quinta-feira, 19 de abril de 2018

PUNK NA CABEÇA.

    Não viajei no feriadão, fiquei em casa. Fui o único do prédio que esperou por quem não veio, me deu toco. Não me zanguei, até porque chovia muito no final de semana. Teve um momento que até me arrepiei com um trovão. Parecia que o prédio ia cair. Mal eu me refiz do susto tocaram o interfone, e como o sistema ficava meio esquisito quando chovia achei melhor descer para conferir. 
Na portaria alguém se espremeu entre mim e a porta que eu nem tinha aberto direito e se enfiou num dos elevadores. Apertou o dez e, sem me olhar, começou a futucar as unhas. Era u'a moça alta, ossos malares visíveis, um maxilar que definia claramente o queixo. O rosto era longo, cabelos curtos pintados de azul e vestia casaco cumprido até o coturno que escondia as pernas da calça. Por baixo uma jaqueta preta sobre a blusa da mesma cor. Dois piercings no nariz, três em cada orelha, outros nos cantos da boca e uma bolinha de ouro no meio da língua. Nos dedos, anéis de prata em forma de caveira e os olhos com muita sombra no entorno. Mesmo assim era bonita.
No segundo andar as luzes piscaram. O elevador deu uma sacudida, mas seguiu seu trajeto. As luzes piscaram de novo, mas desta vez o elevador deu um tranco mais forte e parou entre o sexto e o sétimo andar.  Acionamos a campainha do alarme, mas ninguém apareceu para ajudar. O ar condicionado parou e o calor tomou conta da gente. Em cinco minutos a garota começou a suar.  Em dez tirou o casaco e o amarrou na cintura. Assim que o ar deixou de circular e as luzes se apagaram eu comecei a rezar e a estranha perdia os sentidos. Apesar do calor ela estava gelada, talvez porque estivesse nua da cintura para cima não obstante o pequeno sutiã. O elevador começou a tremer, deu um novo tranco e subiu. Apagado, mas subiu.  Foi até o andar que eu tinha marcado. 
 - O que eu faço com essa garota, meu Deus? Deixá-la onde estava eu não tinha coragem.  Levá-la até o décimo eu não tinha também. 
Ainda confuso eu a sacudi e bati no seu rosto, mas nem um sinal ela dava de vida. Arrastei-a para dentro de casa eté minha cama.  Tentei ligar para alguém, mas não tinha sinal. Acendi um toco de vela. Dei palmadinhas no rosto, assoprei seus ouvidos, mas ela não se mexia. Achei que respiração artificial fosse uma boa, por isso fechei a porta para não pensarem besteira e me posicionei sobre ela. Curvei-me até sua boca, mas não tive coragem. Como eu poderia colocar minha boca na de uma outra pessoa sem antes escovar os dentes? Corri ao banheiro e resolvi o problema.  Na volta eu achei que ela tinha mudado de posição.  Tentei contato, mas nada. 
-Será que ela está mesmo apagada ou tá tirando onda com a minha cara?, pensei. Com essa possível certeza reiniciei os trabalhos.  Subi na cama com ela entre os meus joelhos e coloquei minha boca na dela. Beijei-a com sofreguidão. Beijava, mas com a atenção voltada para sua respiração que aos poucos ia aumentando até que ficou igual a do Usain Bolt no final de uma prova. 
-Graças a Deus a garota está viva. Eu sei que estava mal, mas agora deve estar me testando. Deixei seus lábios e desci com a boca pescoço abaixo. Ela resfolegava tal qual locomotiva subindo a serra.  Com muita calma e carinho saquei um dos seios  na intenção de lambê-lo, e o fiz. Livrei-a dos empecilhos que  a sufocavam e a degustei por inteiro. Desci, como um cão bebendo água, até abaixo do umbigo onde escalei o monte de Vênus. O vento não me soprava os aromas do campo, mas também não me desagradava o perfume que me trazia. Desci deslizando a encosta por um lado e voltei a subi-la  por um outro.  Escorreguei pelo meio até que cheguei ao pomar. Que contrassenso,  sucumbi afogado na seiva da vida. 
Além do que eu fiz, nada mais pretendi sem sua participação por mais que o meu corpo exigisse. E para fugir dos demônios corri ao banheiro e tomei uma ducha bem fria. Na volta, advinha qual foi a minha surpresa?  A punk estava de pé ajeitando o cabelo. Já era senhora de suas próprias vontades.  Jogou o casaco no ombro e saiu batendo a porta atrás de si. Nem quis saber o porquê de ter acordado numa cama desconhecida.
-Este fato me dá a certeza de que, nem toda porta que abre é para você entrar. Quem sabe não é para você sair?

24 comentários:

  1. Afinal se calhar só queria mesmo fugir da chuva.
    Havia um maluco em Coimbra que fazia algo semelhante - quando tinha fome ou frio ia para a Urgência do Hospital e fingia que desmaiava.
    Davam-lhe um pijama, comida, ficava ali a dormir um ou dois dias e ia embora.
    Até à próxima vez que tivesse fome ou frio.
    Aquele abraço!

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    1. Tem gente para todos os
      gostos, amigo meu.
      Até eu me agarro a essa
      premissa, pois, geralmente
      eu chego a casa da minha
      mãe na hora do almoço. Isso
      é um fato e não uma coinci-
      dência.

      Abração, Pedro e obrigado
      pelo comentário, sempre
      sério e bonito.

      .

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  2. Bom dia. Parabéns pelo texto. Adorei, como sempre! :))

    Hoje:- O que a alma quer dizer.

    Bjos
    Votos de uma Óptima Quinta-feira

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    1. Errei na dosagem, por
      isso esse texto tão longo.
      Normalmente eu escrevo 30
      linhas nas quais eu amarro
      as ideias que, confesso, nem
      sempre me agradam.

      Um beijo e obrigado por
      ter comentado.

      .

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    1. Não estou duvidando,
      Elvira, mas teria lido
      mesmo, essa bobagem
      minha? (risos).

      Um beijo e obrigado,
      amiga.

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  4. Radical essa publicação!
    Ri um bocado pensando na
    preocupação do personagem
    central de escovar os dentes
    antes do procedimento que
    salvaria a vida da moça.
    💃Jesuisis, você é literariamente criativamwnte genial.
    Bjins
    CatiahoAlc.

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  5. Sílvio ainda bem que não saiu no feriado pois proporcionou uma bela prosa =)
    bj

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    1. Mas eu preferia ter
      saído, amiga. Em qualquer
      lugar e a qualquer tempo
      a vida nos prega uma peça.

      Beijos de chuva.


      .

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  6. Muito bom conto poeta maluco,li atentamente pois sabia de sua arte no prender e fazer a respiração acelerar. Foi bem assim e fechou com chave de contista.
    Um bom fim de semana com paz e sem chuva com energia elétrica,kkk
    Um abração amigo.

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  7. Hola! Pasé a saludarte y entretenerme con tu relato.

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    1. Curto e grosso, mas
      serena como as águas
      do lago e bonita como
      os primeiros raios do
      dia.

      Beijos, moça. Beijos.

      .

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  9. Humor aliado a uma excelente escrita. Muito bom!


    Convidamos a ler o capítulo X do nosso conto escrito a várias mãos "Voar Sem Asas".
    https://contospartilhados.blogspot.pt/2018/04/voar-sem-asas -capitulo-x.html

    Saudações literárias
    Bom fim-de-semana

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    1. Obrigado pelas palavras.
      Mais tarde darei uma passadinha
      lá. Não agora, porque é preciso
      preparar o espírito para o lirismo
      do papo de vocês.

      Beijos e beijos.

      .

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  10. Boa tarde, porque não existe mais feriados assim, certamente que quem ler esta sua bela historia não vai querer sair de casa no feriado.
    Bom fim de semana,
    AG

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    1. Não fala assim, não...
      Sair faz bem para a alma.
      Descansa o corpo e aviva
      a vista.

      Um grande abraço e bom dia.

      .

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  11. A leitura me prendeu, adorei a descrição com detalhes, muito criativo. E abri um largo sorriso imaginando a cena, quando correu para escovar os dentes kkkkk
    Um abraço e bom final de semana!

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    1. Prezo muito este meu hálito
      de bebê. Digo, O personagem
      do texto preza...

      Beijos, Glorinha e obrigado.
      Ah, vê se volta à cozinha ou
      seus pratos esfriam, hein!

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    2. Sua risada acabou
      por me enrubescer.
      Deixaram minhas faces
      escarlate como o pôr
      do sol.

      Beijos.

      .

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  12. Um feriado regado a surpresas e pecado,fizeste um longo, prazeroso e sensual passeio pelos aclives declives da criatura. Vc é ótimo na arte do conto amigo Silvio!
    Bjs no coração!

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