quinta-feira, 3 de maio de 2018

THE VOICE KID

    
    Ao completar 15 anos  ingressei na Brigada Paraquedista realizando um sonho de infância. Lá recebemos, eu e 28 recrutas, algumas roupas das mãos de um sargento que nos levaria à companhia onde tomamos banho de mangueira. Era um jato de água tão forte que um cabo e um soldado suavam para dominá-lo. Para evitar que fossemos arremessados uns contra os outros, cada conscrito apoiou-se da maneira que dava. Eu, por exemplo, ajeitei-me de costas, não só para criar base, mas também para evitar certos comentários que poderiam fazer.  Mas não teve jeito. Logo me arrumaram um apelido. Um, não. Vários. Mesmo que eu só tivesse mostrado a bunda não consegui esconder o meu grande segredo.  Grande para mim, mas para eles parecia imenso.
A turma parecia ter esquecido meu nome, pois só me chamavam pelos apelidos pelos quais eu, prontamente atendia na esperança de que não pegasse. Um sargento, no entanto, chamou-me pelo que eu mais detestava e para minha infelicidade o apelido pegou. 
- Kid bambu! Gritou o miserável que nada de importante tinha para me dizer além de me sacanear.  De qualquer forma trocamos palavras sem sentido e cada um seguiu seu caminho. 
Em três meses a companhia já tinha saltado o suficiente para ser brevetada.  Eu, no entanto, não precisei mais de 30 dias para atingir essa meta.  Ninguém constava nas listas de salto mais do que eu e uns três camaradas que não me zoavam. Durante o tempo que fui responsável pelas listas de salto eu lancei menos vezes aqueles que eu não gostava do que eles achavam necessário ou queriam.  Só que eu, não.  Em um mês eu já tinha saltado mais do que qualquer um desejasse, até que, na sargenteação, um superior me perguntou por que os meus colegas faziam ordem unida naquele sol escaldante de abril enquanto eu me refastelava no ar condicionado? 
- Tenente, é que na companhia, só eu mexo com computador e as escalas de saltos são todas feitas por mim.
-  Tudo bem, soldado. Só que eu quero você lá embaixo com os outros.  Ordenou o oficial que saltava duas vezes por semana e jamais ficara de serviço num sábado ou num domingo. Isso mesmo. Saltava duas vezes por semana e tinha os fins de semana livres para fazer o que bem entendesse.  Isso mesmo, tinha. Pensei com os meus botões...
Semanas depois o comandante perguntava por que o tenente estava saltando de quinze em quinze dias e nos finais de semana era visto no quartel?  
- É a escala, comandante. É a escala,  só que não sou eu quem a faz, é o computador.  
Na formatura eu, claro, era o mais novo e também o mais sacaneado.  Quando chamaram o meu nome a turma não perdeu tempo...
-  Kid bambu! Kid bambu! Kid bambu! 
Eu, como já estava acostumado, não dei bola.  Dei um passo à frente para ser brevetado por alguém que se parecia muito com a tia Clarisse, cunhado da minha mãe. 
- Meu Deus, como era bonita aquela mulher... 
Depois fiquei sabendo se tratar da esposa do tenente, aquele que me mandava marchar num sol  escaldante de abril.  O comandante a convidara pela beleza, com permissão do marido, é claro, a  fazer as honras da corporação.
No final da festa recebi abraços de uns, beijos de outros e alguns bilhetinhos marcando encontros.  De toda aquela gente a que mais me impressionou foi uma que além de ter colocado o brevet no meu peito também tinha  letra muito, mas muito interessante.

16 comentários:

  1. E o que é que estava escrito no bilhete??? :)))
    Aquele abraço

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    1. Será que eu lutei tanto
      em troca de nada, gente?
      Se você, Pedrão, me diz
      que não entendeu, o que
      pensarão os pobres mortais
      que por aqui se perdem?

      Um grande abraço, amigo.
      Adoro a sua presença, fa-
      lando sério ou não.

      .

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  2. Respostas
    1. Obrigado, Gil, meu
      amigo. É um grande
      prazer tê-lo na minha
      página. Você e o Pedro
      que são meus amigos na
      classe masculina.

      Abração para os dois.

      .

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  3. O que uma letra bonita não faz. :)

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    1. Talvez fosse pelo
      carinho com que
      desenhou a letra.

      Beijos, Marta.

      .

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  4. Boa tarde, boa historia da vida militar, pelo que li todos gostaram do Kid Bambu, elas ainda mais.
    Bom fim de semana,
    AG

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    1. Olha que ele ainda era um
      menino. Imagina quando o
      moleque crescer...

      Abraço forte.

      .

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  5. Resta saber se o resto era tão interessante como a letra. E acredito que soube, né? A vingança é um prato que se come frio.
    Abraço

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    1. Ai, Elvira. Já é uma
      outra história...

      Beijos, amiga.

      .

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  6. Minha gente! Esse Sílvio, além de muito sábio e esperto é um humorista dos bons, rolando de rir com essa partilha! Amigo, você é o cara!!!!!
    Beijos no coração!

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    1. Lúcia, já te falei. Você
      é que me faz rir e chorar
      ao mesmo tempo, enquanto
      eu só te faço curiosa.
      (risos).

      Beijos.


      .

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  7. São sempre leituras muito agradáveis.
    Há muito que procurava uma boa escrita que não
    fosse poética...
    Ótima semana.
    Beijo amigo.
    ~~~

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  8. Palhaço Poeta, Palhaço Peta,
    estive ausente, mas já
    estou aqui de volta 💃.
    Tudo na vida tem
    suas compensações, não é
    mesmo?!
    Você fez por merecer os benefícios.
    Jà quamto ao apelido eu não
    sei...🤐🤔
    Otima nova semana pra nós, ta.
    Bjins.
    CatiahoAlc.

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    1. Que bom que você voltou.
      Sentia-me sozinho, sabia?
      Beijos a todos.

      .

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