sexta-feira, 1 de junho de 2018

TAL MÃE, TAL FILHA.

     

      Eu tinha cinco anos quando fomos morar numa casinha de fundo num subúrbio carioca.  Na frente moravam, Gilda, seus pais e a filha Adalgisa, da minha idade. Gilda tinha uma amiga com quem ela e a filha dividiam o quarto, dando a menina motivos de ver e ouvir o que rolava entre elas. Muitas vezes Adalgisa me falou da intimidade das duas. Bastava eu fingir que estava dormindo para começarem a pouca vergonha – dizia franzindo o cenho. Segundo Adalgisa, as duas se enfiavam debaixo dos cobertores e faziam coisas que faziam mamãe dar gritinhos, arranhar a cama com as unhas e algumas vezes a ouvi chorando. Baixinho, mas ouvi – contou a menina.  
Foi difícil fazê-la entender que não era pecado abraçar, fazer carinho e beijar as pessoas que a gente gosta e se o fazem às escondidas era para não pensarem que estão fazendo coisa feia – eu disse a quem adorava me contar essas coisas, porque fazia minha calça estufar na parte da frente – ela dizia sorrindo.
 Éramos crianças, mas tinha coisa que já bulia comigo.
Aos sete anos meus pais, finalmente, compraram um terreno onde fizeram um barraco e depois outros para alugar – graças ao patrão do meu pai que levava as sobras da obra para a gente.   Depois que mudamos não vi mais Adalgisa.
Na semana passada, num bar, eu tomava um café enquanto uma jovem olhava para mim e como insistisse, ergui minha  xícara em cumprimento, ao que ela sorriu – talvez me achasse familiar. Antes da segunda golada a mulher me perguntou de onde a gente se conhecia. – Dessa vez foi eu quem sorriu, já que era o homem que usava desse artifício para puxar assunto e não o contrário.
– Muito prazer, Adalgisa.
Essa mulher poderia ter qualquer nome, meu Deus. Menos esse...
Um filme rodou na minha cabeça, e na dela, depois que eu disse o meu.  Adalgisa morava na mesma rua do famoso clube de Swing, da região. – Só não me pergunte se já fui lá, porque não fui. Morro de vontade, mas tenho medo – falou escondendo o rosto com as mãos.   Vamos marcar um dia, a gente vai junto  – disse-lhe, encostando a cara junto aos cabelos dela.
Naquele dia a gente tomou oito chopes e duas caipirinhas o que nos deu coragem para conhecer o tal clube.  Numa sala acarpetada em  vermelho uma morena cavalgava um homem duas vezes maior do que ela. A luz não nos favorecia e os detalhes passavam despercebidos, menos os corpos nus e o que eles faziam.  Um gordinho transava com quem tinha idade para ser sua mãe. Outros casais, que faziam coisas do arco da velha, nos prostraram numa poltrona para olhá-los. A morena, que vimos com o grandão na entrada, chegou perto da gente, deu um sorriso para Adalgisa enquanto abria o zíper da minha calça e colocava a boca.  Seu parceiro a tirou do meio das minhas pernas para fazer em mim o que ela fazia e como me recusei o cara arreganhou as pernas de Adalgisa para lambê-la, mas ela o afastou e saiu me puxando para fora. 
– Desculpe, mas não é a minha praia. Eu não fazia ideia do que pudesse acontecer lá dentro, mas de uma coisa eu gostei e muito – disse Adalgisa sorrindo – foi de ver aquela coisinha miúda que antigamente estufava a calça de um certo moleque. Jesus do céu! Eu jamais imaginaria que, um dia, aquilo tivesse aquele tamanho. Parabéns – disse abraçando e beijando o meu rosto.  
Quando perguntei o porquê de ter tirado a cara do cara de entre suas pernas ela me disse que, se fosse a moça que tentasse...  Adalgisa não deve ter prestado atenção ou teria visto minha calça estofando quando enfiei a mão no bolso.

21 comentários:

  1. Virou sapatão???
    Pois, acontece... :)))
    Aquele abraço, bfds

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    1. Como assim, cara pálida?
      Ninguém vira ninguém ou
      vice versa. Quem é já é
      ou então não é. Ora bolas.

      Abração, Pedrão. Bom te
      ver.


      .

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  2. Gostando de ler e desejando um feliz fim de semana.
    .
    * Não deixes chorar o teu coração *
    .
    Deixando um abraço poético

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    1. É um prazer muito grande
      encontrá-lo aqui, por perto.

      Um abração e obrigado.


      .

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  3. Às vezes acontece.
    Abraço e bom fim de semana

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    1. Eu estava com saudades
      suas, minha jovem.

      Beijos,


      .

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  4. A vida dá muitas voltas...
    Cá estou eu de volta.
    Bom fim de semana.

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    1. Pode demorar porque
      eu não desisto de vc
      minha amiga.

      Beijos.


      .

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    2. Coisas como essas e outras, pra lá de cabeludas, acontecem com muito mais frequencia do que pensamos. Porém as pessoas são como são e ainda que certas coisas nos incomode temos obrigação de respeitar a todos e todas as suas opções.
      Beijos!

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  5. Que texto!!! Meu rosto parece uma tomate kkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Feliz dia, abraços!

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    1. Eu estava sentindo falta
      desse seu humor, minha
      amiga.

      Beijos.

      .

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  6. Bom dia Palhaço Poeta.
    A vida sempre proporciona
    essas oportunidades.
    E que bom que a personagem
    soube se impor na vida.
    Há tanta gente vivendo/tentando
    esconder aquilo que é tão
    intimo e pessoal.
    Nesse fim semana tem Parada Gay em SP
    passei pela Avenida Paulista e
    entendi a imensa profusão que
    ali acontece: sejam seres curtindo ou
    seres se exibindo, mas todos usufluinda
    da liberdade de serem quem nasceram pra ser.
    Passei por lá domingo passado
    e vi fora do movimento da Parada,
    gente livre abraçados ou de mãos dadas,
    mas gente feliz.
    Bjins
    CatiahoAlc.

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    1. Passou o sufoco, graças
      a vivacidade do seu marido,
      meu amigo.

      Beijos aos dois.

      .

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  7. Os encontros que temos com pessoas que conhecemos em crianças, trazem-nos cada surpresa...
    Gosto do seu jeito narrativo.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Delícia de visita e
      comentário.

      Um beijão, Graça e
      obrigado, sempre.


      .

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  8. Silvio, é bom voar nas asas da imaginação...
    Mais uma crónica bem engendrada. Gostei!
    Beijo.

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    1. Quando você gosta,
      não tem aquele que
      desgoste, Teresa.
      Um beijo e muito
      obrigado pelas pa-
      lavras.

      .

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  9. Bom dia!
    Vamos aguardar pra ver onde isso vai dar...

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    1. Dá uma pista e eu te levo
      aonde isso possa chegar.
      Beijos, porque sei que tu
      és de beijo.

      .

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