sábado, 9 de junho de 2018

TEMPOS ANTIGOS.

                                 
    Eu e Otabílio passamos algum tempo da nossa infância na casa um do outro.  Eu, mais na dele, porque seu pai era advogado e o meu assentava tijolos.  O irmão de Otabílio  preferia a companhia das meninas a brincar com a gente, o que envaidecia o pai que achava o caçula o mais esperto dos filhos, porque, brincar com garotas era bem mais interessante do que brincar com meninos – dizia.   Dona Alicia, a mãe, era meio que estranha. Gente boa à beça, mas tinha umas coisas que eu não entendia, como podia me deixar pensar que gostava mais do cachorro do que do marido, pelo menos não dava um passo sem que o Dogue alemão – duas vezes maior que o meu – estivesse ao seu lado. Mas isso não era problema meu e sim do marido dela, porque o importante era brincar naquela casa onde, no fundo, havia uma bela quadra para a gente bater uma bola.  Muitas vezes o pai dos garotos jogava com a gente. Só o caçula é que não.  Preferia as meninas com quem brincava de casinha. Dona Alicia até achava engraçado, mas quando aparecia por lá era por causa do jogo, não pelo filhinho. Mas deixava de se concentrar no jogo quando Rex esfregava o negócio nas pernas dela. O engraçado é que com a gente o bicho não fazia essas coisas, mas bastava D. Alicia sair porta da cozinha afora que ele vinha com aquele troço   maior do que o do meu pai  se esfregar em suas pernas. Aí, ela, meio sem jeito, voltava para casa. Por isso vivia com ele preso lá dentro e como ela mesma dizia,  era para não se constranger, como agora.
Cachorro maluco, aquele. Sempre tentando transar com as pernas da dona, que negava, mas morria de rir com o cio do bicho. Eu era meninote, mas como eu invejava o danado. O pior é que o marido achava lindo o afeto entre os dois, enquanto eu, maldoso, desde sempre, só via sacanagem naquilo tudo.  
Muitas foram as manhãs que eu acordei como se tivesse lambendo o par de pernas daquela mulher. Os vestígios no lençol não me calavam a verdade.
Com o tempo a gente cresceu e cada um seguiu seu destino. Eu escolhi a área que me sustenta.  Otabilio é oficial do exército e o caçula mora com um bando de mulher, só não sei do que vive e muito menos o que faz com elas. O Rex e o pai dos garotos morreram.  D. Alicia agora, um pouco mais madura, tem outro cachorro, o terceiro, mas nenhum é menor do que foram os outros. Quanto a se casar novamente, jamais declinou desejo. Os vizinhos afirmam que os bichos morreram de inanição enquanto o dono, de lutar para mantê-los sadios. Aí eu me pergunto; como de inanição se comida não faltava naquela casa e por que morrer pelos bichos se dinheiro não faltava para cuidar de tudo?

29 comentários:

  1. Respostas
    1. Adoro te ver por aqui,
      criança. Venha sempre
      caso queira me matar de
      felicidade.

      Beijos.


      .

      Excluir
  2. Bom dia Poeta. Parabéns pelo texto que adorei ler :))

    Hoje:- { Poetizando e Encantando} Trazias flores, e um misterioso olhar.

    Bjos
    Votos de um óptimo Sábado

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pela lembrança,
      mas deixes aberta a jane-
      la ou não me verás passar...

      Beijos e beijos.


      .

      Excluir
  3. Uma narração em aberto. Cada um conclui o que quiser...
    Bom fim de semana.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Adoraria saber a que conclusão
      você teria chegado, amiga.

      Beijos e beijos. Bom domingo e
      obrigado pela presença, sempre
      tão agradável.


      .

      Excluir
  4. São muitas perguntas
    com respostas em suposição
    apenas, num é?
    Boas mesmo sempre foram as conclusões
    do Moleque Palhaço.
    Feliz sábado pra nós.
    Bjins
    CatiahoAlc.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não sei, querida amiga.
      Você pertence ao grupo
      das suposições e não eu.
      (risos, muitos risos)

      Beijos.

      .

      Excluir
  5. Conclusões em aberto... :)

    Está quase a chegar ao fim o nosso conto escrito a várias mãos.
    Convidamos a ler o penúltimo capítulo do nosso conto "Voar Sem Asas"
    https://contospartilhados.blogspot.com/2018/06/voar-sem-asas-capitulo-xv.html

    Bom fim-de-semana
    Saudações literárias!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Estou acompanhando o
      desenrolar da coisa,
      mas o que mais me cha-
      ma a atenção é a fide-
      lidade que cada escri-
      tor tem para com o tra-
      balho que com ele divi-
      dem.

      Um belo conto. Mal pos-
      so esperar pelos próximos.

      Um bom domingo a todos.

      .

      Excluir
  6. Hola te dejo mi blog de poesia por si deseas criticar gracias.
    http://anna-historias.blogspot.com/?m=1

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hago mi comentario con
      mucho gusto.
      Un beso.

      .

      Excluir
  7. É cada um imagina a resposta.
    Abraço e bom fim-de-semana

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Teria você, Elvira, imaginado
      a sua? Eu tenho certeza que
      sim, mas preferiu abster-se
      de nos contar, não é mesmo, a-
      miga?

      Um beijo e bom domingo.

      .

      Excluir
  8. Silvio querido amigo!

    Gostei da narrativa,algo ficou no ar.
    obrigada pelas carinhosas palavras deixadas em meu blog sobre o meu dia, adorei sua presença e feliz por gostar dessa paessoinha aqui! kkkk

    Bjs e bom domingo!

    ResponderExcluir
  9. Olá, Sílvio Afonso!

    Tudo bem? Minhas mãos, doentinhas, e precisando repousar, o k irá acontecer logo após dia 13 desse mês, feriado de Sto. António, mas só em Lisboa, visto esse santo ser padroeiro dela, cidade. Qdo regressar, eu te aviso.

    Há sempre lugar para mais um/a comentarista em meu blog, embora qdo ultrapassar os 200 comentários, eles não ficam visíveis, há k clicar em "Carregar Mais", expressão que existe abaixo da caixa de comentários.

    Já ontem tinha lido seu post. Quem é Octávio? Você tem uma escrita informal, fluente e quase todos seus posts giram à volta de sexo, implícito ou explícito, qdo você era criança ou adolescente, mas em geral, suas palavras nos prendem do princípio ao fim.

    Pois é, segundo se diz há uma relação mto estreita entre alg. mulheres e cachorros, que obedecem cegamente à dona. Acho k o relacionamento de algumas, como a k citou no seu escrito, vira patologia séria e não só com cachorros, mas com outros animais como cavalos, enfim, animais que tenham pilões. Tara, puramente tara e não sei se não será caso para psicanalista.

    Você, o cachorro e D. Alice fazem o filme todo, sobretudo o que ia em sua cabeça e lençóis. Entendo e é normal até.

    Qto à sua questão, olha que não sei se o cachorro não teria morrido por overdose sexual ou teria sido morto, envenenado, sei lá, para k o marido de D. Alice não desconfiasse de nada, mas o homi era um paz de alma. Enfim, ponhamos todas as hipóteses na mesa.

    O link que a Anna te deixou, você não consegue chegar ao blog dela, pelo menos aconteceu isso comigo. Escreva no Google - Poemias e chegará ao blog da Anna. Estou metendo a "foice em seara alheia", mas pretendo apenas elucidar.

    Um grande abraço e boas escritas.

    ResponderExcluir
  10. Narrativa bem construída. Você é muito imaginativo e desafia a imaginação alheia.
    Beijo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E desafio, mesmo.
      Um beijo e continue
      lendo. Muito obrigado.

      .

      Excluir
  11. Está provado que o dinheiro não compra tudo...
    Vidas que se tornaram rotineiras, sem amor e sem sonhos.
    Gostei do conto, SA.
    Dias bons.
    Beijo
    ~~~

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Estou feliz, agora.
      Graças a sua presença,
      garota.

      Beijos.

      .

      Excluir
  12. Vida que segue... Vejo que você continua firma como blogueiro poeta. Há mais de cinco anos não passeava por aqui. Fico feliz de reencontrá-lo.

    Um abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fiquei surpreso, porém
      feliz com a sua presença.

      Beijos, criança. Beijos.

      .

      Excluir
  13. Pois, boa pergunta.
    Estaria a dona ocupada com outros afazeres??
    Aquele abraço, boa semana

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Com outros afazeres,
      não, meu jovem. Com
      outro prazer, porém
      bastante raro.

      .

      Excluir
  14. As memórias, meu Amigo… São elas que nos trazem o passado e alguns amigos. O seu texto é excelente, como sempre.
    Quanto à morte dos cães, eles morreram por falta de amor…
    Uma boa semana.
    Um beijo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nada disso, querida amiga.
      Os cães morreram por exces-
      so, sabia?

      Beijos e risos.

      .

      Excluir
  15. Gosto de narrativas assim, em que a conclusão fica em aberto..cada um enxerga do jeito que quer, realmente..você falou sobre amor, nos comentários do meu blog..essa narrativa também é sobre amor...abração, boa semana

    ResponderExcluir
  16. Oi, SA!

    Retificando: D. Alicia e não Alice como lhe chamei no comentário, que fiz acima.

    Otabílio?

    Tudo de bom!

    ResponderExcluir
  17. Uma excelente narrativa, expressando sua mente fértil e plena de sabedoria.
    Abraços afetuosos!

    ResponderExcluir


Diga o que quiser do jeito que você souber.




.