quarta-feira, 10 de maio de 2017

SÓ SE FOR ASSIM...

   Não tenho prazer nenhum em falar que calei aquele que me ofendia. Que esmurrei quem me bater queria e para não colocar em suspeita a minha honra eu paguei uma conta que não fiz.  Não teria prazer algum dizendo ter desonrado algumas mulheres, mesmo que fosse mentira.  Que recebi troco a mais, que ajudei a dar porrada em um moleque que roubava uma velhinha e que eu tinha ensinado ao meu instrutor o que é ser cidadão. No entanto tem coisas que me enchem de orgulho como ser honesto, pagar minhas contas e devolver o que peguei emprestado.  Essas coisas fazem de mim uma pessoa diferente, pois, de certa forma, mesmo sabendo que pagando o que eu devo e devolvendo o que não é meu não passa de obrigação.  Não quero morrer achando que a minha passagem por este jardim foi em vão, por isso pretendo ensinar aos meus netos, caso seus pais tenham se esquecido, que ser direito não é errado e que ser honesto não é desonestidade.   Assim como vou dizer a eles que meu pai morreu sem saber como era ficar sem trabalhar. Sem saber o sentido da palavra cansaço e sem deixar que suas dores, que talvez o meu velho tivesse, tirasse dos seus lábios a doçura do sorriso.  Vou dizer que bondade não é sinônimo de bobeira.  Que evitar uma briga não é prova de covardia e que o amor, só o amor, lapida na rocha o seu nome. Assim, creio eu, todos serão felizes, como, acredito, o meu pai foi, eu sou, e meus filhos talvez também sejam.