sexta-feira, 30 de março de 2018

A VINGANÇA DA COR.

   
      Minha pele é negra, minha alma é negra e o país de onde fui arrancado também é negro. Fora isso, só os meus dias e o  meu futuro não têm cor.  Quando chegaram ninguém me perguntou se eu gostava disso ou daquilo, não me disseram o que fariam do meu passado, da minha história. Não perguntaram se eu tinha sonhos e desejos porque, se direito a fala eu tivesse, diria; não sei.  Não sei, porque também não me perguntaram.  E se não perguntaram foi porque já sabiam a resposta. O que acham que eu responderia se me perguntassem se quero deixar minha terra, minha pátria, minha gente, em detrimento de um mundo de boca grande e ouvidos tapados. Um lugar onde se usa o açoite em lugar de bom senso? Quem disse que eu desejava ir mar afora sem pressa ou tempo de chegar? Ninguém.  Ninguém me perguntou coisa alguma, nem mesmo se eu tinha dinheiro para um lanche, para uma casa onde guardasse o nada que a vida me reservava.  Nada, nada me deram ou me ofereceram em troca da vergonha que senti quando, pela primeira vez, lenharam meu corpo, humilharam a minha cor.  Quem sabe não eram os trapos que vestiam o escravo que me tornaram o que havia de puro em seus corações? Por isso, repito, nem as madames e suas filhas esfregando as pernas brancas como algodão em minha cara eu as possuí por prazer. Fi-lo para não apanhar. Fi-lo na certeza que pretendiam trair seus maridos  com o que havia de mais torpe e vulgar nessa terra maldita; o negro.   Por mais que a mim causassem dor, por mais que privassem de mim a liberdade e que tirassem o repouso que corrigiria minha espinha, não terão como seu o que tenho de grande, grosso e viril, no meio das minhas pernas, e, querendo ou não, ele é livre. Negro sim, porém, livre.  Livre para dar às mulheres dos meus carcereiros o prazer que lhes negam. E negam porque o roubam de entre as coxas das negras da gente.  Ninguém, nem as esposas brancas e as filhas de bochechas rosadas que lambem com seus olhos a virilidade que tenho, me alforriam para ir ao cinema,  à praia ou caminhar pelo parque nas tardes quentes de domingo. Os senhores para quem garimpei as riquezas me olham como se vissem excremento de gado, ao passo que na senzala lambem de cabo a rabo nossas irmãs, mulheres e filhas.  Pode até ser fraqueza da minha parte, mas não guardo rancor de quem açoitou minha carne, engravidou moças da minha cor e depois assassinaram seus filhos bastardos, porque nós, os negros, continuaremos dando às suas esposas o direito de gemer, de gritar e até de chorar, com um açoite grande como um braço, duro como um punho e preto como a noite vomitando dentro de si.  

terça-feira, 27 de março de 2018

IMORAL, MAS LEGAL

   -Cara, tu não vais acreditar, mas ontem Doralice acabou comigo. Oh, mulher fogosa, véio! Quando eu achava que já tinha acabado, lá vinha ela por cima e começava tudo de novo. E não foi só uma vez, não.  Essa semana a gente transou quase todos os dias.  Acho que a gata gamou e o pior é que eu também me enrabichei, e se não for fogo de palha, juro que me caso com essa maluca.
- Se você diz isso é porque já se apaixonou.  Infelizmente porque todos com quem ela saiu não gostaram. Disseram que era fria e que ficava olhando o teto enquanto suavam encima dela. Comigo aconteceu a mesma coisa, e só pra você ter uma ideia, nem Paulinho boca de sapato gostou de sair com a garota e olha que qualquer rabo de saia é princesa pro cara. Só você elogiou. Portanto, vai fundo que a rapaziada vai se amarrar de montão quando souber da parada. Mas olha aqui, você não vai proibir a garota de participar dos chopes nos finais de semana, vai? Porque seria uma baita sacanagem privar os amigos da companhia dela.
   Doralice era do tipo despachado, daquele que não corre da raia se o grupo aprontasse e até chegava junto na hora da conta.  Durante a semana os amigos sofriam com sua seriedade, mas nas sextas, principalmente depois das vodkas com energético, ninguém mais a segurava.  Tião, no entanto, estava de quatro por ela. Das gatas  com quem tinha transado só Doralice mostrou  o garanhão que nem ele sabia que era.  
- Desculpa gente, mas em breve vou brindá-los com a minha ausência...
- Mas, como assim, cara? Vai nos deixar, por quê?
- É que eu estou caidinho por uma gatinha e vou me casar com ela.
- Um brinde ao futuro noivo, gente! Gritou Marcos, um negro gordinho que saiu com a dita cuja e contou pra cidade inteira. Por isso ela o odiava. 
  Doralice era uma garota fantástica. Quando estava de cara limpa era cheia de não me toque, mas depois de beber o que gostava, sai de baixo.   
  Certa vez  um dos rapazes, sabendo que já tinha tomado suas "doses de coragem", a chamou para um papo.  Doralice o seguiu. No local os rapazes e a irmã do Paulinho boca de sapato a esperavam com más intenções. 
  Moral da história; Doralice transou com todo mundo, inclusive com a mocinha, sem que ninguém reclamasse.
 Agora, depois da decisão de Tião, a coisa muda de figura. Ou seja, se ele se casar com Doralice certamente entregarão o grupo à própria sorte. A não ser que decidam o contrário deixando tudo como estava, ou seja;  Tião continuaria articulando o grupo e Dora prestigiando os eventos com a presença, inclusive dividindo a conta como sempre fez. Com isso ninguém mais assediaria a moça, até porque seu marido a blindaria.  Dora, entretanto, continuaria fazendo o que sempre quis e fez, enquanto Tião, é claro, nada deverá reclamar, porque a turma que tinha privilégios com a mulher dele continuará a tê-los, inclusive o próprio marido, desde que parem de falar mal da garota.
Um brinde foi feito aos noivos enquanto Doralice abraçava e beijava os rapazes sem medo e sem vergonha.

sábado, 24 de março de 2018

O AMOR NÃO TEM RAZÃO.

     

    Você tem ideia do que passa na cabeça de um jovem cujos pais torcem por sua felicidade ao invés de estimulá-lo a trilhar o caminho que o levasse à faculdade onde, quem sabe?, esculpiria seu próprio futuro?  Não posso afirmar que aqueles que agem assim sejam mais felizes, mas posso garantir que terão mais segurança e mais tranquilidade nesse oceano revolto de todos os dias. 
Escolhi a manhã de hoje para falar de "felicidade", canção de Marcelo Jeneci,  que o filho de um querido casal, meu amigo, tocou e cantou na casa onde moro. Era a primeira vez que eu a ouvia. O jovem acompanhara os pais, a pedido deles, numa viagem que tinha por objetivo o abraço apertado e choroso que nos demos.
Toda vez que ouço a canção a minha alma estanca, curva-se em duas e chora. Talvez pelo filho que nada pedira além de carinho, atenção e um espaço onde pudesse juntar suas tralhas, distribuir seu sorriso e fazer chorar os mais apaixonados cantando o que faz de melhor ou talvez pelo amor que tenho por eles.  Quanto ao futuro, que espere até que a plateia termine os aplausos, o pano caia e surja uma nova manhã.   
Eu, como admirador e amigo, sei muito bem que não enriqueço a vida de ninguém com as minhas palavras, mas também entendo que não as faço mais pobres. Talvez a faculdade não tornasse a pessoa em questão mais gentil e amiga do que as que eu conheci, mas ninguém pode afirmar que também não o fizesse.  Por isso cante meu amigo. Encha o coração dos seus pais, irmão e amigos com essa alegria que você tem quando lida com as pessoas, quando ri olhando nos olhos delas e principalmente cantando "felicidade", que torço para que seja a trilha sonora da sua vida como é sonho dos seus velhos, ou, para eles, a vida não teria tanto sentido.
                                                   https://youtu.be/s2IAZHAsoLI

quinta-feira, 22 de março de 2018

A PRIMA DA MINHA MÃE.

    
    Quando meus avós vieram morar conosco trouxeram uma moça com quem, tempos depois, meu tio se casaria. Rosa era filha única do irmão do meu avô e só deixava a vida tranquila do interior porque minha mãe prometia ajudá-la no que fosse preciso. Inclusive já tinha para ela algumas roupas, um lugar na mesa de jantar e uma cama  no quarto junto com meus avós.  Pena que o espaço fosse tão pequeno para tanta gente, principalmente no tocante ao banheiro onde muitas vezes sofri esperando na fila.  Certa vez, estando eu apertado, corri à casinha, mas tinha gente.  Bati.
- Quem está aí? Perguntei entrelaçando as pernas para não sujar as calças.
- Sou eu, a Rosa. Um segundo que já estou saindo  - Disse fechando a água. Abriu a porta e correu com uma toalha a cobrir-lhe o corpo. No aperto nem me dei conta da roupa que a prima vestia, ou melhor, que não vestia.  Enquanto me aliviava avistei a calcinha que a prima esquecera na correria. Não me contendo tomei a peça nas mãos, esvaziei os pulmões e aspirei, com toda a força do mundo, o perfume contido nela. Meu Deus, por que eu fiz uma coisa dessas? Talvez vocês não acreditem, mas o cheiro das partes pudendas da prima era forte, mas tão forte que nem pude acreditar que fosse cheiro de virgem. Mas era. Não o cheiro, mas ela. Na noite do "em fim sós", todos saímos para titio "fazer o trabalho de casa". Todos, menos eu. Arranjei um jeito de espioná-los ou, pelo menos, ouvir os gritos da Rosa sendo estraçalhada pelo pitbull que o irmão da minha mãe dizia que era.  Mas que nada. Meu tio me cansou, e acredito que também tenha cansado a mulher com aquele barulho, tipo cachorro bebendo água, sabe?  Como eu era criança não tinha como saber que aquele barulhinho fazia parte da "abertura dos trabalhos". E que trabalho danado que levava tanto tempo para ser executado!  E eu pensando que era só os dois ficar pelado que o meu tio fazia aquilo nela e pronto, mas não...
Talvez fosse por isso que Rosa chorava se contorcendo.  Eu não vi, mas podia imaginar que os gritinhos que dava talvez fossem de frustração por pensar que seria atropelada por um caminhão e no entanto só se ouvia cachorro bebendo água.  Eu, como disse, fiquei cansado de esperar a cama ranger, a Rosa gritar e ele bater na bunda dela como eu lia nas revistas que mamãe rasgava quando encontrava debaixo do meu colchão.  Mas que nada. Titio só pensava em lamber e lamber o que gente, se nada minha prima tinha pra ser lambido? Ah, meu Deus, será que estou falando besteira? Acho que não porque  besteira dessa natureza eu pensava e pensava muito quando criança. Quantas noites eu ficava pensando essas coisas e quantas vezes mamãe gritava para eu  parar de bater a cama na parede porque ela queria dormir, quantas? Naquele tempo eu só pensava besteira, confesso, mas  hoje, me perdoem, mas acho que penso ainda.

segunda-feira, 19 de março de 2018

FAZER O QUÊ?


   Talvez meus artigos pequenos e irrelevantes  frustrem os que torcem pela prisão de Lula e saem sem nada saber.  Eu confesso que também ficaria se a página não fosse minha.  Alguns até me perguntam porque não debato o assunto, tão em moda,  ou falo de horóscopo ou do tempo? Esse tipo de coisa me puxa para baixo, mas ao invés de ficar fulo, acabo mesmo é com vergonha.  Poxa, li todos os jornais,  ouvi o noticiário do rádio e da televisão e agora vocês me dizem para falar de horóscopo? Ah, não sacaneia. Se eu soubesse não teria perdido minhas noites lendo sobre política, direitos sociais e religião para dar vida às minhas histórias.  Seria muito mais simples copiar o que dizem sobre Aires, Escorpião e Touro e publicar no  noticiário como fazem há século, e no entanto me derreto falando de amor. De um amor respeitoso de uma criança pobre por outra que talvez também não tenha o que comer. De um amor não correspondido de um jovem por uma mulher casada ou dos fantasmas que rondam as noites das que sonham com príncipe encantado sem se darem conta de que o príncipe é um homem, e como tal, tem desejos como todos os outros, mas também paga contas no fim do mês o que vem, de certa maneira, acordá-las do sonho que sonham.  E, como diz o velho Palhaço Poeta, nem todas as vaiais são para o palhaço. A maior parte pode ser para quem lhe tenha dado o papel.  Mas, voltando ao assunto,   talvez fosse mais fácil falar de um governo corrupto, do futebol que não vai lá bem das pernas, do Bernardinho e suas medalhas e de natação que, pelo que leio,  retoma no pódio o lugar que merece.  Seria muito mais simples incutir na cabeça das pessoas a esperança de um dia melhor escrevendo sobre essas coisas do que falando de amor para quem nunca chorou com a chegada ou com a despedida de alguém que tocasse o seu coração.  Para o primeiro assunto é necessário que se leia todas as notícas à criação do texto, enquanto para outro, a de se ter vivido ou se estar vivendo uma grande paixão, e mesmo assim é preciso ler muito para que as palavras tenham sentido.

sexta-feira, 16 de março de 2018

"FÉ DE" MAIS...


    João namorava a prima de duas meninas que moravam ao lado de sua casa e que sempre fugia à casa dos tios para ver o garoto que dava saltos de alegria e até se esquecia das pipas por sua causa.
     Um dia João subiu no telhado para desroscar a linha que estava presa nas telhas.  Lá de cima deu para ver que subindo pelo outro lado avistava o quarto inteiro das meninas, mas, e se fosse pego bisbilhotando?  Bem, se ele fosse pego certamente sua mãe o proibiria de ir à rua soltar pipas e sem mostrá-las como venderia as que já tinha feito? A noitinha, como sempre, sua mãe ligou o rádio para ouvir a novela.  Não perdia um capítulo de; "Jerônimo, o herói do sertão", na Rádio Nacional. (Na época, televisão era coisa de rico e nem os vizinhos mais abastados a possuíam).  Agora sim,  existia um álibi para João desaparecer por alguns minutos.  Só precisava subir num dos galhos que dava para o telhado escolhido e depois esperar  a mãe das garotas voltar com elas do culto e pronto. João teria tempo suficiente para vê-las trocar de roupa na hora de dormir e isso seria o que de melhor pode acontecer na vida de quem tem os hormônios à flor da pele. João achava que a casa estava vazia, por isso assustou-se quando viu a luz do quarto das crianças acesa. O moleque, ajeitando-se melhor onde estava,  viu, para sua tristeza e loucura, a namorada que tanto gostava sentada no colo do tio que alisava seu corpo sem que ela nada dissesse. Refeito do susto, se é que alguém se refaz de uma covardia dessas,  João se perguntou quase chorando;  por que deixar o tio fazer isso com ela  se bate na minha mão quando a toco no peitinho por sobre sua roupa?  Aos poucos ia sendo a menina molestada sem que o garoto nada pudesse fazer.  Felizmente as primas chegaram com a mãe no minuto seguinte.  Os dois deixaram o quarto às pressas, e enquanto a namoradinha corria sorrindo  para os braços da tia o homem perguntava nervoso o por quê da demora. 
 - Ora, marido. Você sabe como é o pastor. Sempre fazendo questão de cumprimentar cada fiel por mais humilde que seja e não seria eu quem ia deixá-lo com a mão estendida - disse a mulher orgulhosa.
  Sr Hermes era um desses cristãos que dormiam abraçado a bíblia. Não permitia que as filhas saíssem sem ele ou  sua mulher.
- O mundo está cheio de gente ruim - dizia apontando o dedo para elas.
Dona Elza tinha um orgulho danado do homem que tinha por marido, pelo respeito que demonstrava e pela fé nas coisas de Deus. Enfim, Seu Hermes era um exemplo de cristão e de cidadão, como dizia D. Elza, toda orgulhosa.

terça-feira, 13 de março de 2018

FÉRIAS NA CASA DO VOVÔ.

 
   Hoje me levantei lembrando as férias de verão que eu passava na casa do meu avô nos idos tempos de menino.  Havia na propriedade uma boa cachoeira onde meus primos se divertiam nos domingos e feriados. Enquanto os meninos ajudavam os pais na lavoura as filhas se esbaldavam naquelas corredeiras. E o faziam às escondidas.  Minha avó sabia, mas como todos  trabalhavam desde pequenos, ninguém tinha tempo para bisbilhotar a filha dos outros. Certa noite eu a ouvi falar sobre o procedimentos das meninas. Disse que faziam coisas feias entre elas na represa, mas eu acho que vovô não ouviu ou não teria virado para o outro lado da cama. Ouvindo aquilo eu, de orelha em pé, quer dizer, também com as orelhas de pé, não dormi mais.  Pela manhã, bem cedo, arranjei um jeito de me esconder perto da cachoeiro onde as mocinhas, peladas, como vovó dizia, iam se banhar.  Minha avó não mencionou esses detalhes ou meu avô interditaria o local das brincadeiras. As meninas tinham idade pouca coisa a mais além da minha, mas o suficiente para me deixarem louco, como já estava.  Escolhi um lugar de onde pudesse vê-las sem despertar atenção e foi certa disso que a filha de um colono se deixou beijar na boca e em cada um dos seios. Umas riam de nervoso enquanto outras se acariciavam cheias de desejo e de tesão. Sobre uma pedra a moreninha, também nua, se tocava ao passo que eu me acabava com a febre do rato. (Moleque da minha idade levava muito tempo vendo revista proibidas no banheiro de onde as figuras pareciam saltar do papel pra cima da gente).  Mas ali, pelo menos, era ao vivo e muito próximo do meu nariz.  Não tinha como duvidar do que viam meus olhos por isso a febre do rato... 
As férias de julho, para que se tenha uma ideia, já não tinham a mesma graça. O lugar ficava muito frio nessa época e por lá, com certeza, as meninas não davam as caras.  Entremente, bastava o verão pintar no calendário que as pernas eram raspadas e os fios mais insinuantes aparados para que o sol as lambesse. 
Meu Deus, que saudade eu tinha dos meus avós!  Será que eu os amava tanto assim ou seriam os meus hormônios?   
Todos os anos eu crescia e envelhecia um pouco mais enquanto as garotas, certamente, ficavam mais ousadas e mais bonitas. Talvez hoje já tenham se casado e até tenham filhos. Pode ser também que as filhas frequentem as águas onde suas mães se divertiam e nas férias a febre do rato tentava me matar.  Minha mãe, entretanto, ingrata e sem noção,  tanto fez que os velhos vieram morar conosco no Rio.  Da fazenda não tive mais notícias desde quando vovô me pegou olhando as garotas no momento em que minhas mãos batiam como se morressem de frio e talvez nem ele do fato se lembre mais.

sábado, 10 de março de 2018

PAU PRA TODA OBRA.

   
    Por que cochichavam olhando para ele e por que escondiam o sorriso se o escárnio vinha de todos? Por que os garotos o odiavam se nada fizera para merecer seu repúdio?  E as garotas, o que havia de estranho nele para tamanha gozação? E assim foi o primeiro período na faculdade.  No trabalho em grupo ninguém o escolhia senão os professores  que mesmo não querendo se envolver no caso o mandavam completar um grupo aqui e outro ali sem demais explicações. Opiniões todos tinham para discutir, enquanto às dele ninguém ligava.  Todos os grupos sem a sua participação tiravam notas superiores aos que ele fizesse parte.   Na primeira semana do segundo período um dos alunos pisou no pé dele e olhando em sua cara perguntou se não ia pedir desculpas. O jovem se levantou, olhou dentro dos olhos do encrenqueiro e já se desculpava quando uma das alunas cutucou o ombro do valentão e falou-lhe alto para não ter que repetir; - você teve sorte do cara não aceitar suas provocações porque ontem - disse  olhando nos seus olhos - esse sujeito que você acaba de provocar, bateu em cinco marmanjos e olha que para bater da maneira que ele surrou os caras ele deve ser graduado em algum tipo de arte marcial ou não teria tomado partido em uma briga que nem era dele.  Portanto, meu caro. Trate de ficar distante desse sujeito ou vai acabar num hospital.  Isso se ele não te matar - concluiu.  O jovem seguia para o fundo da sala quando viu que o olhavam, mas desta vez sem o sorriso debochado de antes.  As garotas voltaram a conversar e os garotos, é claro, as acompanhavam no disse me disse, mas nenhum deles parecia falar ninguém.
 Na saída a garota, que nenhum dos meninos dava bola, perguntou se tinha sido ele que bateu nos agressores do seu primo. - Eu nem sabia que ele tinha prima e se o fiz não foi para defendê-lo,  mas para dar uma lição nos covardes que para se mostrar pras garotas faziam tal covardia. Quando vi o que estavam fazendo meti a porrada em todos mundo.  Tive sorte de nocauteando o mais fortão. O resto saiu correndo, cada um com um com o seu roxo no olho.  Em agradecimento a garota, na ponta do pé, o beijou na face.
  No outro dia o grupo que tirou e melhor nota foi elogiado, assim como o vencedor no individual que, antes de ter seu nome citado, a líder do grupo "chegou na professora" e falou-lhe qualquer coisa que a fez pedir à turma que e pusesse de pé e aplaudisse aquele que, segundo ela, era o exemplo da sala, quiçá do colégio e dos brasileiros.  Enquanto falava caminhava a docente em direção ao jovem que, percebendo que era dele que ela falava, não sabia onde esconder a cara. A professora elogiou sua nota e por ter defendido um garoto contra arruaceiros e também por não brigar dentro da sala.
O jovem ficou sem ação no momento. No dia seguinte todos o cumprimentaram, até o gordinho veio falar com ele, mas fazendo questão de dizer que não era pela história que a colega contara e sim para melhor união da turma.  
O rapaz deu um leve sorriso, como os mocinhos do cinema fazem diante do bandido e apertou a mão do garoto antes de adentrar à sala.
Aqui entre nós; se a líder do grupo não falasse à professora sobre o rapaz a vida dele, ali, continuaria um inferno.  Por isso foi procurá-la. No fim da conversa a mocinha pedindo desculpas fez a pergunta que a sala inteira queria fazer - é verdade o que dizem a seu respeito? - Depende, respondeu o rapaz.  O que é que dizem a meu respeito que só eu não estou sabendo?  - Olha, disse-lhe ela. Falam por aí que você tem qualquer coisa fora do normal no tocante a masculinidade.  - Que tipo de coisa seria isso, meu Deus? Será que tem a ver com o número 45 do sapato que calço? - É isso mesmo - respondeu ela sem esconder o sorriso.  É claro que o colega não disse que ela tinha acertado na mosca, mas também não disse que tinha errado. No outro dia foi preciso escolher com qual das colegas gostaria de sair naquela noite e, certamente na outra e na outra e nas outras dando a cada uma o direito de ver e de tocar no que escondia  naquele sapato.

terça-feira, 6 de março de 2018

ME CHAME DE ZACARIAS...

   
    Choro de cachorro ou de criança dói fundo no meu coração.  Entretanto, é a sua alegria que enche-me a alma de risos e de novas esperanças.  E foram gritinhos como esses que me levaram à janela de onde avistei duas belas meninas brincando com seu cachorrinho espreitadas pela mãe cuidadora.  A imagem encantava-me de certa maneira que mal reparei no shortinho apertado que a jovem mãezinha vestia. Com receio de ser mal interpretado cerrei as cortinas voltando aos afazeres.  Minutos depois uma das crianças chorou e eu corri para vê-la. A mãe, talvez pensando que eu não a pudesse ver, abaixou-se de costas para mim e sem dobrar os joelhos tentava consolar o rebento.  Meu Deus, que imagem! Talvez aqui não fosse o lugar mais indicado para externar o que a vista me proporcionava e mesmo se fosse, talvez adjetivo nenhum justificasse o que o caramelo dos meus olhos me levaram a sentir e eu juro que se cheguei aquele estado não foi por vontade própria, mas fisiológica. Nem mesmo o calor que fazia lá fora causava tanta maldade quanto aquele que me queimava aqui dentro, e foi com tais pensamentos que deixei de reparar na mãe das crianças sorrindo em minha direção.  Todos os músculos latejavam, mas nem por isso encontraram forças para mover o meu corpo a outro lugar senão prostrá-lo na  cadeira mais perto. A partir daquele momento todos e quaisquer ruídos provocados por uma criança erguiam a tenda do circo e eriçavam os pelos do palhaço. Tudo me levava à excitação.  Meus sentidos estavam ativos, como ligados estavam os meus desejos, mas desta vez, foi Zacarias que os ativava. Ninguém teria tido melhor ideia para colocar num cachorro o sugestivo nome de Zacarias, como as criaturas do lado vizinho o fizeram. E foi na intensão de vê-lo que olhei, mas a vi novamente.  A vi, sim, mas já não deixava as pernas à mostra. Não se curvava para dizer nada a criança e muito menos sorria de volta à janela.  O que ela pretendia na verdade era mostrar-me uma de suas belas riquezas; Zacarias.  Aquele gesto não me dava o direito de ouvir a voz da dona nem que eu tivesse me apaixonado por seu cãozinho desde o primeiro latido. De repente o vazio...
Três dias sem ouvir o miado da gata, o latido do cão e a algazarra das crias e até o sol já não tinha o que dourar do corpo da mãe ausente. Talvez por isso os dias estivessem de cara amarrada.  As noites sem estrelas e a lua não nos mostrava seu quarto, como sempre fazia.
E foi com tamanha tristeza, pensando fechar as cortinas do palco que ela apareceu.  Roupas eu não sei se vestia.  Criança e cachorro fazendo bagunça também não notei que tivesse, mas se ela estava aonde os olhos a alcançavam já era o suficiente para alavancar cada sonho e cada músculo e mesmo que todos estivessem de pé eu continuava sendo o fraco que me tornara. 
No desenvolvimento que essa história possa ter eu nem quero pensar, pois foi assim, buscando ver a criançada que eu a conheci e a Zacarias.  O resto virá como aos poucos tudo foi acontecendo, mas desta vez não virá para ir-se de mim sem que eu saiba o seu nome e o que de mais forte possa existir no seu peito, além do que os botões da blusinha me permitem ver toda vez.

segunda-feira, 5 de março de 2018

PATRÍCIA OU PAT?

     Num só gole eu bebi os elogios e as palavras doces com que alguém, talvez sem pensar nas consequências, me tenha dito num desses dias. Principalmente quando tu, Patrícia, dizias da relação homem e mulher enfatizando o amor entre as famílias. Também me sensibilizou a referência que fazes aos que param para ouvir aqueles que ninguém escuta e com isso entendê-los melhor. Talvez pela magia das palavras que disseste aos que precisam ser ouvidos e pelo engrandecimento das minhas improváveis qualidades, que só tu notas, eu sentisse minha vista embaçar, emocionado.  Não sei se é a idade ou a vazante que meus olhos se tornam quando me fazem um carinho encantando os mais sofridos, como me deixar ver na tua página. Acredito que por se tratar de coisa fina como só as tuas boas e santas palavras o são eu não tenha me lembrado que o espaço da minha garganta tem dimensões de um grão de teff, e beber tuas palavras de uma só vez, como eu fiz, poderia ter provocado, nesse teu amigo, um engasgo irreparável.  Não seria como algumas amigas do meu blog que me caem de pau quando as cito em meus textos. Logo eu que as amo, as respeito e as preservo de comentários indevidos.  Basta, porém, que eu fale qualquer coisa sobre a - possível - fragilidade feminina para que me digam que já não dou conta do que digo. A mulher, na concepção dessas pessoas, é sinônimos de força, perseverança e liderança em qualquer causa ou motivo.  E elas estão certas, até porque,  não disse nada em contrário porque sei que ser frágil não é ser fraca, assim como submissão não é privilégio de homem apaixonado. Tais qualidades não são chancela de super-herói ou de covarde, mas de quem é educado e conhece o potencial que carrega.  Portanto, Patrícia. Acabaste emocionando este teu amigo que tem as cores da lua a tingir-lhe os cabelos e o desejo de ver pessoas bondosas como tu tens sido.  Por isso e por tua amizade dou-te o mais doce de todos os meus beijos.