-se fosse a intenção dele, já que estava ali a espera do irmão ir buscá-lo, como havia prometido. Enquanto ele não vinha, nosso herói se lambuzava com os olhos enfiado entre as pernas de quem as escancarava diante de um par de olhos gulosos como o dele. Às vezes as pernas se abriam tanto que pensava ver cabelinhos escapando às bordas da calcinha. E graças ao irmão não dar as caras ele pecava imaginando coisas.
  Perigo havia no que fazia, mas também era gostoso enfiar os olhos até aonde ela deixava ver. 

 Esse sujeito era grandão e mal acabado. Era nascido e criado onde Judas perdeu as botas e só estava ali por insistência do irmão que há anos tentou a sorte e se deu bem. Hoje ele é casado, bem empregado e pai de duas filhas. Na caatinga, o máximo que viam de uma mulher eram os tornozelos, mas que muitas vezes os levavam a sonhos pecaminosos.
  Agora estava ele ali deitado se refestelando...
Esquecido da vida pensava no que faria com aquela cabritinha presa no seu cercado.
Rolou novamente os olhos para os lados e na certeza de não ser observado, meteu a mão no bolso e lá ficou mexendo e remexendo não se sabe em que até que vermelho como um tomate se curvou para sufocar um grito que certamente tocaria todos os sinos da cidade.
Refeito sentiu-se quase saciado.
Segundo ele contou, passou um filme na mente dele onde, sem vergonha nenhuma, essa mocinha se jogava de joelhos e com movimentos que fazia com a boca na altura da cintura dele o obrigou a se curvar para abortar um grito. Talvez quisesse ir além daquelas olhadelas, mas as penas da lei o impediam. De qualquer maneira não deixou de se lambuzar olhando o bonito par de pernas nervosas que, em nenhum momento a garota sossegou.

 Dizem os especialistas que é uma ótima maneira de se masturbar sem que ninguém as note. Isso só se for na teoria, porque na prática o cara sabia ou melhor, tinha certeza daquilo que o levou a calar o grito.
 Sem ter como esconder o que fizera viu a pequena se aproximar e, olhando para as roupas dele disse que não o tinha reconhecido. Desculpou-se em nome do pai que estava trabalhando e mesmo não acreditando que
aquilo pudesse ser irmão do seu pai, o ajudou a entrar no uber e foram para casa.

sábado, 7 de abril de 2018

E SE FOSSE SEU FILHO?

 
    Vocês sabem que não gosto de falar de política num espaço onde os amores de um homem por suas mulheres contam, cada um, suas próprias histórias.  Mas não posso me calar diante da sacanagem de quem chama de burro o eleitor que, segundo diz, não sabe votar e se justifica dizendo que é burro porque põe no poder aquele que o chicoteia. Eu sei que um mal governo é resultado dos votos que damos aos maus candidatos. Quando se vota mal todos sofremos com a escolha. Mas, como escolher um bom candidato se os que nos oferecem não têm qualificação para o cargo, caráter para exercê-lo e compaixão para com os que os elegem? Eu penso que fazem isso para nos induzirem ao erro. E a gente acaba errando, não é mesmo? 
Alguém duvida que o meu filho ou o seu, caso concorresse e ganhasse as eleições para presidente, fizesse um governo voltado para os ricos, ou para aqueles cuja sorte nunca lhes favoreceu? Eu acho, e você também deve achar, que ele trabalharia a favor de todos, principalmente dos mais necessitados. Certamente que não permitiria a receita federal, através do imposto de renda,  descontar dos trabalhadores um percentual igual ou maior do que desconta dos políticos e dos mais abastados, como há décadas vem acontecendo. Será que vocês achariam que o seu filho ou o meu deixaria de cobrar os impostos sobre as grandes fortunas, sobre o lucro dos bancos e das empresas que sonegam às vistas de todo mundo para saquear o bolso do pobre como eu e você, por exemplo? É claro que não. Quer dizer, é claro que ele tentaria reverter essa vergonhosa situação, mas quem somos nós para acreditar que um presidente, sozinho, possa mudar leis criadas por quem delas se beneficiam?  Olhem só; um presidente sozinho (sem o apoio da Câmara e do Senado) governa de mãos atadas e nada pode fazer a seu favor e muito menos a favor dos outros, principalmente dos pobres. Só há um jeito de mudar o rumo dessa coisa ou seja, trocar o presidente, os deputados e os senadores, porque um presidente eleito precisa do aval dessa turma às mudanças que se farão necessárias, mas,  com o mandato de oito anos dos senadores, será difícil, senão impossível, aprovar leis que os desfavoreçam.  Eu nunca vi nenhum presidente reunir a mídia para dizer que a câmara dos deputados e o senado estão boicotando o trabalho que fez em benefício do povo, como melhoria na educação, na segurança, na saúde e de novos empregos para os jovens que atingem a maioridade. Eu acho que se o presidente agisse dessa maneira suas medidas provisórias aprovadas pelos políticos da área, com certeza.
É por essa razão, por não saber em que parede está localizada a porta de saída é que eu prefiro falar do amor entre as crianças. Do desejo do homem pela mulher e do riso às coisas que digo.