terça-feira, 22 de janeiro de 2019

MANGIA CHE TE FA BENE.

   
    Na minha infância eu comia pouco. Muito pouco, mesmo. Não só eu, mas minhas irmãs e os pais da gente.  Fome não se passava porque dividir era o que mamãe sabia fazer de melhor e foi assim até que eu me tornei rapaz e mudei o rumo das coisas.  Foi a partir desse momento que eu tirei a barriga da miséria. Não só a minha, mas de todos lá em casa. Pela manhã o café era reforçado e no almoço eu comia até dizer chega, mas só depois de degustar as delícias da sobremesa. Os outros eu não sei, mas eu, comia de manhã, à tarde e à noite e como eu era muito magrinho tomava "Sustagem" para ver se "emboçava" os ossos com carne e músculo.  Mesmo assim continuava macérrimo.  Antes era feio ser magro, hoje é fitness.
Mais de 30 anos depois eis que me aparece uma barriguinha que vem tirando o sossego dos meus amigos.  Eu, para ser sincero, nem reparo na protuberância ou ponho defeito no relevo. Mesmo assim eu não me esqueço que até recentemente eu tinha 1,81m de altura e 79 quilos e isso a vida inteira. De repente, do nada, me aparecem 3 quilos para borrar o belo quadro pintado pela natureza. (risos).  Antes desse desastre a minha silhueta era, posso até dizer, bonita.  Eu comia e bebia de tudo a qualquer hora e lugar.  Hoje, entretanto, já não me reconheço; como um terço daquilo que comia antes e não da mesma comida, mas de outros pratos com pouco sal e pouco ou quase nada de gordura. Não bebo nas refeições, não como pães com manteiga e nos doces e bolos eu não me permito pensar para não sofrer. Ah, e caminho durante uma hora todos os dias. Isso há três meses e posso adiantar aos amigos que graças a Deus já perdi 200 gramas.  Não sei se foi de suor ou das lágrimas do meu sofrimento.  Um amigo da praia de Taparica, muito sem graça, me disse que como eu vinha comendo desordenadamente a vida inteira eu precisarei do mesmo tempo para perder tais quilinhos.  Isso se eu não morrer antes.  - Disse-me o fidazunha.  
   Bem, como eu sou muito determinado e não vou parar com o que decidi fazer, eu resolvi comer um pouquinho à mais do que venho fazendo e até voltar com as guloseimas porque vai que o safado acerte e eu não perca esses malditos quilos que a vida me oferta.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

MARIA.

      

       Foi nos seios de Maria que mamei a esperança da sobrevivência. Foi neles que adormeci tão puro de maldade quanto puro era o doce olhar que por inteiro me cobria. Foi junto ao peito, no calor do colo dela que aprendi a primeira prece. Quantas vezes o azul dos olhos dela derreteu lágrimas sobre o meu pequeno corpo?  Poucas não foram as noites em que o soluçar  me  embalou o sono  enquanto a febre que me ardia apiedada disse adeus e foi embora.
Muitas e muitas vezes vi Maria choramingando a ausência do meu pai e, quanto mais falta ele fazia, mais Maria me espremia junto ao rosto jovem e bonito.
Foi ouvindo o palpitar daquele espezinhado coração que eu aprendi a compreender o tempo e principalmente o tempo do cultivo e do plantio, do colher e do armazenar para não faltar. O tempo de agradecer aos que resistiam, como ela, sem perder a fé no trabalho que premente se fazia.
Maria foi uma doce criatura. Não tinha sonhos, talvez nem tivesse vaidade. Era mulher de honra e de trabalho, de coragem e ousadia. Acordava cedo para madrugar na lida. Lavar, passar, cozinhar e cuidar para os filhos não desgarrar para aos perigos da rua, da marginalidade, dos vícios. Cuidava da ninhada como a galinha choca os ovos. Como a leoa da cria, a gata da ninhada e da roça o lavrador.
Café da manhã, uniforme engomado; escola. Almoço, marmita embrulhada; Trabalho. Café da tarde, jantar; Formatura.
- Assim foi a vida sofrida de Maria que amparada e praticamente carregada por causa da artrose, adentrou ao enorme pavilhão de uma universidade pública aonde orgulhosa viu o filho caçula, depois dos irmãos formados, se tornar doutor.  
- Missão cumprida, Maria.
Quantas e quantas noites tu sofrias ao lado dos filhos sem dormir em véspera de provas? Quantas orações ao te deitares tu rezavas sem pensar ti?   Quantas vezes tua barriga reclamou de fome no instante em que um  dos teus chegava do estudo e do trabalho para comer o único pedaço de pão que tu, generosa, deixaste de comer?
Missão cumprida, sim.  Tão cumprida que os teus dias de força e de coragem, de viço e de beleza, como provam as fotos amareladas em cada canto dessa casa,  sucumbiram aos pés do tempo que pintou de rugas a bondade do teu rosto. 
- Maria era o nome dela, que felizmente ainda vive. Nome de valsa e de coragem, de conto de fada e resignação. Nome de santa, de água pura de nascente, de céu azul e noite estrelada. Nome de quero te amar enquanto vida eu tiver.  Nome doce,  nome de mãe, de esposa e de mulher  que se esqueceu de si para servir.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

QUEM É O MAIS IMPORTANTE?


   
    Contam que numa carpintaria, quando todo o trabalho havia acabado, as ferramentas começaram a conversar entre si e criaram uma estranha assembleia. Foi uma reunião de ferramentas para acertar suas diferenças, elas discutiam para saber qual delas era a mais importante para o carpinteiro.
Um martelo logo exerceu a presidência e começou:
– Eu sou eu o mais importante para o carpinteiro. Sem mim os móveis não ficarão em pé, pois sou eu quem martela os pregos!
Mas os participantes lhe notificaram que teria que renunciar.  A causa? Fazia demasiado barulho e além do mais passava todo o tempo golpeando.
O serrote logo quis dar a sua opinião:
– Você martelo?
– Você não pode ser! Seu barulho é horrível! É ensurdecedor ficar ouvindo toc, toc, toc…
– O mais importante sou eu, o serrote! Sem mim, como o carpinteiro serra a madeira? Eu sou o melhor!
O martelo aceitou sua culpa, mas pediu que também fosse expulso o parafuso, dizendo que ele dava muitas voltas para conseguir algo. Diante do ataque, o parafuso concordou, mas por sua vez, pediu a expulsão da lixa. Dizia que ela era muito áspera no tratamento com os demais, entrando sempre em atritos.
– Não, não, não! – Falou a Lixa – Eu sim sou a melhor! Se não fosse eu os móveis não seriam tão lisinhos e perfeitos!
– Eu sou a mais importante!
Mas no final a lixa acatou a ponderação, com a condição de que se expulsasse o metro que sempre media os outros segundo a sua medida, como se fora o único perfeito.
– Ah! Não! Que absurdo! Disse o metro.
– Eu sou o mais importante! Sem mim os móveis ficariam tortos! O carpinteiro nem saberia a medida. Eu sou o mais importante!
– Ah! Mas não é mesmo, disse a plaina.
– Sou eu quem deixa tudo retinho e tiro as imperfeições da madeira. Eu sim sou a indispensável…
– Tsc, tsc, tsc… Nada disso, disse a chave de fenda.
– Se não fosse eu, como o carpinteiro iria apertar os parafusos? Eu sim sou a melhor!
As ferramentas ficaram discutindo até o dia amanhecer…
Logo cedo o carpinteiro chegou para trabalhar, colocou sobre a mesa a planta de um móvel, juntou o material e iniciou o seu trabalho. Utilizou o martelo, o parafuso, o serrote, a lixa, o metro, a plaina e a chave de fenda.
Finalmente, a rústica madeira se converteu num fino móvel.
O carpinteiro usou todas as ferramentas. Usou o serrote, o martelo, o esquadro, a lixa, a plaina, os pregos, o martelo, a chave de fenda, a cola e o verniz para deixar o móvel brilhando…
Enfim ele acabou. Chegou o fim do dia o carpinteiro estava cansado, mas feliz com o que tinha feito! Seu trabalho com as ferramentas tinha ficado ótimo!
O carpinteiro foi para casa.
Quando a carpintaria ficou novamente em silêncio as ferramentas retomaram a assembleia reativando a discussão.
Só que agora elas ficaram admirando o que tinham feito todas juntas com o carpinteiro.
Sabe o que elas fizeram? Um altar de igreja! E tinha ficado lindo!
Elas chegaram a uma conclusão: Todas eram importantes aos olhos do carpinteiro. Ele usou todas! Sem exceção de nenhuma! E o móvel tinha ficado lindo!
Elas descobriram que quando todas trabalham juntas tudo anda melhor!
Foi então que o serrote tomou a palavra e disse:  
-“Senhores, ficou demonstrado que temos defeitos, mas o carpinteiro trabalha com nossas qualidades, com nossos pontos valiosos. Assim, não pensemos em nossos pontos fracos, e concentremo-nos em nossos pontos fortes.”
A assembleia entendeu que o martelo era forte, o parafuso unia e dava força, a lixa era especial para limar e afinar asperezas, e o metro era preciso e exato. Sentiram-se então como uma equipe capaz de produzir móveis de qualidade.
Sentiram alegria pela oportunidade de trabalhar juntos.
Ocorre o mesmo com os seres humanos.
Basta observar e comprovar.
Quando uma pessoa busca defeitos em outra, a situação torna-se tensa e negativa; ao contrário, quando se busca com sinceridade os pontos fortes dos outros, florescem as melhores conquistas humanas.
É fácil encontrar defeitos, qualquer um pode fazê-lo.
 
Mas encontrar qualidades… Isto é para os sábios!
(Ouvi na Rádio Sulamérica)


terça-feira, 1 de janeiro de 2019

TIRO DE LARGADA.


     
    Sabe quando você completa uma maratona e vê do outro lado da fita que ninguém o aguarda pra comemorar? Pois é. É assim que muitas pessoas se sentem ao concluir essa jornada e olha que todos contornam pântanos, senão os mesmos, pelo menos parecidos. Essa gente teve em suas costas um sol de todos os graus. Pedras e um montão de empecilhos deram as caras, mas nada os deteve, pois perseverara. Essa gente entendeu que nem sempre estar mal acompanhado é melhor que estar sozinho. Infelizmente nem todos contam com um abraço para descansar o corpo e curar as chagas, mesmo sabendo que curadas ou não começa tudo no dia seguinte, e não importa se o cansaço foi embora como foram os cabelos que antes, volumosos e viçosos, já rareiam sem a cor de outras maratonas. Isso me lembra a esperança que sangra e não morre. Não morre, mas sente esmaecer o verde e mesmo assim insiste em bater asas a nossa volta. A ciência e a natureza poderiam se tornar razão dessa insistência combinando as duas pra mudar tal quadro. Enquanto o milagre não acontece vamos entendendo que romper a fita de chegada não nos dá direito ao passaporte da felicidade se não for buscada nos campos trilhados que citei. A felicidade inclusive, nada mais é senão uma festa pela qual suamos a testa, gastamos o que temos e o que não temos só para fazê-la durar algumas horas ou no máximo uns dias. O resto é trabalho, risos, lágrimas e alguns amigos para nos ajudar em certos momentos como os ajudaremos se precisarem. 
Feliz ano novo, já que o tiro da largada foi dado.