quinta-feira, 26 de abril de 2018

BOLINHAS DE GUDE.

      
    Meu pai era boxeador, nas horas vagas, mas era mamãe quem dava porrada na gente o resto do dia.  Meu pai era um sujeito fora da curva, mas alguém tinha que segurar a turma, principalmente a mim, como ela dizia.  A gente morava  a meio quilômetro do comércio, mas qualquer moleque fazia o percurso em 15 minutos, ida e volta. Eu, no entanto, não conseguia fazer em menos de trinta. Ou será que alguém consegue jogar uma partida de bola de gude, principalmente se estiver ganhando, em menor tempo?  Minha mãe ficava uma arara, mas na distribuição das tarefas ir à rua era responsabilidade minha. No dia em que o tio Dilermando veio nos visitar, mamãe pediu-me que comprasse o pão para o café da tarde, mas não sem antes garantir que se eu levasse meia hora, como fazia, haveria de me ver com ela.  Desci a minha rua à mil por hora, mas...
A padaria dava frente para o que sobrou de um antigo armazém cujo telhado parecia estar desabando.  Mesmo assim Vera Olho de Gato passava a maior parte do tempo lá dentro. Parecia não saber o que era medo.  A moça era escurinha, muito magra e bem mais alta do que eu.  Tinha  35 anos aproximadamente e vivia do que lhe dessem. Segundo diziam, era meio perturbada.  Quando me aproximei Verinha me cercou pra pedir dinheiro.  Eu tinha uma nota de dez reais da mamãe.  Eu disse que tinha o dinheiro, mas não podia dá-lo a ela. Então, como ninguém estava olhando, Verinha levantou o vestido e disse que por cinco reais me deixaria tocar naquilo que me mostrava.  Eu, um moleque de 14 anos via, em loco, não a cores, claro, aquilo que me levaria à loucura quando dela me lembrasse. Sem pensar nas consequências aceitei a proposta.  Era só comprar o pão e pegar o troco, até porque era com ele que eu poderia tocar no que ela havia me mostrado. Assim que saí da padaria Verinha me mandou entrar.  Estava escuro e o cheiro não ajudava muito.  Tentei negociar dizendo que era muito dinheiro para botar a mão no que ela tinha em baixo daquele vestido surrado e fedorento.  Então, para não perder o freguês, suponho, me permitiu fazer com ela o que os casais fazem quando estão sozinhos. E eu fiz. Fiz, mas foi diferente de tudo o que já tinham me falado, inclusive quando cheguei em casa sem o dinheiro, que, se Vera não pegou deve ter caiu no meio dos escombros  e sem o pão que ela, com uma dentada comera a metade.
Mamãe pediu licença ao meu tio e me levou para fora querendo que eu a convencesse que não tinha perdido o dinheiro dela jogando bola de gude.

33 comentários:

  1. Sempre piacevole la lettura dei tuoi variegati articoli
    Un saluto,silvia

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  2. Sabe o que é que me fez lembrar?
    O filme Once Upon a time in America.
    Viu?
    havia uma situação em tudo semelhante.
    Mas não era com pão, era com bolos.
    Aquele abraço

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    1. Vi nada, cara. Sou mais de
      ler. Raras vezes eu vou ao
      cinema ou vejo alguma coisa
      na Netflix, raras vezes...

      Um grande abraço e bom dia.

      .

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  3. Bom dia. Tão bom este conto/texto. Parabéns. Adorei, como sempre. :))


    Hoje:- Eis a fonte que nos alimenta alma

    Bjos
    Votos de uma boa Quinta-Feira

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    1. Bebi água na sua fonte,
      sabia?
      Adorei a musicalidade
      da cascata e o frescor
      que causou em minha alma.

      Um beijão.

      .

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    1. E também moleque desse
      jeito, diria eu...

      Um beijo amiga e, fui
      lá, viu?

      .

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  5. Moleque danado!
    Ficou tão assanhado que
    nem pensou em comprar um
    pão pra pobre e bondosa moça?
    Foto perfeita e título excelentemente associados
    ao contexto.
    Bjins
    CatiahoAlc.

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    1. Pelo visto minha amiga
      não leu o texto. Não tem
      importância e plagiando o
      Palhaço Poeta eu diria; "o
      importante é saber que vo-
      cê veio"
      .

      Um abraço e bom dia, amiga.

      .

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  6. E sua mãe acreditou?😁😁
    Xoxo from Portugal

    marisasclosetblog.com

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    1. Ela jamais acreditaria
      se eu lhe tivesse dito
      a verdade, mas contentou-
      se em me tirar o couro...

      Beijos e obrigado por dis-
      cutir o assunto.

      .

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  7. Existem pais - antigamente era pior - que julgam que educar um filho é dar-lhes tareia. Puro engano de mentalidade.

    * Solidão sentida por uma Ave, cansada. *
    .
    Um dia feliz

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    1. Lá em casa o galo cantava
      pela manhã no telhado, mas
      na cabeça da gente não ti-
      nha hora.
      Qualquer hora era hora.

      Abração.

      .

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  8. Essa Vera era bem fresca. Coitado do moço, mas pelo menos aproveitou bem...
    Bom fim de semana.

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    1. Os dois, né não, Elisabete?
      Os dois aproveitaram bem.
      O tio não. A mãe do moleque
      também, não.

      Beijos.

      .

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  9. Respostas
    1. Coitado do meu tio, ficou
      chupando o dedo.
      Das porradas da mamãe eu já
      estava acostumado.
      (Andreia, eu só não falei
      que torcia para minha mãe
      me mandar comprar pão nova-
      mente. Quanto a Verinha, a
      moradora de rua, ela teria
      sido a minha segunda aventu-
      ra. A primeira não teve a mi-
      nha participação, propriamen-
      te dita, só a da mãe de um co-
      leguinha que, curiosa, brinca-
      va com o que não devia.)
      (risos)

      Beijos

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  10. A mãe deve ter ficado brava, não? E o tio, sem o cafezinho da tarde kkkkk bom final de semana Poeta!

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    1. E se ficou, amiga.
      Até sinto arder as
      costas quando me lem-
      bro.

      Beijos e bom finde.

      .

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  11. Nossa! Silvio vc era mesmo um terror, degustava tudo que lhe vinha pela frente, O tio teve que tomar café sem o pão, e tu levou a melhor com a olho de gato...Imagino o pau cantando no teu lombo e vc lembrando daquele cenário...
    Feliz findi querido!
    Bjux!

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    1. Diná, você tira cada
      uma dessa sua linda
      cabecinha, hien!
      Só rindo, mesmo.

      Beijos.

      .

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  12. Olá Silvio, voltei para ler seus textos malandrecos.
    Diga-me, é verdade ou ficção o seu encontro com a escurinha Verinha?
    Sabia que bola de gude aqui se chama "berlinde"?
    Que bem você escreve. Vou voltar para ler tudo o que perdi...
    Beijo.

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    1. Teresa, no conto tem muita
      verdade, mas não nego que
      lá eu tenha colocado um pouco
      das minhas fantasias.
      Quem sabe se ao invés do meu tio
      não fosse um primo que lá estives-
      se? E a pretinha, quem pode garan-
      tir que Vera fosse o seu nome?
      Esperto ter atendido com essas
      verdades a sua, gostosa, curio-
      sidade.

      Beijos, meu anjo. Beijos.

      .

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  13. Muito precoce e sem proteção...
    Calculo que foi a primeira vez...
    bem atrapalhada! Haja curiosidade|
    São factos marcantes na vida de meninos
    que adoram jogar berlinde...
    Ótimo domingo. Bj
    ~~~~~~~~~

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    1. Quando mamãe me mandava ir
      à rua eu levava duas ber-
      lindes escondidas no bolso.
      Duvido que voltasse sem tê-
      lo enchido com as tais boli-
      nhas. Duvido.
      Mamãe falava à beça, mas o mal
      já estava feito. Fazer o quê,
      não é mesmo?

      Beijos.

      .

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  14. E o tio ficou sem o lanche ;)

    Bom domingo!

    beijos

    https://ludantasmusica.blogspot.com.br

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    1. Pois, foi, Lu,
      querida.

      Não fala que eu morro
      de pena do tio.

      Beijos e beijos.

      .

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  15. Eu escrevi o comentário... não devo ter publicado...

    Há, de facto, curiosidades juvenis poderosas...
    de atração irresistível...

    Abraço, Silvio
    ~~~~

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    1. É assim, Majo, que eu
      também vejo a vida do
      jovem que fui, e você
      é.

      Beijos, meu anjo.

      .

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  16. Meu Deus! Estou abismada
    De pena morrendo
    Pela dolorida lapada
    Que você acabou recebendo!!
    Beijos carinhosos!

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    1. Talvez o prazer não
      me tenha deixado doer
      as costas, Lúcia, que-
      rida.
      O preço foi justo.

      Beijos.

      .

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