segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

DESCULPEM, MAS PRECISEI REPETIR O TEXTO.


    Vagabundo era um vira-latas, desses que ficam soltos por aí correndo atrás dos carros sem lugar para morar. Sempre que eu passava o sujeito me encarava e se eu não parasse para falar com ele me seguia até me convencer. Então eu me sentava ao seu lado enquanto Vagabundo se concentrava me olhando e só o rabo chicoteava o chão. Era certo que o jeito  pedia colo, mas ninguém dava atenção a um vira-latas cheio de histórias para contar, mas eu ouvi suas lamúrias, e ele, é claro, acabou ouvindo as minhas. Graças ao amor que despertou em mim eu decidi trocar seu nome. A partir daquele momento Vagabundo se chamaria Válter.  Válter porque "Vagabundo" não é nome que se dá a cachorro que a gente gosta e eu gostava do sujeito. Tudo o que presta e também o que não prestava, confesso, ensinei para ele. Talvez fosse por isso que o cachorro aprendeu falar tão depressa, me garantiram. Quando o levava a sair comigo, nada do que eu fizesse era sem a sua participação. Se por ventura eu comesse alguma coisa a melhor parte era dele. Com certeza era por isso que seu pelo brilhasse ao passo que o meu.... Nem te conto. Válter adorava cachorro quente com molho de tomate, batata palha e maionese. Aliás eu nunca entendi esse cara que não comia cachorro quente sem molho, mas na hora de comer só a salsicha o interessava. Vai entender!
  Na segunda-feira de carnaval e não na quarta-feira de cinzas daquele ano Válter deu um latido estranho, tremeu como se estivesse com frio e morreu. Morreu como se não quisesse me fazer sofrer com sua morte. Nem demonstrar que sofria a pessoa demonstrava, pelo menos nunca o vi jururu pelos cantos e muito menos deixado de fazer festa quando sabia que eu ia levá-lo a sair comigo. Jamais deu pinta de que estivesse sofrendo. 
Como é que um cão tão forte e bonito como aquele podia morrer numa hora dessas, meu Deus? Válter, seu filho da puta, você acabou com o único carnaval que minha mãe me permitiu brincar, sabia? E como se isso não bastasse ainda leva consigo a alegria de quem me contava suas aventuras, seus sonhos e até dos amores, correspondidos ou não, ele me falou. Desculpa, mas até hoje eu não me conformo com a sua partida. Se você tivesse me dado um toque, uma pista, feito com que eu entendesse que alguma coisa não ia bem ou que a morte o estava embrulhando para viagem eu teria tomado alguma providência. Não sei exatamente qual, mas teria feito qualquer coisa, como rezar, jurar que deixaria de roubar dos meninos no jogo de botão, coisa que eu fazia com certa malícia ou nunca mais tomaria banho pelado com os outros moleques no Rio que separa Vigário Geral de Caxias, onde praticamente aprendi a nadar enquanto na margem eu  deixava minhas roupas com você tomando conta. Desde aqueles tempos eu não tenho olhos para nenhum bicho da tua espécie. Não quero saber de cachorro para trocar  nome, para ensinar a falar e principalmente, com quem me abraçar e chora nas horas triste da vida enquanto você, entendendo o meu sofrimento, deixava uma lágrima correr dos olhos dizendo que era minha e não sua, seu mentiroso. Não, nada de cachorro para comer o melhor do meu Hot Dog. Nada de bicho para me impedir de chorar ou chorar comigo. Não quero mais um companheiro que me deixe com cara de retardado falando com quem não entende, segundo os anormais que acham que bicho não fala.
Agora chega, senão eu choro. Esse texto era só um motivo pra dizer que cresci, amadureci e já sinto as pernas  fracas, os cabelos embranquecendo e uma leve curvatura na coluna, mesmo assim  não esqueço o Vagabundo do amigo.

22 comentários:

  1. 🎶É um talento seu Palhaço Poeta,
    Mostrar esse belo texto
    Sempre por uma
    Pespectiva absolutamente
    inédita e dinâmica.👏
    Adorei rever o Válter!
    🙏Grata por + esse compartilhar.
    😘Bjins
    CatiahoAlc.

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    1. Você conheceu Babi, mas se
      tivesse tido o privilégio de conhecer
      Válter....
      Válter foi algo de muito especial na
      vida de um menino de calças curtas
      rasgadas nos joelhos. Válter me
      ensinava coisas que trouxe à vida
      inteira.

      Quem tem ou teve um animal de estimação
      sabe do que estou falando...

      Beijos,


      ]]

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  2. Cuanto aprendemos de las mascotas y cuanto cariño son capaces de dar, amigo tu texto como bien dices es un reclamo a la vida que has vivido y los años te han ido madurando , es ley de vida ..la vida pasa y nos deja sus enseñanzas.
    Feliz lunes , te deseo un buen día .

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    1. Que bonitinho ler o que
      você, minha amiga, escreve.

      Um beijo e bom dia.

      .

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  3. Perdi a minha cadelinha em 2015!
    Durante 17 anos ... a minha vira-latas foi uma companheirona e ainda hoje rola uma lágrima de saudade!!!
    Bj e gostei de ler

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    1. Ah, Gracinha, essas lembranças
      não morrem. Morrem os entes
      queridos, mas a saudade jamais.

      Um beijo, meu anjo. Quem gosta
      de bicho está pronto para gostar
      de gente.


      .

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    1. Babi ainda está aqui, comigo,
      nas minhas lembranças, mas Válter,
      pobre vira latas, partiu faz tempo
      às minhas recordações. Aliás eu
      tinha 12 anos de idade e ele a metade
      disso.

      Um beijo, Pathy.


      .

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  5. Uma história triste mas cheia de ternura. Ficam as lembranças porque essas não morrem nunca.
    Um beijo e desejos de um bom Natal e de um ano novo melhor.

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    1. Antes do natal eu ainda
      quero te mandar um beijo.
      Um beijo numa braçada de
      flores cheirando carinho
      e amor.

      Um beijo, por enquanto.


      .

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  6. Bom dia, que lindo essa homenagem, pois é uma singela e amorosa homenagem que você presta à Válter, reeditando esse texto e o atualizando, expressando para todos nós o quanto ele foi e continua sendo importante para você. Suas lembranças são vivas e expressão do imenso e intenso amor dedicado a ele. Adorei reler o texto!
    Beijos nesse coração saudoso!

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    1. Para de falar ou eu choro...
      Quanta ternura você põe nas
      palavras para citar fatos que
      antes, eram só meus.
      Adorei que tivesse dito o que
      disse. Mas me tocou, fundo.

      Beijos.


      .

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  7. Quando era pequenina, a minha filha Mariana apareceu em casa depois do jardim escola a dizer - "temos que fechar a porta ao Vagabundo senão o Vagabundo foge".
    Tantas teorias, tantos sustos, por causa do Vagabundo.
    Quem seria o Vagabundo?
    Seria alguém que ela tinha visto?
    Até que, passados uns dias, no Toys R' Us, ela aponta para uma prateleira e diz - "olha o Vagabundo".
    Pois, era o cãozinho da Disney :))))
    Aquele abraço, boa semana

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    1. A tua filha tinha mesmo que
      te encantar, meu amigo, ou
      não terias tanta ternura
      para dizer seu nome. Adorei
      o que me contaste.

      Um abração.

      .

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  8. buenos días amigo...Gracias por tu compañía ,perdona mi tardanza y no poder pararme mucho leyendo tus hermosos escritos ...tengo muchos apuntes que entregar a mis alumnos por las fiestas que llegan ...en próximas visitas tendré ese placer hoy en mi comentario te las deseo felices ,,,ya nos veremos ...abrazos

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    1. Você não só é gentil como
      muito carinhosa. Um beijo,
      obrigado e bom final de tarde.

      .

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  9. Una dulce, bella y conmovedora historia.

    Muchas gracias.

    Te deseo una Navidad muy feliz.

    Un abrazo.

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    1. Adoro quando a pessoa
      vem ao meu blog comentar
      os textos.
      Obrigado Amália e um beijo.


      .

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  10. Hermosos relatos ...un abrazo y el deseo de unas felices fiestas Navideñas ...
    abrazos

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    1. Obrigado, Marina. Pra você
      também, minha amiga.

      Beijos.

      .

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  11. Su comentario en mi blog me deja pensativa ¿...nos conocemos?...¡pregunto!
    mis saludos
    Marina

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  12. Historias que llegan al alma ... Gracias por tu huella y visita por aqui me quedo un abrazo desde mi brillo del mar

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