terça-feira, 20 de junho de 2017

COISA DE CRIANÇA...

   

   Na umidade entre as pernas da mocinha achava que tinha a mão, a boca, o órgão  despretensioso do menino, e tudo graças a generosidade do lençol que permitia aos olhos gulosos do rapazinho, vasculhar os dois mais lindos montes daquela paisagem.  De sua boca, fortuitos lábios de um sonhador em crescimento roubam beijos de gente grande para depois sumir no anonimato de suas remotas lembranças. Foi  diferente, estranho, surpreendente. Foi como um sonho, uma droga, para deixá-la naquele estado.  Um pesadelo talvez, mas quem nos garante que a causa tivesse mais importância do que o efeito nela provocado? Não continuassem os espasmos a contorcer-lhe o corpo tal qual uma serpente à beira da morte se contorce e eu garantiria que os múltiplos espasmos – ou seriam orgasmos?, estariam vibrantes como os sinos em dia de missa.  Sonho ou pesadelo, verdade ou fantasia? Não importa se promessas não são negadas ou quebradas. Se desejos proibidos, pecado capital, incesto de mãe desejosa de  filho amado, é verdade.  Enfim, nada de concreto teria acontecido de maneira que a lembrança não pudesse esquecer, desde que, assim o pretendesse. Eis que,  ao som do alarme de um celular a mocinha salta do leito deixando ao vento um par de pernas nuas e os seios pontiagudos mirando a cara espantada de quem, envergonhado, a desejava, enquanto ela dormia.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

LEMBRA DE MIM?

   
   Sempre que eu ia à rua, Vagabundo me acompanhava. Esse cara não ia com a cara de nenhum dos moleques da redondeza, mas na minha se amarrava de montão, por isso o levei pra morar comigo, mas, daquela data em diante eu o chamaria de Válter, porque "Vagabundo" não é nome que se dá a cachorro nenhum, principalmente ao cachorro que a gente gosta, e eu gostava daquele bicho. Tudo o que presta e também o que não prestava, confesso, ensinei para ele. Por isso Válter era o único cachorro que falava na minha rua - pelo menos era o que me diziam. Quando a gente saía nada que eu fizesse era feito sem sua participação. Se por ventura eu comesse alguma coisa, a melhor parte era dele. Talvez por isso o seu pelo vivia brilhando ao passo que o meu.... Nem te conto. Válter adorava cachorro quente com molho de tomate, batata palha e maionese. Aliás, eu nunca entendi esse cara que amava cachorro quente com molhos afins, mas na hora de comer só a salsicha o interessava. 
  Na segunda-feira de carnaval e não na quarta-feira de cinzas daquele ano Válter bateu as botas, e como todo bom amigo, morreu sem me dizer que sofria. Como um cão tão forte e bonito daquele jeito podia morrer numa hora dessas, meu Deus? Valter, seu filho da puta, você acabou com o único carnaval que minha mãe me deixou brincar, sabia? E não contente, ainda levou com você a alegria de quem me falava de suas aventuras, dos seus sonhos e até dos amores não correspondido que teve você me falou. Desculpa, mas até a data de hoje eu não me conformei com a sua partida. Se você tivesse me dado um toque, uma pista, feito com que eu entendesse que alguma coisa não ia bem ou que a morte o estava embalando para viagem e eu teria tomado as minhas providências. Não sei exatamente o quê, mas faria qualquer coisa, como rezar, jurar que deixaria de roubar dos meninos no jogo de botão, coisa que eu fazia com destreza ou nunca mais tomar banho pelado no Rio que separa Vigário Geral de Caxias, onde praticamente aprendi a nadar enquanto na margem onde eu deixava a minha roupa você ficava torcendo para eu não me afogar, lembra? Pois é, e você me faz aquela sacanagem. Desde aquele tempo que eu não tenho olhos para nenhum bicho da tua raça. Não quero saber de cachorro para trocar o nome, ensinar a falar e principalmente, com quem me abraçar e chora nas horas triste da vida enquanto você, entendendo como entendia do meu sofrimento, deixava uma lágrima correr dos seus olhos para depois me enganar que não era sua, mas minha. Não, nada de cachorro para comer o melhor do meu cachorro quente. Nada de bicho que não me impeça de chorar para poder chorar comigo. Não quero mais um companheiro que me deixe com cara de retardado falando com quem não entende, segundo os anormais que pensam que bicho não fala.
Agora chega senão eu choro. Esse texto era só um motivo pra dizer que cresci, amadureci e já sinto as rugas me incomodarem, mesmo assim não consigo esquecer do amigo.

sábado, 10 de junho de 2017

DORMINDO COM O INIMIGO...

Sentou-se no leito enquanto ao lado um parceiro, gordo como uma porca, babava
estirado na cama. Mais uma vez a filha de uma família abastada se questionava quanto ao que teria na cabeça para se entregar a qualquer um depois de umas cervejas e, as vezes, um "cigarrinho", que sempre aparece nos barezinhos de final de semana. Se eu acordasse depois desse cara - pensava - com certeza teria encontrado uma nota de 50 paus jogada na mesa para, submissa e devedora da generosidade do gesto, tomar um táxi para casa. Mas se ela se levanta primeiro, como agora, quem paga a corrida é a sua insensatez, também por achar que não teria estômago para encarar uma pessoa que a levou à cama sem que em sã consciência se permitisse. Vestiu-se, tomou no ombro a bolsa, e atrás dos calcanhares bateu a porta. Ganhou a rua, parou um táxi e volto à agonia do silêncio do seu canto para, certamente, refazer no dia seguinte ou no escurecer da mesma tarde o que acaba de lastimar...

sábado, 3 de junho de 2017

SEXTA NO BAR


   
    Da mesa onde Zemané estava se via um belo par de pernas de quem, mesmo com saia curta, não se aquietava conversando com as amigas. Batata frita, meia garrafa de vodca e algumas latas de energético faziam das quatro um bando nada reverente. Uma delas falava tão alto que mal se ouvia a música ao passo que a mais espevitada se deitava na mesa para fazer fofoca de alguém do bar. Zemané se contorcia para não ser pego olhando e assim continuar se fartando com o que mais lhe enchia os olhos. Quando a morena se levantou para ir ao banheiro, duas outras a acompanharam, enquanto à dona das belas pernas restava guardar os lugares na mesa. Zemané se excitava com as pernas da garota que uma hora as tinha cruzadas e em outra as afastava o suficiente para que suas calcinhas, se é que as tinha vestido, ficassem a mostra de quem tivesse, como Zemané, o privilégio de sentar-se ali. Nervoso com o que via Zemané resolveu puxar assunto com ela. Chegou como quem não quer nada para dizer, abaixando-se sobre a mesa, que ela era a garota mais linda que já tinha visto e que a sua presença valorizava o lugar até então frequentado por quem só queria espairecer. Marcinha, acostumada com todo o tipo de assédio, inclusive os mais atrevidos, ficou apaixonada com o respeito e cuidado com que foi abordada. Por isso, depois de dizer o seu nome e saber o dele, perguntou se não queria sentar-se com elas, o que o jovem de pronto aceitou. 
A madrugada tinha chegado quando as meninas chamaram para ir embora. Zemané pagou a conta e decidiu levá-las, cada uma, à casa dela, deixando por último Marcinha com quem se entendeu e que mal se aguentava acordada. Prometendo as amigas que entregaria a menina à família Zemané levou sua caça a um motelzinho na esperança dela dormir um pouco para se recuperar. Zemané não gostava de fazer amor sem a participação da companheira, por isso assistia TV enquanto a moça dormia. Eram 10h da manhã quando o interfone tocou para avisar que o prazo de seis horas já tinha vencido e que ele precisava entregar o quarto ou pagar por uma nova "diária". Nesse momento foi que Zemané percebeu que estava sozinho na cama. Na cama e no resto do quarto, já que a garota por quem nutrira todos os desejos, mas por quem teve o maior respeito, meteu o pé, foi embora. Vazou levando o que ele tinha de valor, inclusive o carro que foi encontrado num shopping daquela cidade. Zemané não fez questão de nada que ela tinha levado, mas achou-se um grande idiota ao esperar que a moça que o encantara com o seu lindo par de pernas, melhorasse para com ele fazer o mais gostoso de todos os amores.