terça-feira, 22 de maio de 2018

CAPIXABA.

       
           Do centro de Vitória eu embarquei à Colatina. Era um desejo antigo conhecer uma das principais cidades do interior do Espírito Santo e a influência que exerce sobre os municípios do leste mineiro.
Ao retornar, uma jovem mulher com o filho ao lado acenava chorosa para o marido que enxugava os olhos, na plataforma. Eram lágrimas doídas da despedida. Com os olhos molhados ajeitou a criança e sentou-se a minha frente, num dos últimos assentos, no corredor. O momento seria de grande ternura se ela não tivesse tomado a atitude que tomou quando, sem querer, esbarrei no seu seio.  Foi quando o busão deixou a rodoviária que eu, ao me apoiar no encosto do banco da frente esbarrei a mão no seu peito. Eu pensei que fosse tomar um baita esporro da dona. Que ela fosse mandar o motorista parar o ônibus e me jogar para fora enquanto me xingasse de tudo o que é nome.  Mas que nada.  Pelo contrário.  Ela sorriu com um lindo sorriso e ainda por cima prendeu minha mão de encontro a poltrona quando me desculpei.  Naquele momento foi que eu tive certeza de que o Diabo existia. Na certeza de não estar sendo  observado eu me  curvei e segurei um dos seus seios, mas desta vez de propósito. Primeiro por cima da blusa, depois através do decote.   Em nenhum momento a mulher que chorou ao se despedir do marido fugiu às minhas investidas. 
Eu sempre achei que pessoas audaciosas vivem cruzando a linha do perigo, por isso voltei a sentar, mas puxei a mão dela para trás, para o meu colo. Cutuquei um gorducho, com jeito de açougueiro, que cochilava junto a janela ao meu lado, e mostrei-lhe com um gesto de cabeça o lugar onde ela estava com a mão.  Depois me levantei e ao seu lado, de pé no corredor,  botei junto a cara dela todas as minhas vergonhas de modo que ela pudesse, com a sua ousadia, desenvolver a sua criatividade. 
 Incrédulo o gordinho não perdia um só movimento.  Enquanto a mulher se arranjava com o que esfregava na cara eu viajava na certeza de que os cafajestes, assim como mulheres inconsequentes, são capazes de coisas que até Deus duvida, mas, com certeza, deixando atrás de si um rastro de tristeza e sofrimento.

18 comentários:

  1. Essas viagens!
    E a criança dormia enquanto
    a "viagem" prosseguia...
    Lembrei da viagem a Maragogipe,
    lembra quanta ação?
    Essas histórias são perfeitas
    para alimentar imaginário da
    gente que é gente.
    Bjins Palhaço Poeta.
    CatiahoAlc.

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    1. Só depois eu vi que
      havia escrito o nome
      da capital com letra
      minúscula. Desculpe,
      capixabas, eu não quis
      ofendê-los.

      Obrigado Cátia, pelo
      alerta. Um beijo.


      .

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  2. Começo pela foto em que está bem charmoso e quanto ao texto ... li e refleti ... há muita safadeza neste mundo e muita lágrima de crocodilo ... :)

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    1. Nem tanto, mestre.
      Nem tanto. (risos)
      Beijos, Gracinha e
      muito obrigado pe-
      lo que disse.

      .

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  3. há transportes que utilizam televisões para entretenimento dos passageiros, mas ele há reality-shows que são terríveis !
    abraço :)

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    1. Às 18h e com o ônibus em
      movimento fica um pouco mais
      difícil, concorda comigo?
      De qualquer maneira, se al-
      guém viu não reclamou.

      Beijos, garota.

      .

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  4. Isso é o que se chama ganhar o jackpot!!! :)))
    Aquele abraço

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    1. 57 milhões de euro é
      muita grana, Pedro.
      Um amplexo, para o
      amigo.


      .

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  5. Que coragem! Tadinho do marido.
    Abraços e tenha uma ótima semana

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    1. Tadinho por quê?
      Só os dois sabem
      o que gostam e o
      que podem gostar.
      Tem casal que faz
      festa quando isso
      acontece com um de-
      les.
      Você, Anajá, não co-
      nhece a cabeça dessa
      gente.

      Beijos e beijos.


      .

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  6. Meu querido amigo, Silvio cabeça de poeta é isso mesmo, por Deus que é apenas uma inspiração, mas, falando de realidade , existem muitas mulheres com um é bobinho; créu!! kkkkkkkkk
    Silvio vc é ótimo nos contos.
    bjabraço!

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    1. Não fala assim que a minha
      vaidade acaba comigo.

      Beijos, Diná. Beijos.


      .

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  7. A narrativa é mais profunda do que parece...
    A inconsequência alimenta-se do rasto de sofrimento.

    Bj

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    1. Profundas as suas
      palavras. Obrigado
      por dirigi-las a mim.

      Beijos.

      .

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  8. Oi Sílvio,
    Você se escrevesse um livro de safadeza ficaria milionário.kkk
    Desculpa a demora, estou doente, começo um tratamento severo semena que vem.
    Beijos
    Lua Singular

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    1. Vou pensar no seu caso,
      mas, que tal a quatro
      mãos?

      Beijos e fique boa logo,
      viu!

      .

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