segunda-feira, 9 de julho de 2018

UMA CABINE PRA DOIS.

       Quase um ano eu morei num lugar apertado, mas tão apertado,  
que parecia a cabine telefônica da minha rua.  Só que o sacrifício valia a pena porque tudo o que é necessário à sobrevivência de quem depende de ajuda havia ali ao alcance da mão.  Talvez o lugar não fosse tão apertado assim, até porque cabine telefônica não tem tudo a tempo e a hora como tem a de um Boeing e aquela era  aconchegando e moderna. Por isso a minha gratidão a mulher que me proporcionava essa coisa, inclusive viagens a lugares diversos sem que eu precisasse sair antes da hora, é tão grande.  Devo a ela pelo que fez por minha saúde e pela minha vida.  Esse tipo de relação nos aproximou de tal modo que até seus amigos acabaram se apaixonando por mim e foi graças a esse sentimento que me calei quando vi que foi ela quem procurou o sujeito que a pôs deitada e tocou  os seus seios.  Até entre as pernas eu vi que buliu.  Só não sei se foi por covardia que virei a cara para não ver o que faziam ou foi por achar que ela, como senhora do próprio nariz, sabia bem o que estava fazendo.  Muitas vezes me calei quando chamaram a sua atenção ou lhe falavam coisas com as quais não concordava ao invés de sair em sua defesa.   Outras vezes eu a vi cochichando,  mas poucas fiquei sabendo com quem e sobre o que cochichava.  Na última vez que eu a ouvi cochichar ela acabou chorando quando a pessoa lhe disse que as dores eram normais e que só passariam quando chegasse o momento, mas precisava esperar o sinal o que só dias depois aconteceu.  Na hora me deu uma vontade danada de dar uma voadora em quem provocou suas lágrimas, mesmo eu não sabendo se era qualquer homem, um médico ou uma cozinheira.    
Ultimamente andavam dando força para ela. Enquanto umas desejavam sorte outras falavam coisas que eu não entendia. Uma vez uma velha lhe deu uma bronca tão grande que eu pensei que ela fosse morrer com aquilo.  Era sobre uma ultrassonografia que deveria ter feito naquele dia, mas por medo ela fez que esqueceu.    No Boeing onde morava eu sabia de tudo. Até conheci muitos lugares, só não sei se tão lindos como ela falava.  Mas acho que eram, porque havia  risos e muitas vezes eu escutava coisas lindíssimas a respeito e mesmo que eu não concordasse acabava achando  lindo também.  Durante o tempo que morei lá eu não dei opinião sobre nada.  Talvez por delicadeza ou por não saber como me expressar, mas, será que se eu soubesse eu teria coragem de discordar de alguém?  Acho que não.  Hoje, tantos anos depois eu me vejo numa casa tão grande, mais tão grande que sou capaz de me perder aqui dentro, mesmo assim eu sinto saudades daquela cabine.  Aí eu me pergunto, Será que enquanto eu estava no Boeing, que era a sua barriga, mamãe foi tão feliz quanto eu que vivia ali dentro?

26 comentários:

  1. Bom dia. Parabéns pelo texto :))


    {B C- Poetizando } Como é longa esta saudade...

    Bjos
    Votos de uma óptimo Segunda - Feira.

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    1. Curto e rasteiro como o amor
      que é pequeno para escrever,
      mas, grande o suficiente pa-
      pra alavancar a trajetória do
      mundo.

      Beijos aos dois poetas.


      .

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    1. Gracinha, saudade de você...

      Beijos e beijos, muitos.

      .

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  3. Querido Palhaço Poeta,
    Acabo de ler seu maravilhoso e bem escrito texto. Preciso reler para comentar com clareza.
    Eu volto, ta?
    CatiahoAlc.

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    1. Antigamente me esperavam de bra-
      ços abertos no portão. Hoje eu
      preciso ameaçar derrubar a porta
      para saber dos amigos. Será que
      estamos sem paciência ou o amor
      entre a gente já não tem a mesma
      pegada? Espero e confio que sejam
      as obrigações do dia a dia a nos
      roubar a saudade.

      Beijos aos dois.

      .

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  4. Voltei!
    Eu simplesmente fiz uma viagem
    fantástica lendo relendo e
    relendo re lendo esse seu texto.
    E sendo franca, confesso ter sido
    suas visão que um dia me fez
    olhar de uma forma diferente
    para a minha própria mãe
    para outras mães e para
    as mulheres em geral.
    Você não me disse nada
    novo, mas me fez querer
    ver, e me fez me fez compreender
    essa viagem.
    Um dia fui salva por
    uma orientação, lembra?
    Amei o texto e me eriçou os
    pelos de uma forma expressiva.
    CatiahoAlc.

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    1. Eu não. O texto eriçou
      seus pelos, assim como o
      seu comentário me arrepiou.
      E como diz o palhaçopoeta;
      valeu a intenção da semente.

      Beijos amiga, para você e o
      seu marido que amo.

      .

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  5. Magnífico, Amigo! Penso que encontrou uma metáfora perfeita para descrever o tempo que passou no útero de sua mãe. Será que entendi bem o seu texto?
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Bingo!
      Desta vez acertei o olho
      esquerdo da mosca no alvo
      distante.
      Graça, meu amor. Um beijo
      desse tamanho, oh! Pra vc.

      .

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  6. Um texto que me encantou. Obrigado.
    Abraço

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    1. Obrigado, Elvira, te amo.

      Beijos e beijos, muitos.

      .

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  7. Que bela metáfora, mais um óptimo texto! :) Boa semana.
    --
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    1. Inês, um beijo, meu amor.
      Que bom que vc veio para
      rever o amigo.

      .

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  8. Que texto lindo e encantador, amei!
    Beijos no coração!

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  9. Oi Silvio
    se você tivesse comentado o meu post eu até lia a sua história, assim nem publiquei o seu comentário!!!
    Beijos e abraços de Portugal
    Marisa

    marisasclosetblog.com

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    1. Ih, acabei de levar
      um esporro. E eu achando
      que a pressa nada tinha
      a ver com perfeição.
      Marisa, perdão. Não vou
      falar outra coisa senão,
      perdão.

      Beijos.

      .

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  10. Texto muito bonito, Silvio!
    Um abraço!

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    1. Seu comentário me encheu
      de esperança. Eu até estava
      triste, posso assim dizer,
      mas agora levantei e sacudi
      a poeira. Pelo menos eu acho.
      Um beijo e obrigado por falar.

      .

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  11. Oi Silvio que bonito texto! Um aconchego daqueles.

    Obs: Sobre visita as vezes acontece de eu achar que
    visitei determinado blogue e não fui. Mas tento
    estar debruçada na janela para ver os acontecimentos sim k
    quando dá k. E quem não gosta de uma janela k.
    Boa continuação de semana.
    janicce.

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    1. E eu pensando que você
      tivesse ido pregar em outra
      freguesia. Tolinho eu, né
      mesmo?

      Um beijo, Janicce e obrigado
      por ter vindo comentar.

      .

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  12. Meu querido Silvio, amigo do coração, encantada com a beleza do seu relato, como sempre surpreendente!alusivas à minha pessoa, lá no blog da Rosélia.
    E te pergunto , pq não consehues acessar o meu blog? alguma msg de bloqueio?
    Me informe qual o probelma.
    Bjs no core querido e um abençoado dia!

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    1. Tá vendo, Diná, o porquê do
      meu amor por você? É por pa-
      lavras como essas, meu anjo.

      Um beijo. Um não. Muitos beijos
      para você e boa noite.

      .

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  13. Silvio,
    Hoje eu penso muito no que me faz ou faria feliz, e se morar numa cabine levar a este ponto, então não haverá aperto. Quanto a engolir sapos, fingir que não vê, conversar consigo mesmo, muitas vezes é um caminho de paz. Sobre estar num lugar que não temos como dizer nada, mas sentimos tudo, olha, não lembro de minha passagem com minha mãe, mas eu lembro de muitos dias tristes que minha filha viveu dentro de mim. E acho que possa ter sido parte da causa de como ela é hoje.

    Bjs

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    1. Uma linda declaração você
      fez, minha amiga.
      Obrigado Sissym. Um beijo.


      .

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