domingo, 6 de outubro de 2013

ANTES QUE SEJA TARDE.


Eu aniversariei nesta quarta-feira e o dia foi pequeno 
para tantos abraços e palavras gentis e bonitas.   
Ainda na madrugada, por volta das seis, o galo da vizinha se rendeu ao primeiro canto acordando o padre que dobrou os sinos numa bela melodia .
A moça dos olhos da cor das folhas vicejantes se atirou em minha cintura num gesto de audaciosa confiança e na mesa do café não me deixou falar de outra coisa que não fosse o tempo correndo atrás de mim com seus pesados sapatos de chumbo querendo me envelhecer. 
Bobagem, moça dos olhos da cor da mata, bobagem. Eu sou como o baobá que envelhece como tudo nessa vida, mas não demonstra os anos que carrega e mesmo que demonstrasse, frutifica   generosos frutos, a cada vez. 
Foi, portanto, um dia de risos e abraços, de votos de felicidade, de esperança e histórias inacabadas. Foi, posso dizer, o melhor aniversário que eu passei ou vá passar este ano. 
Até os amigos que aniversariaram e por criancice eu fingi não me lembrar, ligaram ou vieram a casa num belo gesto de humildade.  
Infelizmente a data passou e os amigos queridos se foram com ela, mas deixaram, aqui, comigo, no quente do meu peito esse carinho e a lembrança de quem os ama, de verdade.
Um beijo e obrigado, Léo e Bernardo.  Eu não viveria sem vocês. 
Valeu, Zé da Dete! Já contei com você, mesmo sem ter usado desse direito, mas contei.  
Obrigado Neura, por me mostrar o caminho.  
Rosa da Igreja,  que seguiu esse maluco anos a fio para vê-lo saltar de paraquedas. 
Claudete, que na infância dividia seu pequeno pedaço de pão, comigo. 
Marcelo, cujo pai me ensinou a matar aula, quando éramos crianças.
Meus amigos, Alkleir e esposa, que deixaram em São Paulo o trabalho e o filho para voar, sem escala, rumo aos meus braços e os meus beijos justificando a proporção do nosso amor.
 Milton César, que cresceu achando que eu era rico.
 Franklin, que, quanto mais cresce menor do que eu, fica.
 Rebecca, em quem aposto até as fichas que não tenho. 
Toninho, meu primeiro amigo. Padrinho dos meus diplomas.
Simone2, minha amiga querida que há muito comenta a festa que acha que dei e, se vocês pensam que eu esqueci da minha mãe, estão enganados. Minha mãe, sempre tão querida,  esperou a hora exata, a mesma hora de quando nasci para ligar dizendo que me ama.  Eu também te amo, minha mãe. Amo sem medidas.  Amo como só aquela que divide comigo o teto sabe que sou capaz.
Pronto, já citei os nomes dos quais me lembro.  Agora estão todos liberados para comentar a festa que fizeram em minha vida.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

MAIS UM ANO SEM VOCÊ.

Ele lutou até o último momento para que seus filhos
 não se rendessem à própria sorte e que fossem responsáveis por seus atos, justos com os menos favorecidos e se, graças ao seu trabalho, tivessem aonde dormir e o que comer, que não vestissem a máscara dos insensíveis quando lhe pedissem um canto para passar a noite ou um pedaço do seu pão.  
O sonho que ele se atreveu sonhar o embalou por décadas através de tortuosos labirintos. Trabalhou durante o dia para namorar a mesma mulher com quem viveu a vida inteira, durante a noite. Na vida dos filhos ele vivia a sua e deles tirava a força que o instigava a incentivá-los. 
  Ele não só os queria dignos, mas responsáveis e trabalhadores, mesmo que para isso fosse necessário desdobrar cada rio, rebaixar os morros e suavizar as ladeiras que surgissem a cada curva  para vê-los caminhar com os próprios pés. 
Ele era um predestinado.  
Hoje, dois de outubro, tem festa no céu. 
Nesta data, não faz muito tempo, o velho nos deixou. Partiu com o risco do riso da vitória nos lábios e se não tivesse adormecido antes da partida, seria possível ver o brilho de felicidade que a formatura de cada filhos estampava em seu olhar. 
 Ali ao seu lado para o último adeus estavam aqueles em quem  acreditou.  Sua mulher, seu primeiro e último amor.  O esteio de sua vida, seu leme, seu prumo. O filho mais velho, amigo inseparável com quem contava a qualquer hora. Uma filha, professora universitária e duas jornalistas com coluna, cada uma, em jornal de grande expressão.
 Um neto, juiz de direito e blogueiro em horas nem sempre vagas. O outro, produtor musical e mais dois formados em direito.
Eu não creio que alguém, em sã inconsciência, trocasse o lazer, as boas roupas, possíveis passeios e ótimos restaurantes pelo futuro incerto de quatro crianças que teriam, como tiveram, o direito de escolher entre o bem e o mal, o seu próprio caminho. Eu não acredito mas há as exceções e felizmente, numa regra geral, meu pai é um exemplo a ser seguido.  Não tem por que não acreditar naquilo que é possível.  Não tem por que achar que o melhor pertence aos outros e o nosso é comum ou é vulgar.
Estejas certo, meu pai. Que eu jamais esquecerei que fostes humilde o suficiente para desejar que a tua última morada fosse sob os nossos pés.  Mas nós, teus filhos e netos o transladamos para o alto, além do céu e das estrelas das nossas lembranças. 
 Para dentro de nós. 
Dos nossos corações.

sábado, 28 de setembro de 2013

NÃO É VERÃO?



Uma brisa perfumada e suave,
como os passos de um gato, 
invade o meu quarto induzindo a cortina a cariciar minha pele.  
Escorro os meus olhos do teclado e como que acordasse de um sono profundo vazo ao alpendre a  tempo de  ver o desabrochar das flores prenunciando uma nova estação.  
É primavera...
Parece que foi ontem quando o frio, para se agasalhar, bateu em  minha porta, e  anteontem eu colhia no pé os frutos do outono.
- Como passa o tempo.  Meu Deus, como o tempo passa!  Na semana passada eu brincava de bola de gude, soltava pipa, rodava peão e detestava ir à escola.  Mentia para minha mãe que ligeira como um corisco me alcançava e sem que eu me desse conta, me puxava as orelhas.  
Ontem eu tentava fugir dela.  Hoje são os meus filhos que conseguem escapar de mim.
 Quanto aos amigos que eu, moleque, não sabia brincar sem eles, todos pulam corda, jogam bola e fazem farra na minha memória.  Mas aqueles, cuja presença o destino mantém ao meu lado, estão, neste momento, penteando os cabelos, escolhendo a melhor de suas roupas, pondo na cara o mais alegre dos sorrisos enquanto decoram o discurso que fala da amizade extremada e do companheirismo exacerbado para dizê-lo no momento dos beijos e dos abraços que darão  nesse cara de choro fácil, que aniversaria por esses dias, e que traz na pele  o perfume das pétalas, o aguçado dos espinhos, confesso, mas não perdeu a sensibilidade dos botões. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

BALA HALLS EXTRA FORTE

  
Eu não acredito que o sucesso das balas que  mencionei 
no  texto anterior esteja na alucinação refrescante e aromática que a menta, a hortelã e o poejo causam, e muito menos no doce refinado ou no formato rebuscado dos cubinhos amarelados, meio transparentes.  Acredito, sim, que a vontade de impressionar tatua na pessoa amada a evidência dos nosso passos proporcionando naquele com quem compartilhamos nossas mazelas, nossas dúvidas e nossas possíveis alegrias um momento de exacerbado delírio.
 Por que não dividir o  prazer e o pecado com quem se fecha como um caracol se estamos tristes e se abre em flores tal qual a primavera se esboçamos um sorriso de alegria?
 Não me importa a dimensão que venha ter essa euforia porque  
nada que nos levar ao amor será considerado como execrável, odioso, nefando ou proibido. 
Tudo é válido se não ofende, não degrada ou transgride. 
 Assim tem sido com os drinks que estimulam a criatividade como acontece com a bala  que alguns, mais atrevidos, garantem proporcionar prazeres que acreditam incalculáveis.
      Alzeir de Alcântara - por morar naquele bairro, me garante levar a companheira de tantos anos à loucura pelo menos uma vez por noite.  Diz ele que tritura um  tablete de bala extra forte com gelo no liquidificador.  Acrescenta  meia garrafa de vodka, meia lata de leite condensado enquanto a mulher toma banho. Em seguida serve a bebida  e caso uma gota arredia escape dos lábios de sua amada ele não titubeia, caia de língua na parceira, porque um momento de rara beleza como esse, segundo o cara, meu amigo, nada é feio ou faz vergonha. 
Depois, ambos nus e provavelmente manguaçados, fazem um brinde entre eles e partem para o ato final que, segundo a vizinhança, vara madrugada adentro deixando no ar aquele cheiro de almiscar, loucura, hortelã e anis.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

ESSA DROGA ME ALUCINA!

Ela dizia, mas não deixava de pensar nela.


Como se tivesse a fome das baleias o trem do metrô do Rio ia engolindo 
cada estação da linha-1 com a mesma rapidez que a felicidade passa em nossas vidas.
Ele, no entanto, o jovem sentado no outro lado do vagão não tinha destreza semelhante, já que as balinhas Halls que ele levava à boca, assim como a forma de tirar o prazer de cada uma, lembrava em muito a agilidade das tartarugas em dia de corrida.
Como em um filme projetado na janela a minha frente
as imagens iam passando com o vazar do trem e mesmo assim  não conseguia esquecer a minha hora com o dentista.
Aquele cara, ali, sentado, no entanto, não arredava os olhos das minhas pernas enquanto da bala tirava o doce mistério, o que me levou  a lembrar que não basta apenas chupar a bala para se ter o prazer total,
mas também a parte íntima da pessoa amada e assoprar levemente a cada movimento da língua e só assim o ar refrescante atua e a gente vai à lua, ao céu ou ao inferno, sei lá. Eu só sei que vou quando pensam que sou bala e me sugam de vagar, de preferência sem o celofane.

E o cara a minha frente chupava assim, com jeito e sem pressa.  Chupava não como um menino que poupa para durar mais.  Mas com a malícia dos machos provocantes querendo torturar.  Quem não conhece a bala Halls, preta como um dos melhores, senão o melhor acessório energético, possivelmente erótico, que um cafajeste  de boa formação tem na hora do amor? Quem?  
E a minha boca encheu-se d’água perdendo a secura que trazia e ficou molhada, não pouco, mas, muito molhada ao passo que os meus pelos se arrepiavam a cada cambalhota  que o cara dava na bala com sua língua ágil e gostosa, quer dizer, deve ter ficado gostosa com o doce que havia nela. 
Eu tinha certeza de naquele momento estar me comportando como uma donzela da primeira vez, se eu mantinha as pernas bem fechadas e apertadas uma na outra para que um possível molhado que a bala tivesse produzindo em mim não me denunciasse na hora de sair.  
E essa hora chegou.  Chegou e nos levantamos os dois ao mesmo tempo.  Ele saiu primeiro e logo me senti atraída pelo cheiro de anis que aspergia dele ou o frescor da bala, quem sabe pelo que ela poderia produzir em mim? Quer dizer, na gente se nós marcássemos de chupá-la juntos. 
Demonstrando ser um cara comum, não um mago feiticeiro, estancou na minha frente como que ouvisse os berros dos meus pensamentos e me surpreendeu com aquele mimo quadrado embrulhadinho num transparente celofane.  
Eu quero a da sua boca, tive vontade de falar, mas sorri em resposta ao sorriso dele e aceitei o presente. Eu queria falar mais, saber mais, me oferecer mais, não no sentido pejorativo, porém mostrar as minhas qualidades e intenções  para tirar dele possíveis mal-entendidos ou festejar com ele o prazer que eu sei que dou e aceitar da sua parte o que ele demonstrava ter de melhor para uma mulher.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

FILMES E PIPOCAS


        
      Preocupado com a hora do embarque despediu-se
da mulher que acenava da varanda uma despedida triste enquanto a lágrima se insinuava em viés no rosto dele.
  Nada o deteria distante dos olhos dela além do compromisso acertado com a empresa de onde voltaria  aos braços da mulher por quem tanto respeito e amor nutria.  
Fez sinal, subiu e viajou no primeiro táxi que passou para embarcar  num voo rumo a Curitiba, cidade aonde a firma que o contratara  para uma urgente auditoria  estava situada.   
Andréa, sua esposa, já estava acostumada com as viagens do marido e para não ficar sozinha mais aquela noite, convidou Ritinha, uma amiga que morava num apartamento em frente ao seu para ficar com ela. O que foi aceito de imediato e para acelerar os passos do tempo a mulher pediu ao marido que alugasse uns filmes numa locadora próxima, antes de partir. 
Ritinha foi acompanhada de seu novo namorado a quem Andréa foi apresentada.  Ambos chegaram no instante em que os filmes eram recebidos.
Andréa despachou o mensageiro e colocou um baldo de gelo junto a um doze anos reservado a momentos especiais como achava que fosse aquele.  
Serviu-se e levantou um brinde aos dois amigos para num
gesto único engolir a dose. Ritinha completou o copo da amiga, encheu o do parceiro que brindou a nova  amizade.  Como as duas fizeram antes, também não respirou quando jogou  goela abaixo a porção que lhe cabia. 
Não precisou muito tempo para que todos estivessem à vontade e  qualquer coisa era motivo para um brinde.  O jovem, que logo se enturmou,  completou os copos e brindou o sucesso do dono da casa que se fazia ausente.  Fez uma mesura e tomou uma talagada da bebida pura.
Quando a lista dos que mereceram a honra dos brindes  teve o último nome declinado foi que se lembraram dos filmes, mas  faltava pouco para esvaziar o litro, por isso resolveram brindar a dona da casa com direito a discurso, a beijos e abraços.
Ritinha soluçando o prenúncio do choro se jogou nos braços da amiga. Dizia, arrastando a voz, que ninguém gostava dela e que o mundo não a compreendia. 
Albeir sugeriu levar a namorada para casa, mas resolveram deixá-la descansando no quarto esperançosos de que logo a coisa melhorasse.  Os dois voltaram à sala e Andréa pôs o filme para rodar enquanto o jovem abria uma cerveja. Andréa bateu de leve um copo no outro brindando o momento, mas Albeir, contra a vontade aparente da garota a tomou nos braços, beijou-lhe a boca e a levou ao quarto aonde a outra, descansava.  
Ao som da trilha musical do filme que adentrava ao quarto e a liberdade que a bebida oferecia, ambos se entregaram aos amassos e aos beijos para ensandecer  no quarto aos gritinhos e sussurros, suor e prazer.
O celular de alguém acordou a todos e cada um, escondendo os olhos da claridade, não ficou sabendo o que a bebida e a viagem de Antônio causara aquela gente que acordou cansada e suada  numa desarrumada cama de casal que cheirava amor.(Foto da Internet)