segunda-feira, 16 de julho de 2018

A PRAÇA.


      

    Andei muito a procura de uma arma com a qual combatesse o sentimento que tomou meus pensamentos e a minha tranquilidade de assalto. A minha esperança era encontrá-la no mercado ou perderia a vontade de sair, de comer e de dormir como vinha acontecendo. Era como aquilo, tipo o que os estudantes, as mocinhas de tenra idade e os loucos e inconsequentes sentiam quando se apaixonavam. Pelo menos era o que eu achava, mas pelo visto não é. Como é que eu, que não me preocupava com essas coisas, a não ser com meus filhos e com aqueles que contam comigo, fui cair nessa? Está na cara que não fiquei esperando a resposta cair no meu colo, por isso saí à caça. Pensei muito enquanto caminhava e foi assim, sem saber aonde estava indo que cheguei tão longe. Antes, enquanto eu caminhava teve um instante em que eu precisei sentar para descansar. Estava exausto. Três horas andando não é para qualquer um, mas não pensem que me sentei à beira do caminho porque o Erasmo já estava lá. Por isso, entre tantos lugares naquela lonjura,  eu tivesse escolhido a pracinha. Meu Deus, como era longe.  Era tão longe que nem mesmo no mapa devia constar. E acreditem, seria mentira se eu confessasse ter planejado aquela viagem, até porque, era cedo quando me levantei, tomei café e saí para dar umas voltas e foi sem perceber que comecei a caminhada. A princípio com passos de tartaruga e na medida em que o corpo esquentava eu ia apertando o passo. Quando vi já estava correndo e foi correndo que ouvia as bobagens que falavam. É claro que correndo não se entende o que dizem, mas sei que o papo que rola entre os que fazem caminhada não tem nada de sério. Continuei correndo até sumir na poeira. Não sozinho, como afirmei, mas acompanhado dos meus bons e maus pensamentos. Dos bons eu só falo se for bem das pessoas, enquanto os pensamentos maus são os que me derrubam da vaidade  que as mulheres que eu tive juram que tenho.  E foi naquela pracinha, longe do mundo e de tudo, que eu pedi licença a uma velhinha para sentar ao seu lado e contar tudo o que não tinha coragem de dizer para o meu analista. Abri todas as portas e todas as janelas do meu coração para essa mulher. O bom foi que ela ouvia sem me interromper.  Aliás, ela, em nenhum instante abriu sua boca, ao passo que eu não fechava a minha. Falei um montão. Falei dos meus medos,  dos meus sonhos e dos pesadelos, como falei do amor que me tomou de assalto e quase foi morto se essa velhinha não tivesse aparecido quando mais precisei. Permaneci ao seu lado por uma boa hora e meia e quando percebi que o mundo que eu carregava havia rolado das minhas costas foi que me levantei, beijei suas mãos, que sem dizer uma palavra, me viu sumir na poeira de volta à casa.

46 comentários:

  1. Bom dia Poeta.
    Um texto maravilhoso, cheio de sentimento...Parabéns:))

    Poema do Gil António que, está quase de regresso das suas merecidas férias. Esperamos que entendam. Obrigada. :))

    Hoje:- Dentro do meu coração

    Bjos
    Votos de uma óptima Segunda - Feira

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    1. Gil não voltou, mas sua alma
      de poeta jamais nos deixaria
      sem ele.

      Beijos, moça. Muitos.


      .
      .

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  2. Ei!
    Eu tive a graça de ter minhas
    duas mãos beijadas em benção
    por uma personalidade assim!
    É um presente ler seu texto
    especialmente hoje.
    Hoje (nesses tempos) eu não
    me sento na pracinha
    mas paro no meio da rua
    para conversar,
    eu ouço e puxo conversa.
    Hoje a noite em um encontro
    de mulheres experientes
    vamos conversar e levantarei
    um brinde a esse seu texto
    Tim Tim!
    Bjins
    CatiahoAlc.

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    1. Talvez a lembrança dos beijos
      que você deu nas mãos daquela
      mulher tenha sido o porquê de
      eu ter parado naquele lugar, e
      como diz seu marido, Cátia, os
      olhos falam mais do que insinuam
      as palavras. Pelo menos com rela-
      ção aos cães e aos sábios que pro-
      vam com os olhos o que não falam
      para a gente.

      Uma beijoca para o casal que amo.

      .

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  3. É tão bom poder desabafar com quem nos entende.
    Gostei da metáfora da arma no início do texto.
    Um abraço.

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    1. A personagem do texto,
      jamais perguntou se a
      velhinha era surda ou
      muito educada. Sim, por-
      que ouvir não é um predi-
      cado qualquer.

      Beijos, Elisabete. Muitos.


      .

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  4. Bom dia, Afonso!
    Tem dias assim onde um estranho nos ama sem dizer uma só palavra.
    Que rico encontro em todos os sentidos!
    Ela foi o anjo que Deus lhe presenteou naquele momento.
    Tenha dias felizes e abençoados!
    Abraços fraternos de paz e bem

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    1. Um anjo mesmo, Rosélia, já
      que humanos não nos deixam
      falar.

      Beijos, amiga. Beijos.


      .

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  5. Um texto excelente, meu Amigo! Às vezes é necessário cansar o corpo para que a alma se descontraia. Depois é só encontrar o ombro amigo…
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Sabe quando vc faz uma pergunta
      e mesmo não obtendo resposta você
      agradece voltando por outro caminho?
      Pois foi o que aconteceu com a perso-
      nagem do texto. Um amor rejeitado pela
      insegurança de quem pensa que ao se en-
      tregar ao amor esqueceria as pessoas.

      Um beijo, graça. Desse tamanho,
      oh!


      .

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  6. Silvio, os seus textos são na sua maioria, deliciosos delírios :)
    então a caminho da pracinho, deixando seu alento pelo caminho, foi encontrando forças para ainda esquentar o diálogo com uma velhinha :)
    aqui diríamos, se calhar era estrangeira, e não compreendeu o que disse?!
    ou talvez como se canta na canção, em tom de fado :

    https://www.youtube.com/watch?v=46XfGbAO5gg

    https://www.youtube.com/watch?v=tM1uAqK7xfg

    abraço

    https://poesiesenportugais.blogspot.com/

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    1. Adorei, garota. Adorei
      ouvir Dida Castro cantan-
      do o fado - "Aquela velhi-
      nha".
      Obrigado pelo presente.

      Beijos e beijos, muitos.


      .

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  7. Como é maravilhoso encontrar alguém disposto a nos escutar sem nos interromper e que nos liberta para expor nossa alma.
    Beijos!

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    1. A personagem deu a maior
      sorte encontrando aquele
      ouvido, né não?
      Beijos, Lúcia querida.
      Muitos.


      .

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  8. Que lindo texto meu querido! Como sempre nos encantando e emocionando. LIndas palavras... adorei estava com saudades daqui.
    Beijos,
    Monólogo de Julieta

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    1. O meu blog, digo, o nosso
      blog é provido de quarto
      para visitas. Portanto...
      Basta trazer o que possa
      te fazer falta e pronto.
      Estarás acomodada.(risos).
      Paloma, adorei as palavras
      e a visita.

      Beijos.


      .

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  9. O que pode fazer um homem apaixonado! "Mamãe" sabe sempre escutar seu filho.

    Beijos, SA!

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    1. Quem falou pra vc que a
      velhinha era mãe do coitado,
      Céu?
      Mas vc está certa. Só mãe
      tem ouvido para este tipo
      de gente, né mesmo?

      Um beijo, meu anjo. Muitos.

      .

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  10. Boa noite Poeta!
    Só posso dizer que adorei essa leitura de hoje.
    Imagine você não quis sentar na beira da estrada porque Eramos ja estava, risos. E lá na praça não encontrou o Bruno e Marrone tirando um cochilo? Kkkk. Brincadeira! Mas é isso às vezes é melhor contar o nosso problema a estranho do que conhecido, parentes, amigos etc e tal. Prefiro-me desabar no ombro de estranhos, como já fiz algumas vezes, do que com pessoas próximas a mim. Parece que nunca entende o nosso lado. Sempre dão opinião contraria.
    Boa semana poeta!
    Beijos e um punhado de sorrisos!

    .

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    1. Adoro comentário hilário como
      o seu, meu anjo. Adoro.

      Beijos e volte mais vezes...

      .

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  11. Ah não precisa liberar o comente, só dizendo que o tal comentário da primeira pessoa em relação a postagem não era meu, kkkkkkkkk. Você trocu as botas sem ver. Vc deixou a resposta no meu blog, mais gostei da resposta ri muitoooo. Inteligente resposta. Vc faz jus ao nome do seu blog, parecidissimooooo.

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    1. Não tem problema, meu anjo.
      Quem me conhece sabe que
      em nada eu sou mestre, mas
      em trocar as bolas sou rei.

      Beijos, beijos e risos. E
      por que não?

      .

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    2. Pois é, você troca as "bolas" e eu troco as "botas", risos. Adorei aquela resposta que você deu, fez-me rir por horas. Você daria um grande comediante. tem resposta pra tudo. Esse seu ponto (.) que deixa no fim da postagem, vou pega emprestado, gostei.
      Beijos e muitos risos pra hoje. Amanha a gente inventa.
      Fuiiii, mas voltoooooo.

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    3. Pois é, garota. Por dez minutos
      eu sou indispensável, mas depois
      disso, quem sabe, eu seja insupor-
      tável? (risos).

      Beijos e mais beijos, ainda.


      .

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  12. Hoje é só para dizer que já estou de volta.
    Amanhã já haverá comentários.

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    1. A gente já "tava" re-
      zando por sua volta,
      moço.

      Um abração e obrigado
      por demonstrar que está
      bem.


      .

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  13. Nem todo poeta é palhaço mas os palhaços quase sempre são poetas.
    O personagem mostrou sabedoria ao buscar longe, e com uma anciã, a resposta no silêncio para as aflições que tomaram de assalto a alma dela (A personagem)
    Me emocionou.

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  14. Se essa doce 'velhinha', é a senhora da foto, na verdade, é uma fada madrinha. :)
    Muito bonito e terno o seu texto, Sílvio Afonso. Um gosto ler.

    Beijinhos.

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    1. Não. Ou melhor, acho que
      não é a mesma pessoa.

      Um abraço gostoso e uma tar-
      de gostosa também.

      Beijos.


      .

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  15. Muito bom este post.

    Arthur Claro
    http://www.arthur-claro.blogspot.com

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  16. Tocante e com a qualidade que admiro.
    Não se esqueça do exemplo da velhinha quando for idoso...
    Sem um beijo, pois estou constipada.
    Saudações blogueiras.
    ~~~~

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    1. A droga é que eu já não
      me suporto, imagina velho...

      Beijos, Majo. Muitos.

      .

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  17. Que sorte a tua, Poeta! Conseguiu falar e falar, ter alguém para ouvir e sem abrir a boca. Raridade! Ouvir é uma arte.
    As velhinhas, quando anciãs, sabem ouvir, mesmo com agulhas nas mãos e também, sabem falar ou não. Sabem honrar as palavras.
    Um abraço Poeta!

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    1. Quando eu ficar velhinho
      não creio que terei tanta
      paciência. Falar eu sei
      que é fácil, pelo menos é
      o que vem provando O Faus-
      tão e o Galvão Bueno, mas
      eu...
      Não sei.

      Beijos, Glorinha. Beijos.


      .

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    2. Principalmente o Galvão Bueno, pois penso eu que se existe alguém que escuta a gritaria dele e não sente nada, nadinha de nada, pode ser iniciado como monge budista. Eu não aguento nem 1 minuto.

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    3. Poeta, tem bolo sim, é virtual, isto é, nunca acaba, é só acessar! Abraços.

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    4. Com tanta água na boca,
      mal posso escrever, mas
      para agradecer e mandar
      umas beijocas, acho que
      dá.

      Ummmmmm beeeeijo, Glória.
      .

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  18. Grande amigo quando vi a foto imaginei alguma homenagem a familiares e acabei assistindo uma bela historia de bom ouvinte, que sabe se calar enquanto alguém deixa escorrer suas mágoas, e ou alegrias.Sorte sua encontrar esta ouvinte suporte para as mazelas que lhe pesavam as costas.
    Muito bom amigo.
    Paz e alegria para você.
    Meu abraço de paz.

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    1. Amigo Toninho, que legal
      você por aqui, meu caro.
      Um abração, amigo.

      Um abração.


      .

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  19. Texto muito bom como como aliás é seu apanágio.
    Às vezes tudo o que nós precisamos para nos reerguer, é que alguém nos escute.
    Abraço

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    1. Elvira, como eu folgo
      em recebê-la, querida.

      Beijos de agradecimento,
      de amizade e de respeito.



      .

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