terça-feira, 19 de novembro de 2019

PRIMEIROS PASSOS.

   Tenho saudade dos parentes que moram longe como dos amigos que nas horas vagas procuram por mim. A presença dessas pessoas muito me honra, mas infelizmente nenhuma  me faz ou me fez mais feliz do que aquela que me segurando no colo esfregava o nariz dela no meu e dizia coisas que jamais entendi. Talvez não entendesse por ela usar uma voz modulada, tipo assim; cadê a coisinha mais linda da mamãe, cadê?, e falava de maneira, sei lá, tipo voz de criança que nem as pessoas com quem convivia há século sabiam dizer.  Imagina eu que não enxergava direito, não tinha noção de cheiro e de cor, ter que adivinhar o que aquela maluca estava dizendo. 
– Hoje sabemos que falar daquele jeito estimula o aprendizado nos bebês. 
O cuidado que ela tinha comigo era perturbador.
– Passou álcool nas mãos?, não?, então não me venha tocar no bebê – dizia.
Eu não sabia o que era vergonha ou teria morrido quando abriu a boca pra dizer aquela besteira. 
No dia que dei o primeiro passo, sem que me segurassem, ela deu uma festa, mas quando eu disse "papai" foi ele que fechou a rua e deu um churrasco pra comemorar.
Aí o tempo passou e eu, enquanto crescia, notei que ela ficava uma arara  quando eu corria dentro da casa, mas quando gritou pra eu calar a boca foi que me dei conta que fechar a rua por conta de eu dizer a primeira palavra não fazia sentido; por que me ensinaram a andar?, e a falar, por que insistiram?  Ah..., como é duro viver em um mundo onde há século ninguém sabe o que quer...
Hoje o casal não aplaude ou se frustra mais com aquilo que digo ou com aquilo que eu faço, não por eu ter decifrado seus códigos, mas por voltar ao ventre da mãe natureza de onde os dois vieram para me ensinar o que se arrependeriam depois.

22 comentários:

  1. Uma história recheada de ternura.. a doce ternura das lembranças que se foram... mas que, paradoxalmente, estão conosco!!
    A gente aprende...cresce... e muitas das coisas ensinadas ficam para trás...e, muitas vezes, temos que conviver com aquelas que não foram ensinadas!!
    Sim senhor.... belo texto Sr. Poeta!!!

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    1. Mas tem hora que dá uma
      saudade, né?
      Obrigado pelo carinho da
      visita.

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  2. Mais um bonito texto. Adorei...Parabéns :))

    Hoje : O Meu horizonte adormecido.

    Bjos
    Votos de um óptimo Domingo

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  3. pois é hoje em dia ja nao é como dantes bonito post bjs

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    1. Dei um tempo pra vocês
      respirarem...
      Um beijo Isa e bom feriado.
      Aqui será feriado amanhã, dia
      20.

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  4. A saudade está no nosso ADN meu caro.
    Inevitável.
    Aquele abraço

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    1. Muito bom, meu amigo.
      Também acho isso.
      Um abraço e obrigado.

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  5. Realmente coisas que não se esquecem,a ligação afetiva é muito forte Belo texto,realmente...abração, poeta..

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    1. Você já é de casa, amigo.
      Sente-se e fale o que achar
      que mereço. (risos)
      Obrigado Touché. Um amplexo.

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  6. venho sentar-me aqui por um instante
    as crianças da família têm tido muitos testes ocupando parte do meu tempo com a ajuda que humildemente lhes posso dar
    enquanto faço esta pausa desenvolvo uma reflexão sobre o que escreveu :)

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  7. Oi Sílvio,
    Pouco lembro da minha primeira infância, tinha pai vagabundo, mãe doente(tuberculose), naquela época não havia cura, então dividiu os filhos eu fui cair sua irmã noutra cidade.Apanhava muito, acho que ela era bipolar, naquele tempo ninguém falava nisso, apanhei tanto e comi goiabada quente que queimou minha boca(ela fez isso). Meu tio era meu anjo, não falava nada pra ele.
    Aí casei com um primo numa cidade perto da capital, mão tive filhos, adotei um(uma joia rara). meu marido morreu de tanto fumar e jogar, não tava nem aí, pois cada um sabe o que faz da sua vida.
    Um dia resolvi voltar para meu rincão, meu tio fez um linda casa pra mim, ela quis morar lá, nem liguei a dela é antiga, grande e toda de piso que não tem nenhum trinco, a outra aluguei, pois eles morreram. Casei-me com um bom homem.
    Hoje estamos os dois aposentados.
    Morei em Santo André e trabalhei na Pr...de lá.
    Minha vida daria um livro bem grosso.
    Nunca perdi as esperanças fui e sou muito feliz.
    Beijos no coração
    Lua Singular

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  8. Boa tarde Silvio Afonso, gostei do seu texto.
    ... Hoje o casal não aplaude ou se frustra mais com aquilo que digo ou com aquilo que eu faço, não por eu ter decifrado seus códigos, mas por voltar ao ventre da mãe natureza de onde os dois vieram para me ensinar o que se arrependeriam depois.
    Bom feriado.Bjs.

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  9. Costuma-se dizer: "" O pão que os filhos comem, é a mão quem o reparte, mas é o pai quem o dá """

    Abraço

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  10. Nem quero imaginar quando os meus pais partirem.
    Abraço

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  11. Bonito texto. Saudades que não voltam.
    Obrigado pela simpatia no meu cantinho.
    Resto de boa semana

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  12. Muy buena historia!!.
    Gran nostalgia.
    Un abrazo.

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  13. Em primeiro lugar quero agradecer a visita ao blog. Em segundo lugar,por aquilo que estudo atualmente, que é o contexto do texto, o que significa dizer que você pode ser útil ou bom para outras pessoas, porque, em resumo, a saudade é a ausência que o próximo sente quando podemos dizer uma palavra boa e não o fazemos, quando podemos compartilhar alguma alegria e não o fazemos, porque a vida é para que existam aprofundamentos em busca de Deus, que está à espera de todos, posto que tudo é muito breve e que devemos desenvolver os talentos Dele. Um abraço, Yayá.

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  14. Lindo texto, amei ler, amei também ter recebido sua visita.
    Abraços!

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  15. Sensível e belo! Ah a brevidade da vida daqueles que amamos...

    Beijo

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  16. Palhaço Poeta,
    Um texto interessante
    e cheio de pontuações
    de momentos e fatos.
    É como a vida se mostra.
    Bjins
    CatiahoAlc.

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