terça-feira, 29 de maio de 2018

TIA, EU?
(Risos)

      

    Fazia tempo que ia àquela espelunca e não percebera o quanto gentil era o caixa para com os fregueses. Tinha sido de uma delicadeza tão grande com aquele senhor que até achou que fosse seu parente, mas como havia feito o mesmo com u'a moça bonita e depois com uma senhora que tinha idade para ser sua mãe... Ultimamente as pessoas não tem tido tempo para ser gentis com ninguém, mas esse jovem, olha... 
Três dias depois lá estava ele com a mesma cordialidade. Na semana seguinte essa pessoa resolveu passar suas compras por ele só para ver se o tratamento era de acordo com o freguês, até porque, ninguém é cordial o tempo todo.  Mas ele estava enganado. Foi atendido como todo mundo, senão melhor.  Só na hora que recebeu o dinheiro é que, de propósito ou não,  segurou-lhe o dedo, o que o preocupara, de certa maneira. Por que teria feito aquilo se o dinheiro já estava em sua mão e por que ficou me olhando daquele jeito se tenho idade  para ser seu pai? – Resmungou.  Nada ele teria para comprar naquele final de tarde, mas certamente não dormiria se não tirasse aquilo a limpo. Por isso voltou ao mercado, mas, como havia cumprido o horário, já tinha ido embora.  No outro dia, antes de abrir,  ele já estava na porta. Comprou qualquer coisa e seguiu para o caixa que o tratou como sempre e ainda por cima ganhou uma olhada que atravessou sua alma como um punhal.  Talvez se voltasse a segurar-lhe o dedo...  Mas frustou-se. Então resolveu perguntar-lhe se estava tudo bem, ao que respondeu que nada poderia estar melhor com a sua presença. Os dois sorriram.  Ele, entretanto,  só se deu conta que ainda estava com o sorriso nos seus lábios  na porta de casa.  Preocupado decidiu trocar de mercado. Ficou duas semanas sem dar as caras até que achou que podia voltar, mas não deu. Sua mãe, que se recuperava de uma cirurgia, voltara ao hospital e ele queria vê-la. Viajou duas horas e meia e ao sair do carro ouviu chamarem o seu nome. Talvez fosse um parente ou um conhecido que tivesse ido visitar sua mãe, mas não era. Era o caixa que ao vê-lo quis saber o que estava acontecendo.  Os dois foram até a enfermaria de onde voltaram para um café. 
- Estou numa pousada aqui perto.  Amanhã cedo tenho uma entrevista de trabalho e não quero atrasar.  Caso precise de alguma coisa, até de alguém para conversar, por favor, me procure  disse o caixa escrevendo um número num pedaço de papel que ele amassou e jogou no lixo quando se despediram.
– Eu não tenho e nunca tive dúvidas quanto ao que sou, ao que gosto e ao que desejo, e não seria  um cara bonitinho, educado e que, só por me causar arrepios, ia arranjar sarna para mim e não para ele se coçar, mesmo com as unhas grandes como as que eu tenho – soluçou ao lado de sua mãe.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

LEMBREI DE VOCÊ.

   
    Pensei que fosse enfartar quando fiquei sabendo que você ia embora, coisa que eu jamais pensei que pudesse acontecer, mas, infelizmente, eu me enganara. Agora eu fico aqui, pensando na gente, nos seus momentos comigo e nos meus com você. Depois me bate um desânimo que nem ir à rua eu penso. Também não penso em comer e muito menos sair para beber ou falar com qualquer pessoa. Quanto a dormir, em qualquer lugar estava bom, até porque, eu estaria por perto quando chegasse a hora.  Assim eu fiz naquela noite, naquela semana e naquele mês, que foi o tempo que durou a minha agonia.  Acredito que a sua também.  Eu reconheço que peco por ouvir as pessoas para não errar nas minhas decisões e ficar na minha foi o que me aconselhavam porque mulher é assim, mesmo, imprevisível - me disseram. E não fossem os palpites que me deram e eu não teria percebido um par de olhos me procurando como criança  procura bala na festa de Halloween.  Eram olhos lindos como lindas são as manhãs. Introspectivos como os de um tibetano e mais fieis que os do chapim-azul. Era belíssima às vistas de todos e fiel àquilo que se propõe e a Deus.  Minha pressão deveria explodir, com você a minha frente. Deveria estourar todas as minhas artérias, sangrar pelos poros e parar o surdo do meu coração.  Mas nada disso aconteceu.  Naquele momento senti-me calmo como a face tranquila e serene de um lago. Minha pressão, que parecia um motor de barco de prova, transformou-se em remos de barco à vela tal a calmaria que você proporcionou com a sua chegada. Acho que você me sorriu quando seus olhos acharam os meus. Seu corpo parecia responder aos movimentos do meu e foi com um gesto de quem parte sem deixar pista de que volta algum dia, que você olhou para o caminho que seus pés resolveram trilhar. Do jeito que você me deixou eu fiquei e acho que estou, mas na casa onde você estava em todos os cantos, já não resta o que me faça lembrar de você. Só a saudade que o tempo tatuou na minha alma restou de você.  Seria maravilhoso se você não tivesse partido. Seria maravilhoso tê-la em casa nos momentos em que eu, reclamando do patrão e xingando os colegas, pudesse me atirar aos seus pés aonde as queixas, minhas dores e tristezas desapareciam sob o seu olhar bondoso. O que sossega um pouco esse meu coração é a certeza de que você não se foi por cansaço da minha presença, mas para atender aquele que a permitiu passar tanto tempo ao meu lado.  Dois anos e meio foi o tempo do nosso convívio. Você comigo. E eu com você.  Os outros jamais deixaram de serem os outros, enquanto a gente... Eu era um bobo, não nego. Mas um bobo apaixonado pelo irreal, enquanto você, uma realidade apaixonada por um bobo que eu, infelizmente, jamais voltarei a ser.

terça-feira, 22 de maio de 2018

CAPIXABA.

       
           Do centro de Vitória eu embarquei à Colatina. Era um desejo antigo conhecer uma das principais cidades do interior do Espírito Santo e a influência que exerce sobre os municípios do leste mineiro.
Ao retornar, uma jovem mulher com o filho ao lado acenava chorosa para o marido que enxugava os olhos, na plataforma. Eram lágrimas doídas da despedida. Com os olhos molhados ajeitou a criança e sentou-se a minha frente, num dos últimos assentos, no corredor. O momento seria de grande ternura se ela não tivesse tomado a atitude que tomou quando, sem querer, esbarrei no seu seio.  Foi quando o busão deixou a rodoviária que eu, ao me apoiar no encosto do banco da frente esbarrei a mão no seu peito. Eu pensei que fosse tomar um baita esporro da dona. Que ela fosse mandar o motorista parar o ônibus e me jogar para fora enquanto me xingasse de tudo o que é nome.  Mas que nada.  Pelo contrário.  Ela sorriu com um lindo sorriso e ainda por cima prendeu minha mão de encontro a poltrona quando me desculpei.  Naquele momento foi que eu tive certeza de que o Diabo existia. Na certeza de não estar sendo  observado eu me  curvei e segurei um dos seus seios, mas desta vez de propósito. Primeiro por cima da blusa, depois através do decote.   Em nenhum momento a mulher que chorou ao se despedir do marido fugiu às minhas investidas. 
Eu sempre achei que pessoas audaciosas vivem cruzando a linha do perigo, por isso voltei a sentar, mas puxei a mão dela para trás, para o meu colo. Cutuquei um gorducho, com jeito de açougueiro, que cochilava junto a janela ao meu lado, e mostrei-lhe com um gesto de cabeça o lugar onde ela estava com a mão.  Depois me levantei e ao seu lado, de pé no corredor,  botei junto a cara dela todas as minhas vergonhas de modo que ela pudesse, com a sua ousadia, desenvolver a sua criatividade. 
 Incrédulo o gordinho não perdia um só movimento.  Enquanto a mulher se arranjava com o que esfregava na cara eu viajava na certeza de que os cafajestes, assim como mulheres inconsequentes, são capazes de coisas que até Deus duvida, mas, com certeza, deixando atrás de si um rastro de tristeza e sofrimento.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

SONHO DE VALSA.

    
    Seu Justo, um senhor metido a puritano, mas que de puritano não tinha nada, gostava da maneira como o tratavam na padaria, principalmente por parte de Janice, a garota do caixa a quem cantava na maior cara-de-pau.  Talvez, em um desses momentos, a tivesse feito entender que precisava de uma pessoa para cuidar de si e da casa. Por isso Margarida, que era amiga de Janice, começasse a visitá-lo.
 Senhor Justo se arrependeu de não ter dito a Janice, que afora ela, mulher menor de 50 anos, principalmente as bem feitas de corpo e que usam vestidos curtos, não tinha chance na casa dele, até porque, ele sabia o tipo de homem que era.
Em duas oportunidades seu Justo teria descartado a possibilidade dessa pessoa trabalhar em sua casa, mesmo assim não tinha um dia que ela não o procurasse a noite para convencê-lo do contrário. 
Em contrapartida o cinquentão “lutava” para demovê-la da ideia.
– Pois é Margarida. Eu sei que a casa precisa de uma boa limpeza, mas eu não posso pagar o que você merece e mesmo se pudesse talvez eu não devesse já que vivo sozinho.  Você é u'a moça bonita e com predicados que não me deixariam dormir, principalmente  com você aqui, tão perto.  E se digo isso é porque já tive problemas, e não pretendo cruzar essa ponte outra vez – disse sem esconder que mentia.
– Ah, seu Justo, eu sei que o Sr. precisa de uma empregada da mesma forma que eu preciso de um emprego. Esqueça os detalhes que o senhor mencionou e me aceite, vai!  Eu juro que não tiro  o seu sono.  Até pelo contrário. Farei tudo para que seja tranquilo como eu sei que serão os meus se o senhor me empregar – disse com cara de dengo.
   Seu Justo tinha jurado não tocar mais no caso, mas como fazer para se livrar aquele demônio? 
– Oh, bicho desgraçado é mulher! Enquanto uma foge das minhas cantadas outras levantam a minha libido tão alto que parece doer com o estado que fica. Só que o preço para aplacá-la só eu sei quanto custa – resmungou. 
– Não, Margarida. Melhor não. Está na cara que isso não vai dar certo. Eu me conheço, enquanto você...
Margarida não esperou que completasse a frase. Abaixou a cabeça, pegou a bolsa pendurada no encosto da cadeira e já ia saindo quando seu Justo a puxou pelo braço. Margarida rodou nos calcanhares e sentiu o seu corpo encostar-se ao dele.  Um fogo, não se sabe vindo de onde,  cozinhou o juízo de Justo de tal forma que, não resistindo aos impulsos, beijou-a na boca.  Margarida, num gesto ligeiro enlaçou-se ao  pescoço do beijoqueiro e num salto trançou-lhe a cintura com as pernas. Sem desgrudar da moça a leva, como filho de macaco agarrado a mãe e a deita de costas no tampo da mesa.  Não tinha sacado a arma para abater a caça quando a campainha tocou.  Num salto Justo saiu da cama e antes de atendê-la notou que teria perdido a hora se a maldita campainha estivesse desligada. Nada, entretanto, havia do outro lado da porta a não ser um bilhete enfiado por baixo, onde se lia;  Obrigado seu Justo, mas o dono da padaria me chamou para trabalhar com ele. Desculpa a amolação e muito obrigado, de novo. Ass. Margarida.
Seu Antônio era viúvo e diziam as más línguas que antes da morte da esposa o safado levava as mulheres para dentro do estabelecimento onde metia a mão na massa.  Encantadas em vê-lo preparando os sonhos deixavam que lhes queimasse as roscas.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

LOUCA DE PEDRA.

        
     Maria Santa viajou do interior do estado até aquele lugarejo, a quilômetros da capital pernambucana. Infelizmente chegou dois dias após Pedro Barros perder a luta que vencia contra o câncer.  Pedro Barros tinha 20 anos. Difícil foi acreditar que deixasse a mulher viúva, e o filho de 3, tão cedo. Tudo começou aos 17 anos quando Pedro Barros engravidou a namorada Sarah, de 15, como pretexto para se casarem. Com o parto complicado Sarah perdeu a noção das coisas e só 14 dias mais tarde recuperou a normalidade quando a parteira colocou nos seus braços um robusto menino com todos os traços do pai – antes pensava ser uma menina. Pedro Barros acompanhou o sofrimento da mulher que, segundo a parteira, talvez a mãe ou a criança não saísse do parto com vida. Pedro Barros, transtornado, partira em busca de socorro de onde voltou duas semanas depois e conheceu a criança. Foi um milagre – disse à parteira com o filho no colo.
Nesses últimos dois dias, ao levar o filho para brincar na pracinha, Sarah achou que uma mulher, que jamais vira naquelas redondezas, a seguia.  Até pela janela a mulher fora vista bisbilhotando.  Maria Santa tinha 22 anos, era ruiva, altura mediana e muito bonita. A sua aparência e vivacidade lembrava as Bündchens não fosse o aspecto de mulher sofrida e maltrapilha. Certa vez Dona Sebastiana, a parteira que tinha Sarah e o marido como seus filhos, sabendo que a mulher tinha qualquer coisa a ver com eles, decidiu questioná-la.
 – Eu nunca a tinha visto por aqui, mas como estou sabendo que a senhora está seguindo a minha amiga e a seu filho decidi lhe perguntar por quê está fazendo isso? Afinal, quem é a senhora e o que pretende além de tirar o sossego dessas pessoas?
– Ah, eu me chamo Maria. Maria Santa.  Estive internada em um sanatório por três anos de onde fugi para encontrar a pessoa que eu amei loucamente até que roubasse o nosso filho recém-nascido de mim.  Infelizmente, como eu dependia de carona,  cheguei depois que ele tinha morrido. Sofri e sofro muito a ponto de ficar louca, como fiquei, mas estava disposta a esquecer o assunto e até perdoá-lo depois que me falasse o que fez com meu filho  – disse chorando.
– Aonde a senhora conheceu Pedro Barros e o que lhe dá a certeza de que ele roubou um filho que nem a senhora sabe se era dele?
– Bem, os homens nunca têm certeza, mas nós, mães, sabemos quem nos insemina. Com o sumiço dos dois e a quebra do meu resguardo acabei enlouquecendo. Fui internada num sanatório, mas quando descobri o endereço dele eu fugi e foi graças as pessoas generosas que eu estou aqui. Pena que é tarde de mais – disse olhando os pés.
Dona Sebastiana correu à casa de Sarah e a chamou em um canto. Contou-lhe, enfim, um segredo que guardou por 3 longos anos. Tirava, a partir daí, um peso que carregou por tanto tempo na consciência.
– Sua filha era linda, Sarah, mas Deus não quis que vivesse. Pedro Barros ficou desesperado e sem saber o que fazer pegou um trem e sumiu por quinze dias deixando você mais morta do que viva.  Quando voltou entregou-me uma criança dizendo que era sua e dele. Quando perguntei de onde a trouxera ele mentiu e eu, infelizmente, fingi acreditar.  Guardei essa mentira por amor a ele que tinha como meu filho e a você, também, minha querida - disse com lágrimas nos olhos. Você criou um filho que agora é seu, mas também pertence a essa moça que vê em seu filho os traços de Pedro Barros a quem, também, amou, como você. Portanto, se você quiser e se o seu coração permitir, com certeza ela deixará definitivamente a casa de saúde que deve estar virando o mundo atrás de uma louca fujona. Louca, sim, mas por ter perdido um filho, um filho a quem você deu o bonito nome de Jesus.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

HOB CHAMBLER

    Quando Fernando enfartou eu sugeri a Teresa, sua mulher, que o trouxesse para se tratar no Rio e como eu tinha uma casa desocupada a duas quadras da minha prontifiquei-me a ajudá-los. Era justificável Teresa não me considerar amigo da família, até porque, eu a traí com sua irmã que, depois de ouvir as minhas queixas, decidiu me dar o que a minha namorada me negava.
Velhas lembranças – diria o Palhaço poeta. Velhas lembranças.
Eu acreditava que com o passar do tempo ela talvez me perdoasse, mas...
Agora era esquecer o orgulho e cuidar do marido para não perdê-lo.
Ontem, depois da caminhada, decidi por visitá-los.  Acredito não ter sido uma boa hora, não para mim, mas para ela que saiu do banho com uma toalha enrolada na cabeça e um felpudo roupão branco sobre a pele – pelo menos nada eu notei que vestisse por baixo. Coloquei a revista no colo para que ela não visse a protuberância nas minhas calças quando a vi se abaixar na minha frente para sentar. 
– Você não mudou nada – disse-me ela.
Estava na cara que o roupão a trairia. E traiu quando sentou. Abriu-se de cima a baixo e só não mostrou os seios porque os esfregaria na minha cara quando colocasse as xícaras, que trouxe na bandeja, sobre a mesinha. Teresa continuava a mesma mulher gostosa de há sete anos. Aliás, o tempo jamais se atreveria mexer no perfil das mulheres que se cuidam.
– Você não mudou nada – repetiu.
Eu sei que deveria falar sobre o caso do Fernando, mas como, se nem respirar eu podia? Vermelho eu sei que estava, e mais vermelho eu fiquei com a tranquilidade com que deixou a bandeja para cobrir as pernas e os pelos púbicos que o roupão deixou ver. Aí ela, como se nada tivesse acontecido, me entregou o café.
– Pois é, eu estava caminhando quando decidi perguntar se precisavam de algumas coisa.  O Fernando, por exemplo, como está reagindo às fisioterapias?
Teresa sabia que, se eu estava ali, não era só por causa dele, por isso achei que o roupão se abrindo fosse pretexto para testar minha amizade por seu marido. Depois me lembrei dela falando para todo mundo que eu era cafajeste e agora, diante do que parecia estar propensa, poderia, finalmente, provar que estava certa.
Em momento nenhum eu pensei que Fernando não desse mais no couro por conta da doença. Em nenhum instante eu achei que fosse por carência ou por lembrar-se da pegada que nem sabe se eu ainda tenho.  De qualquer maneira comportava-se como um coelhinho frente a arma engatilhada  do caçador.
– Teresa, quem está aí? – Perguntou Fernando lá do quarto com a voz atrapalhada.
– Eu preciso falar com seu marido, em que quarto ele está?
– Eu só não quero que ele saiba que você está aqui comigo. Espere um pouquinho que já volto. – Disse levando uns comprimidos e um pouco d'água lá para dentro.
– Pronto. Não dou cinco minutos e ele estará dormindo como um bebê. Agora venha comigo que vou lhe mostrar uma coisa.
Teresa pegou minha mão e foi me arrastando para um quarto nos fundos da casa onde uma cama com lençol de linho branco salpicado com pétalas de rosa vermelha nos aguardava.
– Meu Deus!  E o cafajeste sou eu...   
Tirei minha mão de dentro das dela e saí em passos largos, quase correndo, para não vomitar na sua frente.
Há um ano Fernando morreu. Eu só não saberia afirmar se em decorrência do enfarto ou pelos motivos que o provocaram.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

MARIAJOÃO

   - Pisou no meu pé por que, cara? "Tá" a fim de arranjar confusão ou alguém "te" mandou me provocar? - disse-lhe na ponta dos pés com os narizes quase se tocando.  O pobre rapaz não queria nada disso, além de um lugar onde pudesse viajar num vagão apertado como aquele. Mas dera azar ao se apertar junto a  Marcelle, uma loirinha que até um ano atrás vivia presa  num corpo que não tinha nada a ver com a sua personalidade. Só depois de muito sofrimento e trabalho conseguiu mostrar aos pais e ao mundo a mulher que havia nele.  Muitas coisas mudaram a partir de então, só o temperamento que não.
Aos cinco anos, Marcelle, já era vista com olhos preconceituosos e jamais soube o que era paz até que resolvesse seus problemas. Com ajuda de um psicólogo e de um amigo, decidiu dar um rumo à sua vida.  Ela e sua mãe sofreram muito quando o pai lhes disse que não faria parte daquela vergonha e a expulsou de casa.
 Marcelle não o perdoou.
Hoje, para seu desespero, o viu na estação pronto para embarcar, mas para evitar confusão, ela não desembarcou. Ficou ali até que o pai saísse do trem. Preferiu perder o compromisso a topar com ele.  Não queria confusão, mas não deu. Não foi possível ficar sem brigar. Não com o pai, mas com quem nada tinha com isso, mesmo pisando seu pé.
- Desculpe.  Eu não quero e muito menos estou atrás de confusão, mas, caso eu quisesse procuraria um cara do meu tamanho e não u'a mocinha pequena e frágil como parece que és. E para provar que te falo a verdade vou trocar de vagão, só para não ficares com raiva de mim - disse com os olhos cravados nos dela. Depois virou-se e espremeu-se por entre os passageiros em direção à saída.
- Meu Deus, nunca um cara tão bonito e educado me olhou e agiu desse jeito - pensou.
Antes que ele saltasse Marcelle o pegou pelo braço.
- É claro que eu o desculpo, mas, por favor, antes de saltar, deixe-me explicar o que está acontecendo. Aí você vai me entender.
No bar que escolheram para conversar os dois se apresentaram. Victor  falou que tinha terminado com a namorada por ter mentido que estava grávida o que lhe dera uma grande dor de cabeça. Depois a firma o despedira, e agora pisava no pé de uma garota brigona.  Enquanto ele falava,  Marcelle selecionava as palavras com as quais contaria sua história. Já Victor, reclamava da sua falta de sorte que andava tendo.
E assim passavam a tarde até que o celular de Marcelle tocou.  Era sua mãe dizendo que o pai sofrera um enfarto e antes de ser operado chamara por ela. Nervosa e sem saber o que fazer contou para Victor que tentou convencê-la a visitá-lo.  
- Eu acho que deves escutar tua mãe, até porque, essa pode ser a última vez que teu pai pede alguma coisa para alguém.  Vá, vá e depois me digas o que ele te falar.
- Tá legal.  Eu vou, mas só se você for comigo...
Quarenta minutos mais tarde chegavam ao Hospital onde o pai de Marcelle fecharia os olhos assim que unisse a mão da filha com a do rapaz e pedisse que o perdoasse. Depois olhou para Victor e pediu que cuidasse dela.  Dado o recado tombou a cabeça e descansou. Uma lágrima surgiu nos olhos de Marcelle para morrer nos lábios de Victor que a beijava.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

THE VOICE KID

    
    Ao completar 15 anos  ingressei na Brigada Paraquedista realizando um sonho de infância. Lá recebemos, eu e 28 recrutas, algumas roupas das mãos de um sargento que nos levaria à companhia onde tomamos banho de mangueira. Era um jato de água tão forte que um cabo e um soldado suavam para dominá-lo. Para evitar que fossemos arremessados uns contra os outros, cada conscrito apoiou-se da maneira que dava. Eu, por exemplo, ajeitei-me de costas, não só para criar base, mas também para evitar certos comentários que poderiam fazer.  Mas não teve jeito. Logo me arrumaram um apelido. Um, não. Vários. Mesmo que eu só tivesse mostrado a bunda não consegui esconder o meu grande segredo.  Grande para mim, mas para eles parecia imenso.
A turma parecia ter esquecido meu nome, pois só me chamavam pelos apelidos pelos quais eu, prontamente atendia na esperança de que não pegasse. Um sargento, no entanto, chamou-me pelo que eu mais detestava e para minha infelicidade o apelido pegou. 
- Kid bambu! Gritou o miserável que nada de importante tinha para me dizer além de me sacanear.  De qualquer forma trocamos palavras sem sentido e cada um seguiu seu caminho. 
Em três meses a companhia já tinha saltado o suficiente para ser brevetada.  Eu, no entanto, não precisei mais de 30 dias para atingir essa meta.  Ninguém constava nas listas de salto mais do que eu e uns três camaradas que não me zoavam. Durante o tempo que fui responsável pelas listas de salto eu lancei menos vezes aqueles que eu não gostava do que eles achavam necessário ou queriam.  Só que eu, não.  Em um mês eu já tinha saltado mais do que qualquer um desejasse, até que, na sargenteação, um superior me perguntou por que os meus colegas faziam ordem unida naquele sol escaldante de abril enquanto eu me refastelava no ar condicionado? 
- Tenente, é que na companhia, só eu mexo com computador e as escalas de saltos são todas feitas por mim.
-  Tudo bem, soldado. Só que eu quero você lá embaixo com os outros.  Ordenou o oficial que saltava duas vezes por semana e jamais ficara de serviço num sábado ou num domingo. Isso mesmo. Saltava duas vezes por semana e tinha os fins de semana livres para fazer o que bem entendesse.  Isso mesmo, tinha. Pensei com os meus botões...
Semanas depois o comandante perguntava por que o tenente estava saltando de quinze em quinze dias e nos finais de semana era visto no quartel?  
- É a escala, comandante. É a escala,  só que não sou eu quem a faz, é o computador.  
Na formatura eu, claro, era o mais novo e também o mais sacaneado.  Quando chamaram o meu nome a turma não perdeu tempo...
-  Kid bambu! Kid bambu! Kid bambu! 
Eu, como já estava acostumado, não dei bola.  Dei um passo à frente para ser brevetado por alguém que se parecia muito com a tia Clarisse, cunhado da minha mãe. 
- Meu Deus, como era bonita aquela mulher... 
Depois fiquei sabendo se tratar da esposa do tenente, aquele que me mandava marchar num sol  escaldante de abril.  O comandante a convidara pela beleza, com permissão do marido, é claro, a  fazer as honras da corporação.
No final da festa recebi abraços de uns, beijos de outros e alguns bilhetinhos marcando encontros.  De toda aquela gente a que mais me impressionou foi uma que além de ter colocado o brevet no meu peito também tinha  letra muito, mas muito interessante.