terça-feira, 11 de novembro de 2014

ÁGUA, O QUE É ISSO?



A terra parece que deixou de sofrer, pois já não ouço os seus gemidos como ouvia 
antigamente quando a cachoeira despejava do alto das montanhas um montão de água que espumava ao se chocar nas pedras lá embaixo. Hoje as suas lágrimas já não correm serpenteando pelos rios, 
não cascateiam rochedo abaixo e empoçar, então, muito menos. Faz tempo que a chuva não lava os telhados da nossa casa e não varre as calçadas como varria antes. Isso sem falar na gurizada que fazia de um tudo para brincar na chuva. O verde que antes envolvia os montes e as montanhas esmoreceu dando lugar à folhagem seca que certamente arderá na primeira chama. O céu está mais limpo, as geleiras escoam em direção ao mar ao passo que a sede seca a boca dos paulistas, depois a dos cariocas e a do resto do país, quiçá a de todo mundo.  
Vamos torcer para que o rio São Francisco, sorria. Para que o Paraná, não pare e o Solimões não precise de gelo e açúcar o que tira de mim a certeza de que a terra deixou, sim, de sofrer, porque, enfim,  descansou na santa paz.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

FOGOS DA COLHEITA.

Finalmente para poucos o meu livro está pronto. Para os amigos, uma obra de arte. 
Para os mais ajuizados, um punhado de papel jogado ao vento. Todos que mexem com arte sabem que a crítica tem o peso de mil elefantes. Tem comentário que levanta os que já não se sustentam, como também tem os que enterram o que acham estar morto.
Enfim, a obra está no ponto de forno. Momento em que a minha amiga, Catiaho, a tomará nos braços, como se fora um filho, e o levará à lapidação para o desbaste final. Enquanto isso, nós, reles mortais, aguardaremos ansiosos que a musa da literatura, como Kelly Klein, faz questão de chamá-la, retorne trazendo numa almofada vermelha, o resumo da ópera. 
Foram dias de falsas tristezas e meras alegrias. Foram dias de clausura e incerteza, de chuva miúda na vidraça e vento por baixo da porta. Foram, portanto, dias a espera da planta frutificar. A flor já se fizera à luz da minha vida, como é sabido, só o viço não me regalava os olhos, como pensei quando plantei. 

Obrigado Catiaho, minha amiga e 
obrigado a minha mulher querida. 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

TRISTEZAS DO JECA.

Eu não acredito que os  nortistas e os nordestinos, os desinformados e os que lucram 
com o, "quanto pior, melhor", tivessem a coragem de matar o sonho da metade dos brasileiros, como também não tenho certeza de que foi a maioria dessa gente  responsável por uma boa parte dos 40% dos votos do Sul, dos 54,94%  do Rio e dos 52,41% de Minas, que resultou no saque da arma, no engatilhar, no apontar e na ordem do fogo, cujo tiro certeiro feriu de morte o pobre trabalhador assassinado-lhe o sonho.
Talvez em  2026 eu, se  ainda estiver vivo, volte a votar. Isso se o Lula, que até lá continuará presidente, não incorporar o espírito do Chaves eternizando seu próprio mandato. Aí eu e o resto do Brasil votaremos, não em benefício próprio, mas como quem oferece a outra extremidade da vara na intenção de salvar aqueles que sucumbem no atoleiro.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

COMO RESPIRAR SE ME ROUBAM O AR?

     Durante uma boa parte de nossas vidas a politica vestiu com sobriedade a minha família, deu aos meus filhos os melhores colégios onde estudaram e se formaram e nos melhores restaurantes nos refestelamos de suas iguarias. Isso, sem falar nos carros que trocávamos a cada ano. Portanto, eu não deveria ter nada do que me queixar, mas chega um momento que a gente cansa com tanta hipocrisia. Pô, como pode um político, imbuído da decência e da moralidade, acusar os adversários partidários de fatos que não conseguem provar e só o fazem por ouvir falar? Eu já não tenho filhos menores, mas se os tivesse, juro que não os deixaria assistir a tais debates porque, segundo o que tenho escutado, nem travesti brigando pelo ponto com prostituta se rebaixa tanto. A certa altura do programa eu cheguei a penar que a candidata simularia um mal estar para fugir às ofensas de quem, em determinado momento deu a entender que fosse fraquejar, desistir das provocações sofridas, como fez a terceira colocada no turno anterior quando abaixou a cabeça diante dos algozes a quem respondia com projetos de sua autoria e que, por sinal, seriam muito bem-vindos por se tratar de projetos de relevância, já que ergueriam a cara do país, mesmo que pedir a colaboração do adversário fosse necessário, como nos tinha dito. Mas que nada. Quem deixou a sala onde o embate era mostrado, fui eu. Eu que já vi o bem se debatendo contra o mal e sucumbir. Já vi religioso enriquecer às custas de sofredores e jurar mãos limpas, sem as ter. Vi partido de esquerda dobrar a direita na direção do cofre-forte, assim como vi malfeitores coroados de louro em festa de agravados. Não sinto nenhuma alegria vendo o Brasil punido por ser criança. O que acontecerá quando for adulto, se chance de seguir o caminho da educação e da prosperidade não lhe é oferecida?

terça-feira, 14 de outubro de 2014

VENTO QUE VENTA CÁ, NEM SEMPRE VENTA LÁ...

Eu fico sem jeito, não nego, de dizer que sou feliz.  De qualquer maneira seria 
uma cafajestada da minha parte negar que eu tenho a melhor família, o melhor emprego, uma ótima saúde e os amigos que alguém já pode desejar. Não digo, pelo menos em voz alta, que sou feliz porque não tenho como garantir que faço felizes aqueles que dizem me amar e se eu não os 
faço,  não devo me sentir. 
Nas bodas de ouro, por exemplo,  meu avô  bateu no peito falando, até com certa arrogância, que o casamento lhe trouxera toda a felicidade que tinha. 
O que adianta dizer isso se a minha avó permanecia de cabeça baixa e conservava o sorriso amarelo de sempre? Como não seria ele feliz se minha avó faz tudo o que ele gosta e o que ele quer? Será que a  vovó, assim como todas as pessoas que se descobriram fazendo as vontades do parceiro, são felizes, fingem ou não sabem o que é felicidade? Por isso eu fujo do assunto quando abordado, mas não nego, olhando nos olhos de cada amigo, de cada filho e da mulher que amo, que eu sou, sim, o mais feliz dos homens e poderia ser bem mais se eu tivesse a certeza que os faço felizes também.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O PREÇO DO VOTO.

      Eu jamais pensei acreditar que Jurema um dia pudesse se candidatar a uma vaga na política devido a introspecção que, diante de qualquer pessoa, a punha olhando os próprios pés. Desse tormento não tomei conhecimento que conseguira se livrar. Até andar sozinha ela evitava pra fugir do assédio dos rapazes e da possível inveja das garotas. Enfim o tempo passou mudando as coisas e as pessoas, e pelo visto, mudou muito aquela que mesmo não admitindo era a gata mais cobiçada pelos amantes do impossível cujo número era bem maior que o dos homens feitos para o casamento. E a certeza de sua candidatura encheu-me de curiosidade e alegria ao mesmo tempo.  A gente precisava ter no governo uma pessoa séria e determinada, como ela demonstrara nos tempos de faculdade.  E disso só fiquei sabendo quando Olga, amiga da minha filha mais nova, veio à nossa casa onde se comportou, não como uma pessoa de bem, mas como se fora criada por quem tentava fazer dela uma futura vagabunda. Eu, um cara maduro e com a vida bem resolvida, jamais teria vistas para qualquer mulher, principalmente uma menina que tinha idade pra ser minha filha. Olga, no entanto, provocava deixando os seios, miúdos como limão, à mostra ao se curvar, sem motivos, à minha frente. Foi preciso que eu lhe perguntasse o por quê, daquilo tudo. Se ela não tinha vergonha de se insinuar para um cara que podia ser seu pai, e se também não se acanhava de mostrar as calcinhas toda vez que se jogava na poltrona e cruzava as pernas diante de mim. Foi aí que ela, para meu espanto, disse que era filha de Jurema, minha colega dos tempos de faculdade que resolveu se candidatar à câmara dos deputados nas eleições passadas, por isso o seu empenho em provocar os eleitores para deles ter os votos que sua mãe necessitava, como disse ter seu pai aconselhado. Eu juro que ela me arrepiou com o que falou. Como um pai podia se tornar tão baixo a ponto de expor, como vinha expondo, a filha de quatorze anos a um mundo tão cruel e tão perverso? E a minha filha, qual o risco que corria ao lado de uma pessoa influenciada por um pai que me causava náuseas? Será que Jurema fazia parte dessa aberração ou o maluco com quem se casou seria o único malfeitor?
    -Não votamos na pessoa que certamente mudaria a política atual e enfeitaria com sua beleza esse lugar aonde dormem alguns lobos e certos vampiros.  Também não procuramos saber dela que viajara com a filha e o marido sem dizer para onde e por quanto tempo. Muito menos buscamos saber qual dos dois teria tido essa infeliz ideia e a que ponto chegaram para obter, felizmente sem sucesso, os votos que precisavam, mesmo dando em pagamento a filha que deveria ser para eles o bem mais precioso.  Quantos não teriam se aproveitado da fraqueza do casal para na garota criar um trauma de tamanha grandeza que nem todos os profissionais de psicologia juntos seriam capaz de resolver.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

NÃO DIGA, NÃO.

Quando chegares do trabalho não te jogues no sofá dizendo que estás cansado, 
que teu chefe não dá valor ao teu trabalho e os colegas não merecem a tua confiança.  Não digas que a vida é uma droga, que teus vizinhos são barulhentos e que teu filho só escolhe gente inferior para ser amiga. Não mudes de calçada se um estranho vem em tua direção.  Não digas oi quando for cumprimentado ou deixes de ajudar se não tiver platéia que te aplauda. Não comente o defeito de uma pessoas. Não reclames do preço se queres o melhor produto ou blasfeme contra um governo  empossado com a maioria dos votos. Não batas no teu filho com palmadas ou palavras, mas não deixes de convencê-lo da grandeza da humildade, mesmo que ele venha a ser o presidente da república, no futuro.  Não batas no teu neto dizendo que o amas. Não digas, não sei, se te perguntam por uma rua que tu nem sabias que existia. Busques informação e ajude a quem está perdido. Não desfaças uma relação antiga, se ela não te desmerece,  em detrimento de um príncipe encantado ou uma princesa vitoriana recém-chegado que jurar amor a primeira vista. Não deixes que a tua arrogância bata a porta atrás de ti se mudares para um emprego melhor. Não deixes de fechar os olhos quando beijar a tua companheira ao sair para o trabalho e quando dele regressar à casa. Dê flores para ela. Sorria de suas piadas, mesmo que sem graça, e não deixes de ficar um minuto que seja, sentado ao seu lado para ouvi-la e se o assunto não for do seu interesse, não sejas indelicado. Abra a porta do carro para o teu carona. Afasta-te com um sorriso para o zelador fazer o seu serviço. Passe a mão na cabeça de uma ou de todas as crianças ao teu redor. Acene à idosa na janela e ofereça ajuda aquele que precisa. Faças tudo aquilo que tu achas lindo alguém fazer, pois, na hora do teu descanso dormirás como um bebê, mesmo que não admitas que tudo o que fizestes, fizestes por ti e para ti, ou essa linha tênue que traça em tua boca o sorriso que te encanta o sono, não existiria.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

VOTAR PRA QUÊ?

Antigamente os candidatos a cargos eletivos prometiam 
aquilo que a população queria e quando eleitos simplesmente melhoravam alguns postos de saúde ou davam uma “guaribada” numa escola aqui e em outra ali enquanto os funcionários  responsáveis pela obra  recebiam bons salários. Isso, de certa forma, era justo. Hoje a coisa funciona  de maneira diferente e como os políticos sabem que o povo não mais aceita ser iludido, resolveram difamar os adversários para não perderem ou precisarem dividir com outros o poder que têm nas mãos. Quando um respeitoso cidadão ou cidadã indignado com as falcatruas  se arrisca  na política para justiçar o povo, logo alguém, da situação, o convida para uma  aliança, e caso não aceite um lado escuro do seu passado, se ele tiver, será mostrado na Internet infernizando a vida do pobre coitado, pois desacreditá-lo junto aos eleitorado é, para os que se veem ameaçados de perder a "boca", uma questão de honra.
 É nesses momentos que eu digo aos que me leem que o bem é frágil diante da monstruosa força que tem o mal.   
Nenhuma verdade se sustenta frente a uma mentira bem elaborada. 
Nenhuma nação verá o sonho ou o desejo de sua gente realizado se aqueles que têm o poder não desejarem. O povo, na sua maioria, sabe assinar o nome e ler certas palavras, mas daí a discernir sobre o que leu vai uma distância imensa.  
O professor que não recebe um bom salário não ensina bem aos que gostariam de aprender, e os que não aprendem, dão o pescoço ao cabresto que lhes é oferecido.  Quando um pedagogo e outros formados,  não importa em que área,  se empregam, o professor é o que receberá menor salário.  Estudar pedagogia para quê, se ao pedagogo não é dado o direito de lecionar para todas as séries do curso fundamental.  Para ministrar aulas da metade do curso em diante  é necessário ter licenciatura, pós-graduação, mestrado, doutorado ou tudo junto.  O governo, talvez por ser mal formado,  dificulta o aprendizado de sua juventude enquanto o professor que merece todos os incentivos é desestimulado com a miséria que recebe.  
Esperamos ver um dia o salário dos docentes e demais trabalhadores de nível superior no mínimo equiparados. Para isso será necessário uma inédita vontade política dos gestores públicos e da sociedade, como um todo.
Quem está no governo e pode mudar o quadro não muda e também não sai, e quem gostaria de ver a coisa melhorar, não tem como entrar para mudar.  Não é mesmo professor Cristovam Buarque?,  que também é engenheiro, economista, educador, professor universitário e senador e mesmo tendo tudo para virar a mesa, não recebeu os votos necessário quando se candidatou à presidência da república, ficando com 2% do total dos votos.  
 E assim, como diz o ditado, vai de cabeça baixa o boi, que não sabe a força que tem.


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

SERÁ QUE VALEU À PENA?

Aconteceu comigo um fato inusitado no momento em que nada dava certo em minha vida.
Eu até me cutuquei, belisquei, pedi que a mulher maravilhosa que me acompanhava naquela oportunidade me sacudisse, gritasse comigo e até chutasse a minha canela, mas como nada mudou coisa nenhuma concluí que não dormia. De fato o caso era real e não um sonho como eu achava, principalmente quanto ela, aquela maravilhosa, me tirou do corpo as roupas que eu vestia contrariando a lógica de ser eu quem as deveria tirar para esta exposição.  Assim que fiquei nu a moça lambeu-me por inteiro com uns olhos que de fome já morriam. Fez-me acreditar que já sabia o que fazer com esse que se prostrava à sua mercê, e, com requinte de cuidado me examinava detalhadamente o corpo sendo que nas partes cruciais agia com sofreguidão. A presença daquela moça era a garantia que ninguém, ali, ia falhar.  A maciez de suas mãos e o calor do seu olhar aquecendo o meu corpo arrepiavam-me os pelos. A certa altura do acontecimento eu, não resistindo mais a tudo aquilo, confesso  que gemi. Gemi um choro miúdo como um rato acuado pressentindo a morte.  Fiz, portanto, o que ela queria ou simplesmente imaginava. Virei e revirei da maneira que eu podia e que ela entendia. Fiz do jeito, não que eu gostaria, porém o mais indicado para o momento, pois foi pra isso que a  escolhi em meio a tantas que sabiam como fazer bem feito sem precisar  qualquer pergunta que originasse qualquer resposta. Não precisei pagar como se paga por este privilégio a não ser com a exposição das minhas intimidades que a poucas esse prazer eu dei. Entende-se que ela sabia tudo e mais alguma coisa a meu respeito por isso se deitava sobre o meu corpo como se deitam os enxadristas por sobre o tabuleiro  movendo com mão de mestre cada peça na sua vez até que um indiscutível xeque mate ela impôs a mim. Não suportando mais aquilo que sentia, gritei com todas as forças que me restavam impressionando os fortes.   Eu, que jamais pensei ficar tanto tempo com uma mulher naquele estado, me vi subjugado num período curto, porém especial, como aquele,  que mais parecia uma eternidade.
Graças a sua habilidade comprovada não careceu de mais tempo se era doutora na área de angiologia daquela clínica onde, com sutil eficiência me livrou da artéria morta que há tempos me
desconfortava a perna.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

FÉ DE MAIS.

Minha vizinha, já madura, reclamava da solidão em que vivia por isso se
permitiu ser paquerada por Jairo, colega de igreja e que arrastava asa por qualquer mulher que
não demonstrasse  interesse pelo seu dinheiro.
 Aos 64 anos ainda era solteiro, mas muito simpático e bastante parcimonioso com as moças com as quais se envolvia. Por isso nenhuma queria nada com ele que nascera, pelo que demonstrava,  para viver às custas de mulher. 
Cansada de dormir sozinha e sofrer com a ausência de um homem em sua vida, tratou de reforçar a fé que tinha na religião e pediu o admirador em casamento.
A festa aconteceu três meses depois do pedido.
Jairo, o noivo, que só entrou com o, desculpem a má palavra, pinto, para protagonizar a festa, foi morar na casa da sonhadora. O desespero da fiel era tamanho que se casou às pressas querendo matar a sede que já a consumia, mas, coitada... A fonte há muito havia secado e dela esconderam tal verdade. O sujeito gordo e bonachão com quem se casara só tinha de rijo a referência que davam dele. Talvez por não lhe faltar dinheiro tudo era resolvido do jeito que queria, só enrijecer o que precisa de sustentação num momento como aquele, que não.  
Com a grana do cara e a fé de Jesus a noite de núpcias da velhota com certeza seria uma maravilha, a mais bonita e mais farta de todas, mas o que fartou de verdade não foi da parte dela, mas da parte dele que não se importou com quem, encolhida num canto do próprio quarto chorava o pênalti que chutara para fora enquanto ele se refastelava na cerveja zero álcool, gelada, que ganharam. A mulherada precisava saber das notícias e tão logo a porta se abriu um gordinho sorridente trazendo uma bíblia  embaixo do braço  passou acenando com a intenção de ir à igreja aonde agradeceria  a bênção que Deus lhe dera. Já a mulher, pobre senhora, que há muito rezara por um momento cheio de intimidade e fantasia, fingia um sorriso às fofoqueiras que jogavam beijos com votos de felicidade na esperança de saber, com riqueza de detalhes, o  que teria rolado de prazeroso naquela  noite. 

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

É, ACHO QUE NÃO PROVEI NADA A NINGUÉM...

Vocês estão lembrado da loira que bateu na traseira do meu carro enquanto eu calibrava
os pneus? Pois saibam que eu fugi de sua casa sem nem mesmo me despedir e o pior é que não recebi o que ela, por lei, me devia.  Essa mulher, que tem todos os atributos que qualquer mulher  almejaria, tanto fez que acabou localizando  meu endereço, - certamente através da placa do meu carro -  aonde me encontrou.   Eu estava só em minha casa trabalhando quando, através da janela do 5° andar aonde moro, dei por ela vindo em direção à portaria do edifício. Jamais esqueceria aquela silhueta, só  não pudia adivinhar que um dia ela viesse me procurar.  Quando a campainha tocou meu coração acelerou, cantou pneu. Está na cara que minha mulher não gostaria nem um pouco de saber que na sua ausência eu recebi uma visita,  principalmente de uma mulher igual aquela, por isso resolvi não atender a campainha, mas quando começou esmurrar a porta eu tive de ceder,  O diabo que ainda morava em mim pedia, implorava que eu a puxasse para dentro, talvez achando que cruzasse as pernas tantas quantas fossem  as vezes necessárias e balançaria os seios que pareciam querer saltar pra fora do decote pra me provocar. Fato esse que me fez engolir em seco e para não piorar a coisa permiti que ela entrasse.  O diabo gargalhava no meu ombro junto ao meu ouvido enquanto doia a minha consciência. 

Descalçou-se dos sapatos e sobre a mesa deixou a bolsa e o par de óculos que usava. Soltou o cinto do vestido reclamando do calor que só ela sentia se o termômetro que era visto da minha janela marcava 17 graus. Pedi a ela enquanto que não se demorasse porque estava de saída, Ela tirava a meia de uma das pernas ao me garantir que tiraria, não só as meias, mas tudo, ficando nua como veio ao mundo se eu não a ouvisse.  Meu Deus o que eu poderia fazer numa hora dessas, o quê? E o diabinho rolava de rir ao passo que eu suava às bicas. 
Um certo detalhe no meu corpo não sabia se devia ou não se comportar.  Cada movimento com as pernas ou com os seios que a mulher fazia me dizia que não, enquanto o medo de arranhar a lisura do meu casamento me garantia que sim, que eu deveria me comportar.
 
-Sabe de uma coisa, leitores. Eu tenho uma amiga que numa hora dessas costuma dizer; 
"se não há como remediar o mal ligue o foda-se e deixa rolar". 
E foi o que eu fiz,  mas na hora de tirar a roupa pra fazer a besteira que vocês acham que eu seria capaz, a minha esposa puxou-me o edredom que me cobria e  me deixou do mesmo jeito que eu tinha ido com ela me deitar naquela noite, porém, muito mais excitado, como se excitado eu ficasse por qualquer mulher que não fosse a minha se não fosse sonhando.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O FÍGADO TEM QUE AGUENTAR...

Esses malucos são daquele tipo que topa tudo. Come e bebe de tudo e pra dormir não faz questão do tamanho da cama ou do lugar onde descansarão. Se tiver de virar o dia, viram. Se tiver de virar a noite não fazem doce para melar a calda de ninguém. São gente que merece fazer parte de qualquer família, frequentar qualquer recinto e andar com qualquer um.  Nada para eles é ruim ou lhes faz mal. Nada lhes é tão feio que não mereça da parte deles um comentário favorável.  Gente simples eu sei que são, mas se depender de gastar para fazer feliz os que amam, não se escondem, dão desculpas ou se omitem; chegam junto. Quando vão a igreja rezam, mas no carnaval são capazes de formar, só com eles, um bloco ou quem sabe, uma escola de samba. Poucas vezes não me permitiram ver o seu sorriso uma vez que onde quer que chegam é graça, festas e alegria.  Tenho, com eles, a oportunidade que poucos têm de demonstrar e viver as três personalidades que temos; se quero rir eu ouço piada de qualquer um, mas se quero a verdadeira, gostosa e bonita gargalhada, basta com eles falar de coisas alegres, contar histórias ou zoar a gente mesmo. De todos nós eu sou o mais experiente, mais esperto, mas vivido. Essa turma diz que tudo isso se concentra na soma dos anos que eu já vivi, ou seja, chamam, com muito respeito e bastante graça, esse cara que vos fala de vetusto, macróbio, ancião, idoso, velho, e o pior é que eu não me importo e até gosto, porque na hora de fazer força, escalar montanhas, caminhada pela mata, eu digo que ninguém considerado velho como eles dizem que eu sou aceita  tais convites. Enfim, esses caras estiveram em minha casa que por sinal é nosso ponto de encontro e desencontro na intenção de passar uns dias. Eu e a família  estávamos prontos para viajar a outro estado e não é que os caras foram com a gente. Lá se resolveu comer torresmo e beber cachaça  o que tornou a noite pequena para tais fins. Comer, beber, ouvir e contar casos leva tempo e tempo que nunca nos falta acabou se tornando pouco.
-Graças a Deus, a gente tem amigos desse quilate. Amigos que nos fazem bem, que nos querem bem e nada nos pedem de volta além, é claro, da verdadeira recíprocidade.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

BATE BOCA OU NA BOCA?


Eu sei que algumas mulheres, talvez por não serem tão exigentes, me olham
com olhares desejosos da mesma maneira como sei que alguns homens olham para aquela que me acompanha.  Tem vez que o olhar que me enche de orgulho é o mesmo que me envergonha, principalmente se estou com minha companheira. Do alto da minha vaidade, dependendo do jeito como sou olhado,  eu incho como um gato quando  acarinhado. Do mesmo jeito percebo o olhar dos rapazes apontando na direção errada, quer dizer, na direção do que não lhes pertence, senão a mim. Eu finjo que não vi e me calo quando tal fato acontece, mas me chateia da mesma forma como as mulheres chateiam a minha com seus excessos.  Ontem, no restaurante que escolhemos para jantar, a  minha convidada demonstrou interesse em trocar de lugar comigo. Ela ficou aonde eu me sentava e eu aonde ela estava e só então pude ver  uma pessoa que não respeitando a garota com quem jantava debruçou seu olhar pra sobre a minha com desejos libidinosos.
Terminado o jantar que foi ótimo, por sinal, e saímos, mas não sem antes saborearmos a sobremesa e o café.
-Eu tenho um filho, como você deve ter seu marido ou pai que sai no calço do irresponsável e o chama às falas. Olhar para a sua mulher, pode. Desejá-la, também, mas é preciso ser discreto. Daí a se tornar inoportuno, vai uma  grande distância.
-Tem gente que bate e outra que até apanha por isso, se é que cobiçar a mulher do próximo deixou de ser um dos pecados capitais para se tornar apenas isso, como falei.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

ENFIM PROVEI QUE ERA MACHO...

Eu calibrava os pneus quando uma loura, não sei por que cargas d’água, deixou seu 
carro escorregar quebrando a lanterna traseira do meu com a batida.  O engraçado é a bruaca, como diz  minha avó,  nem se deu ao trabalho de apear para ver o acontecido.  Aonde é que a senhora estava com a cabeça pra fazer essa EME? Perguntei olhando por sobre seus óculos escuros.  -Desculpa, disse-me ela, esqueci de puxar o freio. Felizmente ninguém se machucou, concluiu com ar de zombaria. 
-Ah, se não fosse ela uma mulher... 
-Ah, se não fossem dela o par de seios que mal cabem na blusa que os guarda e que me enchem os olhos de desejo. 
-Ah, se ela não tivesse aquelas pernas com dois dedos de saia que nem para cobrir a calcinha serve  e nem por isso morre de vergonha ...  
- Quanto acha o senhor que custa essa lanterna? Perguntou enquanto se virava pra pegar a bolsa no banco de trás. Movimento esse que deixou à mostra, não só um par de belas coxas, como a tatuagem na virilha muito perto da entrada do pecado. O que a imagem tatuada representa eu não sei, mas do meu estado só eu sei e me dou conta. 
 -O senhor procura uma oficina e leve o orçamento  a  este endereço, mas ligue antes para não perder sua viagem. Disse-me puxando os óculos para baixo, no nariz e nos meus olhos enterrando os dela.  Deu-me um sorriso enquanto manobrava e foi embora sem calibrar os pneus como parecia ser sua intenção. E eu? Perguntariam vocês. Como é que eu fiquei nessa história? Bem, eu fiquei com a mesma cara que vocês estão agora, ou seja, bobo, bobo, olhando o carro dobrar a primeira esquina. Só então olhei o endereço escrito no verso do cartão; Rua Machado de Assis, 5. Flamengo, Rio de Janeiro.  Era o mesmo endereço onde eu morava na minha juventude. Era uma casa antiga, porém bem cuidada onde eu fui muito feliz.  
Com o orçamento da concessionária de Botafogo em mãos liguei para Janaina que escolheu a hora do encontro.  Toquei a campainha três vezes até que a porta foi aberta. Janaína já não tinha os óculos que separasse os seus olhos dos meus.  Não calçava os sapatos de salto alto, como também não tinha nada, pelo que pode ver, por baixo do roupão de banho. 
-Entre!
- Falou-me enxugando os cabelos.
 Mandou-me sentar e fez o mesmo numa poltrona a minha frente.  A cada movimento seu o meu corpo respondia com um arrepio. O tesão era tamanho que não sabendo mais como resistir a ela atirei-me de joelhos a seus pés e implorei, pedi com veemência que me pagasse o que achava que devia porque eu já não aguentava mais e para não fazer uma besteira optava por ir embora, fugir, sumir dali, pois sou casado e muito feliz com a mulher que escolhi para ser minha e por isso até fiz um pacto de fidelidade que cumprirei custando o que custar, mesmo que os meus amigos, tomando conhecimento do caso, venham a me sacanear.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

PROMETEU E CUMPRIU...

Infelizmente não pude estar com ele na cirurgia daquela tarde, mas o bicho que dizia 
ter goela grande e que nada a ele metia medo, não foi capaz de engolir os tubos que o anestesiologista a qualquer custo queria, goela abaixo, enfiar nele. A turma que torce contra disse que os médicos empurraram daqui, forçaram dali e nada da mangueira entrar. Digo mangueira porque não parecia ser outra coisa já que adentrar às profundezas daquele pescoço grosso não foi possível.  Por isso eu digo que era, sim, uma mangueira, e dessas com as quais se apaga  incêndio.  Os doutores, coitados, cansados, extenuados, de língua pra fora resolveram aplicar na veia do pobre diabo uma dose dupla, e sem gelo, de adrenalina até que voltasse ao estado que estava antes dando por encerrado as estafantes tentativas. Aos que ali se fizeram presente  com suas bíblias e sua fé debaixo do braço, como também os que se mantiveram distantes, mas torcendo por qualquer notícia, não importando qual fosse, foi mostrada uma pessoa que já não era a mesma de quem eu falo, pois o sangue na boca e no nariz, fora o pálido do seu estado, desfigurava  o sujeito que  de tão forte sangrava e não morria. 
Estirado como uma banda de porco abatido o sujeito foi trazido de volta ao quarto prendendo entre a cabeça e a maca um atestado que a ele permitia voltar à casa, como voltou,
20 minutos mais tarde.
Por falta de uma ferramenta os médicos desistiram para não magoar suas pregas vocais, sua
traqueia e o caminhos por onde sai a voz e entram o ar e os alimentos.
Agora está lá, de papo para o ar. A noite conta as estrelas e de dia tenta ouvir o que ele acha que o vento tem para dizer. Isso, enquanto não o chamam para fazer o que antes não conseguiram e quando tal coisa acontecer, certamente que lá eu não estarei, até porque, o cara é duro pacarai e não vai ser um par de médicos batendo cabeça, um anestesiologista, um patologista, que nome desgraçado, e algumas enfermeiras curiosas com aquilo tudo a sua frente, que vão dobrá-lo.
Tamo junto, amigo. Em breve arranjarei umas desculpas para justificar a minha ausência e depois vou visitá-lo porque você é o cara que mais preso, como diz a minha avó.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

ELE VAI, MAS PROMETE QUE VOLTA.

Hoje é terça-feira, 26 de agosto de 2014. Faz, portanto, 45 dias que fui informado da cirurgia 
do cara que finalmente será levada a cabo na próxima quinta-feira e que ele, o cara, deverá se internar um dia antes, nesse caso, amanhã, 27.  O pessoal aqui de casa como os seus poucos amigos  têm por ele um bom apreço o que me leva a entender que todos torcerão pelo sucesso do seu anestesista e do cirurgião que assumirá o bisturi, pois só assim o bicho retornará ao nosso meio.
Que tenha ele uma boa recuperação, não necessariamente rápida, mas dentro do esperado.  
         Nos momentos atuais nada é impossível ou tão difícil como antigamente, mas os riscos, para esses casos,  continuam os mesmos.  Dentro de um mês ou até menos, quem sabe, o cara estará de volta para nos fazer sorrir ou nos fazer pensar.  Trata-se de um sujeito comum, mas que tem, como todos temos, seus momentos de alegria, de seriedade e de grandeza como já vi acontecer.  Torço por ele, por mim e por quem, como ele, esteja agora necessitando.
-Força, amigo e que Deus esteja contigo, 
se achar que tu merece.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

HOJE É DIA...

 Eu queria muito os meus amigos aqui, agora, neste momento junto de mim. Eu os queria sorrindo como 
na maioria das vezes, principalmente quando brindamos uma conquista ou simplesmente por notar, no final do túnel, a luz que nos permitiu escapar da escuridão. Eu queria esses caras debruçados nos meus olhos com os seus dizendo o que eu gosto de ouvir, mas, enfim, nem tudo é como a gente gosta, pensa ou quer. Tem amigo que escolhe as suas amizades e tem os que são escolhidos. Eu escolhi os que provaram me amar e por eles me vi, também, apaixonado. 
Essas desencontradas linhas, como diz a minha avó, têm o propósito de, nesta data, registar o dia do amigo, da mulher com quem casei e dos filhos que nos braços embalo, ainda. Hoje, como ontem e também amanhã e depois será por mim comemorado o dia dessa gente. Gente que chega junto, que dorme segurando o meu cabelo e me deixa chamá-la de anjo. Gente que sem vergonha ou sem medo, sem mágoa ou dor, gargalha enquanto caminhamos a perigosa estrada do respeito e da felicidade.  Parabéns a você, meu amigo. A você, meu anjo e aqueles que me fazem tão bem, como eu gostaria de ser para também fazê-los.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

AH, FICA MAIS UM POUCO, VAI...

Por falta de tempo ou quem sabe, falta de organização me vi obrigado a fechar o link dos 
comentários do meu blog.  Isso faz doer o meu coração e é assim com ele dolorido que vejo os meus amigos levarem para outras páginas os comentários que antes eram meus.  Eu sei que não mais tomarei conhecimento do que pensam a meu respeito e dos meus textos, mas sei também que de mim não se afastarão o suficiente para me esquecerem ou me obrigarem a esquecê-los. Todos vocês, de uma forma ou de outra, continuarão presentes nos meus textos entre cada par de letras, na singularidade dos hifens e em todos os plurais. Digo isso porque os sinto quando abro minha página e nela percebo o perfume de cada mulher que por aqui passa e dos homens a maneira gentil do compartilhamento. 
Seria falta de tempo se eu fosse um cara organizado, mas como não sou, permito que digam que é por comodismo ou medo de tomar conhecimento de certas verdades que muitos corajosos se atrevem a dizer.
 Eu não abro mão da amizade de vocês e espero que vocês não se afastem de quem os ama.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

AO PÉ DO TRONCO

Quando comecei a ganhar o meu dinheiro eu quis e fiz como meu pai. Recebia
o  pagamento e o levava às mãos da minha mãe que com gotas transparentes a brotar no azul dos olhos me fitava como se fora eu um anjo. Depois virava-me as costas e acariciando  cada cédula se deixava ir para guardá-las em lugar oculto e não sabido.  Mamãe sempre teve em mente o que fazer com o dinheiro e isso desenhava nos seus lábios um sorriso lindo, tão bonito que durava o dia inteiro, só não durava mais que o meu, que provia o dela.  Meu pai, mesmo sendo o meu maior incentivador, achava errado um jovem que mal saíra da faculdade, sem experiência da vida, sem mulher e sem filho para sustentar, que às 7h ia para o trabalho e voltava ao meio-dia para às 3 estudar inglês e mesmo assim, praticamente sem fazer o suficiente, receber um salário cinco vezes maior que o dele. Pobre do meu pai que acordava às 5h e às 8h 
"tampava no trampo".  
            Tarde da noite o velho, que não era tão velho assim, voltava a casa cansado e suado trazendo o pão do dia seguinte. Eu nunca soube como esse cara conseguia sustentar a casa e suas despesas com tão pouco dinheiro. Felizmente eu fiz o que achava que devia e isso ajudou a mudar a vida dos dois, quer dizer, de todos nós.  Fome ninguém passou, já que  o amor com que fomos criados nos sustentava e supria as necessidades. Só esse sentimento para dignificar, educar e fazer da gente o ser humano que nos tornamos.
  Desde que comecei a trabalhar eu dei a minha mãe o que recebia, e só aos 25 anos, depois de vários e vários conselhos me permitiu, sem que eu pedisse, ficar com a maior parte do meu salário. Aí eu fiz a festa. Esqueci dos conselhos e me comportei como um adolescente. Comprei roupa diferente das que ela me permitia usar. Comprei sapatos que matavam meu pai de vergonha, sandálias de todos os tipos e cores, e dois pares de chinelos para descansar meus pés e ir à praia quando me desse na telha. Só mais tarde me dei conta do que fazia, aí comprei uma casa bem aconchegante, simples, mas dava frente para o mar e em certas manhãs eu acordava com o canto das gaivotas.  Antes eu já tinha comprado um carro com o mesmo ronco barulhento que Roberto canta em sua música.  Aí, passei a me comportar como sonhavam os jovens da minha idade.  Dirigi durante um ano sem habilitação, mas cansado de tentar justificar o que não tinha jeito acabei me regularizando junto ao órgão competente. Tempos depois perdi o juízo e me casei com a primeira moça que tocou  meu coração.  Depois a gente deu um tempo e acabamos nos perdendo um do outro.
Graças aos ensinamentos da minha mãe e os exemplos do meu pai, eu me tornei o cara que a minha atual escudeira e fiel companheira diz não haver igual.  
E o pior é que todos acreditam, inclusive eu.

domingo, 17 de agosto de 2014

A GALINHA DO VIZINHO.

         
               A paisagem vista do alto de uma das varandas da casa da minha amiga era uma coisa fora do normal, mas o que a janela do prédio em frente me mostrou era de tirar o fôlego, de ressuscitar aquilo que estivesse morto. Acredito que minha amiga não tenha reparado em mim ou certamente enrubesceria ao me ver daquele jeito.  E se eu conheço bem essa mulata ela me puxaria pelo braço e fecharia a porta atrás da gente me tirando do estado de euforia em que me encontrava. Coloquei  as mãos nos bolsos apagando  qualquer suspeita e como quem não quer nada fui ao banheiro de onde só voltei quando a coisa melhorou.
Enfim eu respirava aliviado.
Eu conheci Amância na praia de Boa Viagem no Recife e de lá para cá essa amiga nordestina faz tudo para ficar comigo e eu, é claro, de certa forma me aproveito, não fisicamente, mas quando não tenho sono ou volto tarde da balada sabendo que nada tenho em minha geladeira, eu procuro a solteirona,  que veio morar na Tijuca, para espairecer. Poucas foram as vezes que não a encontrei ou tinha alguém em sua casa que a impedia de me acolher. Essa bela mulher, dependendo dela, estava sempre pronta a me abrir as portas.  Café, pão e biscoitos na mesa, bebida quente na sala ou gelada na cozinha. Depois cama, se assim a gente preferisse.  Agora, por exemplo, eu tinha tudo para matar na minha amiga o tesão que ela jurava que não morria, mas preferi lavar o rosto e voltar ao papo descontraído, sem toques, caras e beijos.  Dei uma volta com a conversa e perguntei, como quem não quer nada, qual era o nome da vizinha.  De boba nada tinha a minha amiga que dizendo não gostar de papo com estranhos, preferia não saber quem mora ou deixa de morar na casa ao lado.  Nesse ínterim toca a campainha e a nordestina, pedindo licença, desce para atender.  Demorou falando com quem ela não queria que soubesse que eu estava ali, pelo menos foi o que pensei, por isso fui até a porta e vi aquilo tudo vestindo um shortinho que antes não estava nela, aliás, nada encobria aquele corpo bonito, sensual e gostoso que serpenteava ali, a um metro do meu nariz. Amância fechou a cara, mas abriu a porta para a gostosa entrar.  Sentamos os três, mas escolhi ficar de frente, para olhar os detalhes daquilo tudo que antes, nu, eu tinha visto.  Enquanto as duas conversavam eu respondia com um sim, as vezes com um não e em outras abanava  com a cabeça se algo me perguntavam, só os olhos eu não tirava daquele par de pernas que cruzava perigosamente a pista em minha frente. Com isso novamente enfiei a mão no bolso da calça para não passar vergonha diante da minha amiga e aguçar, ainda mais, a curiosidade da vizinha que eu, sinceramente, tanto desejava.
Ao se despedir beijou-me as faces e meteu na minha mão o seu cartão . Amância também ganhou dois beijos.  Ao dobrar o corredor piscou um olho e  jogou um beijo. Eu não sei para quem jogou o beijo, mas a piscada eu sei para quem piscou. Foi embora requebrando o que os meus olhos focavam e por ele no meu bolso remexia minha mão.
(Foto da Internet.)

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

DEUS E O DIABO OU VICE-VERSA?

       
            Há bem pouco tempo um mulato alto, de meia idade, meio forte, meio gordo, feio à beça e que dizia ser pastor de uma congregação, foi preso e parece que ainda está, por tosquiar, não uma, porém várias de suas ovelhas sob ameaças diversas, assédio psicológico, sexual ou em nome de Deus.  Esse fato constrangeu muitas pessoas, mas não tanto quanto constrangidas ficaram aquelas que vivem somente para o templo onde cultuam sua fé.  O fato aconteceu numa das maiores cidades do país onde o povo tem acesso a cultura  e a informação.  Agora você imagina o que não deve acontecer longe dos grandes centros onde pouco se sabe e de tudo se tem medo. Eu fico pensando naqueles, felizmente poucos, pais e mães de santo. Em alguns pastores, certos padres e numa meia dúzia de quatro ou três religiosos de outras crenças que não se contentam com o que são e com o que têm, por isso levam a sua infelicidade aos  lares desses poucos pobres coitados chegando, alguns, a transarem com as fiéis sob pena de punição.  O sexo é a razão da vida, mas tem vez que também motiva a morte. 
Na igreja católica o padre vive para Deus, mas pode gostar de homem, gostar de mulher ou tanto faz, se guardar segredo.  No espiritismo não é diferente. Só na igreja evangélica é que bicho pega. Lá o homem tem que ser homem e a mulher, mulher.  Nada de misturar as coisas, pelo menos às nossas vistas. Eu frequentei a igreja católica enquanto menino e depois de homem, mesmo que por pouco tempo, não perdi sequer uma sessão no Centro espírita do Sr. Mendes, já falecido, aonde eu ia com a minha mãe. Já na igreja evangélica eu acho que fui três ou quatro vezes.  Nela eu nada vi que a desabonasse a não ser a certeza de que as pessoas que não têm uma calça para vestir e um par de sapatos para calçar não podem adentrar a li.  
-Eu mesmo já fui barrado quando quis assistir a performance de uma criança a convite dos pais por estar vestindo  bermuda e calçando chinelo.
     A reforma judiciária haverá de criar uma ferramenta que iniba o ataque daqueles que usam a palavra divina para usurpar a dignidade, a decência e os bens dos desesperados já que os mais abastados se defendem com o discernimento e as informações que têm.  Esses quesitos  mantém a minoria livre da esparrela aonde os pobres, doentes e desacreditados caem.
     O amor existe para ser sentido e dependendo da combinação de caráter, da igualdade de cultura, idade e gênio, para ser dividido em iguais proporções entre um homem e uma mulher livres de compromissos e com isso criarem novas vidas mantendo o mundo como está, 
quiçá, melhor.
     Esqueçamos, pois, as cadeias e as penas de morte, assim como devemos esquecer os que fazem de um tudo para serem reconhecidos, como deus ou como diabo.
(Imagem da Internet)

domingo, 10 de agosto de 2014

ENFIM, PAI.

          
           Quando fui servir o exército eu sofri com ginástica pesada durante os três primeiros meses  num espaço que chamavam, área de estágio, onde deixei meu suor, minhas lágrimas e meu sangue. Simuladores distribuídos por ali nos davam a certeza do que seriam um salto de paraquedas e suas consequências. A tudo eu tirei de letra, mesmo sofrendo, porque o salto, propriamente dito, era, sim, a minha maior preocupação.  Desde pequeno eu me via abandonando uma nave a milhares de pés de altura e caindo num espaço vazio que naquele momento era só meu.  Ser paraquedista sempre foi o meu desejo. A liberdade com a qual tanto sonhei, mas nem mesmo o primeiro salto ou o quinto, que permitiu a minha brevetação ou  o último feito há pouco tempo quando entendi porque cantam os pássaros, foi mais importante quanto a notícia que recebi da mulher que se dizia e era minha amiga.  -Eu vou ter um filho e você será o pai -disse-me ela - enchendo de uma água tão pura quanto as da nascente, os meus olhos. Aquela sim era uma conquista. Ser pai para mim era mais que um salto livre no espaço vazio, era somar o carinho e o cuidado que tive do meu pai e elevá-lo à última potência.  Por isso eu seria melhor do que ele desejava e pensava que eu pudesse ser  já que eu tinha estudado mais que ele, conversado mais que ele, com gente importante, lido bons livros e feito cursos para tal. Portanto, ninguém teria competência para criar uma criança sem medo de si, dos outros ou do futuro como eu criaria a minha.  Meu filho não seria o salvador do mundo, pois eu não queria para ele o impossível, mas seria um dos que lutariam para isso.  Enfim chegou o dia e ele veio. Chegou se contorcendo como se contorcem os lutadores de MMA para passar a guarda, trocar de posição.  Chorava sim, mas não como quem tem fome, mas como quem tem desejos. Desejo como o de  sentir-se livre para a vida, para as pessoas, para o mundo e para o que nele houver.  E eu gritei. 
-Eu sou pai! 
Tinha chegado na minha vida o que faltava;  meu filho, concluí chorando enquanto muitos riam, festejavam, e nós dois, eu e o meu primogênito, chorávamos a lágrima que eu sei ele chora agora, comigo, mesmo que distante em outra cidade, em outro estado, talvez com seu filho no colo a chorar com ele. 
Hoje é o dia dos pais, mas para mim é o dia do filho, pois foi o seu nascimento que me credenciou a comemorar, como os outros que tiveram a mesma dádiva comemoram, o dia dos pais.
Obrigado, meu filho. Obrigado, meu pai.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

AINDA MEU PEDACINHO DE PÃO...

        
        Eu havia publicado alguma coisa pertinente a novela das 18h, da Globo, mas não sabia  que rumo cada uma das personagens tomaria, principalmente o Serelepe que por ter sua vida um pouco parecida com a minha na infância, fiz questão de retratar.  O desenrolar da história era um lindo carrossel. Um espetáculo para ser visto com olhos de criança, mas no último capítulo, quando de pé nos dispusemos para os aplausos, eis que o grand finale não aconteceu.  Os autores descuidaram com a fantasia no arremate conclusivo de uma história encantadora que não coube no pequeno espaço a ela conferido.  Deu chabu, como dizem os fogueteiros. Desandou o caldo como teima afirmar a minha avó.  A medida que a novela avançava seus capítulos, novas emoções iam surgindo. Calçados extravagantes, roupas de um berrante colorido, cabelo emaranhado das mulheres e as barbas dos cavalheiros com suas suíças.  Tudo era lúdico, puro, exuberante como a maneira peculiar de cada um dizer as coisas, era. A medida que os capítulos eram apresentados o inesperado surpreendia com a doce magia dos contos de fada.  Mas como eu disse, acho que faltou um pouco de sal ou de pimenta para temperar o prato, quer dizer, o banquete.   Serelepe não podia saber que era filho do Coronel sem comentar com os que perguntavam por  sua origem, como fazia Catarina, mãe de Pituquinha, por exemplo. Também a quem o eleitorado da cidade das Antas entregou a prefeitura se o Coronel Epa abdicou do seu mandato?  E quanto a Isidoro o que teria acontecido para ele não ficar sabendo que Rosinha, por quem se dizia apaixonado, se casara com Giácomo,  dono da venda?
       Como todos podem perceber, as lágrimas retidas nos meus olhos para o momento dos aplausos derradeiros  eu não chorei.  Talvez até chorasse se visse a reprise no sábado, coisa que não fiz por conta do trânsito engarrafado. Quem sabe assistindo com os olhos do coração, como fiz na maioria das vezes, eu não descobrisse o que a trama guardou para o final e só eu não fiquei sabendo?  Ai, sim, eu choraria como fiz quando Zelão se derreteu em lágrimas ao confessar o seu amor para a professorinha ou no momento em que Ferdinando, filho do Coronel  Epaminondas, percebeu que Gina, filha única de Pedro Falcão, era a mulher de sua vida?
    Como adivinhar ainda não nos é possível, guardarei o choro para outra vez, quem sabe quando os autores forem mais complacentes com os menos esclarecidos, como eu?

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

PEDACINHO DE PÃO...

     - Por que não olha por onde anda?
    Acredito que estas tenham sido as primeiras palavras que ela disse ou pensou dizer quando num movimento infeliz do qual só eu sou capaz, por pouco não a derrubei, como fiz com o que trazia nos braços junto ao peito. Eu estava atrasado para o voo que me levaria à cidade onde nasci, aprendi a ler e me formei,  por isso o esbarrão que jazeu ao chão seus cadernos e livros. É claro que como nos filmes eu me atirei de joelhos aos seus pés para catar o que antes nos braços ela trazia. Perdão, minha senhora. Não tive nenhum propósito nisso, disse-lhe olhando aqueles lindos olhos que não saiam de dentro dos meus. Eu estava corado, envergonhado e ela pasma me olhando sem permitir que seus olhos se perdessem de mim enquanto um sorriso suave como as águas de um lago, se abria tal qual uma flor no canto dos lábios carnudos e vermelhos; - Lépe? Perguntou me olhando mais atenta. - Você é o Serelepe ou eu enlouqueci com o tranco que acabei de receber? Sem saber onde enfiar a cara disse-lhe que de fato era assim que me chamavam. Respondi cheio de medo que descobrisse que eu não me lembrava dela.- Eu fui sua professora e até na casa onde morei e mais tarde só fazia as refeições você foi ter comigo.  Disse pegando das minhas mãos um caderno e dois livros que eu tinha derrubado. Juro que não me lembrava, mas quando falou que se chamava  Juliana eu tremi como se tivesse febre.  Como podia aquela pessoa que me ensinou a ler de carreirinha e que não tinha mais de 20 anos, falar do mesmo jeito e sustentar toda a beleza que tinha nos meus tempos de menino? Eu sou 13 anos mais novo e no entanto ela parece ter a metade da minha idade. Por que será que de nós dois somente eu envelheci? - Ah, professora Juliana, quantas saudades a senhora deixou na gente depois que foi embora. Principalmente em mim que tive na senhora o primeiro amor de minha vida.  Hoje eu sou um homem que caminha com as próprias pernas, mas de tudo o que eu sei, muito aprendi com a senhora, inclusive a diferenciar a mulher bonita, doce e generosa que a senhora é das outras mulheres. Talvez por isso, professora, a senhora me vê aos seus pés de onde jamais me levantei.  A senhora que foi tudo pra mim na infância não gostaria de ser minha convidada para um almoço, um jantar ou quem sabe, subir as pedras do Arpoador num fim de tarde para ver o pôr do sol? Quem sabe nesta cidade não tenha alguma coisa tão interessante quanto interessante é essa história que a gente tem para contar?

terça-feira, 29 de julho de 2014

OUTRA VEZ, DE NOVO.

No final do mês de abril de um ano que já não me recordo, um sujeito olhava de
 cinco em cinco minutos o celular na esperança de encontrar uma mensagem que dissesse ser mentira, que a chama do amor que antes queimava na paixão dos seus desejos não se apagara. Mas não. Nada havia naquele aparelho que o diferenciasse de um simples objeto de fazer e receber chamadas. Nada era visto naquela tela quando acesa, além da hora, do dia, mês e ano. Era por estar muito zangada que ela o mandara embora, mas depois de um punhado de dias e noites pensando ela o perdoou e o chamou de volta.  Tempos depois de recebido o tão esperado torpedo ele  se vê às margens do um novo abandono. Antes ele tinha a idade dos meninos e podia esperar o tempo que fosse, mesmo que sofresse, mas hoje, que já não tem o tempo por amigo estremece  com a possibilidade de ser despejado de um coração por ele adubado e semeado. Era dali que ele sentia o  perfume das mais bonitas flores, colhia os melhores frutos e em troca proporcionava as sombras para um sol que maculava a pele e para além de sua janela pintava imagens que faziam o verde de quaisquer olhos amadurecerem para a vida. Na primeira vez ele sabia que dera motivos para ser mandado de volta à casa da mãe de onde viera, mas hoje, não.  Não se lembra de ter pisado na bola para levar um tombo daqueles, mas se lembra, sim,  de não ter feito só uma  das muitas vontades das quais a beleza dela exigia. Não sabia, porém que o desejo não atendido  fosse tão relevante para esquecer os belos anos que estiveram juntos.  Vários foram os momentos de felicidades, de liberdade vigiada, mas não importava se ele era feliz. 
      Por ela estar zangada, nenhuma explicação a favor dele poderia interessá-la, mas amanhã, quando ela acordar e notar o espaço vazio e frio onde antes ele se deitava, certamente a fará lembrar, mesmo que por pouco tempo, do cara que se deitava por último e primeiro se levantava e só fazia isso, não que não gostasse de ficar até mais tarde na cama com ela, mas para servi-la naquilo que desejasse e até o ar ele buscaria para que respirasse se necessário fosse, e hoje, no entanto, ele não passa de uma vírgula que ela faz questão de trocar por um ponto final.  Tudo bem, ele não irá discutir porque
 não foi discutindo que esteve entre os braços dela,  sentiu-lhe  os beijos e nos seus olhos vislumbrou o brilho das estrelas.  
     Amanhã felizmente será um novo dia e se tudo der certo e ele tiver um pouco de sorte o sol haverá de nascer na praia aonde no final da tarde com  os que lá estiverem  aplaudirão a luz na hora de ir pra casa.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

PARECE PRIMAVERA...

         
        Eu acho que você não faz ideia da dimensão do amor que a gente tem por você.  Não quero comparar esse amor com o que o homem tem pela mulher ou ela por ele, mas o amor que o pai e a mãe têm pelos filhos.  A gente quando descobre que vai ser pai fica confuso, um pouco velho e muito bobo com a novidade. Curti-lo em todos os seus momentos é só no que se pensa. Trocar o dia pela noite e o descanso pelos cuidados que se terá com ele, não importa, o que importa é tê-lo conosco, junto com a gente em nosso colo. Troca-se o jeito de ser e a forma de tratar com as outras pessoas em função desse amor que é tão diferente dos outros sentimentos, quiçá, do próprio amor quando não é o de pai para filho. Quantas vezes eu já não quis negociar com o destino dando a ele um par dos meus braços só para vê-lo feliz, sorrindo?  Quantas outras eu não quis arder em febre em seu lugar só para não vê-lo quente e paradoxalmente tremendo de frio sem poder correr quintal afora com os amiguinhos dos quais ainda ouço a voz gritar seu nome?
           Talvez seja pela grandeza do amor que tenho por você que as flores desabrocham antes da primavera. Agora, por exemplo, todos os jardins dessa e das cidades por onde tenho passado se pintam com as cores das rosas, das margaridas, dos cravos e de tantas outras, enquanto o perfume que me toma de assalto através da janela anuncia que você neste dia, há poucos anos, nascia para nos brindar com a sua alegria.  Hoje, meu filho, é o dia do seu aniversário.  Parabéns pela data e que Deus me dê muitos anos de vida, não só para viver a honra de ser seu pai, mas para tê-lo nos meus braços, de uma forma ou de outra, como o menino que você jamais deixará de ser.

terça-feira, 22 de julho de 2014

NO XADREZ

A morte tem rondado os meus amigos e antes que mais um 
se vá eu quero dizer, se é que tenho tempo, que viver é maravilhoso e com esses com os quais divido os meus momentos é melhor ainda, mas viver agradando a todos e por eles sendo agradado é muito difícil, porque a vida não é só ar, água e comida.  Viver vai mais  além do que temos consciência. É preciso que sejamos escolhidos pelos amigos e que eles sejam o resultado da nossa escolha, mas isso requer tempo e muita perspicácia.  Para viver é preciso esquecer as doenças, as investidas que não dão certo e da morte, então, é que não nos devemos lembrar. Viver é jogar um jogo onde a metade das peças do tabuleiro são de sua responsabilidade. Você é livre para percorrer todas as casas não importando a cor e para que lado queira ir, mas a você é vedado o privilégio de passar sobre os outros. De pular as regras, de matar ou morrer sem que a oportunidade para tal venha aparecer. Você é o senhor, o mandatário, o rei. A você é ofertada a vida com tudo o que há de necessário para sobreviver no lugar que escolher e até ser feliz terá chance, mas o momento exato do xeque mate a você será negado saber.  Por isso alguns reis sucumbem à fortaleza de uma torre, sob os cascos de um cavalo, à prepotência de um bispo ou aos pés de um simples peão. Nada é maior do que seus sonhos ou mais fraco que os seus desejos. Vamos, portanto, jogar o jogo, mas não esqueçamos que a regra é para todos e deverá ter de todos o respeito que ela exige pois só assim teremos a certeza de que, se você não perder, o outro, com certeza, de você não ganhará. 
E viva a vida!

sábado, 19 de julho de 2014

ATÉ JÁ, MEU JOVEM.

Nada me espantava mais que a voz trovejada do João Ubaldo. Parecia que ela vinha por dentro de um cano, desses que a Petrobrás usa para vazar o gás da refinaria às cidades, aos bairros, aos fogões. Com o relampear do seu bom humor chegava o vozeirão que Deus lhe tinha dado. Algumas vezes nos encontramos na Dias Ferreira, no Leblon onde morava, e até no Arpuador já paramos para um café e dois dedos de conversa. Foi um prazer, baiano, ter meus textos lidos por ti.  Em momento algum tu tirastes de mim a esperança de ser alguém através das letras. Ouvir aquilo me encantava, mas aquelas porradinhas nas costas quando a gente se abraçava me deixavam puto, e tu sabias que eu ficava, né?, seu feladaputa, como tu mesmo dizias. Nunca a ti eu desmenti quando dizias que com os meus 18 anos eu seria o mais novo e mais famoso escritor daquelas bandas.   Eu tinha 25 anos, sabias? Hoje, talvez, eu te provasse que estavas enganado, pois sou o que a vida pode fazer de mim.  Feliz, sim, mas famoso, só para os meus filhos.
Eu não sei, João, se o tempo passou depressa ou se eu é que me arrasto para curtir cada minuto com os quais o destino me permite viver a vida que levo. Faz tanto tempo que eu não te via e agora recebo essa notícia triste. João, eu te garanto que jamais me aborrecerei com teus novos abraços e com aqueles tapinhas que hoje, com certeza, me fariam o cara mais feliz do mundo.
Descanses em paz, mas não tenhas pressa em recepcionar a minha chegada, porque como eu te falei, ainda tenho muita estrada para me arrastar por ela.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

GOOOL!!! NO BRASIL...

Quarenta minutos do segundo tempo e o placar 
continuava adverso. Seis gols a zero e o adversário
 não se dava por satisfeito acuando a presa como se fora um predador. Avançava, cercava por todos os lados buscando pelo  golpe derradeiro. Ela, e o Brasil caso pudesse, enfiava-se debaixo do meu braço como se isso coibisse os avanços da fera que babava enquanto dominando a brazuca adentrava à pequena área em busca do último gol, que não tardou.  No momento combalido dos seus lábios trêmulos, tasquei-lhes o melhor dos beijos que eu sabia dar, pois em qualquer outro momento esse fato não se consolidaria. E assim troquei o banco de reservas pela artilharia  contumaz dessa partida.  E no intuito de reanimá-la, de levá-la ao que era antes eu acabei por cometer o tal delito. Foi de repente, a voracidade do meu beijo foi tamanha que a jazeu inebriada aos pés dos meus desejos.  Tomada em meus braços se deixou levar arena afora de onde o forte submetia o fraco, seu algoz, seu carrasco que sem dó nem piedade lhe cravava 5,  6,  sete estocadas no peito enquanto com um apenas pensava ele se vingar. Trêmula, sem dizer uma palavras se deixou levar para o meu carro e nele, vagarosamente fui passando, uma a uma, todas as marchas  sem olhar para onde o carro ia. Nem eu, e muito menos   ela quis saber dele o destino. Uma voz aguda, não se sabe de onde vinda, nos perguntou qual o caminho e para onde a gente ia enquanto eu, olhando fundo no semicerrado dos olhos dela respondi que casar seria a nossa pretensão. Um cartório!, gritou agudo no fundo do meu ouvido, que em mim ainda dói, aquela voz maluca indicando numa varanda pendurada uma placa onde se lia; motel das perdizes, e foi lá, ouvindo o canto das seriemas, o lugar onde sem pompas, sem roupas adequadas e com os pés descalços nos casamos. O dia acabou, a noite não tardou e o cartório fechou nos desejando boa-sorte. Quem há tempos ali casou, casou. Mas não se sabe por quanto tempo permanecerá casado. A gente, no entanto, tem mais quatro anos para uma revanche. Nesse prazo trataremos de curar as feridas abertas e consolar o país que ainda chora e entre um beijo, mesmo que trêmula de medo e um outro repleto de esperança, paixão e desejo, viveremos o tempo que o tempo nos permitir, acreditando que não vão nos tirar a faixa de penta pela qual muito lutamos, sofremos e felizes seremos com ela atravessada em nosso peito.

sábado, 12 de julho de 2014

EU QUERIA TE DIZER...

         Talvez alguns dos meus leitores pudessem pensar que o padre e a menina que completava 19 anos, fossem amantes ou seriam num futuro não tão distante, mas eu posso adiantar que tal fato dependeria muito de certas circunstâncias.  Talvez se todos fizessem abstinência ao sexo, como a igreja deseja que o padre faça, a terra estaria livre do seu mais ferrenho predador.  Com sua extinção muita coisa prosperaria, enquanto outras tantas deixariam de existir. Portanto, existe, sim, a possibilidade de ambos, o vigário e a fiel, desenvolverem um sentimento proibido entre si, já que, um somente é abstinente.  Ninguém, por melhor e mais forte que acredite ser, tem condição de mudar o ecossistema.  O homem precisa da mulher e ela dele sem abstinência para sustentar a espécie. Fosse, portanto, o mundo administrado pelos que viram as costas para o sexo, tão somente, e ele fecharia para balanço.  Outras vidas, no entanto, prosperariam com a extinção do homem, seu predador mor, porém muitas outras deixariam de existir na terra por falta dos seus cuidados. 
Ontem, mesmo que poucos possam acreditar,   amanheci com  gosto de cabo de foice em minha boca. Isso porque liguei algumas vezes para um amigo que teimava não responder às minhas ligações. Hoje, depois do almoço, fiquei sabendo que o sujeito se trancara em si com a morte da irmã, já que um truculento golpe da morte a transladou  para o outro lado do muro da vida. Não estava doente e muito menos deu sinal para saltar naquele ponto. Foi, portanto, uma fatalidade a ceifa de sua vida. Com isso ficou o meu amigo desnorteado, sem rumo e um ombro para chorar, enquanto eu, com os meus dois à disposição, não sabia onde acha-lo.
Espero que volte da sua solidão e se quiser chorar sem que lhe digam nada, eu lhe dou meu ombro que há muito lhe pertence, e a sua família, que amo na hora da tristeza e adoro nos momentos do riso farto e da alegria. 
 - Força, homem! 

 - Força, amigo.