quarta-feira, 13 de junho de 2018

SORTE NEM TODOS TÊM.

 
    No dia que Mariana achou dinheiro na rua dela eu confesso que chorei. A família fez uma festa por conta de sua sorte, enquanto eu me debulhei em lágrimas por saber que rico não anda aonde o pobre mora para perder dinheiro.  Portanto, só quem precisasse trabalhar o dia inteiro para ganhar algo parecido morava ali. Quem sabe aquele dinheiro não compraria a comida de uma semana inteira ou os remédios de um parente doente? 
 Se eu perdesse 50 reais minha mãe me tirava o couro antes de me matar.  
Isso me lembra a época dos meus nove para dez anos quando encontrei um dinheiro no canto da cozinha lá de casa, mas não peguei. No dia seguinte o dinheiro ainda estava lá, quietinho, do mesmo jeito. No outro dia e no outro também.  Eu achava que só eu sabia dele. Certamente quem o deixou já nem se lembrava do dinheiro. Aí a tentação começou a fazer cócegas, mas o sossego só foi embora no instante em que o diabo, que  me atazanava o dia inteiro,  me induziu a cometer o delito que mudaria o meu jeito de enxergar a vida. Olhei para os lados e como nada me impedia de fazer o que a minha mãe dizia que criança educada não faz, eu o peguei e como quem não quer nada saí porta afora.  Não pensava em gastá-lo, pelo menos naquele momento,  mas para escondê-lo entre o forro e as telhas no único banheiro que nós e o resto dos moradores tínhamos para usar.  Infelizmente a minha felicidade durou pouco. Bastou que eu me apropriasse do bem alheio para mamãe, com uma ripa de madeira  e aos berros, me acordar e as minhas irmãs para que déssemos conta do dinheiro que ela separava, todos os dias, para papai ir trabalhar. –  Por isso o dinheiro parecia o mesmo. E como ninguém confessava, mamãe pegou minha irmã pelo braço para espancá-la, mas antes que a pancadaria começasse eu me entreguei.  Mamãe estava pendurada na minha orelha no momento em que indiquei o lugar onde o tinha escondido.  Nessas horas mamãe batia em todos os filhos para que um não risse do outro e quem teve o azar de ser o primeiro foi minha irmã mais velha de 13 anos, que já tinha corpo e cara de mulher, mas que não passava de uma criança. Doeu-me saber que alguém pagaria por um erro que não cometera. 
Subi na tampa do vaso para ter acesso ao esconderijo da minha desgraça.  Naquele dia minha mãe me bateu tanto, mas tanto, que mal conseguia falar, até que, reunindo o resto de suas forças, chamou pelo irmão a quem deu a incumbência de completar o que tinha começado.  E titio –  que vivia às custas do meu pai – me bateu muito.  Mais do que eu pensei que fosse aguentar. No outro dia mal consegui levantar para ir à escola. Portanto, se alguém quiser perder dinheiro que o faça longe do caramelado dos meus olhos para não umedecê-los. Quanto a educar na base da porrada, depende do educando e de seu educador, até porque, meus pais formaram cidadãos batendo na gente e a gente criou cidadãos iguais a eles, mas com bons exemplos e ótimas conversas.

34 comentários:

  1. Bater não resolve nada.
    É degradante.
    Nunca bati nas minhas filhas.
    E, se isso acontecer, devo estar louco.

    Passei por uma situação semelhante.
    No terreno de um amigo nosso que estava cheio de nozes no chão.
    E eu levei para casa para dar à minha mãe.
    E ela obrigou-me a ir lá a casa devolver tudo.
    Quando chegámos ela disse-lhe - "o meu filho roubou-lhe isto".
    A filha dele, já falecida, indignada com a minha mãe, chorava de raiva da minha mãe e com pena de mim.
    Ele, homem muito sensato, muito sábio, recolheu tudo sem palavra.
    Voltei a casa inconsolável.
    Meia-hora depois ela mandou-me chamar.
    Para me entregar uma cesta com nozes, vinho caseiro, vinho doce, uvas secas, tudo preparado por ele.
    E disse-me - "Pedrito, da próxima vez que quiseres alguma coisa, seja o que for, só tens que pedir".
    Não houve pancada, aprendi a lição.
    Aquele abraço!

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    1. Fiz questão de correr à sua
      página para dizer o que penso
      do seu comentário.
      Você é um amigo muito carinhoso.

      Um grande abraço e muito obri-
      gado por ter vindo comentar o
      texto.

      .

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  2. Terminou mais um conto de vida ... do jeito que eu penso!!!
    EDUCAR é uma árdua tarefa e ERRAR é bem humano!
    Gostei de ler ... bj

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    1. Você tem toda razão,
      meu amor. Nada supera
      a palavra no pé da orelha,
      nada. Principalmente quando
      dita com carinho e razão.

      Beijos.

      .

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  3. Muito bom. Adorei ler... Parabéns e obrigada.


    Hoje: - Adormecer na dor das palavras.

    Bjos
    Votos de uma óptima Quarta-Feira.

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    1. Adoro ver você ou o
      Gil no meu quintal.
      Qualquer dia vamos
      fazer uma festa. Vai
      ser ótimo.(risos)

      Beijos.


      .

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  4. Penso na mesma direção,
    mas achar uma nota de vinte reais
    mudou o curso da minha vida.
    Gosto dessas histórias.
    Entretanto sofro ao imaginar
    uma criança apanhando a quatro mãos
    e tanto. Não julgo, só consigo me por no
    lugar do que apanha.
    Mas em fim...
    Ta.
    Bjins
    CatiahoAlc.

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    1. Domingo estarei no Espírito
      Santo, seu Estado. Mais pre-
      cisamente, na sua cidade.
      Vou mandar o endereço para que
      você e o seu marido, de quem
      tanto gosto, vejam o jogo do
      Brasil, comigo.

      Vai ser ótimo. Já comprei as
      cervejas e aquela bebida, sa-
      be?

      Beijos e beijos.

      .

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  5. Obrigada pela visita ao meu blog.
    Gostei muito deste seu relato, que, infelizmente é o di a dia de tantas crianças.
    Concordo com o que diz: devemos educar pelo exemplo.Eu sou contra qualquer tipo de violência.
    Um abraço
    Beatriz

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    1. Obrigado amiga, pelas
      palavras e pela presença.

      Beijos e beijos.

      .

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  6. Sorte e CARÁTER nem todos têm Sílvio Afonso, isso é verdade.
    Gostei mto desse texto e o imaginei até real. Parabéns pra sua mãe e pra seu tio. É também assim, com pancada, k se formavam e formam cidadãos íntegros. Nunca me bateram, pke sempre fui uma menina mto certinha e "paradinha" até em excesso.

    Os tempos mudaram e sua descendência requer palavras, exemplos e alguma tolerância, mas… rédea curta, nunca fez mal a ninguém, tal como um safanãozinho -rs.

    Perdão, que nada! Você estudou Direito? Hum, caso não, você não sabe o que está perdendo -rs.

    Grata por suas palavras em meu blog. Há mto que você sabe distinguir trigo de joio.

    Estarei uns dias OFF. Creio k já lhe tinha dito, mas é apenas pra reforçar.

    Abraços e dias bem felizes.

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    1. Ah, não. Mil vezes, não.
      A gente já ficou sem
      você um tempo, agora chega,
      né, moça?
      Vou rezar para essa mão-
      zinha ficar boa e você não
      precisar se afastar da gente.

      Beijos e beijos. Muitos.


      .

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  7. hello,
    i'm a new follower of your nice blog, can you follow mine on my blog? many thanks!
    https://amoriemeraviglie.blogspot.com/

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    1. Thank you for following
      my blog.
      Kisses and kisses.

      .

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  8. A Declaração Universal dos Direitos da Criança foi proclamada em 1959... Há cerca de 20 anos, conheci
    'um cara' em vias de emigrar para o Canadá que se
    encontrava deveras preocupado, porque se batesse no
    filho ia preso...
    Houve um tempo que era assim e que está muito bem
    documentado neste conto admirável.
    Beijos
    ~~~

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    1. Eu conheci um juiz, da infância
      e juventude, que por diversas ve-
      zes chamou o filho na cinta, quando
      mais novo. Quiz o destino mais tarde,
      que ele assumisse o cargo para o qual
      tanto estudou.

      Obrigado pelo depoimento e por
      se dizer contrária a violência
      caseira.

      Beijos, muitos.

      .

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  9. Pancada não resolve nem educa, só aumenta a raiva e a dor.
    Infelizmente ainda hoje acontece muito.

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    1. Já tinha perdido a conta
      do quanto eu apanhei, mas
      lembro, com certa tranqui-
      lidade, das poucas vezes que
      chorei. Eu era um menino tra-
      lha e a minha mãe, o sergen-
      tão do QG, lá em casa.
      Eu apanhei tanto que a dor
      já não doía, só a da vergonha
      me ardia tanto.

      Beijos e beijos, muitos.


      .

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  10. É complicado...eu tenho duas filhas: a primeira tem hoje 42 anos e a segunda 30 anos. Com p primeira foi difícil e eu acabei batendo nela e não foi uma vez só...um dia eu conversei com ela sobre eu estar muito arrependida e culpa da por ter batido nela, ao que ela respondeu: "mãe, você bateu pouco! Se tivesse desistido de mim e não seria o que sou hoje. É me agradeceu. Claro que eu continuo me sentindo uma besta e não aconselho a ninguém nenhum tipo de violência . A segunda filha foi é é minha grande amiga. Sempre dialogando, ela sempre considerou os meus "não pode" " não deve..." diz que me ama incondicionalmente.

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    1. Sandra, eu digo para os
      amigos mais chegados que
      lá em casa, enquanto o meu
      pai obedecia a minha mãe
      dava porrada, mesmo que o
      campeão de boxe do "Boquei-
      rão", no Rio, naquela época,
      fosse o meu pai.
      -Vai entender, né?

      Beijos, amiga.


      .

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  11. Obrigada pelo comentário :)
    Que boa partilha de história
    https://retromaggie.blogspot.com

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    1. Magda, uma beijoca por
      ter vindo comentar.

      Obrigado e tamojunto.

      .

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  12. É bater não é o caminho para educar, embora, quando criança e até mesmo na adolescência, apanhei muito, pois, sempre fui danada. Ainda bem que não era surra de deixar marcas, só uma raiva e desgosto, depois com um sorriso e um beijo de minha mãe, passava tudo e vinha mais traquinagem e surras de novo rsrsrsrs.
    Beijos afetuosos!

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    1. Lúcia, conseguir um
      depoimento desse é
      caso raro. Vindo de
      você é fácil, difí-
      cil é tê-la sempre co-
      mentando os textos,
      o que eu acho uma pena.

      Te amo. Um beijo e
      bom dia.

      .

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  13. Gostei de ler, parabéns!
    Desejo-lhe um bom e bem sucedido fim de semana!
    Um abraço e obrigado por visitar!

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    1. Ufa, consegui tirar
      você da área de con-
      forto. Fui feliz por ter
      tentado.

      Beijos e obrigado por
      isso.

      .

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  14. Oi Silvio,
    Não estava conseguindo comentar
    Lindo seu conto
    Beijos
    Lua Singular

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    1. Fale mais a respeito
      para eu resolver o
      problema. Não quero
      deixar pessoas queri-
      das como você de bo-
      ca calada. (risos)

      Beijos, Lua e bom dia.

      .

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  15. Meu querido Amigo, até me doeram as pancadas que levou…
    Felizmente há outras formas de educar, mas nessa época era assim mesmo com porrada… Gosto da forma como conta as coisas. Parecem sempre tão reais…
    Um bom fim de semana.
    Um beijo.

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    1. Pois é, Graça querida.
      Antigamente, muitos pais
      batiam por medo de perder
      às rédeas da coisa.

      Beijos, meu anjo.

      .

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  16. Silvio, amei esta história. Verdadeira ou imaginada, tanto faz, gostei, pronto!
    Está tão bem escrita que quase senti a dor da pancada que sua mãe e titio lhe deu. Pobre Silvio Afonso...
    Educar com pancada, nunca! Com palavras, exemplos e amor, sempre!

    (Como já sei porque morriam os cães de D. Alice, não deixo comentário... Mas li. Tudo!)
    Beijo e bom fim-de-semana.

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    1. Uma parte é a cereja, a
      outra parte é o bolo.

      Beijos, Teresa querida.

      .

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  17. Boa noite, Afonso!
    Minha mãe batia nos 3 por arte deles...
    Eu, por muito medo, era quieta e não ousava desobedecer à sargenta. Se bem que tenho um temperamento obediente, por sorte.
    Seja muito feliz e abençoado junto aos seus amados!
    Abraços fraternos de paz e bem

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    1. Dos filhos da minha
      mãe nenhum era santo.
      Por isso o pau que quebrava
      as pernas de Chico, também
      aleijava as de Francisco.


      Beijos, Roselia, querida.


      .

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