sexta-feira, 24 de março de 2017

ME MATA OU EU TE MATO, DE CIÚME.

     Quantas vezes eu bebi por tua causa. Quantas outras por ti me embriaguei. Quantas vezes acordei por ti chorando e quantas noites nem dormir eu consegui. Muitas foram as ocasiões que eu jurei acabar contigo. Já quis apertar o teu pescoço e com a boca junto a tua boca dizer o que eu sempre quis, mas se coragem e força eu tivesse, beijar-te era o que me aconteceria. Já quis sangrar-te até a morte por teres me cercado, preso, julgado e condenado a viver o resto dos meus dias sentindo o que por ti me mata a cada dia. Já bebi e não comi. Já acordei sem ter dormido. Já rezei para esquecer-te, mas antes me preocupei com tua gripe. Enfim, força e coragem para acabar com a vida de uma pessoa eu sei que não possuo ou eu teria acabado com a minha como tu estás fazendo.

segunda-feira, 20 de março de 2017

E O SEU SEXO, COMO VAI?


    Eu não sei se você se lembra de como era a sua vida na juventude, mas com certeza há de se lembrar de como usava os cabelos, dos presentes preferidos e do belo corpo sarado e bonito que causava inveja às amigas. Hoje, passado dez anos, tudo ou quase tudo mudou na sua vida, inclusive a cama. Seus desejos, sua ousadia, o desempenho da mulher fogosa e o gozo que arrebatava os mais exigentes já não são os mesmos. É claro que algumas coisas não mudaram, como o seu caráter e a fidelidade para com os outros e para com você mesma. As demais mudam a cada década, e o sexo então, nem se fala. A propósito; como será você daqui a 30 ou 40 anos? Como estará sua libido com relação ao marido ou aos seus namorados?
Quando se tem 20 anos a animação é grande com o tesão fervendo nas veias. As mulheres querendo preliminares enormes sem se importarem com a hora ou o lugar onde possam fazê-las, se durante a noite ou em plena luz do dia, se no capô de um carro, no escritório do namorado, no escurinho do cinema, numa rua ou na praia deserta. Transam na escadaria do prédio onde moram e sem pudor contam às amigas do escritório ou do colégio cada detalhe do que fizeram. Com o tempo essas coisas vão mudando e o que se fazia durante um dia inteiro, hoje se faz em duas horas ou menos, porém de maneira muito melhor. O prazer de uma relação a dois é imensa e nem o arrastar das horas lhes parece que o tempo voa. Foi assim com uma amiga que tinha um namorado e jurava ser ele o cara de sua vida. Ficou três meses com o sujeito. Mais tarde ficou com o amigo dele que frequentava a mesma igreja.
- Ele não foi o primeiro com quem transei, mas tem tudo a ver comigo.
- Introspectiva me dizia. Na última vez em que nos vimos essa moça jurou que tinha encontrado sua verdadeira cara metade.
- Eu e o meu namorado fazemos coisas que eu repudiava nas prostitutas, mas com ele é diferente, maravilhoso, e eu me entrego toda fazendo isso, mesmo achando que não é direito e muito menos coisa de mulher direita - disse baixando os olhos.
O tempo muda o comportamento das pessoas no decorrer da vida. Muitas mudam para melhor. Outras se acovardam na mesmice, mas de certa forma também mudam, porque basta perder o medo do que possam falar ou possam dizer quanto aos múltiplos orgasmos que seu companheiro ou companheira possa lhe dar. Carinhos atrevidos, sussurros ao pé do ouvido, além da janela mal trancada que o vento abre ao faro dos lobos que passam na calçada em busca da fêmea no cio, estado em que você sempre se encontra.

quarta-feira, 15 de março de 2017

BILLY ERA O SEU NOME.

   Enquanto os amigos vestiam jaqueta de couro, calça jeans apertada, botinha sem meia e sempre que possível, levava um violão com eles, o cara a quem presto as minhas homenagens não estava nem aí para os que imitavam os artistas ou quisessem se parecer com James Dean, Elvis Presley e outros astros de sua época.

Billy Eckstine, mulato magro, voz grave e doce, no entanto, apresentava-se com fiel desenvoltura nos palcos do jazz das cidades americanas. Este cantor acabou por virar a cabeça do meu homenageado, não como um mocinho das telas de cinema ou galã na vida real, mas por saber que qualquer astro ou músico adorava dividir o palco com ele, e isto chamou a atenção do jovem a quem me refiro que por sua vez, não negava dublar os artistas do rock nas pequenas rádios do Rio. Billy Eckstine, no entanto, despertou de tal forma a atenção do rapaz que o jovem rapaz acabou trocando o seu nome pelo do jazzista.
Hoje, muitos e muitos anos depois, eu tenho a doce lembrança daquele tempo. Não que eu o tivesse vivido, mas por ter tomado conhecimento da façanha como os adolescentes a atravessaram. Época em que Billy Eckstine cantava para o povo de todo o mundo, inclusive para um jovem loirinho que, inspirado por sua melodia, até seu nome o rapaz foi capaz de trocar.

terça-feira, 7 de março de 2017

CARA DE PALHAÇO.

     Minhas lembranças estão cheias de confete. Na minha cabeça ecoa o bumbo da minha escola enquanto o meu coração cadencia o som da bateria no recuo. Essas coisas me levam a pensar que seria melhor, ao invés de nos darem a quarta-feira de cinzas para descansar, que nos oferecessem o resto da semana porque ninguém se refaz de uma festa daquela magnitude em vinte e poucas horas.  A Bahia saiu na frente acrescentando mais tempo ao carnaval enquanto a gente tenta afogar as mágoas, beijar as bocas que se pretende e paquerar as desinibidas num curto espaço de três dias. Lá, na Bahia, os conterrâneos conseguiram esse milagre, mas querem mais, enquanto em outros estados o povo se ajeita da maneira que pode, num Domingo e numa segunda-feira, e ainda aceita que chamem a terça-feira de gorda, no desmilinguir da festa.
É claro que o país precisa de mão de obra diversificada e de quem a execute com certa maestria ou jamais sairemos desse lamaçal em que nos meteram.  Quanto ao carnaval durar uma semana ou quinze dias não deve ser tão doloroso assim e quem sabe não custe tanto aqueles que vem brincando com o país desde a sua descoberta.  Certos europeus nos escravizaram, roubaram nossas pedras preciosas e as nossas mulatas, mas não nos furtaram o samba sincopado.  Os políticos nos roubaram a esperança, mas não nos levaram o samba de roda e o de enredo. Os estrangeiros nos saqueiam as florestas e delas furtam a biodiversidade, pintam e bordam com a gente, mas ninguém nos faz tanto mal como os que pintam na nossa cara a cara que o palhaço tem e diante de tamanho escalabros concluímos que  de palhaço a gente só tem a risada pelas coisas que fazem com quem não pode se defender.  Portanto, um mês ou dois de carnaval porque ninguém aqui é palhaço. De verdade.

sábado, 4 de março de 2017

SABORES DO CARNAVAL.

 Os foliões iam deixando a Sapucaí onde a portela retumbava os últimos acordes do samba de enredo enquanto a avenida bocejava de sono. Sozinha, segurando  suas próprias sandálias, uma moça, fugitiva de um amor mal resolvido no sertão do agreste, também entendia que naquele exato momento não só o carnaval chegava ao fim, mas a sua esperança de encontrar alguém com quem desabafasse, falasse de sua vida e, quem sabe, até se apaixonasse.   Os tamborins ainda repicavam em seus ouvidos quando alguém, não se sabe de que planeta teria vindo, surgiu em seu caminho. Sambava na ponta dos pés em torno dela como se fora Carlinhos de Jesus, o senhor de todos os carnavais.  Depois de vários giros e muita graça,  "Carlinhos", o rei dos salões, se dobrou sobre um joelho, olhou nos olhos da moça com um enorme sorriso e na mão que ora tinha beijado deixou a flor que trazia presa no chapéu. E ela, sem saber como se comportar diante do distinto cavalheiro, vergou-se de maneira que "Carlinhos" pudesse prender nos seus cabelos a flor que lhe dera. Mal tinha ele arrumado a flor entre o grampo e os curtos fios de cabelo  e o jovem, que não tinha a malandragem que demonstrava, mas tinha o jeito dos grandes dançarinos, tocou-a nos lábios de maneira que a garota esmoreceu.  Viajou na espiral da mais linda fantasia.  Poderia ter achado que havia sido dopada, caso não fosse com o rei dos salões que tudo aconteceu. O surdo batia cadenciando os últimos compassos da escola enquanto o coração brejeiro da graciosa morena que se permitiu enfeitiçar com o trato recebido,  agora sambava no pulsar dos seus orgasmos que, no vazio da apoteose, ali, ao lado do seu conquistador, a cada espasmo se entregou. 
Enfim, como diz o velho Palhaço Poeta, eram os últimos suspiros de um carnaval que agonizava para não morrer.