quarta-feira, 14 de junho de 2017

LEMBRA DE MIM?

   
    Vagabundo era um vira-latas, desses que ficam soltos por aí correndo atrás dos carros sem lugar para morar. Sempre que eu passava o sujeito me encarava e se eu não parasse para falar com ele me seguia até me convencer. Então eu me sentava ao seu lado enquanto Vagabundo se concentrava me olhando e só o rabo chicoteava o chão. Era certo que o jeito  pedia colo, mas ninguém dava atenção a um vira-latas cheio de histórias para contar, mas eu ouvi suas lamúrias, e ele, é claro, acabou ouvindo as minhas. Graças ao amor que despertou em mim eu decidi trocar seu nome. A partir daquele momento Vagabundo se chamaria Válter.  Válter porque "Vagabundo" não é nome que se dá a cachorro que a gente gosta e eu gostava do sujeito. Tudo o que presta e também o que não prestava, confesso, ensinei para ele. Talvez fosse por isso que o cachorro aprendeu falar tão depressa, me garantiram. Quando o levava a sair comigo, nada do que eu fizesse era sem a sua participação. Se por ventura eu comesse alguma coisa a melhor parte era dele. Com certeza era por isso que seu pelo brilhasse ao passo que o meu.... Nem te conto. Válter adorava cachorro quente com molho de tomate, batata palha e maionese. Aliás eu nunca entendi esse cara que não comia cachorro quente sem molho, mas na hora de comer só a salsicha o interessava. Vai entender!
  Na segunda-feira de carnaval e não na quarta-feira de cinzas daquele ano Válter deu um latido estranho, tremeu como se estivesse com frio e morreu. Morreu como se não quisesse me fazer sofrer com sua morte. Nem demonstrar que sofria a pessoa demonstrava, pelo menos nunca o vi jururu pelos cantos e muito menos deixado de fazer festa quando sabia que eu ia levá-lo a sair comigo. Jamais deu pinta de que estivesse sofrendo. 
Como é que um cão tão forte e bonito como aquele podia morrer numa hora dessas, meu Deus? Válter, seu filho da puta, você acabou com o único carnaval que minha mãe me permitiu brincar, sabia? E como se isso não bastasse ainda leva consigo a alegria de quem me contava suas aventuras, seus sonhos e até dos amores, correspondidos ou não, ele me falou. Desculpa, mas até hoje eu não me conformo com a sua partida. Se você tivesse me dado um toque, uma pista, feito com que eu entendesse que alguma coisa não ia bem ou que a morte o estava embrulhando para viagem eu teria tomado alguma providência. Não sei exatamente qual, mas teria feito qualquer coisa, como rezar, jurar que deixaria de roubar dos meninos no jogo de botão, coisa que eu fazia com certa malícia ou nunca mais tomaria banho pelado com os outros moleques no Rio que separa Vigário Geral de Caxias, onde praticamente aprendi a nadar enquanto na margem eu  deixava minhas roupas com você tomando conta. Desde aqueles tempos eu não tenho olhos para nenhum bicho da tua espécie. Não quero saber de cachorro para trocar  nome, para ensinar a falar e principalmente, com quem me abraçar e chora nas horas triste da vida enquanto você, entendendo o meu sofrimento, deixava uma lágrima correr dos olhos dizendo que era minha e não sua, seu mentiroso. Não, nada de cachorro para comer o melhor do meu Hot Dog. Nada de bicho para me impedir de chorar ou chorar comigo. Não quero mais um companheiro que me deixe com cara de retardado falando com quem não entende, segundo os anormais que acham que bicho não fala.
Agora chega, senão eu choro. Esse texto era só um motivo pra dizer que cresci, amadureci e já sinto as pernas  fracas, os cabelos embranquecendo e uma leve curvatura na coluna, mesmo assim  não esqueço o Vagabundo do amigo.

5 comentários:

  1. Oh Silvio, vc me deixou sensibilizada e fui às lágrimas, como poderá vc esquecer quem lhe queria tto bem e alegrava seus dias.Amo esses bichinhos, hj por ex. estou sofrendo, minha gatinha em trabalho de parto, olha pra mim com cara de piedade, eu choro horrores pelo sofrimento dela.

    Tenhauma ótima tarde.
    bjs!

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    1. Emocionantes palavras de
      uma pessoa elegante e
      Bonita.
      Um bjo e obrigado.

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  2. Fiquei a gostar do Valter e até a mim me ficou a fazer falta...
    Uma boa semana.
    Beijos.

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    1. .

      Mais que fofo, gente.
      Graça, te amo.
      Beijos,



      .

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  3. Que história emocionante! Adoro cachorros e gatos. Muitos já criei, tive essa relação de amor intenso por eles e a dor da despedida, que na maioria das vezes, não existe. Eles vão como Válter sem nos dizer nada, sem dar sinal dessa viagem sem volta. Recentemente, uma gatinha foi embora sem dar mostras que iria para sempre, ainda estou de coração machucado. Foram tantas percas que não tenho mais coragem de criar outros animais. Amei essa postagem e o seu espaço, por isso resolvi te seguir. Esteja convidado a visitar o meu e se gostar e quiser me seguir, ficarei muito feliz. Abraços, Lúcia!

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