domingo, 19 de maio de 2019

EU QUERIA...


Eu queria muito poder torcer pelo meu time, rezar na igreja onde eu me sentisse melhor e votar no partido que fizesse minha cabeça sem que me empurrassem um dedo na cara.  Queria amar a mulher por quem meu coração disparasse e pudesse com ela trilhar o que a mim resta da vida sem inveja e sem porquês, mas infelizmente não me dão esses direitos, pois quando o meu time ganha foi porque o outro era de menor investimento. Quando Deus não me acode se fico triste, é porque não sou cristão o suficiente para receber a graça,  e se o país não dá o passo de acordo com as pernas a culpa é minha porque, certamente, votei com a maioria.  Eu, silvioafonso, queria muito ser dono do meu nariz, responsável por minhas vontades e culpado das coisas que tivesse feito o que não quer dizer que não seja grato a quem bate de frente com as minhas convicções já que sem essas pessoas as minhas decisões não teriam tamanha importância.  Perdoe, se você acredita na humildade de quem pede. Julgue, se você tem o poder dos ponderados e me ame se você é normal como até eu acho que sou.

terça-feira, 14 de maio de 2019

É MELHOR SÓ OU MAL ACOMPANHADO?


     
     Eu reconheço que morar sozinho traz alguns problemas, mas nada que não possa ser contornado.  Por exemplo, quando estou de boa eu pego o carro e vou rodando por ai caso não decida entre o teatro e o cinema e até espojo no sofá diante da tevê, como animal, sem que me digam que ali não é lugar pra se deitar.  Se faz calor eu tomo uma chuveirada ou um banho quente quando o frio me encrespa o pelo. Depois eu visto alguma coisa ou fico assim do jeito que vim ao mundo sem me constranger com a janela escancarada aos olhos cobiçosos das moçoilas do apartamento em frente. Por outro lado se perde um pouco da espontaneidade quanto aos encontros que por ventura se marque.  Não quero dizer que a dor de cabeça que as esposas dizem sentirem naqueles dias, como os menstruados que nos deixam vermelhos de indignação ou mesmo o tempo que levam para depilar as partes mais íntimas nos façam falta. Claro que não, mas confesso que sem tais desculpas o amor nos parece um tempero com pouco sal. Um título inegociável ou coisa de pouco valor.  Já num encontro casual a outra parte jamais diria ter dor de cabeça,  que necessita de um banho, que precisa se depilar ou que não esteja vestida com a lingerie que a gente aprecia.  O melhor disso tudo é a independência.  Ser livre até que se  resolva colocar no próprio pescoço a coleira da fidelidade ao passo que aqueles que já dividem seus leitos encontram maior dificuldade.  Quem me conhece sabe que não advogo em causa própria e mesmo se  o fizesse, quem me apontaria o dedo se os dados ainda rolam?

quarta-feira, 1 de maio de 2019

CARA DE CACHORRO

     Nada me entristece mais do que choro de criança e cachorro maltratado, mas quando ambos estão felizes sou eu quem abana o rabo, e se digo isso é por conta da farra no terraço vizinho que eu assistia da penumbra do quarto.  Duas crianças brincavam com seu cachorrinho enquanto mamãe sorrindo as aplaudia. A imagem me encantava a ponto de mal reparar no shortinho da jovem mamãe e foi receoso de ser mal interpretado que cerrei as cortinas, não os ouvidos ou não teria escutado a criança chorar. A mãe, que talvez não soubesse da minha presença, abaixou-se mostrando os encantos, ocultos até o momento.  
Meu Deus, que imagem! Talvez não fosse aquele o momento mais indicado para externar o que a vista me proporcionava e mesmo que fosse talvez não encontrasse adjetivo para justificar o que  mostravam meus olhos. E se eu fiquei do jeito que fiquei pelos meus exacerbados desejos, pois nem mesmo o calor que fazia lá fora me esquentava mais do que aquele que me queimava aqui dentro, e foi  graças aos hormônios que eu não percebi que o sorriso daquele encanto de mulher tinha sido pra mim. Depois desse fato qualquer barulhinho do outro lado seria motivo para armar o circo e eriçar os pelos do palhaço. Tudo naquele terraço excitava meus sentidos, mas naquele dia bastou o cachorro para instigá-los.   No outro dia procurei por ela através da janela e até fui feliz no intento, só pude lamber-lhe as pernas com os olhos como no dia anterior porque não contava que a estivesse esperando.  Foi o cachorro que pediu para ela sair e pedido de "amigo" é preciso atender.  Por isso deixei de ouvir os latidos para ouvi-la falar. Três dias se passaram sem que eu ouvisse os miados da gata, o latido do cão ou a algazarra da petizada,  até o sol que já não gostava de se recolher nos finais da tarde andava de cara amarrada por não saber dela.  E foi pensando em deixar que caíssem as cortinas que ela surgiu para o último ato.  Roupas eu não sei se vestia.  Criança e cachorro fazendo bagunça também não notei que tivesse, mas se ela estava aonde os meus olhos pudessem alcançá-la já era o suficiente para alavancar cada sonho, cada um daqueles músculos que por ela se punham de pé e mesmo assim me mantinha calado, queimando de desejo sem nada lhe dizer.