Tem
vez que a dor ensurdece a gente e às vezes nem o grito de um amigo
contunde, como o barco aderna, à fúria do vento, mas tem momento que tudo ou
qualquer coisa nos instiga às ponderações e aos pulos de felicidade. E
por falar em felicidade, o que seria felicidade para uma pessoa que jamais
deixou de rir de tudo, de todos e de qualquer coisa, sem jamais ter conhecido o
que chamamos de tristeza? E como seria essa tristeza para uma pessoa que nasceu
pobre, viveu sem se identificar com a palavra sorte e de sorrir não foi capaz?
É preciso que se viva os dois lados da vida para saber o que é uma coisa e com
que a outra se parece. Eu tenho certeza que seria necessário se viver,
intensamente, um grande amor para se conhecer a angústia da espera, o medo da
perda, a tristeza de uma discórdia e a suprema felicidade ao ouvir um, eu te amo, da pessoa
amada. Viver é fácil, mas viver sabendo a diferença entre uma coisa e outra é
que é a questão maior. Eu nasci pobre, mas desenhei janelas na
minha vida por onde pudesse ver o mar distante, as estrelas cadentes e as
figuras que as nuvens faziam, brancas, no azul do céu. Vendi o que não queria
mais e com o dinheiro comprei o que parecia ter a minha cara. Troquei o que me
cansava por gibis, revistas e livros. Trabalhei durante o dia e só em altas
madrugadas permiti que anoitecesse. Criei dias mais longos e noites menores
para trabalhar e estudar sem comprometer o tempo que me dispensavam. Quando eu
comia, comia pouco, sem beber e quando dormia acordava antes de me deitar e
tudo isso para espichar o tempo de maneira paradoxal, pois eu queria em pouco
tempo o que muitos levam anos. Eu sonhava em ter sob o meu teto uma mesa
farta, uma mulher sorrindo na outra cabeceira e crianças, muitas crianças ao
redor comendo o que quisessem, e na estante, nem um só livro de
filosofia, de história ou de direito que eu não tivesse lido. Admito não ter realizado um só que fosse
dos meus sonhos, já que não dormi para sonhá-los, mas quanto aos meus desejos,
um por um realizei, como podem provar aqueles que tentavam apagar meus
rastros. E, se consegui foi com trabalho e estudo ao invés de
cruzar os braços e maldizer a sorte.
Enquanto o sol
nascer além das minhas cortinas haverá um moleque, muitos moleques com os pés
sujos de poeira olhando as estrelas onde guardam os mais doces
desejos. Sob a cabeça de alguns um travesseiro de livros e no coração, mesmo que ainda sangre, cicatriza a dor
da indiferença.






