segunda-feira, 8 de julho de 2019

SEM DIREÇÃO.

   
     No pior trecho entre Barreiras e Natividade, na Bahia, um caminhão em alta velocidade escorraçou-me fora da pista. Felizmente alguém me socorreu e ligou pro seguro da moto. Três dias fora do ar sem ninguém das minhas relações saber de mim.  
– Foi um milagre não ter morrido, diziam ao pé do leito. E tanto era verdade que além de Deus eu precisava agradecer a quem tomou pra si a responsabilidade de cuidar de um moribundo.  E era um faxineira, um anjo com mãos de fada e segurança de arremessador de facas. Eram mãos seguras e de uma maciez tal que me deixava de pau duro.    Quando tive alta ela me levou pra casa, pra casa dela, porque a minha estava há horas dali. – Se não fizer fisioterapia uma pernas vai ficar curta e a outra perde os movimentos, como o Dr. falou, mas não se preocupe que amanhã começam as sessões. Deu boa noite, fechou a porta e saiu.
Meu Deus do céu, teria a fisioterapeuta mãos macias quanto as dela?, e se tiver e o meu negócio vai ficar duro pra me envergonhar, como tem feito?
Para a minha felicidade ou tristeza, adivinha quem veio à tardinha me massagear?, ela, a faxineira, que ao puxar meu lençol deu de cara, mas fingiu não ter visto, o que tinha endurecido ao ouvir a voz dela. Tentei explicar, mas confessou que sabia. Transamos o  resto da tarde, aliás, ela transou com quem mal se mexia.   Você transa bem meu amor!, mentiu mordendo  a orelha.  É, mais ou menos, respondi com a orelha babada.   Talvez eu fizesse melhor se essa coisa não gangrenasse, mas foi gostoso deixar a comida perto de quem parecia estar morta de fome.
Fiquei em sua casa o resto daquele mês.  Foram dias maravilhosos que até esquecemos a  perna.  Eu, pelo menos esquecia não ela.  Todos os dias me acordava com beijos, misto quente e suco de fruta.  Depois saia porta afora com o mesmo sorriso que chegava do trabalho pra preparar o lanche, a janta e depois descansar.  Descansar, aliás, era a única coisa que não fazia.  Muitas, senão todas as noites, ela vinha pra minha cama onde tudo acontecia.
Na sexta-feira santa o seguro pagou minha moto e o DPVAT às despesas.  Coloquei o valor das despesas num cheque e o deixei no criado mudo com um bilhete onde se lia que nada pagaria o que ela me fez e não seriam alguns abraços e outro tanto de beijos a mais que o conseguiriam. Por isso me neguei dizer adeus a quem nem "oi" eu disse quando cheguei.

25 comentários:

  1. Belo texto... a essência dele é GRATIDÃO!!
    Gratidão... ô palavra dificil de se ter!!

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    1. Que delícia de encontro
      você acaba de proporcionar
      aos meus melhores leitores.
      Obrigado, amigo e bom dia.


      .

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  2. Bom dia. Muito bom. Adorei o texto:))

    Hoje:-Nos trilhos do anoitecer...

    Bjos
    Votos de uma óptima Segunda-Feira.

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    1. Entre tantas flores
      suas palavras foram
      as mais bonitas.
      Beijos e muito obrigado,
      Larissa.


      .

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  3. Uma história muito bem contada, como você tão bem sabe fazer para nos entusiasmar na leitura do princípio ao fim.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Obrigado, minha amiga.
      Eis a razão da nossa amizade.
      Beijos.


      .

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  4. Com mãos, desse jeito, vale a pena ser escorraçado fora da pista por um caminhão a alta velocidade, né não?

    Nunca se deve dizer adeus a quem tanto bem nos fez, porque nunca se sabe se iremos precisar de umas mãos macias, numa outra circunstância, e o corpo e a mente agradecem.

    Tudo de bom e haja imaginação!

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    1. No anonimato poucos falam o que se quer ouvir,
      mas como eu acho que te conheço vou te sapecando
      uns demorados beijos de saudade e agradecimento.



      .

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  5. Silvio, que texto lindo!
    Me aqueceu o coração. Como a gratidão...
    Beijo.

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  6. Sounds you are okay, Silvio!
    Thank you for visiting my blog, I am following you :)

    Take care
    Kiss

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  7. muito bom,como sempre, realmente você sabe como contar uma história, manter o leitor interessado do começo ao fim..Particularmente gosto de finais felizes..abração

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  8. Palhaço Poeta,
    Nada se compara há um momento
    bem vivido.
    O personagem fez muito bem
    em ir sem aviso ou despedida.
    Ficou para Ela como um sonho bom
    entre sonhos e delírios
    parecido com o gosto do provocado, provado
    e aprovado; e nunca
    mais visto ou tocado novamente...
    Bjins e Abraço
    CatiahoAlc.

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  9. Meu querido amigo Silvio,e deixar
    A sorte não poderia te deixar a ver navios, favoreceu a tua irreverência com um par de mãos macias, que sorte hein?
    O texto ficou lindão, sua arte de narrar vai além da expectativa.
    Um abração amigo, o triste, meu blog está a perguntar de ti! rsrs.

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    1. Essas mãos, não importam de quem,
      ainda acabam comigo...
      Diná, beijos...



      .

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  10. Olá meu amigo Silvio, td bem?
    Por um acaso vc não tem o telefone dessa faxineira com mãos de fada?...rs! Adorei o seu texto, muitas vezes recebemos carinho de quem nem imaginamos e isso é uma dádiva de Deus! Realmente temos que ter gratidão por quem nos deseja o nosso bem. Parabéns pelo texto.
    Abs

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    1. Nem só o telefone, como o instagram,
      a moto e o face
      eu não tenho, mas tenho
      abraços e agradecimentos à vontade, serve?
      Obrigado amigo pelas palavras.


      .

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  11. Hoje é só para dar conta do meu regresso à blogosfera.

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  12. Passei para deixar um beijo.
    Ri-me com gosto...
    Tudo bom.
    ~~~

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  13. Como sempre, seus textos nos prende do início ao término e me divirto muito imaginando as cenas.
    Beijos afetuosos!

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